Educar para a integridade em ciência

22 de junho de 2014
“A desonestidade em ciência pode ser enfrentada de duas formas: preventiva e corretiva“. Crédito: Fernando Vivas

“A desonestidade em ciência pode ser enfrentada de duas formas: preventiva e corretiva“. Crédito: Fernando Vivas

Duas diferentes práticas acadêmicas – uma, tradicional, ensinar ciência, e outra, mais recente, ensinar integridade em ciência – foram-me possibilitadas por uma experiência de 45 anos no ensino da genética e da bioética. Primeiro, durante 25 anos, ou seja, de 1968 a 1993, minha experiência didática vinculou-se à disciplina de genética médica, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA). E nos 20 anos seguintes voltou-se à bioética, na mesma instituição e na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

É desde esse já tão longo percurso que vejo o conhecimento em genética construído com vocabulário próprio para descrever fenômenos biológicos, em condições usuais e desviantes, usando terminologia específica para grande número de enzimas, proteínas, doenças e síndromes. Práticas em laboratório e exame clínico de pacientes reforçam o enriquecimento da linguagem e da aprendizagem com termos genético-clínicos.

A aferição de conhecimentos no final do curso de genética médica sugere fortemente que o aluno bem-sucedido está apto a reconhecer e a encaminhar problemas de genética na prática médica. A construção desses saberes ocorreu fundamentalmente no âmbito do ensino da disciplina, uma vez que o mundo (sociedade, cultura) não ensina genética. Sejam quais forem os valores culturais do aluno, a aprendizagem da genética não encontra concorrência em seu universo cognitivo ou em sua percepção moral do mundo.

De outro lado, vejo que o ensino da ética através da disciplina bioética e, em especial, do tema “integridade em ciência”, além de exigir menor esforço do aluno por não possuir uma linguagem com vocabulário específico – talvez a palavra axiograma seja a única novidade vocabular –, dirige a oferta de conhecimentos ao universo moral do aluno, já construído como fruto da cultura na qual se desenvolveu e atua. Em outras palavras, antes de ser aluno da disciplina bioética, ele já o foi do mundo. Diferentemente do que se dá em genética, o mundo ensina ética.

Assim, a aferição de conhecimentos ao final do curso de bioética em nada assegura que o aluno nota dez tenha simplesmente tramitado saberes através da razão, sem qualquer mudança ou aprimoramento de valores morais. Aqui, o professor tenta se aproximar de um universo moral preexistente, modado pela cultura prevalente e respectivos valores. As horas de aulas teóricas e as práticas discursivas de casos de conflitos éticos têm o extraordinário desafio de atingir o axiograma do aluno, ou seja, o conjunto de seus valores morais, para aí semear inovada visão de mundo.

O desafio que persiste é identificar a melhor prática pedagógica para assegurar o sucesso no ensino da ética em ciência, seja da bioética em geral, da ética da pesquisa em seres humanos, da ética da pesquisa em animais ou da integridade científica. A literatura bioética reflete justamente essa preocupação.

Tenho me aventurado pessoalmente em algumas publicações sobre o tema e,não obstante os esforços, persistente éo desejo denão querer acreditar que ética não se ensina e, portanto, denão desistir de ensiná-la, mesmo sentindo a desproporção entre a milenar herança cultural que construiu a sociedade ocidental e as 30 ou 90 horas de aulas que em geral ministramos a cada turma.

Tomemos o Brasil como exemplo: somos herdeiros da cultura hebraico-greco-romana aqui trazida pelos brancos colonizadores, acrescida de contribuições da cultura indígena, através dos verdadeiros donos das terras, e da cultura afro, para aqui trazida sob o ímpeto da exploração escravista. Deste tríplice encontro de etnias moldam-se o povo brasileiro e sua identidade cultural. Pondo em destaque o que interessa à integridade em ciência, reconhecemos que, à semelhança de todo o Ocidente moderno, preservamos impulsos de promoção pessoal gerados pela ganância de lucro e ambição de poder-prestígio.

Estes dois motores de ação se fazem presentes também no mundo da ciência, notoriamente nas últimas décadas, reproduzindo na academia o vale-tudo da competição por sucesso. Neste cenário, a desonestidade em ciência é usada como ferramenta facilitadora de supostos sucessos alcançados pela via do menor esforço. Invenção de dados e de pesquisa que não existem (fabricação), alteração de dados existentes (falsificação), cópias indevidas de outros pesquisadores (plágios),ganhos dissimulados (conflitos de interesse), etc.,são condutas desonestas já identificadas.

Vamos exemplificar apenas com o fato de que em 1981 o governo dos Estados Unidos, o país maior produtor de ciência no mundo, reconheceu que a má conduta em ciência havia se tornado problema de ordem pública. Nos anos seguintes, várias ações foram desenvolvidas pelo governo norte-americano, culminando com a criação do Escritório de Integridade Científica (ORI, na sigla em inglês), órgão governamental destinado a receber denúncias demá prática científica e a investigá-las, divulgá-las e estabelecer as respectivas punições aos cientistas infratores. As conclusões das investigações do ORI são de livre acesso na internet através da publicação mensal da ORI-newsletter.

A partir dessa mesma época, vários países da Europa criaram órgãos com fins de proteger a boa ciência. Não apenas as instituições de ciência e governos, mas também editores de revistas científicas.

No Brasil, a criação do sistema Conep-Ceps (siglas da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa e dos Comitês de Ética em Pesquisa), destinado a preservar a ética na investigação com seres humanos, ocorreu só em 1996 – portanto, 20 anos depois da iniciativa dos Estados Unidos. E a criação de uma comissão de integridade científica, há poucos anos, também se deu em atraso, comparativamente a outros paí­ses produtores de ciência.

Por outro lado, ainda que as ações de governo surgissem com certa lentidão, pesquisadores brasileiros criaram em 1993 a revista Bioética, no Conselho Federal de Medicina – com publicação ininterrupta há 20 anos –, e pouco depois, em 1995, a Sociedade Brasileira de Bioética. Os dois eventos sinalizam que alguns pesquisadores brasileiros mantinham-se relativamente atentos às questões da ética em ciência que emergiam em países mais avançados.

Em 2009, Tavares-Neto e eu revelamos, em estudo publicado na revista da Associação Médica Brasileira, que 50% das “instruções aos autores” de 20 periódicos da área médica, nível A da Capes, exigiam que a pesquisa tivesse sido aprovada por um CEP e 55% exigiam que os conflitos de interesse fossem declarados, sendo que 40% indicavam consulta aos “Requisitos Uniformes para Manuscritos Submetidos a Revistas Científicas”. Todavia, nenhuma das 20 revistas alertava nas “instruções aos autores” sobre questões de fraudes, falsificações e plágios nos artigos a serem submetidos.

À semelhança de uma enfermidade (moral), a desonestidade em ciência pode ser enfrentada de duas formas: preventiva e corretiva. A ação corretiva vem sendo associada a denúncias de fraude, falsificação ou plágio dirigidas a órgãos especialmente criados para este fim e adequadamente capacitados a recebê-las, àsemelhança do ORInorte-americano. A propósito, pesquisa publicada por Fang, Steen e Casadevall em 2012, no peródico Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), demonstrou que o percentual de artigos retratados (cancelados) em publicações do PubMed aumentou dez vezes entre os anos de 1975 e 2012. Estes mesmos autores demonstraram que cientistas desonestos preferencialmente publicam seus trabalhos em revistas de alto fator de impacto, quando a má prática é por fraude. Quando por plágio ou duplicação, as revistas de médio impacto são as preferidas.

Sem negar a importância social da denúncia, verificação e punição, sigo apostando na necessidade de encontrarmos meios eficazes de educar para a boa ciência. Neste sentido, publiquei em 2008 um artigo em livro de edição local (V Dia da Bioética na UEFS), em que discutia a questão da integridade em ciência em cada passo da investigação científica experimental, ao longo das diversas etapas do método científico. Comecei com a ideia da pesquisa, passando para a busca bibliográfica, diretrizes do projeto, plano de pesquisa, coleta de dados, codificação e armazenamento de dados e de material, análise de resultados, interpretações da análise, redação do trabalho para publicação, conclusões, autores, colaboradores, agradecimentos e referências bibliográficas.

Para cada uma destas etapas descrevia as possibilidades de má conduta intencionais ou por desconhecimento. Hoje, convencida do impacto das novas tecnologias no impulso à comunicação simplificada, ao modo dos Twitter, Facebook, etc., e isso aliado ao fato de termos lido que os jovens retêm melhor as informações em pequeno número de toques que as informações discursivas, tendo a rever essa publicação à moda mais atual de comunicação.

Assim, mantendo o esquema geral do artigo, podemos simplificá-lo pondo ao lado de cada passo da metodologia da pesquisa uma mensagem twitada daquilo que não deve ser feito. Vejamos:

Planejamento da pesquisa:
“Não roube a ideia de outros”.

Coleta de dados:
“Não altere nem invente”.

Análise de resultados:
“Não manipule gráficos e tabelas”.

Redação:
“Não escreva mentiras nem plágios”.

Referências bibliográficas:
“Não force citar a si mesmo ou a sua revista”.

Comentários:
“Não exalte sua vaidade”.

Conclusões:
“Não promova sua ambição”.

Notas:
“Não omita conflitos de interesses”.

Se estiver atuando como revisor:
“Não abuse do poder de revisor”.

Finalmente:
“Não faça o que não pode defender de público”.

Assim, estamos mais uma vez tentando nos aproximar de um desenho didático a ser assimilado pelo aluno. Nessa tentativa, não podemos esquecer que o que a sociedade cobra e a cultura ocidental reforça é o sucesso profissional a qualquer preço. Na década de 1980, em breve viagem aos Estados Unidos, chocou-me ver uma charge em um jornal local em Chicago, na qual uma fila de jovens de nariz empinado dizia a um único jovem destacado por uma aura de santidade: “Eu fraudei, fraudei, fraudei… e hoje tenho um escritório na 5ª Avenida. E você?”.

Infelizmente, valores desta natureza estão bem difundidos e também bem dissimulados, uma vez que o discurso da honestidade é fortemente enfatizado por todos, mas… não posto em prática na mesma proporção.

Os avanços da ciência na modernidade fizeram crescer o número de pesquisadores e, consequentemente, a comunidade científica, trazendo para dentro dela a moralidade prevalente em qualquer setor competitivo da sociedade. Mesmo estando a ciência fundamentalmente comprometida com a verdade, tentando se aproximar dos reais mecanismos e leis que regem a natureza em seus diversos planos – biológico, físico, químico, social, planetário, cósmico, etc. –, ela não consegue manter-se como uma escola de moral, como um dia a definiu o filósofo Mario Bunge. Os rigores do método científico protegema ciência de erros inerentes à prática da investigação em si, mas é permeável à manipulação desonesta do pesquisador.

A perda de confiança na ciência levaria a humanidade ao caos psicológico gerado por profundos sentimentos de insegurança, não apenas relativamente aos sistemas de produção e consumo na área da saúde humana e animal (medicamentos, vacinas, equipos médicos, alimentos, etc.), mas também nas questões de construção, transporte, comunicação, aparelhos domésticos, produtos de limpeza, cosméticos, etc. A ciência moderna já domina o mundo em quase todos os setores. Consequentemente, dispor de produtos de uma “boa ciência” já se configura como uma forma de direito de todo cidadão e cidadã, em especial se essa ciência é financiada com recursos públicos.

Finalmente, acreditamos que, pelo que a ciência significa para as grandes potências econômicas e pelo futuro que ela acena aos jovens, ações surgirão para o sufocamento da má prática científica, pelo menos nos limites de se evitarem tragédias humanas.

Eliane S. Azevedo
Professora titular de bioética da UFBA.

- Este artigo resulta da palestra “A construção moral da civilização ocidental e o educar para a integridade científica no Brasil”, apresentada no workshop sobre “Ética e integridade na ciência”, na Academia de Ciências da Bahia, em Salvador, em 17/12/2013.

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