Memória bem guardada

O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia comemora 120 anos com cursos, palestras e lançamento de livro

23 de junho de 2014 -
Sede do IGHB hoje . Crédito: IGHB

Sede do IGHB hoje… Crédito: IGHB

Salvador tinha 174.412 habitantes em 1890, de acordo com o recenseamento da época. A maior parte da população era analfabeta e havia poucas instituições de ensino superior, como as faculdades de Medicina e de Direito. Alguns anos depois, em 1894, um grupo de intelectuais baianos, quase todos médicos e advogados, se mobilizou para publicar em 5 março nos jornais da capital uma convocação pública para a instalação de um órgão cultural atuante. A ideia era criar um associação que pudesse reunir documentos e objetos ligados à geografia e história do Brasil e, em especial, da Bahia, que se encontravam espalhados em mãos de particulares com o objetivo de resguardá-los e montar um acervo, zelar pela biografia de suas personalidades e produzir artigos e ensaios. Após oito dias, em 13 de maio, foi lançado o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), que acaba de completar 120 anos, como queriam seus 134 sócios efetivos fundadores – como guardião da memória e agente cultural ativo.

O IGHB mirou-se no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado no Rio de Janeiro em 1838. Os fluminenses, por sua vez, tiveram como modelo o Instituto Histórico de Paris. Antes da Bahia, foram criadas instituições congêneres em Pernambuco, Alagoas e Ceará. São Paulo fundou o seu no mesmo ano do baiano, em 1894. Hoje, há um total de 23 institutos históricos estaduais e 52 municipais. De acordo com Arno Wehling, presidente do IHGB, os institutos históricos e geográficos são instituições acadêmicas diferentes das estritamente profissionais como as universidades, centros de pesquisa e órgãos públicos de gestão patrimonial como arquivos, bibliotecas e museus. Seus objetivos são “abrir as portas a diferentes agentes científicos e culturais, como professores, pesquisadores universitários ou não, ensaístas, colecionadores, além de editar textos científicos, consolidar, inventariar e ampliar seus acervos, de modo a se constituírem em centros de referência documental”.

O IGHB nasceu cinco anos depois da Proclamação da República no vácuo do Instituto Histórico da Bahia, fundado em 1855, mas desativado depois de 13 anos sem alcançar seus propósitos. A nova instituição desenvolveu-se bem, não sem enfrentar dificuldades para se manter nas décadas seguintes, apesar do apoio inicial recebido das elites econômica e política do estado e da bela sede erguida em 1923. “Vamos superando os obstáculos e estamos sempre lutando para não ficarmos presos ao passado”, diz Consuelo Pondé de Sena, presidente da instituição conhecida como a Casa da Bahia. “Pelo contrário, continuamos muito ativos e olhando para o futuro.”

As comemorações do dia 13 parecem dar razão a ela. Desde o começo do ano ocorrem cursos, palestras e mesas-redondas sobre os mais diversos temas – de futebol à história da Bahia. Algumas personalidades de destaque no estado foram escolhidas para receber a Medalha do Mérito do instituto. Além disso, houve o lançamento do livro Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – origem e estratégias de consolidação institucional (1894-1930), resultado da tese de doutorado de Aldo José Morais Silva defendida na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Outros eventos comemorativos marcam o mês de maio: o seminário internacional “Portugal e Brasil: interfaces entre história, memória e patrimônio” (dia 27) e o curso sobre iconografia musical (dias 28 e 29). No segundo semestre, o destaque será o VI Congresso de História da Bahia. Para acompanhar a programação, basta acompanhar o site www.ighb.org.br.

... e nos anos 1920, quando foi inaugurada: necessidades iguais às de outros monumentos arquitetônicos. Crédito: IGHB

… e nos anos 1920, quando foi inaugurada: necessidades iguais às de outros monumentos arquitetônicos. Crédito: IGHB

Mapas e cartas
A riqueza do IGHB está no seu acervo. A maior coleção de jornais baianos, do século XIX até hoje, a coleção cartográfica mais numerosa – e já digitalizada – do estado e os 30 mil títulos da biblioteca Ruy Barbosa são uma amostra do que foi amealhado até hoje. Há também arquivos de personalidades como o de Theodoro Sampaio – presidente do instituto entre 1922 e 1927 – e o de Braz do Amaral e joias como manuscritos de Castro Alves e cartas de Antônio Conselheiro.

“Esse material é importante não só para preservar a memória, mas também para permitir a pesquisa documental de estudantes, professores e pesquisadores profissionais que buscam no instituto informações que as bibliotecas das universidades não têm”, explica Edivaldo Boaventura, sócio e orador oficial do instituto. Ele diz que a população de Salvador sempre foi próxima da Casa da Bahia, a instituição mais antiga do estado. O IGHB é o guardião do Pavilhão 2 de Julho, no Largo da Lapinha. É lá que estão os principais símbolos da maior festa cívica do estado, o Caboclo e a Cabocla, ícones da participação popular nas lutas pela independência na Bahia, que tiveram fim em 2 de julho de 1823.

O ex-governador e presidente de honra do IGHB, Roberto Santos, conhece bem o valor do instituto para a cultura do estado. “Membros titulares desta casa têm realizado e fomentado estudos e pesquisas reconhecidos como de máxima importância para a compreensão da nossa realidade passada, atual e futura”, disse ele em seu discurso durante as comemorações do dia 13. “E têm patrocinado eventos que revelam, inequivocamente, o sentido construtivo da contribuição institucional à nossa identidade.”

Embora as qualidades do IGHB sejam conhecidas, os recursos são suficientes apenas para sua manutenção essencial. O governo estadual paga água, luz e salários dos funcionários. Os diretores não são remunerados. “Em 2014, nossa sede completará 91 anos e muitos dos equipamentos estão obsoletos ou desgastados pelo uso contínuo”, escreveu Consuelo Pondé em artigo recente. “Nossas necessidades são iguais à de outros monumentos arquitetônicos, que precisam de constantes reparos e substituições.” Algumas restaurações são feitas com recursos próprios, mas falta dinheiro, por exemplo, para restaurar parte da coleção da pinacoteca, pintar o prédio e substituir as cortinas confeccionadas ainda em 1993.

No intuito de conseguir recursos, Consuelo enviou correspondência solicitando a atenção de empresários baianos. A verba teria de ser repassada pelo programa Fazcultura e deduzida dos impostos cobrados das empresas. “Essa medida ajudaria a tornar viável alguns dos nossos projetos e a assegurar a sobrevivência da instituição”, diz ela.

Fotos: Tatiana Golsman

Deixe uma resposta