Todos os sons de uma revolução silenciosa*

Conjunto de orquestras envolve 980 crianças e adolescentes numa iniciativa inédita no país

23 de junho de 2014 -
Apresentação da Orquestra Juvenil da Bahia em agosto de 2013,  na Igreja de São Francisco, em Salvador . Crédito: Tatiana Golsman

Apresentação da Orquestra Juvenil da Bahia em agosto de 2013, na Igreja de São Francisco, em Salvador. Crédito: Tatiana Golsman

Soaria estranho dizer que o projeto Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojiba) vem protagonizando uma revolução silenciosa no cenário sóciocultural brasileiro. Porque essa revolução, a rigor, não é nem poderia ser silenciosa: ela brota da prática musical de 980 crianças e jovens, com reverberações por todo o estado, numa germinação artística inédita no país. Algo que vem chamando a atenção de especialistas de várias partes do mundo. Portanto, trata-se de uma revolução feita de sons. Massa de sons. Mas também se trata de uma silenciosa revolução de mentalidades, em busca de uma sociedade mais justa, mais democrática, mais harmônica.

“Não vamos ficar fazendo espetáculo”, avisa o maestro Ricardo Castro, 49 anos, um baiano de Vitória da Conquista que provou da celebridade internacional a partir dos anos 1980, como pianista, e hoje comanda essa revolução silenciosa. “Espetáculo é o que vem fazendo boa parte das orquestras jovens pelo mundo. Definitivamente, não é o nosso caso.” A declaração convicta, irredutível até, aconteceu numa das pausas de ensaio da Orquestra Jovem da Bahia – a Yoba, sigla em inglês para Youth Orchestra of Bahia – dias antes da partida do conjunto para sua primeira turnê nos Estados Unidos.

Com 140 integrantes, a Yoba se apresentou em fevereiro deste ano em cinco estados americanos: Califórnia, Indiana, Arizona, Missouri e Flórida. Ao todo, foram 12 concertos em 11 cidades, com repertório sinfônico de peso (obras de Tchaikovsky, Stravinsky e Ravel, por exemplo) e composições de autores nacionais (entre eles, Villa-lobos e Zequinha de Abreu). Também aproveitará para trocar experiência com outras orquestras jovens nessas localidades. Depois voltou ao Brasil para mais um semestre de trabalho, quando então partirá novamente, desta vez rumo ao verão europeu: será a orquestra residente do Festival de Montreux de 2014, em julho, na  Suíça, de onde saltará para mais concertos na Itália e Inglaterra.

Haja fôlego – é agenda digna de orquestra de porte internacional. Então, como o maestro insiste em dizer que o foco de todo este trabalho não é a exibição pública, não é o concerto? Elucidar este ponto talvez seja a chave da compreensão do Neojiba, um laboratório socioeducativo inspirado no El Sistema, o bem-sucedido modelo venezuelano de consolidação da cidadania de jovens e crianças, através da prática musical coletiva. No Brasil, o modelo aterrissou em 2007 pelas mãos do próprio Castro, impressionado com o que viu na Venezuela, numa de suas passagens pelo país como pianista.

Fundado em 1975 pelo economista e musicista José Antonio de Abreu, o El Sistema hoje conta com 350 mil participantes e já semeou cerca de 180 orquestras jovens pelo país. Já o Neojiba, uma organização social tratada como prioridade pelo governo baiano, prepara-se para atender 2.700 participantes até o fim de 2014, reunidos não apenas em orquestras, mas também em formações de câmara e música coral. Os números absolutos do programa, realizado em âmbito estadual, sempre serão menores que os venezuelanos, de âmbito nacional. Mas o fato é que hoje o El Sistema olha para o Neojiba como o seu rebento mais vigoroso.

O maestro Ricardo Castro não se cansa de repetir: “Aqui a música é o meio, não o fim”. Desde que foi tocado pela vitalidade do modelo venezuelano, tem insistido naquilo que considera ser o objetivo último do Neojiba: preparar crianças e jovens para os desafios do mundo de hoje, num ciclo de superações e descobertas pessoais que os farão mais conscientes, mais concentrados e mais confiantes nas próprias capacidades. Se a música acaba entrando definitivamente em suas vidas, ótimo. Mas é tão somente a boa decorrência do processo.

“Quando você ensina gramática da língua portuguesa para uma criança, você não cobra dela que seja um escritor no futuro, certo? Então, por que eu cobraria de um praticante de violino que venha a ser um solista ou mesmo um virtuose?”, compara Castro. Este tipo de cobrança foi descartado desde os primórdios do projeto, quando o pianista-maestro contou com o apoio decisivo do então secretário estadual de Cultura da Bahia, Márcio Meirelles. Ambos tomaram para si a decisão de formar o El Sistema baiano.

Cerca de 90% dos 980 participantes do Neojiba vêm de camadas mais carentes da população. Os 10% restantes saem da camada alta e são admitidos sem restrição. Porque o projeto não adota – ao contrário, rejeita – o conceito de “inclusão social”. Nele se fala em “integração social”. Algo que se constrói nas vivências do dia a dia, como quando os jovens instrumentistas se juntam para ir à praia, independentemente de serem pobres ou ricos, de viverem na periferia ou nas zonas mais ricas. Ou quando se cotizam para alugar um pequeno apartamento em Salvador, dividindo não só despesas, mas também a rotina de disciplina e tenacidade de um músico em formação. “Nós colocamos esses meninos para tocar juntos logo que chegam. Isso acaba levando a uma paz social até incomum em nossa sociedade”, festeja Castro. A ideia é que o Neojiba mantenha-se aberto a todos os segmentos da população, operando sempre na perspectiva da integração.

No Teatro Castro Alves, em 1º de fevereiro: participação do pianista francês Jean Yves Thibaudet (à frente, ao lado do maestro Ricardo Castro) na última apresentação antes da turnê nos EUA. Crédito: Tatiana Golsman

No Teatro Castro Alves, em 1º de fevereiro: participação do pianista francês Jean Yves Thibaudet (à frente, ao lado do maestro Ricardo Castro) na última apresentação antes da turnê nos EUA. Crédito: Tatiana Golsman

Hoje o maestro também festeja a transferência do projeto da Secretaria Estadual de Cultura, onde nasceu, para a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Combate à Pobreza, onde se encontra. Esta guinada administrativa não só possibilitou um aumento de 40% no orçamento do Neojiba – estava em RS$ 4,5 milhões/ano e vai para RS$ 7 milhões em 2014, volume de recursos que compreende não só o repasse do governo baiano, mas também parcerias, doações e patrocínios –, como ainda garante que o compromisso primordial do programa seja mantido. De novo, não se trata de formar músicos, mas sim cidadãos, através da atividade musical.

Em sete anos de expansão contínua, o Neojiba passou a demandar uma estrutura administrativa mais complexa. Sua gestão foi entregue à Associação de Amigos das Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Aojin) e do Neojiba – acompanhada de perto por um conselho de administração presidido pelo médico Roberto Santos, ex-governador da Bahia e fundador da Academia de Ciências do estado. Santos e seus conselheiros atuam como verdadeiros embaixadores do programa. Tem sido algo fundamental para a captação de recursos e o estímulo de novas parcerias.

Beleza como meta
Como se sabe, os venezuelanos saíram na frente, há quatro décadas, ao identificar que a prática musical coletiva opera transformações profundas no indivíduo, especialmente quando em fase de formação e, mais ainda, em situação de vulnerabilidade. Hoje é possível pinçar iniciativas que guardam alguma similaridade em zonas socialmente instáveis, como Afeganistão, por exemplo, ou em certos países da África. E mesmo em cidades desenvolvidas da Europa, cujas sociedades têm sido contaminadas por crescente onda de xenofobia, não raro expressa na aversão aos imigrantes. Caso de Berlim e Londres, com bons programas musicais de caráter socioeducativo.

O El Sistema, contudo, estruturou a possibilidade de reação. Uma proposta pedagógica concreta, aplicável a diferentes realidades e ancorada no desenvolvimento pessoal a partir da experiência musical compartilhada. Perguntado por que a música tem se mostrado uma experiência tão estruturante, eis a resposta de Castro: “Porque é uma linguagem universal que transcende os sentidos e as emoções, e isso acontece em diferentes lugares, sob diferentes condições. Porque promove um desenvolvimento incomum das sensibilidades do indivíduo. Porque abre possibilidades únicas de diálogo. A música desperta valores estéticos, comportamentais, humanos. Feita em grupo, então, faz com que o coletivo compartilhe determinadas regras para atingir uma só meta, a beleza. Isso acaba transformando não só os jovens músicos, mas também aqueles que vivem ao seu redor”.

Como diz o próprio Abreu, no premiado documentário Tocar y Luchar, sobre o El Sistema, quem percebe a harmonia estruturante da música começa a perceber, e a acessar, a harmonia interna do ser humano. No Neojiba, são recorrentes os relatos de crianças e jovens sobre como suas vidas foram transformadas desde que começaram a tocar em grupo. Levantamento socioeconômico encomendado pelo projeto revelou que, entre os participantes, havia muitos jovens que moravam em favelas, alguns até em casas de papelão.

The Granada Theatre, em Santa Bárbara, Califórnia: uma das escalas da turnê, em 17 de fevereiro. Crédito: Tatiana Golsman

The Granada Theatre, em Santa Bárbara, Califórnia: uma das escalas da turnê, em 17 de fevereiro. Crédito: Tatiana Golsman

“Sem música, minha vida seria em preto e branco. A menina que entrou no Neojiba há quatro anos, para tocar viola, hoje é outra pessoa. Que toda Salvador e todo o Brasil desfrutem dessa experiência”, conclama Luiza Santos, 20 anos. “Acho que nunca vou largar o Neojiba. Por toda a vida quero estar ligado a ele, como músico e cidadão”, projeta Yuri Azevedo, 21 anos, prêmio de regência do Festival de Inverno de Campos do Jordão, hoje se aperfeiçoando em Maryland, nos Estados Unidos. Primeiro músico da família, Yuri é visto como grande promessa do pódio no Brasil. Vale lembrar que a sensação do mundo da regência, atualmente, é o venezuelano Gustavo Dudamel, justamente saído das fileiras do El Sistema. Dudamel encontra-se à frente da Filarmônica de Los Angeles, como diretor artístico e regente titular.

Assim como aconteceu a Yuri, centenas de jovens têm se beneficiado do empurrão inicial do projeto e de todo um conjunto de condições que lhes permite a continuidade da experiência. O Neojiba garante não só o instrumento de eleição do próprio participante, como também todo o material didático, aulas individuais, alimentação e auxílio-transporte. Há casos de bolsas integrais, também – hoje são mais de 160.

As famílias desses músicos, que antes nunca haviam colocado os pés em salas de concerto, passam a frequentá-las – em contato, e em igualdade de condições, com famílias que visitam até salas internacionais. O efeito propulsor do projeto se faz sentir na comunidade. Até o aproveitamento escolar dos integrantes do Neojiba tende a melhorar, sem falar na espantosa evolução em línguas estrangeiras: o espanhol, por exemplo, tornou-se língua fluente entre eles, em virtude da convivência com músicos e pedagogos venezuelanos. O inglês se desenvolve em viagens ou no contato com professores e solistas estrangeiros, que vêm atuar no programa. Até o alemão, tão importante no mundo e na literatura da música clássica, tem sido aprendido em aulas dadas por voluntários. E as apresentações? Até o final de 2012, foram 240, para um público de mais de 150 mil pessoas. Sempre estiveram lotadas.

Efeito reverberador
Se a beleza é meta, a busca da excelência é compromisso. Não se trata de fazer música de forma amadorística, mas de acordo com padrões de qualidade, elevados constantemente. “Isso provoca um despertar de mentalidade. Esses meninos percebem que, bem preparados, a música será para eles uma porta de acesso a um mercado de trabalho interessante. Ou seja, eles sentem que há futuro naquilo que fazem agora”, explica Castro. Não é por acaso que, hoje, boa parte dos alunos de música da Universidade Federal da Bahia já é oriunda do Neojiba.

Aulas da Orquestra Pedagógica Experimental em 2010 . Crédito: Tatiana Golsman

Aulas da Orquestra Pedagógica Experimental em 2010 . Crédito: Tatiana Golsman

A busca da excelência também se nota na presença regular de professores estrangeiros, vindos de instituições renomadas, como o Conservatório de Genebra ou a Juilliard School of Music, de Nova York, ou de orquestras de primeiríssima linha, como a Filarmônica de Berlim, a Suisse Romande, a Concertgebouw de Amsterdã. Há casos de solistas que inclusive pedem para vir a Salvador, para trabalhar com os “neojibas”. Como a celebrada violinista japonesa Midori, cuja carreira internacional estourou aos 11 anos, na Filarmônica de Nova York, sob a batuta de Zubin Mehta. “Esses professores de fora chegam atraídos pela vitalidade do projeto e pelos encantos da Bahia, claro. E nós temos muita satisfação em acolhê-los”, diz o maestro.

Assim a revolução pela música vai se articulando em diferentes formações – além da Orquestra Jovem da Bahia, o projeto estruturou a Sinfônica Juvenil 2 de Julho (J2J) e a Orquestra Castro Alves (OCA), com 90 e 80 músicos respectivamente; a Orquestra Pedagógica Experimental (OPE), que oferece capacitação musical para a faixa de 7 a 15 anos – o limite etário de participação acontece aos 28 anos –; e ainda um coro com 40 vozes. Sistemicamente, também estão sendo implantados núcleos de prática orquestral e coral não só em Salvador e região metropolitana, mas também em outras regiões do estado – como Trancoso, por exemplo, que se consolida como polo musical, com forte apoio da iniciativa privada. Assim como novos grupos aparecem a partir de iniciativas da própria comunidade, caso do município de Conceição do Coité, que já pode se orgulhar da sua Orquestra Santo Antonio. Ou da cidade de Serrinha, onde brotou a Orquestra do Sisal. Ou ainda de Teixeira de Freitas, sede da Orquestra da Paz . O Neojiba se faz presente em todas estas iniciativas.

Sonho da casa própria
Hoje as atividades do projeto se concentram basicamente no Teatro Castro Alves, em Salvador, mas o grande sonho é vir a ter sede própria, com todos os equipamentos necessários para dar conta de um sistema que se diferencia justamente na expansão sem limites. “Ainda não conseguimos ter a nossa casa e isso faz uma falta tremenda”, pondera o maestro Castro. Soluções de espaço vão surgindo a partir das demandas. É o caso do ateliê de luteria, cujo coordenador pôde aprender na Suíça a arte da construção e do restauro de instrumentos. Este centro funciona hoje em casa doada pela fotógrafa Anna Mariani e de lá saem instrumentos de cordas e percussão. Numa parceria com a Braskem, o centro desenvolveu toda uma linha de instrumentos de plástico, mais leves e de manutenção barata, ideais para a iniciação musical de crianças.

Orquestra Castro Alves, no Teatro Vila Velha, em Salvador, sob regência de Yuri Azevedo, em 2012. Crédito: Tatiana Golsman

Orquestra Castro Alves, no Teatro Vila Velha, em Salvador, sob regência de Yuri Azevedo, em 2012. Crédito: Tatiana Golsman

À medida que a prática musical avança, jovens músicos começam a ensinar aqueles que sabem menos, e assim por diante, de tal forma que hoje pelo menos 50% dos integrantes da Sinfônica Jovem da Bahia já dão aulas. “E vão ensinar mesmo. Contamos com essa generosidade, que é fundamental para manter a roda girando”, explica Castro. Essa transferência do saber adquirido cria um sentido de coesão muito forte nos grupos, pois todos ali estão se desenvolvendo juntos, cada dia mais e melhor, uns estimulando outros. É uma vivência radicalmente oposta à cultura do conservatório, rígida, exclusivista, parece que feita para moldar músicos de competição.

É essa coesão interna que permite aos “neojibas” encarar desafios de enorme responsabilidade, como tocar em salas de prestígio no exterior – citando algumas: Queen Elizabeth Hall e o Royal Festival Hall, em Londres, ou o Centro Cultural de Belém, em Portugal – ao lado de solistas do porte dos pianistas Lang Lang e Maria João Pires ou do violinista Schlomo Mintz. “Posso garantir que esses meninos, muitos deles nascidos e criados em favelas, comportam-se como lordes num Queen Elizabeth Hall. Sabem perfeitamente onde pisam”, orgulha-se Castro.

Para o maestro, o projeto já foi muito além daquela aposta original que fez em 2007, no auge de sua trajetória como pianista, ele, um dos aclamados vencedores do Concurso Internacional de Piano de Leeds, na Inglaterra – concurso que, vale ressaltar, é a chancela definitiva para uma carreira de vulto. Em conversa com esta autora em Londres, alguns meses atrás, ao ser admitido como membro da Royal Philharmonic Society, Castro lembrou que, ao vencer as provas de Leeds, em 1993, sentiu-se como se tivesse chegado ao topo do Himalaia, “mas profundamente sozinho”. Entrou de cabeça no circuito internacional dos pianistas top class, continuando a se sentir sozinho. Até assumir para si a ideia de que a música erudita não pode ser uma experiência solitária, dirigida a um público de privilegiados. E assim o aclamado intérprete, ainda hoje professor da Haute École de Musique de Lausanne, na Suíça, optou por reduzir suas aparições, para dedicar o máximo de seu tempo, e de suas energias, ao projeto musical que criou e ainda quer ver deslanchar mais. Numa conversa informal, foi possível ouvi-lo numa confissão banhada em alegria: “Não fiz pela minha carreira solo o que tenho feito pelo Neojiba”. Brasileiros lhe serão eternamente gratos por isso.

*Colaborou Liana Rocha

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