Horas ígneas

22 de junho de 2014 -
Pedro Kilkerry (Santo Antonio de Jesus, BA; 1885-1917)

Pedro Kilkerry (Santo Antonio de Jesus, BA; 1885-1917)

Eu sôrvo o haxixe do estio…
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sôbre
Um verdor, flamâncias de asa…
Circula um vapor de cobre
Os montes – de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
– De amôres, ruivos, protervos –
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz mêdo… que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.

II

O Sol, de bárbaro, estangue,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma côr só do prisma,
Veleiras, as naus – de sangue…

III

Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
– Grandes Rainhas – as velas.

Onda por onda ébria, erguida,
As ondas – povo do mar –
Tremem, nest’hora a sangrar,
Morrem – desejos da Vida!

IV

Nem ondas de sangue… e sangue
Nem de uma nau – Morre a cisma.
Doiram-se as faces do prisma
Mulheres – flôres – num mangue…

(InRe-visão de Kilkerry,
Augusto de Campos, 1970)

 

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