Nas fronteiras da colaboração

Baiana de 23 anos cria rede social para troca de serviços e experiências com base no escambo

22 de junho de 2014 -
Inovação: baiana está entre 35 jovens empreendedores da Technology Review, do MIT. Crédito: R. Junior

Inovação: baiana está entre 35 jovens empreendedores da Technology Review, do MIT. Crédito: R. Junior

Em meados de 2012, depois de assistir a documentários sobre redes de colaboração on-line e modelos de economias alternativas, Lorrana Scarpioni, então com 21 anos, percebeu que poderia aplicar à lógica das redes sociais a prática ancestral do escambo, possibilitando a troca de serviços – sem envolver dinheiro – por meio de uma plataforma virtual desenvolvida com base no conceito de economia colaborativa. Pouco mais de um ano depois, em agosto de 2013, Lorrana transformou sua ideia em uma possibilidade real e lançou a Bliive, uma rede de troca de serviços em que a única moeda válida é o tempo. Nela, internautas do mundo todo podem compartilhar experiências em troca de créditos, que são revertidos em outras atividades que a pessoa queira fazer. A plataforma, que à época de seu lançamento tinha 1.300 pessoas cadastradas e outras 2 mil na lista de espera, conta hoje com 16 mil membros espalhados em mais de 55 países, entre eles Estados Unidos e Austrália.

Em abril deste ano, Lorrana foi listada entre os dez inovadores com menos de 35 anos em 2013 pela edição em português da revista Technology Review, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). O objetivo da lista é reconhecer o talento de jovens empreendedores e pesquisadores do Brasil e selecionar os pré-indicados para a lista internacional, que terá 35 nomes. O processo seletivo contou com a avaliação de jurados nacionais e internacionais, além de consultas específicas a especialistas de outras áreas.

Os pesquisadores, professores e empreendedores selecionados serão premiados por sua contribuição para a resolução de diversos problemas atuais. Uma nova tecnologia de baixo custo para a fabricação de dispositivos de análise microfluídicas a partir do papel, próteses ortopédicas feitas de plástico reciclado e até um método para acelerar o diagnóstico de doenças genéticas raras estão entre as contribuições de alguns dos selecionados. “Validar uma ideia ou um modelo de negócio no Brasil é um desafio”, conta Lorrana. “Ser reconhecida pelo MIT como uma das dez principais jovens empreendedoras do país mostra que estamos no caminho certo.” A cerimônia de premiação aconteceu no dia 13 de maio, na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, no Rio de Janeiro.

Primeiros passos
Lorrana nasceu em Salvador, Bahia. De família de classe média, morou em Esplanada até os quatro anos, quando se mudou para a capital paranaense com os pais. Lá se formou em relações públicas na Universidade Federal do Paraná (UFP) e em direito pelo Centro Universitário Unicuritiba. Hoje divide um apartamento com outras duas amigas em Ponta Grossa, município a 103 quilômetros de Curitiba. Lorrana sempre foi determinada – e teimosa, ela diz. Afirma ser perseverante, sobretudo, em meio às adversidades. Desde cedo quis empreender. Ainda na adolescência se apaixonou pela possibilidade de desenvolver projetos sociais. A ideia de criar a rede colaborativa surgiu nos últimos anos da graduação. “Depois de assistir àqueles documentários, pensei em criar uma rede social que unisse a lógica dos bancos de tempo tradicionais à possibilidade de poder trocar serviços com um grande número de pessoas e registrar essas experiências para serem vistas e compartilhadas por seus contatos”, explica.

A viabilização da ideia não foi fácil. Lorrana contou com a ajuda de um de seus professores de direito, que entrou como sócio no negócio, contribuindo com a administração dos trâmites jurídicos. Em seguida, investiu o dinheiro que seria usado em sua festa de formatura para contratar um programador para a concepção da rede social. Após meses de reuniões, negociações e a própria escassez de recursos financeiros, ela conseguiu mais dois sócios. Hoje a startup conta com uma equipe de seis pessoas.

A ideia de usar o tempo como moeda de troca surgiu na década de 1980, no Japão, chegando à Europa na década de 1990, onde se popularizou. São várias as organizações que hoje oferecem serviços pelo sistema de banco de tempo no mundo. É o caso da TimeBanks, dos Estados Unidos, e da Timebanking, do Reino Unido. No caso da Bliive, a lógica é diferente. Lorrana explica que, por meio do banco de tempo, o usuário pode oferecer seus serviços a outras pessoas. Em troca, recebe créditos, ou TimeMoney, a moeda da rede social. Esses créditos podem ser trocados pelos serviços de que o usuário precisa ou queira fazer, e que outras pessoas estejam oferecendo na plataforma. “Com isso, possibilitamos a troca não só de serviços profissionais, mas também de experiências e conhecimento entre internautas.” A ideia parece estar dando certo. Até janeiro deste ano, foram realizadas mais de 5 mil trocas, com mais de 26 mil horas oferecidas.

A Bliive é gratuita e não permite propagandas. Lorrana explica que o faturamento da startup vem de parcerias com estabelecimentos comerciais, que são indicados pela rede social para que seus usuários se conheçam pessoalmente e façam a troca dos serviços de maneira segura. “Oferecemos também uma plataforma corporativa”, diz. A proposta é desenvolver uma rede social exclusiva para cada empresa, nos mesmos moldes da plataforma original. “Empresas que tenham interesse em montar uma rede colaborativa interna de troca de tempo para seus funcionários podem contratar o serviço. Assim, promovemos a troca de serviços e experiências entre os próprios funcionários, favorecendo a integração das equipes.” Já as parcerias com ONGs ajudam a ampliar o potencial da startup, possibilitando que o usuário obtenha créditos por meio de trabalhos voluntários.

Em 2013, Lorrana foi nomeada Global Shaper, iniciativa do Fórum Econômico Mundial de uma rede global de jovens entre 20 e 30 anos com potencial para futuros papéis de liderança. Em 2014, a Bliive foi selecionada, entre dois mil concorrentes, para ser uma das 30 empresas do programa de aceleração Sirius do governo do Reino Unido. Isso permitirá que parte da equipe receba ajuda financeira e consultoria por um ano para consolidar a rede social na Europa. “Iremos para a Escócia em junho deste ano”, conta Lorrana. Ainda há muito o que fazer, ela reconhece, “mas é bom saber que existem pessoas que sabem reconhecer as tendências relacionadas à dinâmica da economia colaborativa”, diz.

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