Um parque para avançar

14 de junho de 2014 -
© Eduardo MoodyParque tecnológico da Bahia

Inaugurado em setembro de 2012, o parque ofereceu bolsas para pesquisadores e incentivos fiscais.

Depois de atrair multinacionais como IBM e Portugal Telecom, Parque Tecnológico da  Bahia prepara expansão com centros de biotecnologia e energia.

Um enclave tecnológico capaz de articular pesquisadores, empresas inovadoras e instituições de ensino e pesquisa começou a funcionar em Salvador, em setembro de 2012, e vai ganhar novas instalações para multiplicar suas atividades até 2015. Dedicado integralmente à pesquisa aplicada, o Parque Tecnológico da Bahia já atraiu 37 instituições e empresas inovadoras de tecnologia da informação e comunicação selecionadas em chamadas públicas, reunindo multinacionais como IBM, Ericsson e Portugal Telecom, empresas de software da Bahia, como a Softwell e a Jusbrasil, e empresas nascentes na incubadora Áity, que na língua guarani significa “ninho”.

O primeiro edifício do parque, o Tecnocentro, já está com sua capacidade preenchida – lá trabalham hoje 450 pessoas. Vários prédios e laboratórios vão surgir nos próximos meses na área de 581 mil metros quadrados situada na avenida Paralela, a 5 quilômetros do Aeroporto de Salvador. O principal deles é o Centro de Biotecnologia, que envolve a construção de um complexo de laboratórios, além de uma escola de iniciação científica e o Museu Mundo da Ciência. O complexo vai ocupar uma área de 26 mil metros quadrados e terá 13 espaços interligados, com as instalações convergindo para uma vista da Mata Atlântica. Já estão garantidos R$ 28,9 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a segunda etapa do parque e R$ 23 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do governo da Bahia para a compra
de equipamentos dos laboratórios de pesquisa.

Um novo prédio para abrigar novas empresas de tecnologia da informação também está previsto. A Petrobras, em cooperação com a Universidade Federal da Bahia (UFBA), vai implantar em breve um centro de pesquisa sobre campos maduros de petróleo que ainda contêm óleo, mas cuja viabilidade econômica esgotou-se após a exploração intensiva. O Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec) do Senai terá um laboratório de bioengenharia, voltado para pesquisa aplicada para a indústria, principalmente os segmentos de equipamentos e tecnologias na área da saúde. Futuramente, o Serviço Social da Indústria (Sesi) planeja montar um centro de pesquisa para a saúde do trabalhador. A sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) também vai transferir-se para o parque. O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano do parque prevê a expansão de seus domínios para uma área total de 1,1 milhão de metros quadrados.“O interesse do governo da Bahia em incrementar o parque está expresso no orçamento do Estado de 2013”, diz o deputado estadual Paulo Câmera, secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia entre 2011 e 2013 e um dos artífices do parque. “Poucas secretarias tiveram acréscimo de orçamento e a de Ciência, Tecnologia e Inovação é uma delas, com 227% mais de recursos em relação a 2012”.

Já construído
Tecnocentro Implantado em uma área de 25.900 metros quadrados, abriga empresas de tecnologia da informação e comunicação, desenvolve pesquisa em bioinformática, biossensores e desenvolvimento de softwares e dispõe de uma incubadora de empresas.

 

© Eduardo MoodyParque tecnológico da Bahia

Futuras instalações

LABORATÓRIOS COMPARTILHADOS
Nove instalações serão utilizadas por diversas instituições de pesquisa e universidades do país, com plataformas de biotecnologia e 20 linhas de pesquisas. Uma das principais vocações será a descoberta de novos fármacos.

PETRÓLEO
Fruto de cooperação entre a Petrobras e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), o Centro de Tecnologia em Energia e Campos Maduros (Cetecam) será referência na pesquisa sobre campos de petróleo que ainda contêm óleo, mas cuja viabilidade econômica esgotou-se após a exploração intensiva.

MUSEU MUNDO DA CIÊNCIA/ ESCOLA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA
Equipamentos científicos e tecnológicos de áreas como eletromagnetismo, robótica, mecânica, entre outras, serão relacionados ao cotidiano dos alunos para promover a aproximação com a ciência. Na escola funcionarão oficinas profissionalizantes destinadas prioritariamente a alunos da rede pública de ensino.

SENAI/CIMATEC
O Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia (Cimatec) do Senai terá um laboratório de bioengenharia, voltado para pesquisa aplicada para a indústria, principalmente os segmentos de equipamentos e tecnologias na área da saúde. Laboratórios especializados Em parceria com universidades, os laboratórios atuarão nas áreas de nanotecnologia, bioengenharia e biomecânica e certificação de equipamentos médicos e painéis fotovoltaicos.

LABORATÓRIOS ESPECIALIZADOS
Em parceria com universidades, os laboratórios atuarão nas áreas de nanotecnologia, bioengenharia e biomecânica e certificação de equipamentos médicos e painéis fotovoltaicos.

Tecnocentro

Tecnocentro, onde trabalham 450 pessoas: capacidade preenchida

Para as empresas associadas, a chance de integrar um parque tecnológico traz benefícios imediatos, como a possibilidade de usar a expertise de bons pesquisadores em temas estratégicos, e também ganhos de longo prazo, como a chance de interagir com outras empresas e pesquisadores atuantes no parque e de recrutar jovens pesquisadores para seus quadros. “Nossa presença no Parque Tecnológico da Bahia visa captar e desenvolver o talento local, assim como fomentar parcerias e colaborações tanto no âmbito público como privado”, afirma Antonio de Farias Leite Neto, diretor no Brasil da Indra, multinacional espanhola que se instalou no Parque Tecnológico da Bahia em setembro de 2012. “O objetivo é reforçar a aposta da multinacional na inovação aplicada tanto à melhora contínua de processos como ao desenvolvimento de novas soluções e serviços, traduzidas no incremento da qualidade, produtividade e competitividade.” A Indra é uma das empresas-âncoras do parque, ocupando um andar completo com 555 metros quadrados de área, onde trabalham 70 funcionários, em sua maioria de nível universitário das carreiras de tecnologia da informação. A empresa mantém no parque um centro de competência de telecomunicações, destinado ao desenvolvimento de soluções para as operadoras do Brasil e internacionais, além de projetos nas áreas da mobilidade, smart cities e segurança. Também trabalha em parceria com o Centro Universitário Jorge Amado (Unijorge) na implantação de tecnologias para a inclusão digital e social de pessoas com deficiência. A empresa tem uma rede de 75 laboratórios de software e centros de excelência instalados em 45 cidades do mundo. No Brasil, criou o Centro de Excelência Mundial para Tecnologias Energéticas na cidade de Campinas, no interior paulista, no qual desenvolveu soluções tecnológicas para a gestão da distribuição de energia implantadas em empresas do Brasil e em companhias de energia da República Dominicana, Colômbia, Venezuela, Peru e Argentina.

Outra empresa internacional a integrar o parque, a Portugal Telecom Inovação Brasil, braço de pesquisa e desenvolvimento do grupo Portugal Telecom, fixou-se no parque para
desenvolver serviços de redes inteligentes e gestão de campanhas, além de elaborar promoções com base em comportamentos sociais. Já o interesse da IBM Brasil foi criar no parque um escritório e uma célula do Natural Resources Industry Solutions Lab (NRIS Lab), laboratório sediado em São Paulo e voltado para o desenvolvimento de soluções para as indústrias de recursos naturais, como mineração e óleo e gás.

Em julho de 2012, três meses antes da inauguração oficial do parque, a empresa baiana Softwell  foi a primeira a instalar-se no Tecnocentro. A companhia, que surgiu em 2004 e seis anos depois ganhou o Prêmio Finep de Inovação na categoria Pequena Empresa, cria ferramentas para simplificar os processos de desenvolvimento de software.

Seu principal produto é o Maker, plataforma que utiliza uma metodologia de desenvolvimento sem códigos, totalmente visual e que possibilita a construção de sistemas para a web, de forma mais simples e barata. Em dezembro passado, a versão 3.0 do Maker foi lançada. “Trata-se do primeiro produto desenvolvido pela Softwell dentro do parque”, diz Adriano Barbosa, coordenador de serviços da empresa. “Nossa presença no parque garantiu uma grande visibilidade para a empresa. Já fechamos negócios com grandes companhias que vieram ao parque em busca de soluções e oportunidades e conheceram nosso trabalho”, afirma Barbosa, citando um contrato recente firmado com o conglomerado português Sonae.

Enquanto grandes empresas dedicam-se à inovação de produtos elaborados e de maturação mais longa, as startups incubadas no parque tentam viabilizar projetos de curto prazo, observa o ex-secretário Câmera. Um exemplo é um aplicativo de telefone móvel, conectado on-line com as linhas de ônibus, que está sendo desenvolvido pela NN Solutions. O sistema busca permitir que os moradores de Salvador acessem, por meio de um telefone celular, informações sobre as linhas de ônibus que trafegam por um determinado ponto de ônibus, escolham qual delas desejam utilizar e solicitem a parada para embarque. “Um outro exemplo é um produto intraoral que é moldado na hora e ajuda a combater o ronco”, diz Câmera, referindo-se à prótese desenvolvida pela empresa MK Innovare. Um novo edital da incubadora atraiu 43 projetos de empresas que desenvolvem
produtos ou serviços inovadores em conteúdo digital (softwares, aplicativos, games e multimídia), audiovisual (cinema, vídeo e animação) e música – e fazem uso intensivo da tecnologia da informação e comunicação. Oito propostas foram selecionadas no final de dezembro e devem em breve incorporar-se à incubadora. “Em um ano e quatro meses de funcionamento, nenhuma empresa da incubadora deixou de existir, na contramão das estatísticas de mortalidade que o Sebrae costuma divulgar”, diz Câmera. “Retiramos da incubadora apenas uma empresa, porque não cumpria seus compromissos. Temos uma visão rígida a respeito disso”, afirma, referindo-se à assessoria da fundação Certi, de Florianópolis, que dá assistência técnica à incubadora Áyti. Segundo ele, o objetivo da incubadora é criar um ambiente para que pequenas empresas surjam e floresçam – e possam tornar-se grandes. “É aquela história do Vale do Silício, que em meio a uma grande quantidade de startups viu surgir empresas como o Google”, diz. Ele se refere à experiência pioneira da Universidade Stanford, na Califórnia, no início dos anos 1950, em que a articulação entre a universidade, empresas de microeletrônica e instituições de pesquisa deram origem ao Vale do Silício, o principal enclave de empresas tecnológicas do planeta – e inspiração para os mais de 900 parques tecnológicos espalhados pelo mundo.

Já são visíveis no parque parcerias e troca de experiências que não poderiam ser previstas no início do projeto. Uma das empresas incubadas, a Exa-M, tornou-se fornecedora de componentes para o Sirius, novo acelerador em fase de construção do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP). A empresa entregou 42 instrumentos de monitoração e controle automático de temperatura. Para desenvolver outros componentes do Sirius, a Exa-M recorreu a outra empresa incubada, a Imago. “Essa parceria possibilitou o início de mais sete projetos que estão por se desenvolver, pois dependem da capacidade específica em soldagem, o que já está sendo realizado através de parceria com o Senai/Cimatec”, afirma Antonio Avelino da Rocha Junior, coordenador da Áity Incubadora de Empresas.

Outra empresa incubada, a Lisan Health & Internet, firmou uma parceria com o pesquisador norte-americano Scott Atlas, professor da escola de medicina da Universidade Stanford e um especialista de renome em diagnóstico de imagem de doenças neurológicas, que deverá se tornar sócio da startup quando ela ganhar mais musculatura. A Lisan criou o portal Raduniverse, um canal exclusivo para médicos que reúne especialistas, diretores de grandes instituições e autores de livros científicos, entre outros. O sistema de colaboração foi idealizado pelos médicos fundadores da empresa, Cristiane Possobom da Rosa e Wilson Bruno Lima. Os mais de oito mil médicos já cadastrados na rede que tenham dúvidas sobre determinado procedimento podem entrar no Raduniverse e publicar sua pergunta. Um profissional com conhecimento na área responde à dúvida do colega. A participação é gratuita. O modelo de negócio prevê receitas de publicidade e venda de assinaturas premium, para os médicos, com a oferta de mais produtos e serviços. Num segundo momento, o portal também vai oferecer serviços de informação em saúde para o público leigo, num formato que ainda está sendo definido. Especialista em radiologia, o agora empreendedor Wilson Lima já dedica boa parte de seu tempo à empresa. “A satisfação de ver uma inovação tomar corpo é fantástica”, afirma.

Vocações consolidadas
Grupos de pesquisa, doutores e mestres atuantes na Bahia nas áreas consideradas prioritárias pelo Parque Tecnológico*

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O advento do parque foi resultado de um cuidadoso processo de planejamento. “O primeiro desafio foi identificar gargalos e entender por que a cooperação entre empresas e pesquisadores tinha dificuldade de vicejar na Bahia”, diz Leandro Barreto, coordenador executivo do parque. “Constatamos em primeiro lugar, que faltava justamente um ambiente, um espaço físico vocacionado  para a cooperação.” O passo seguinte foi mobilizar diversos tipos de ator para viabilizar a ideia. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação teve um papel importante ao investir na construção do Tecnocentro. A identificação de grupos de pesquisa com bagagem e  experiência para participar de projetos vinculados ao parque foi um capítulo à parte. “Fizemos uma prospecção muito forte nas universidades públicas para identificar grupos de pesquisa com potencial de aplicação”, afirma Barreto.

A Bahia tem hoje mais de sete mil pesquisadores, sendo mais da metade deles doutores, atuantes em quase 200 grupos distribuídos em instituições nas diversas regiões do Estado. Dos 4.012 doutores atuantes no Estado, 1.083 desenvolvem pesquisa nas áreas prioritárias do Parque Tecnológico, que são energia/meio ambiente e engenharia; biotecnologia e saúde; e tecnologia da informação e comunicação. A Bahia é o sexto Estado com mais pesquisadores do país e o primeiro das regiões Norte e Nordeste.

“Mas não adiantaria montar uma estrutura e mapear os grupos de pesquisa sem estimular pesquisadores e empresas a trabalhar de forma cooperada”, diz Barreto. Para enfrentar o problema, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia lançou um programa chamado ProParQ, oferecendo bolsas de até 36 meses de duração e com valores entre R$ 3 mil e R$ 14 mil mensais, dependendo da titulação, a fim de atrair pesquisadores para empresas vinculadas ao Parque Tecnológico. “A intenção foi estimular pesquisadores a se inserir nas empresas, com remuneração competitiva”, afirma o coordenador do parque. A Prefeitura de Salvador colaborou ao criar uma política fiscal específica para as empresas instaladas no parque, com a redução da alíquota do Imposto sobre Serviços (ISS) de 5% para 2% e isenção do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). “Mostramos ao prefeito que as empresas de base tecnológica geram receitas para o município a médio e longo prazos”, diz Barreto, citando o exemplo de Florianópolis, a capital catarinense, cuja receita gerada por empresas tecnológicas já supera a do setor de turismo. Um programa da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia, o Inovatec, financia a aquisição de equipamentos científicos.

A ideia de iniciar o projeto do parque com as empresas de tecnologia da informação e comunicação teve uma razão estratégica. “É mais fácil atrair empresas de TI, pois elas dependem basicamente de mão de obra qualificada e computadores, que estavam acessíveis”, diz Barreto. Por isso, a aposta na biotecnologia ficou para a segunda etapa do parque, por meio do chamado Complexo de Equipamentos Dinamizadores, um conjunto de laboratórios especializados e de laboratórios compartilhados a serem utilizados por empresas e pesquisadores, nas áreas de biotecnologia, nanotecnologia, energias limpas, calibração de equipamentos, entre outros. “É necessário criar toda a infraestrutura básica em ensaios laboratoriais, clínicos e pré-clínicos para atrair pesquisadores e empresas. Montamos laboratórios de padrão mundial de pesquisa, que agora vão ser equipados pelo Estado e pelo MCTI. “A gente espera que isso crie um círculo virtuoso para atrair empresas e avançar rapidamente. As pesquisas no campo da biotecnologia são de longo prazo e muitos dos pesquisadores com projetos selecionados já têm relações ou vínculos com empresas interessadas nas aplicações de seus estudos. Esperamos que o parque atraia essas empresas”, completa Barreto.

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No campo da energia, o parque vai abrigar um grande projeto de cooperação entre a Petrobras e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), que será referência na pesquisa sobre campos maduros de petróleo. Trata-se de um tema de interesse também para a Bahia, pois os campos do Recôncavo se enquadram nessa categoria. O Centro de Tecnologia em Energia e Campos Maduros (Cetecam) vai desenvolver pesquisa com foco na possibilidade de exploração desses campos. Abrigará núcleos de recuperação de petróleo, de simulação computacional, de metrologia e de ensaios orgânicos e inorgânicos. A Petrobras vai investir R$ 25 milhões na construção de um prédio.

Já o museu de ciência e a escola de iniciação científica, que têm projeto executivo e investimento garantido de R$ 14 milhões, buscam garantir que o parque se integre à cidade e estimule crianças e jovens a seguir a carreira científica. Equipamentos científicos e tecnológicos de áreas como eletromagnetismo, robótica, mecânica, entre outras, serão relacionados ao cotidiano dos alunos para promover a aproximação com a ciência. Na escola funcionarão oficinas profissionalizantes destinadas prioritariamente a alunos da rede pública de ensino. “A intenção é dialogar fortemente com a comunidade carente da cidade e criar um ambiente que ajude a formar novos pesquisadores”, diz Barreto. “Queremos criar novas referências para os estudantes e mostrar que, por meio da ciência, eles podem ter trajetórias diferentes das seguidas por seus pais.”

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