Gregório de Mattos e Guerra, nosso “boca do inferno”

28 de agosto de 2014 -

A obra de Gregório de Mattos e Guerra (1636-1695), o “Boca do Inferno”, poeta baiano, filho de portugueses, tornou-se conhecida graças, em grande parte, ao trabalho de copistas anônimos que os perenizaram em códices apócrifos, no século XVIII. Enquanto ele viveu, no século XVII, seus poemas satíricos circularam pregados às escondidas por anônimos nas paredes de prédios públicos em Salvador. A partir dos anos 1970, há um notável recrudescimento do interesse por sua poesia, e entre os principais estudiosos que vão lhe conferir uma nova e inesgotável visibilidade está, sem dúvida, Fernando da Rocha Peres, ele mesmo poeta, além de respeitado historiador. Entre outros trabalhos de sua lavra que exploram a contribuição de Gregório para a literatura e a cultura brasileiras, é dele, junto com Silvia La Regina, o excelente livro, editado pela Edufba em 2000, Um códice setecentista inédito de Gregório de Mattos.

Poucos anos antes, em entrevista ao jornal A Tarde a propósito dos 300 anos de nascimento do poeta (disponível em www.jornaldepoesia.jor.br/peres01.html), Peres observava que “ele é um barroco brasileiro, nativo”, ou, como ele chegou a dizer, “um barroco gentio”. Acrescentava que, “ao se expressar, na sua poesia, com esses falares ele revelou urna realidade local. Há uma poesia de Gregório de Mattos feita em Portugal, anterior a 1682, e uma poesia na Bahia depois daquele ano”. Para ele, o poeta seiscentista “é mestiço na poesia que fez. Sua poesia tem muita mestiçagem, até mesmo agressiva, na medida em que ele assume um papel preconceituoso contra o negro, o mulato. De modo algum ele pode ser considerado etnicamente um mestiço, um mulato. Era descendente de galegos que vieram da cidade de Guimarães e se instalaram na Bahia no início do século XVI”.

No mesmo material de A Tarde, outro estudioso da obra de Gregório de Mattos, o jornalista e poeta João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, comentava que “Gregório de Mattos era uma personalidade eminentemente satírica. Tendo vivido em Portugal grande parte de sua vida, ele tomou conhecimento da obra do grande poeta satírico espanhol Quevedo, que foi fundamental na sua concepção de poesia”. Observava que há estudiosos que dividem a poesia de Gregório em vários seguimentos tematico, “mas, o essencial para a literatura brasileira é o satírico”.

Gregório de Mattos (Emanuel Cavalcanti) declama no pátio do Solar do Unhão: cena do curta metragem A volta do Boca do Inferno, 1980, de Agnaldo Siri Azevedo; direção de fotografia de Rino Marconi

Gregório de Mattos (Emanuel
Cavalcanti) declama no pátio do Solar
do Unhão: cena do curta metragem
A volta do Boca do Inferno, 1980,
de Agnaldo Siri Azevedo; direção de
fotografia de Rino Marconi

A hum Frade, que tratava com huã mulata chamada Vicencia

1

Reverendo Frei Sovella,

saiba vossa reverencia,

que a carissima vicencia

poem cornos de cabedella;

tam varia gente sobre ella

vai, que nam entra em disputa,

que a ditta hè mui dissoluta,

sendo que em todos os Povos

a galinha poem os ovos,

e poem os cornos a puta.

 

2

Se està vossa reverencia

sempre a janella do coro,

como nam vê o dezaforo

dos Vicencios com a Vicencia?

como nam vê a concurrencia

de tanto membro, e tam vario,

que ali entra de ordinario;

mas se hé Frade caracol,

bote esses cornos ao Sol

por cima do campanario.

 

3

Lá do alto verá vossê

a puta sem intervalos

tangida de mais badalos

que tem a torre da Sé:

verà andar a cabra mé

berrando atraz dos cabroens,

os ricos pelos tostoens,

os pobres por piedade,

os Leigos por amizade,

os Frades pelos pismoens.

 

4

Verá na realidade

aquillo, que já se entende

de huma Mulher, que se rende

às porcarias de hum Frade;

mas se nam vê de verdade

tanto lascivo exercicio,

hé porque cego do vicio

nam lhe entra no oculorum

o Saecula saeculorum

de huma puta de ab initio.”

 

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