Intrusa esfomeada

16 de junho de 2014 -

Pesquisadores estudam novos métodos de controle da lagarta-comilona, praga dos campos no Brasil

Lagarta Helicoverpa armigera já causou prejuízo de R$ 2 bilhões em campos da Bahia

Uma lagarta de apenas quatro centímetros de comprimento, comum na Ásia, África e Oceania, está causando enorme dor de cabeça em agricultores baianos e de outros estados produtores como Mato Grosso, Paraná, Goiás e Minas Gerais. Com variações de cor que vão de um verde bem vivo ao castanho, a Helicoverpa armigera – também conhecida como lagarta-comilona – tem destruído, indiscriminadamente, plantações de soja, milho e feijão, entre muitas outras, provocando perdas estimadas em R$ 2 bilhões apenas na safra baiana de 2012-13.

Todo esse estrago levou pesquisadores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) a desenvolver um projeto para tentar combatê-la de um modo mais eficaz. A equipe de Flávia Silva Barbosa, professora do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas da UFRB, iniciará testes no começo de junho com um inseticida à base de sisal para tentar controlar a praga. “Sabemos que não vamos eliminá-la. Mas é preciso reduzir os danos e a população da Helicoverpa para garantir a produção agrícola”, diz.

Os primeiros sinais da lagarta no Brasil foram registrados no final de 2012. Um ano depois ela já ameaçava mais da metade das áreas de produção agrícola do país. Isso obrigou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento a decretar estado de emergência nas regiões atingidas, estabelecendo medidas excepcionais de controle da praga, como aplicações múltiplas de inseticidas químicos e biológicos. Ainda não se sabe como a espécie chegou ao Brasil. “Pode ter sido trazida numa muda qualquer ou em plantas ornamentais. O fato é que encontrou aqui as condições ideais para se desenvolver durante todo o ano”, explica Flávia.

Parecida com a Helicoverpa zea, que ataca o milho, a lagarta-comilona no início enganou  os produtores, que acreditavam lidar com uma praga já conhecida. Eles logo perceberam que havia algo mais sério quando se depararam com a capacidade destrutiva do bicho. “Só confirmaram que se tratava de outra espécie quando a Embrapa fez testes em laboratório e observou uma ligeira diferença no órgão genital masculino da H. armigera, em comparação com a H. zea”, explica Tamara Leal, mestranda em ciências agrárias na UFRB sob orientação de Flávia.

Ela conta que o apetite da lagarta-comilona chega ao ponto de ela atacar plantas ornamentais e nativas – que não são cultivadas – e até ervas daninhas. “Há casos relatados de canibalismo, inclusive”, diz. Nas plantações, consome folhas, frutos, o caule e as vagens. Tudo é alimento para a Helicoverpa, que leva em média trinta dias para sair do ovo, virar lagarta, assumir a forma de pupa e então se transformar em mariposa.

Sua taxa de fecundidade é alta – uma fêmea pode botar até mil ovos –, assim como sua capacidade de dispersão, explica Tamara. Um adulto consegue voar até mil quilômetros em três dias. Como se isso não fosse suficiente para atormentar os agricultores, a lagarta-comilona desenvolveu resistência a inseticidas e até ao baculovírus, microrganismo por muito tempo usado como controle biológico de outra praga das culturas de soja, a lagarta-da-soja (Anticarsia gemmatalis). “Trata-se de um problema agrícola difícil de resolver”, afirma Flávia.

esfomeada

POSSÍVEL ESTRATÉGIA

Uma planta bastante conhecida dos agricultores baianos, o sisal, pode ser um aliado no combate e controle dessa praga dos campos. O sisal contém compostos químicos com ação inseticida, capazes de eliminar ácaros e moscas, por exemplo. Em seu mestrado, Tamara pretende avaliar se um inseticida ecológico à base de sisal seria eficiente para reduzir as populações de H. armigera.

Ela planeja testar duas formulações: uma obtida a partir do sisal fervido em água e outra da planta misturada ao álcool. Em seguida, deverá aplicar o composto diretamente na lagarta em suas diferentes fases de desenvolvimento, a fim de verificar sua capacidade de combatê-la. Em laboratório, também deve testar o produto nas plantas atacadas pelo bicho para ver se o inseticida provoca alguma repulsa. Se os resultados forem positivos, ela testará o inseticida biológico em culturas selecionadas próximas aos municípios de Barreiras e Luiz Eduardo Magalhães, interior do estado. “Vamos aproveitar um produto típico da Bahia, dando destino adequado ao que seria jogado no lixo.”

Os pesquisadores esperam que, além de matar a lagarta, o sisal reforce os mecanismos de defesa naturais das plantas e não elimine os predadores naturais da lagarta-comilona, como vespas e joaninhas, muitas vezes mortas pelos agrotóxicos tradicionais. Estudo feito pela Embrapa-Soja, coordenado pela pesquisadora Clara Beatriz Hoffmann-Campo, sugere ser fundamental preservar esses e outros inimigos naturais da H. armigera. “Com o manejo adequado, a tendência é que as populações de inimigos naturais cresçam. Estamos reforçando a orientação para que o produtor monitore as culturas e não aplique inseticidas
indiscriminadamente”, afirma a pesquisadora num comunicado de imprensa publicado no site da Embrapa.

Segundo a Embrapa, o crescimento populacional de lagartas do gênero Helicoverpa e os prejuízos por elas causados à agricultura são consequência de práticas de cultivo equivocadas, como o plantio sucessivo de espécies vegetais hospedeiras (milho, soja e algodão) em áreas muito extensas e próximas associadas ao uso inadequado de agrotóxicos. Flávia diz ter consciência da dimensão do desafio e insiste em que é preciso pensar o problema de forma global e articulada. Para ela, medidas pontuais e isoladas não vão funcionar para afastar a penetra indesejada.

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