Um cientista tranquilo

13 de junho de 2014 -

ed01_entrevista1Em atividade desde os anos 1950, Zilton de Araújo Andrade deu contribuições seminais para o conhecimento da esquistossomose e de outras doenças parasitárias

Aos 90 anos – e parecendo uns bons anos mais novo –, o professor Zilton de Araújo Andrade vai diariamente ao trabalho no Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), na rua Waldemar Falcão, no Candeal, em Salvador. Ali, ele prossegue em suas atividades científicas e administrativas como chefe do Laboratório de Patologia Experimental (Lapex), do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, e professor dos cursos de pós-graduação em patologia humana (UFBA), imunologia (UFBA) e biotecnologia e medicina investigativa (Fiocruz).

Tranquilo e vigoroso, senhor de uma memória prodigiosa e de uma prosa discreta e cativante, este baiano de Santo Antônio de Jesus é referência obrigatória nos estudos sobre esquistossomose, além de ter dado contribuições importantes para a compreensão da doença de Chagas e para as patologias do fígado ligadas às doenças parasitárias. Entre seus trabalhos mais citados na literatura científica internacional estão Mild prolonged shistosomiasis in mice: alterations in host response with time and the development of portal fibrosis, elaborado em parceria com Kenneth S. Warren e publicado na revista Transaction of Royal. Society of Tropical Medicine and Hygiene, em 1964, e Pathological lesions associated with Schistosoma mansoni infection in man, que tem como coautor Allen W. Cheever, publicado na mesma revista em 1967.

Formado médico pela UniversidadeFederal da Bahia (UFBA), especializado em patologia pela Universidade de Tulane, em New Orleans (EUA), doutor em patologia pela Universidade de São Paulo (USP) e com um pós-doutoramento no Hospital Mount Sinai, em Nova York, Zilton Andrade, professor da UFBA desde 1953, aposentado em 1984, mas prosseguindo com as aulas e orientações até hoje, formou gerações de pesquisadores na Bahia. Em seu currículo consta a orientação de 40 dissertações de mestrado e de 15 teses de doutorado. O ex-governador Roberto Santos, seu colega na Faculdade de Medicina, aponta-o como uma das melhores pessoas de sua geração, pesquisador de grande importância em seu campo e uma das referências fundamentais da pesquisa científica na Bahia. “Ele dirigiu, por exemplo, o Serviço de Patologia e, com as sessões anatomoclínicas que presidia, teve papel muito importante quando o nosso Hospital das Clínicas estava no auge de sua contribuição à medicina científica e à medicina social em nosso estado”, comenta.

Desde a década de 1950, Zilton Andrade tem feito seu percurso profissional, pessoal e afetivo ao lado de Sonia Andrade, também ela pesquisadora, patologista respeitada e professora da UFBA, além de ser sua colaboradora na Fiocruz. Juntos tiveram seis filhos. No final desta entrevista à revista Bahiaciência, feita na sala de doutor Zilton na Fiocruz, doutora Sonia lembrou que, ao receber o título de Professora Emérita da UFBA, em 2011, contou aos alunos que encontrou Zilton, já um doutorando, quando, no quinto ano da faculdade, estava estagiando na Fundação Gonçalo Muniz. “Nós começamos a nos entender, a conversar e acabamos namorando. Foi aí que a clínica me perdeu para a patologia”, disse, completando com uma original declaração amorosa: “Ele foi meu primeiro e único orientador e com ele aprendi as regras da boa pesquisa”. A seguir reproduzimos os principais trechos da entrevista do professor Zilton Andrade.

Qual de seus trabalhos científicos em esquistossomose o senhor considera mais importante para o avanço do conhecimento desta doença?

Não tenho um trabalho principal, porque tenho seguido uma linha desde o início.  Interessei-me por esquistossomose porque era uma doença que eu via frequentemente no Hospital das Clínicas, inclusive com indivíduos jovens morrendo, vomitando sangue nas enfermarias e acabando nas salas de autópsias.

Isso era ainda nos anos 1940?

Não. Minha atividade científica propriamente dita, com publicação de trabalho, etc., começou em 1950. Entrei na faculdade em 1944 e posso considerar concluída minha formação, com pós-graduação e viagens para estudos especializados, em 1953. Quando estudante, trabalhei no Hospital das Clínicas, mas ao me formar o hospital já estava completo e não oferecia vagas. Após entendimentos entre o meu orientador, professor Paulo Darcoso Filho, e o então diretor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, professor Zeferino Vaz, recebi um convite para trabalhar por lá. Recebido o convite, fui em 1956 e passei relativamente pouco tempo, porque desde que saí daqui o professor Edgard Santos mostrou muito interesse em que eu ficasse na Bahia. Após trabalhar por quase um ano em Ribeirão Preto, tive a oportunidade de me encontrar com alguns colegas baianos num congresso médico e eles me estimularam a voltar para a Bahia. Disseram ter a impressão de que Edgard Santos me receberia de braços abertos. Uma dessas pessoas foi o professor Heitor Marback, da oftalmologia. Tempos depois recebi uma comunicação dele dizendo que eu podia voltar em boas condições. E, embora Ribeirão pagasse então muito melhor que todas as universidades do país, o reitor Edgard Santos estava disposto a cobrir esse salário. Então vim para cá – e foi um passo positivo que dei na vida.

Isso foi quando? E o senhor veio vinculado ao Hospital das Clínicas?

Em 1957, vim para a UFBA com dois cargos, o que na época era comum porque não havia ainda o regime de tempo integral. Então, Edgard Santos fazia o seguinte: indicava o candidato como professor, que assim teria um emprego de professor, e fazia em paralelo outro contrato de pesquisador. Portanto, era dedicação exclusiva, como eu estava querendo, com dois salários, de professor e de pesquisador.

Mas voltemos de uma outra forma à pergunta original: que trabalhos seus ligados à  esquistossomose lhe parecem importantes?

A questão da modulação do granuloma, por exemplo. Estava trabalhando nisso quando o  professor Kenneth Warren, um americano da Universidade Cornell, veio dar cursos aqui. Peguei uma fase em que Edgard Santos queria fazer uma universidade de verdade, tinha noção de como estimular pesquisa e trazer professores de fora, e instalou o Programa de Residência Médica, que teve grande importância no atendimento dos doentes no Hospital das Clínicas e no ensino da patologia e de outras especialidades para os jovens que se formavam e queriam ficar. Foi uma fase de ouro, florescente.

Então, quando voltei de Ribeirão Preto, começamos a trabalhar. Kenneth Warren tinha infectado camundongos com esquistossoma nos Estados Unidos e contado o número de ovos no fígado e nos intestinos dos animais infectados, com uma técnica que ele mesmo tinha desenvolvido. Viu que o animal recém-infectado tinha uma doença mais grave e, com o passar do tempo, melhorava com a fase crônica. Ele contava o número de ovos nos tecidos e verificou – para sua surpresa – que o número de ovos era muito maior na fase crônica que na fase aguda. Ele me relatou isso como algo que não conseguira entender. Preservou o fígado e incluiu em parafina e me procurou para ver se, como patologista, eu lhe daria alguma resposta satisfatória.

Ou seja, por que na fase crônica da doença o indivíduo, com maior carga de ovos do parasito, passava melhor do que na fase aguda?

Exatamente. O indivíduo ainda era o camundongo. Foi um modelo simples, já bastante usado em seus aspectos imunológicos, tanto que foi uma surpresa para mim esse trabalho ter tido uma repercussão tão grande. Mas a questão é que ele pôs muita gente a trabalhar com muitos outros modelos e, quando os resultados desses novos trabalhos eram publicados, citavam o nosso artigo (Andrade e Warren). Vou explicar alguns detalhes: verifiquei que, na fase aguda, o ovo, ao chegar no fígado, provocava uma lesão extensa, com necrose e inflamação muito grave. Com o passar do tempo, o hospedeiro ia modulando a lesão e essa modulação tinha uma base imunológica. A novidade é que não era exatamente uma novidade, porque era o mesmo fenômeno que se conhecia para a tuberculose, por exemplo. O indivíduo se infecta, a doença é grave, pode ter disseminação,
com granulia, e com o passar do tempo esse indivíduo faz uma doença localizada, crônica.

O que ninguém sabia é que no fígado esse processo também ocorria na esquistossomose.

Na época, a pesquisa sobre os fatores que ocorrem na modulação da tuberculose estava muito em voga. Muitos desses estudos passaram a ser feitos então com a esquistosoma, que é um modelo muito mais simples de reproduzir em laboratório. Assim, esse fenômeno
da modulação podia ser esmiuçado do ponto de vista dos fatores imunes envolvidos. O resultado foi um trabalho atrás do outro publicados na Europa e no mundo todo citando o nosso trabalho como exemplo. Um dia, um jornal de São Paulo levantou os pesquisadores brasileiros mais citados na literatura e, para minha surpresa, eu me vi entre eles. E o fator principal foi esse trabalho.

A surpresa foi só por modéstia, não?

Tinha gente muito mais avançada, mas a ciência caminha assim.

O senhor pode explicar mais claramente a modulação de granuloma para os não especialistas?

Quando o ovo do Schistosoma chega ao fígado, há dentro dele um embrião que, seguindo o  ciclo evolutivo normal, sai do ovo ou do tecido e vai para as fezes. Para tanto, o embrião dispõe de umas glândulas que produzem uma substância que destrói os tecidos do hospedeiro em volta do ovo e permite sua saída desse mesmo ovo quando chega perto da luz intestinal, e é eliminado pelas fezes. Isso é da rotina da evolução do parasita. Macho e fêmea, reprodução de ovo, e esse ovo amadurece. Maduro é que ele sai; se não amadurecer, não sai, fica preso no fígado. A destruição de tecidos do hospedeiro não se faz
de graça e o organismo parasitado e verme – faz uma reação violenta, aguda, inclusive com necrose do tecido. Essa é a reação inicial, mas, com o passar do tempo, o organismo modula a resposta imunológica e não tem mais necessidade de fazer tamanha reação – acontece com muitos indivíduos que têm esquistossomose e estão passando sem maiores problemas. O organismo, ao aprender a modular a resposta, faz uma reação mais efetiva e mais econômica.

Mas o senhor dizia que essa fase não se estabelece sem danos e prejuízos para o organismo.

Exatamente. Se a carga parasitária for muito grande, essa resposta, mesmo modulada, lenta e efetiva, deixa fibrose e lesões vasculares obstrutivas. Essa fibrose prejudica a vascularização do fígado. E foi isso que eu mostrei a Warren.

Qual é a consequência desse trabalho para o controle e o tratamento da doença?

A tentativa inicial desse trabalho foi explicar o que acontece com os infectados, principalmente para visitantes de áreas endêmicas ou de locais em que a esquistossomose se instalou recentemente e apresenta, portanto, muitos casos graves. Pode-se chegar numa área em que está todo mundo infectado, mas ninguém se queixa de nada e, de vez em quando, aparece um menino com barriga grande vomitando sangue. Aí se diagnostica esquistossomose, adquirida na infância, período mais suscetível. E o conhecimento se dá assim. Quando se chega numa área com casos agudos frequentes, é certo que ali a esquistossomose se instalou recentemente.

A partir desse trabalho, como foi o desenvolvimento de sua linha de pesquisa em esquistossomose?

Continuamos a estudar a doença no homem e a publicar os achados que tivemos e que iam facilitar o estudo de outros. Aparecia um detalhe, explorávamos um pouco mais, porque é isso que se faz em ciência. Ao mesmo tempo, íamos vendo outras doenças.

O senhor trabalhou simultaneamente com Chagas. Como foi?

As doenças parasitárias costumam ter essa fase de instalação aguda. Mas Chagas é diferente, não essencialmente, mas quanto à manifestação. Publicamos no boletim da Fundação Gonçalo Moniz, em 1955, com a colaboração de Sonia Andrade, um trabalho bem extenso sobre a doença que foi bem estudada por Carlos Chagas e o pessoal de Manguinhos [Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro] e explorada aqui também por Adriano Pondé. Mas ela não chamava muita atenção na Bahia. Em nosso caso, estávamos estudando esquistossomose e vimos que uma linha a ser explorada era a da patologia das doenças parasitárias e, no que em particular me diz respeito, principalmente quando praticando necropsias no Serviço de Patologia do Hospital Professor Edgar Santos. Este hospital, quando foi inaugurado, tinha condições tão boas quanto as de qualquer hospital americano onde trabalhei. Havia facilidades para fotografias, microfotografias e para cortes em congelação. Assim, em relativamente pouco tempo, tínhamos acumulado uma série de casos de indivíduos que morreram com manifestações cardíacas devido à doença de Chagas. Lendo o que já tinha sido publicado, vimos que, em termos de patologia e patogenia, havia ainda muita coisa a ser explorada. Estudamos 22 casos, com o intuito de explorar o quadro histopatológico da doença.

Nessas autópsias para ver os danos provocados por doença de Chagas, quais órgãos vocês examinavam mais?

O principal era, e é, o coração. Os outros têm repercussões secundárias, dependentes da falência cardíaca e dos fenômenos tromboembólicos. A maneira como o parasita provoca a infecção tem fatores imunológicos envolvidos: alguns têm uma doença crônica, prolongada, em outros ela tem curso mais agudo. Os fatores imunológicos eram justamente o que eu precisava estudar para esclarecer detalhes de vários estudos prévios.

Nesse estudo o senhor falava de algumas dessas diferenças no coração dos vários indivíduos autopsiados?

Definíamos o quadro patológico que encontrávamos. A ideia era fornecer detalhes morfológicos para um diagnóstico preciso na mesa de autópsia, evidentemente a ser confirmado depois com a microscopia.

Quando vocês estudavam o músculo cardíaco, o que encontravam?

Era a clássica miocardite crônica, uma inflamação no coração com sinais de que era progressiva e prolongada e que vai destruindo o músculo e o deixando flácido.

ed01_entrevista2Professor, vamos falar de seus primeiros anos da vida e de como se encaminhou para a medicina e a ciência? Vamos partir do começo, maio de 1924. O senhor é taurino.

Isso, taurino. Meu pai era funcionário federal, de uma coletoria em Santo Antônio de Jesus. Tinha oito filhos, sendo que eu era o segundo. O pessoal da minha geração, numa situação assim, já sabia que teria que trabalhar logo. Sendo o segundo filho, devia trabalhar para ajudar a família. Conversando com meu pai, ele disse: siga sua vocação, veja o que quer fazer, o resto deixe comigo. Foi fundamental a orientação da professora Áurea Bittencourt. Era uma pessoa rígida, enérgica. Eu tinha 11 ou 12 anos, ainda em Santo Antônio, e ela percebeu meu interesse, minha maneira de estudar. Eu gostava do método de ensino dela, me sentia melhor, aprendendo. Ela era protestante, e numa das vindas a Salvador, conheceu o colégio americano, que é o atual Dois de Julho. Falou então com meu pai e mostrou o estatuto. Ele veio a Salvador e no caminho encontrou um amigo de infância, o professor Manuel Peixoto, que era então diretor do Ginásio Ipiranga, que ficava na Ladeira do Sodré, na casa em que morreu Castro Alves. Acabei indo para o Ipiranga, onde fiz todo o meu curso ginasial.

O senhor tinha um avô jornalista?

Sim, o meu avô materno, Antonio Mendes de Araújo, fundou e dirigiu um jornal quinzenal, em Santo Antônio de Jesus, por mais de 50 anos. Chamava-se O Paládio e circulava no Recôncavo… Ele escrevia, fazia discurso, era intelectualizado.

E enquanto estudava no Ipiranga, onde o senhor morava?

Era interno no colégio, comia e dormia lá. Quando cheguei tinha 13 anos exatamente e fiquei quatro anos interno. No quinto ano, a família já tinha vindo, só meu pai ficou lá. Fiquei externo um ano, e depois fui para o Ginásio da Bahia, que já era no mesmo lugar que depois se chamaria Colégio Central. Nessa época começou a divisão do ensino médio em clássico e científico – tinha até blusões diferentes. E eu fiz dois anos, porque tinha feito cinco anos no Ipiranga. Depois é que passou a ser quatro anos de ginásio e três anos do curso colegial.

O que fez o senhor descobrir a medicina como um caminho? Foi ainda no Ipiranga?

Sim, foi no Ipiranga. Na realidade foram leituras de divulgação científica, eu tinha um interesse em ciência em geral. Adorava filmes que eu via de laboratório, com aqueles tubos
saindo fumaça, vários filmes em que sabia que de vez em quando apareceriam cenas de laboratórios. Era interesse em ciência mesmo. Li um livro sobre cientistas, de Paul [Henri] de Kruif [microbiologista americano, 1890-1971]. Esse livro [Caçadores de micróbios, de 1926, um best-seller que inspirou, segundo a Wikipedia, muitos aspirantes a cientistas] é interessantíssimo. Até lê-lo, eu via os cientistas como seres sobrenaturais, distantes, difíceis, tinha interesse em ciência, mas não em fazer ciência. Aí li o livro e tudo foi diferente: ele mostrava Pasteur, por exemplo, como um sujeito comum, aproximava os grandes cientistas da vida do homem normal, comum. E mostrava o que as descobertas podem fazer e como se tornam uma coisa muito interessante para o indivíduo, um desafio intelectual.

Quantos anos o senhor tinha quando leu o Paul Kruif?

Foi na escola de Dona Áurea, às vésperas de vir fazer o [exame de] admissão, em 1937. Já lia divulgação científica, mas com espírito esportivo, aos 11 e 12 anos.

Em sua casa tinha uma biblioteca?

Não, eu ia atrás da biblioteca pública e, às vezes, quando sobrava um dinheirinho, comprava livros.

Seus outros irmãos seguiram carreira científica?

Não, eu tinha três irmãos, um morreu de acidente. Dos demais, um é advogado e outro é  repórter fotográfico, em Aracaju. Como foi o seu curso na Faculdade de Medicina? Achei que o curso era muito teórico. Por isso, já no terceiro ano encontrei uma oportunidade de trabalhar em laboratório num novo instituto que estava sendo organizado no governo de Octavio Mangabeira. Fui aprovado num concurso para técnico de laboratório e comecei a trabalhar em um laboratório de bacteriologia. O filho de Mangabeira, Mangabeira Filho, que era médico e cientista, me procurou, viu que eu tinha interesse e me perguntou se eu já tinha tido aula de patologia. Disse então que ainda ia começar. Na época o professor da cadeira era o professor José Coelho dos Santos, que de quando em vez tinha problemas com os estudantes.

Como nasceu seu interesse específico por patologia? Foi na época do laboratório?

Vamos voltar ao tempo em que meu colega Alípio Castelo Branco leu em A Tarde sobre a  convocação para o concurso ao cargo de técnico de laboratório no Instituto de Saúde Pública criado por Mangabeira. Era no Canela. Mangabeira Filho tinha decidido montar um laboratório de pesquisa dentro do instituto. Preparou um curso para fazer o treinamento do pessoal. Os técnicos que passassem na seleção e tivessem tendência e título podiam se inscrever no curso. Fiz isso e foi espetacular. Mangabeira trouxe os melhores professores do Brasil na época, e o curso foi completamente diferente dos blá-blá-blás teóricos a que estávamos acostumados: era entrar no laboratório e trabalhar. Enquanto trabalhávamos, íamos sabendo das coisas, mandavam-nos ler isso e fazer aquilo. Era informação, prática de pesquisa, tudo articulado. O curso durou dois anos e incluiu também patologia, e quem veio ensiná-la foi Paulo Dacorso Filho, professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, veterinário que se especializara em patologia, com curso nos Estados Unidos, e que acabou sendo o patologista que mais fazia diagnóstico em biópsias de câncer, etc., para o pessoal do Rio. Os professores de fora sempre tinham um auxiliar e me informaram que eu tinha que preparar o laboratório e ficar auxiliando no curso.

O Instituto chamava-se Gonçalo Moniz?

Ainda não, era chamado Instituto Oswaldo Cruz. Tinha um posto de vacinação, que vacinava contra raiva, e laboratórios de exames para os serviços de saúde. Mangabeira Filho foi quem surgiu com a ideia de fazer o instituto de saúde pública, como é hoje o Lacen [Laboratório Central de Saúde Pública Professor Gonçalo Moniz]. Os exames do estado passavam a ser feitos aqui e, ao lado, teria um instituto de pesquisa ao estilo de Manguinhos, porque sem este, em sua visão, o primeiro iria atrofiar porque ficaria desatualizado. O curso tinha estudantes e médicos clínicos. Os melhores professores existentes naquela época no país vieram ministrar as aulas – entre eles, Otto Bier (bacteriologia), Samuel Pessoa (parasitologia), Hugo Souza Lopes (entomologia), Paulo Dacorso Filho (patologia) e Leônidas Deane (parasitologia).

Como foi ter aulas com Samuel Pessoa?
Ao vê-lo, eu vi pela primeira vez um pesquisador em ação. Ele foi influente para muita gente, principalmente em São Paulo. Fazia pesquisa, ia ao campo e entusiasmava todo mundo com sua pesquisa. Meu primeiro trabalho publicado foi com ele, sobre a filária [vermes nematoides]. Saiu na revista O Hospital, muito conhecida dos médicos na época, mas que hoje já não existe.

Na mesma época desse curso o senhor estava terminando a faculdade e depois foi para o exterior. Como essas coisas se ligam e quanto tempo o senhor passou fora?

Dessa vez passei dois anos em New Orleans, na universidade de Tulane. Lá, me concentrei  na rotina de patologia, não fazia nenhuma pesquisa em especial. Ia para a sala de  autópsias, fazia os procedimentos. Antes, fizera um estágio de seis meses em São Paulo, por sugestão do professor Dacorso, algo intermediário. Fiz várias autópsias no Hospital das Clínicas da USP. Samuel Pessoa me orientou a procurar o professor Constantino Mignone, mas fiquei mesmo com Mário Rubens Montenegro, que era um assistente na época e depois veio a ser um extraordinário professor. Nos Estados Unidos, treinei inicialmente em técnicas de autópsia. Um outro período, como pesquisador, sob orientação do doutor Emmanuel Farber [respeitado patologista canadense, instrutor de patologia em Tulane no começo da carreira], e depois voltei.

O senhor já estava casado com a doutora Sonia?

Não, era noivo, mas me casei depois que voltei. Após sua formatura em 1953, Sonia ficou estagiando no Hospital das Clínicas, como bolsista do CNPq.

Quando o senhor voltou dos Estados Unidos, foi direto para Ribeirão Preto?

Não, voltei para Salvador. Mas Octavio Mangabeira não era mais governador e tinha um grupo que começou uma divergência no instituto, o clima, que era bom, ficou prejudicado. Nessa época fui para Ribeirão. Quando voltei, vim para o Hospital das Clínicas, como disse, fiz livre-docência e continuei com os dois empregos, de professor e de pesquisador. Roberto Santos [ex-reitor da UFBA, ex-governador da Bahia] estava formando então um grupo de ensino e eu participei desse grupo. Ficamos num período bom, de ambiente acadêmico de boa qualidade. Aí o próprio Roberto Santos me comunicou haver uma inscrição para um estágio nos Estados Unidos e perguntou se eu queria participar, já que eu estava trabalhando com esquistossomose e ele podia conseguir um estágio com o grande hepatologista Hans Popper. Esse trabalhava no Hospital Mount Sinai, junto do Central Park, em Nova York. Inscrevi-me, fui aprovado e fiquei um ano lá, sob orientação do professor Popper, estudando patologia hepática. Foi muito bom.

O senhor estudou então vários problemas do fígado.

Estados Unidos. Houve um americano que nos trouxe uma técnica de injetar plástico nas veias do fígado e depois dissolver o órgão no ácido, de forma que ficava só o modelo, o que é muito bom para estudar as lesões vasculares que a esquistossomose provoca no fígado.

O senhor se aposentou quando da Faculdade de Medicina?
Em 1980. Quando saí, me integrei completamente aqui na Fiocruz em tempo integral. A  pós-graduação em patologia foi uma conquista muito boa que eu consegui com o auxílio de Luis Macedo Costa, diretor da Faculdade de Medicina, que facilitou a transferência do curso aqui para a Fiocruz. Foi este curso que ajudou a formar aqui vários pesquisadores.

Eu queria que o senhor falasse um pouco sobre a dificuldade de fazer pesquisa científica no Nordeste.

Escrevi um artigo em 1987, “A pesquisa médica no Norte e Nordeste”, para o Congresso de  Cardiologia no Pará. Eu digo o seguinte: a pesquisa científica depende de dinheiro e os países mais ricos produzem mais ciência e de melhor qualidade. No caso do Brasil, isso continua se refletindo nos estados do Sul e do Sudeste, principalmente São Paulo, que tem mais dinheiro para investir em pesquisa. Isso facilita não só a obtenção de aparelhos, como o intercâmbio. O pessoal, vendo que lá fora estão publicando trabalhos feitos com técnicas avançadas, vem e quer intercâmbio, correspondência e isso e aquilo. Agora, fiz nesse trabalho uma defesa do CNPq, onde fui convocado muitas vezes para dar pareceres. Havia queixas, o Congresso estava interessado em saber se havia discriminação, e eu mostrei que não existia isso. Nos grupos de avaliação, quando chegava um trabalho do Nordeste, com boas técnicas e bons resultados, causava admiração e simpatia dos assessores, ao contrário do que se possa pensar.

Deixe uma resposta