Manipulação do objecto de estudo, os perigos

7 de junho de 2014 -

1. A ciência é uma forma de manipulação. A mão move-se pelo meio das coisas, divide o objecto de estudo em partes, muda essas partes de sítio, vira-as de cabeça para baixo, acrescenta elementos, enfim. Pensemos nos verbos que utilizamos para descrever os actos da mão e com eles veremos que também descrevemos os métodos da ciência. Pegar, largar, dividir, arrancar, acrescentar, virar. Pegar ou largar uma hipótese; pegar ou largar uma metodologia. Etc. O cientista manipula o seu objecto de estudo e a sua cabeça faz com esse objecto (mesmo que seja um objecto teórico) o que as mãos fazem aos objectos do mundo que estão, por exemplo, tranquilos e sólidos em cima de uma mesa.

E uma teoria é também uma construção – uma forma sensata de colocar um objecto numa relação que não caia. Só se constrói quando se tem várias partes à frente. Não se constrói com a unidade. Constrói-se quando à nossa frente o mundo é múltiplo e está dividido. Uma casa, por exemplo, uma simples casa, é uma unidade (se no fim não existir nenhuma peça solta), mas uma unidade feita de mil e cem objectos distintos do mundo. Pois bem, uma teoria é uma casa.

2. E uma teoria também é isto – a potência do súbito incêndio e do desastre ali está, sempre, como uma ameaça. Uma construção com fósforos, com material potencialmente autodestrutivo. De facto aqui, neste caso, uma associação desastrada entre elementos pode terminar num incêndio.

Devemos, pois, manipular os elementos da teoria com a mão em jeito minucioso de pinça. É a única maneira. Porque todo o material científico tem duas caras: a força e a fragilidade. Se fores brusco demais, o material com que trabalhas pode partir-se.

Se fores demasiado desastrado ou demasiado arrogante na sua manipulação esse material pode, no limite, zangar-se e destruir-te. O teu objecto de estudo é frágil demais: não o partas; e é forte demais, não penses que ele é submisso!

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