Educação superior para a sociedade tecnocientífica: universidadenova na Bahia

21 de junho de 2014
© Fernando Vivas“É urgente a formação em escala massiva de mão de obra de nível universitário”. Crédito: Fernando Vivas

“É urgente a formação em escala massiva de mão de obra de nível universitário”.

Nos próximos anos, a Bahia receberá importantes investimentos estratégicos dos governos federal e estadual: uma via férrea dedicada ao transporte de minérios e grãos (Ferrovia Oeste-Leste), dois portos de exportação, aeroportos internacionais, centros de logística e um conjunto diversificado de parques industriais, principalmente nos setores automotivo, petroquímico, estaleiros e energias renováveis.

Projetos de desenvolvimento regional dessa natureza e outras possibilidades certamente demandarão recursos humanos qualificados para planejamento, implantação, consolidação e, posteriormente, para a manutenção dos empreendimentos e iniciativas decorrentes. Para isso, será imprescindível a formação, urgente e em escala massiva, de mão de obra qualificada em nível universitário, tanto nas áreas acadêmicas quanto em carreiras profissionais e tecnológicas pertinentes. Este conjunto de demandas e oportunidades contrasta com o quadro de deficiências educacionais e baixa cobertura de educação superior ainda observado no estado da Bahia, refletindo um contexto nacional neste aspecto ainda bastante precário.

Não obstante, duas tendências de mudança ampla e profunda podem hoje ser identificadas no cenário do ensino superior do Brasil: expansão com inclusão social. No ano 2000, menos de 3% da população brasileira estava na universidade. Desde então, a taxa de escolarização bruta aumentou rapidamente, principalmente em instituições públicas federais, com um crescimento de mais de 130% entre 2001 e 2013. A primeira onda de expansão, promovida entre 2005 e 2010, resultou em 14 novas universidades e 126 campi de universidades e escolas técnicas federais, em sua maioria localizadas no interior. Em paralelo, houve forte incentivo para combinar essa expansão com ações afirmativas e outras políticas de inclusão social, seja como resultado de iniciativas autônomas por parte das universidades públicas, seja como em função de novas leis, regulamentos e normas. Na Bahia, tais vetores assumiram a forma de cotas étnico-sociais combinadas com interiorização: em 2001, apenas 585 vagas públicas federais foram ofertadas no interior do estado, em contraste com 2010, quando mais de 11 mil vagas federais foram abertas.

O programa de expansão universitária da presidente Dilma também foi planejado para contribuir para o desenvolvimento econômico estratégico. Em três anos, 47 campi universitários e extensões de escolas técnicas foram implementados em cidades escolhidas como polos de desenvolvimento regional. Além disso, quatro universidades estão sendo criadas em territórios ainda pouco atendidos pelo ensino superior público. Como exemplo disso, podemos citar o território baiano, anteriormente desassistido e agora contemplado com duas das novas instituições federais de educação superior.

Uma dessas instituições é a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), localizada na região costeira onde os portugueses desembarcaram pela primeira vez no Brasil, ainda um dos territórios mais desiguais e carentes do Nordeste brasileiro. A concepção do currículo da nova instituição prevê total compatibilidade internacional, com base em ciclos de aprendizagem integrados a uma rede de colégios universitários, destinada a alunos que se formaram em escolas públicas localizadas em pequenas cidades, assentamentos rurais, aldeias indígenas e quilombos. Aproveitando as instalações do sistema público de ensino secundário, os colégios universitários estarão localizados em cidades com mais de 20 mil habitantes e mais de 300 egressos do ensino médio. Cada ponto da rede de colégios da comunidade contará com equipamentos de teleducação conectados a uma rede digital de alta velocidade.

Ilustração: Ana Paula Campos

Ilustração: Ana Paula Campos

No primeiro ciclo, o modelo UFSB de Educação Geral é baseado em cursos de três anos chamados de bacharelados interdisciplinares, compreendendo uma abordagem inovadora que pode ser designada como um neo-quadrivium: línguas modernas (minimamente, português e inglês), processamento de conhecimento instrumental (competências digitais e habilidades conectivas), raciocínio lógico-interpretativo (uso eficiente de estratégias analíticas e retóricas) e cidadania global (consciência eco-histórica). Sua plataforma pedagógica baseia-se em três aspectos: primeiro, uma arquitetura curricular organizada em ciclos, com modularidade progressiva; segundo, um regime letivo quadrimestral para a otimização de equipamentos, instalações, pessoal e recursos financeiros; terceiro, uma combinação de pluralismo educacional e uso intensivo de tecnologias digitais para a educação superior transformadora. O bacharelado interdisciplinar em ciência e tecnologia será oferecido para aqueles que pretendem ser treinados como profissionais, acadêmicos, pesquisadores e desenvolvedores do campo tecnocientífico. Os graduados que desejarem prosseguir para o segundo ciclo, visando a carreiras acadêmicas ou profissionais, especialmente aquelas de base tecnológica, serão selecionados com base em desempenho no primeiro ciclo.

Cursos de segundo ciclo serão ministrados em centros de formação, com currículos inovadores e métodos ativos, equipes de ensino-aprendizagem compartilhado, uso massivo de tecnologias digitais, forte ênfase na tutoria, autoinstrução e foco na prática. Práticas pedagógicas serão estruturadas pelos seguintes formatos: aprendizagem baseada em problemas concretos (ABPC), ajustada ao contexto e objetivos do curso; equipes de aprendizagem ativa, formadas por grupos de dois/três alunos de cada ano, trabalhando em todos os níveis do campo de prática; estratégias compartilhadas de aprendizagem, em que os alunos de cada turma são tutores de seus colegas de coortes menos avançadas; atividades de avaliação orientada pela prática para supervisão, coordenação e validação de conhecimento e tecnologias.

Hoje, no Brasil, a formação de profissões relacionadas com ciência e tecnologia se dá em cursos lineares de graduação. Neste regime, entrando diretamente nos cursos profissionais, estudantes ainda jovens e imaturos são forçados, muito cedo em suas vidas, a tomar decisões cruciais de escolha de carreira. Por um lado, a dura competição para entrar em cursos de maior prestígio social (por exemplo, engenharia), geralmente após cursos preparatórios caros, praticamente torna-os monopólio das classes abastadas, cujos membros tendem a apoiar projetos individualistas de formação profissional. Por outro lado, entre profissionais do campo tecnocientífico, quase não há lugar para a formação geral necessária para uma visão humanista mais ampla da sociedade, da cultura e da economia. Neste contexto, currículos independentes, projetados para exclusividade, tendem a ser menos interdisciplinares e mais especializados, alienando segmentos profissionais uns dos outros, dificultando a formação de profissionais capacitados para eficientemente trabalhar em equipe.

É certo que o desenvolvimento da Bahia terá como base ferrovias, trens e portos para transporte de minérios, parques industriais e centros de distribuição de bens e serviços. Porém, para torná-lo sustentável e socialmente impactante, será preciso engajar e beneficiar preferencialmente a economia local, mediante programas de graduação em engenharia e outras carreiras tecnológicas nos setores de transportes, química, logística, computação, mineração, etc., visando à formação de mão de obra local. Entretanto, para além do desenvolvimento imediato, é preciso também identificar demandas específicas de propostas de formação, relacionadas não somente ao crescimento econômico, mas também ao desenvolvimento social e humano do estado da Bahia. Neste caso, enquadram-se os campos da saúde, do desenvolvimento ambiental sustentável e das economias criativas, nos campos das humanidades e das artes. Logicamente, todas essas perspectivas justificam projetos de formação universitária de base interdisciplinar, com pedagogias abertas, compatíveis com tendências científicas, acadêmicas e tecnológicas mais avançadas na sociedade tecnocientífica, na linha do projeto político-pedagógico da UFSB.

Naomar de Almeida Filho
MD, Ph.D., professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA. Reitor da Universidade Federal do Sul da Bahia.

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