Uma grande teoria sobre o Brasil

28 de agosto de 2014 -

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João Ubaldo Ribeiro traçou o mais profundo retrato da cultura e da psicologia nacionais

Dos quatro primeiros livros de João Ubaldo Ribeiro, apenas Sargento Getúlio, de 1971, realmente causou impacto. Mas foi um belo impacto. Quando saiu, em 1971, recebeu críticas excelentes. No ano seguinte, levou o prêmio Jabuti de Melhor Romance. Em 1978, com tradução do próprio João Ubaldo, ganhou uma edição americana (ser publicado nos EUA é um feito raro para o escritor brasileiro até hoje, que dirá na época). O livro serviu ainda como cartão de visita do escritor para a prestigiada oficina literária de Iowa e para uma bolsa da fundação Gulbenkian, em Lisboa.

Entre 1980 e 1981, então com 40 anos de idade, João Ubaldo trocou de editora, assinando contrato com a Nova Fronteira, do Rio de Janeiro. O primeiro título que publicou depois disso foi Livro de histórias, de 1981. E assim, com míseros 12 anos de idade, ouvi pela primeira vez falar do seu nome. Não acontece que eu seja baiano – infelizmente –, mas aconteceu que meu pai e meu tio vinham a ser os donos da Nova Fronteira. Assisti o impacto do livro crescendo à minha volta, arrebatando, um a um, todos os adultos com quem eu me relacionava – pais, amigos dos pais, tios etc.

Além de elogiarem as virtudes literárias de Livro de histórias, os adultos pareciam arrebatados com o escritor em si. Recontavam as piadas que ele fizera na última festa e descreviam-no sempre como uma das pessoas mais divertidas que já tinham conhecido; depois louvavam-no por ser cultíssimo e comentavam admirados como o sotaque de baiano era menor quando ele falava inglês e francês do que quando falava português (nunca entendi o espanto, para mim faz sentido que fosse assim).

Fui ler o livro, curioso e admirado com o retrato que me pintavam do autor. Afinal, ser inteligente e ser engraçado são até hoje, para mim, duas das maiores virtudes que um ser humano pode ter. Mas até aquele momento da vida eu achava que eram virtudes mutuamente excludentes! Meus resultados escolares da época provam o quanto era forte minha crença nessa oposição.

Ao entrar em contato com a prosa de João Ubaldo, confesso que nem sempre consegui acompanhá-la. Em alguns contos eu me perdia no meio das frases, com frequência bastante longas e com uma riqueza vocabular estonteante; em outros era o encadeamento dos assuntos, que emendavam uns nos outros, cruzando referências e mobilizando um repertório que eu não tinha. Então eu lia parágrafos, pedaços, mas não conseguia ler as histórias do começo ao fim.

O que estava evidente no texto, mesmo para um adolescente como eu, era a combinação de humor e inteligência que os adultos me descreviam:

“Entretanto, Beremoalbo está longe de ser o único da raça do Cão a frequentar por aqui, aliás, é exatamente de um caso desses que eu quero tratar, mais tarde lhe falo, logo, logo. Tem gente que nega, mas, quando o senhor virar as costas, vão se benzer e espalhar alho pelos cantos da casa, só que Beremoalbo come alho, com ele o negócio é difícil. Tem gente que nega, mas só de fingimento, pois a verdade é que esse pessoal todo vai se lembrar se o senhor chegar para eles e mencionar alguns dos seguintes cães: Balganoel, o espalha-merda; Virifinário, o que conseguiu fazer aparecer mais cornos nesta terra do que se pode contar; o diabão Jugurta, que convencia todo mundo a dizer a verdade e assim causou toda apresentação de fatos maus que a gente seria feliz se não soubesse; Harpagelão, que meteu na cabeça diversos padres de ir na terra de uns índios mais do que degenerados, os quais comeram Roquiféler (….)”.

Ao ler parágrafos como este, estava confirmado o perfil que eu recebia do escritor. Além disso, Livro de histórias me fez sentir, pela primeira vez, o quanto é forte a ligação entre a alma do criador (na falta de melhor palavra) e sua obra (quando a obra é verdadeira, claro). Esta lição fundamental eu aprendi lendo João Ubaldo.

Alguns anos se passaram até que, em 1984, saiu Viva o povo brasileiro. Eu li o livro no segundo semestre de 1985, quando estava fazendo intercâmbio em Michigan (EUA). O frio, as saudades da família e do Brasil, a solidão inescapável da adolescência, me deixaram completamente vulnerável a uma leitura que determinaria muito do que eu sou hoje.

Em Viva o povo, o Brasil está inteiro. Intuitivamente, sem saber dar nome às coisas, eu senti o imaginário barroco – com seus demônios e rituais – organicamente combinado a uma atitude literária moderna. A erudição das frases, enroscadas nelas mesmas, típicas da melhor prosa barroca, e a riqueza vocabular do passado, alimentavam a dicção humorística e coloquial numa simbiose perfeita. Em contrapartida, as raízes da língua brasileira saíam atualizadas.

Os heróis e anti-heróis do livro nascem tanto nas classes dominantes quanto no meio popular e, à medida que todos sofrem, amam e morrem, o leitor, talvez pelo reinício emocional constante a que é submetido, sente a força do conjunto, aparentemente disperso, de trajetórias individuais. Com Viva o povo, João Ubaldo se firmou na cena literária brasileira como um mestre no domínio sintático, na música do texto e em obter um arranjo belo e fluente a partir de uma imensa carga de elementos. Suas frases transmitem com vivacidade a emoção dos personagens, porém são artesanalmente esculpidas; a sintaxe ora recria a fala oral, ora possui elegância clássica; o vocabulário é excepcionalmente rico, casando termos científicos e elementos do português arcaico a neologismos criados com base na fala popular. Viva o povo é o grande entroncamento literário de sua carreira, o mostruário completo de seus talentos, o grande manancial e, simultaneamente, o escoadouro de todos os outros livros. Gosto de pensar nele como uma espécie de nave-mãe, que perde em velocidade para os deslocamentos das naves menores, mas paira majestosamente sobre elas.

Sua leitura oferece ainda um outro paradoxo, outra combinação perfeita de virtudes excludentes. “A verdade é que não existem fatos, só histórias”, diz a epígrafe escolhida por João Ubaldo, propondo, antes mesmo de o livro começar, uma revolução epistemológica. Homem ou mulher, velho ou jovem, alto ou baixo, gordo ou magro, qualquer um, se incorporar realmente trazida pela epígrafe, ganha um novo entendimento, muito mais caótico, da história, das sociedades e dos homens.

Contudo, no dia a dia, nas crônicas que fazia para o jornal O Globo (colaboração que começara havia poucos anos e apenas foi interrompida com sua morte), João Ubaldo estava longe de ser uma pessoa sem convicções, dada a relativismos absolutos, muito menos era um niilista. Nas crônicas, e também em suas entrevistas, que eu lia religiosamente, sua consciência crítica era atuante, avaliando e refletindo com independência, para ao final se posicionar com clareza, às vezes até com ênfase, sobre os mais diversos assuntos – culturais, políticos, sociais, linguísticos etc.

A tensão entre aceitação e enfrentamento da realidade do país; a generosidade profunda e compreensiva, porém não cega, pela natureza humana; a combinação da linguagem arcaica e moderna, resultam, para mim, no mais profundo retrato da cultura e da psicologia brasileiras já feito, literária e sociologicamente falando. Foi a primeira grande teoria sobre o Brasil a me atingir, e é impossível superar os impactos vividos na adolescência. Que me perdoem Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Machado de Assis e outros grandes. João Ubaldo criou uma lente própria para enxergar o país, o barroquismo modernista. E o que é o Brasil, se não uma imensa esperança no futuro, que no entanto é construído de maneira fragmentada, contraditória, cheia de idas e vindas, às vezes até dilacerada?

Confirmei então que havia escolhido bem o meu ídolo. Só os espíritos largos conseguem abarcar essa oposição entre a compreensão generosa para com os personagens – façam eles o que fizerem, para que ganhem vida o escritor precisa sempre enxergar o mundo por seus olhos –, sem perder, na vida prática, de cidadão, a força da crítica e da observação aguda.

Apesar de Viva o povo possuir tantas qualidades difíceis de serem atingidas, minha identificação com ele foi tão forte que mexeu dentro de mim a sensação de querer fazer igual, o impulso de também tentar, o delírio de me achar capaz, a idéia de ser escritor.

Já de volta ao Brasil, devo tê-lo encontrado pessoalmente em algum evento da editora, ou mesmo em festas e almoços na casa de meu pai ou de meu tio. Estranho eu não lembrar exatamente quando foi, tendo em vista a importância que Viva o povo tivera para mim. Mas posso explicar essa amnésia: eu simplesmente paralisava ao vê-lo. Eu era um garoto, e simplesmente congelava diante do escritor consagrado, mesmo ele sendo uma pessoa destituída de qualquer pose, e apesar dos ambientes serem às vezes até íntimos. Tudo que dizia me soava de uma inteligência suprema, qualquer piada, por mais corriqueira, me fazia estourar em gargalhadas. Em contrapartida, nada do que eu falava parecia guardar o menor interesse, e contar piadas para ele, sinceramente, jamais me atreveria a fazer isso na época.

Muitos anos se passaram depois disso. Eu vim morar em São Paulo, dei o salto mortal que Viva o povo me inspirou a dar e, em 1995, publiquei meu primeiro livro, O mistério do leão rampante. Para mim, é uma novela de evidente inspiração ubaldiana (embora nunca nenhum dos nossos brilhantes críticos tenha feito essa constatação óbvia). Por manobras do editor, em conluio com meu pai, João Ubaldo escreveu um prefácio, na verdade dois curtos parágrafos. Para meu supremo orgulho, não precisava mais.

Em 1997, quando eu tinha 28 anos e ele 56, foi a vez do João lançar O feitiço da ilha do pavão. Treze anos haviam se passado desde Viva o povo e sua carreira não estava no mesmo momento áureo. O público nunca se afastou dele, mas os críticos haviam começado a torcer o nariz para seus novos livros, acusando-os de não estarem à altura do que produzira antes. Pior que isso, pelo meu pai eu sabia que a bebida vinha mesmo atrapalhando sua vida. Decidi entrevistá-lo. Eu na época fazia frilas para a revista Cult, aqui de São Paulo.  Fui ao Rio de Janeiro especialmente.

Toquei a campainha de sua casa na hora marcada. A mulher, Berenice, abriu a porta. João Ubaldo havia saído, sem falar de entrevista alguma. Ele tinha esquecido de mim, obviamente. Fiquei um pouco humilhado, admito. Berenice sugeriu que o procurasse nos botecos da vizinhança (Tio Sam, Flor do Leblon etc.). Fiz a ronda, mas não o encontrei, e achei aquilo tudo muito estranho. Voltei para a casa deles e passei uma meia hora esperando no sofá. Finalmente João Ubaldo apareceu. Estava completamente bêbado, às 11h da manhã. Cambaleando, ele me levou para o escritório, no segundo andar, e o que encontrei lá foi um ambiente de caos. Além da mesa de trabalho bagunçada, havia um sofá cheio de livros jogados, papéis amassados, jornais velhos espalhados pelo chão e estantes vazias. Ele abriu uma lata de guaraná e bebeu de um gole só, com uma sofreguidão de molhar a camisa. Evidentemente não estava em condições e nem um pouco disposto a dar entrevista alguma. Como eu voltaria naquele mesmo dia, ele fez um esforço e começou a responder monossilabicamente a minhas perguntas. No meio da conversa, ou do meu monólogo, Berenice entrou pelo escritório furiosa, brandindo o “Segundo Caderno” de O Globo, que dera a capa para o livro novo. Ela falou, ríspida mesmo, passando um sabão naquele homem nitidamente entontecido:

“João, como você se deixa fotografar desse jeito?”.

A foto era ele de short, com uma camisa xadrez de manga curta, largado no chão, de braços e pernas abertos, e com as costas apoiadas no mesmo sofá à minha frente, também na foto mais parecido com um ninho de ratos.

Depois que a mulher foi embora, João olhou para mim, muito sério, embora grogue, e disse:

“Quero que você diga aí que eu sou alcólatra. Quero que todo mundo saiba disso”.

Voltei para casa muito impressionado. Meu ídolo, o escritor do meu coração, o homem cujas virtudes intelectuais e morais eu mais prezava, aquele cuja simples proximidade me deixava paralisado de admiração, estava literalmente caindo pelas tabelas. Como podia ser isso? Eu nem tive chance de dizer o quanto ele havia sido importante para mim. Como a vida de alguém tão talentoso, tão bem-sucedido numa profissão tão difícil, casado com uma mulher linda, com filhos bem-criados, podia chegar àquele ponto? Aprendi com João Ubaldo, naquele dia, uma segunda lição: a consagração literária, na época meu maior objeto de desejo, não era garantia de felicidade coisa nenhuma, pois a vida é muito mais complicada do que isso.

E restava ainda o dilema: eu deveria ou não fazer o que ele pediu? Na época, os problemas do escritor com o alcoolismo não eram públicos. Só a família e os amigos sabiam. Se eu fizesse, ele lembraria que me pediu? Eu, com certeza, lembrava da fúria de Berenice reclamando da fotografia no jornal, e pensava como ela ficaria se eu tornasse a coisa pública. Decidi não atender àquele triste pedido. Na semana seguinte, na capa da revista Isto é, ele próprio, com a maior coragem e dignidade do mundo, anunciava o problema. E assim perdi o maior furo da minha vida como jornalista cultural e descobri que definitivamente eu não tinha estômago para a coisa. Além disso, vi que neguei a ele um socorro que ele estava precisando, o apoio do seu público e a torcida de todos para que superasse o problema.

Muitos anos se passaram, comigo acompanhando de longe sua carreira, sua entrada na Academia Brasileira de Letras, seu merecidíssimo prêmio Camões, e tendo notícias esporádicas dele e de sua recuperação do alcoolismo através do meu pai, que continuava sendo amigo, embora já não fosse o editor. Em 2011, João Ubaldo lançou um último livro, O albatroz azul. O curador da Flip, a feira literária de Paraty (RJ), sabendo de minha admiração por sua obra, convidou-me para entrevistá-lo em sua tão aguardada ida ao evento. Aceitei, mas eu havia ficado um pouco traumatizado com a experiência anterior, e fui cheio de medos.

Nossa participação seria às 19h. Nos encontramos no almoço, depois fomos ao Instituto Moreira Salles de Paraty, onde ele falou sobre a Odisseia de Homero, um de seus livros mais queridos, e em seguida dirigimo-nos ao palco principal do evento. Durante todo o tempo eu tremia de medo, assombrado pelas respostas monossilábicas da entrevista anterior, pelo medo de ele ter uma recaída e pela minha própria timidez diante do ídolo.

Nenhum dos meus pesadelos se confirmou. Ele estava numa noite ótima, bem-humorado, inteligente e afiado. Facilitou muito o meu trabalho, contando histórias e dizendo coisas tão inteligentes que, em determinado momento, vi o quanto algumas respostas melhoravam as perguntas. Eu preparara um arsenal delas, capaz de nos sustentar ali por semanas, mas não usei nem metade. A plateia o aplaudiu de pé. Eu o vi feliz outra vez, vi sua obra sendo prestigiada pela crítica novamente.

Eu me reconciliei com meu ídolo e com tudo o que ele significava para mim, estética e humanamente falando. Mas não tivemos nenhum momento mais íntimo em Paraty, o assédio sobre ele era imenso. Tempos depois, fizemos uma conversa parecida num Sesc aqui de São Paulo e, no ano passado, na Feira do Livro de Salvador, entrevistei-o de novo. Ao final da sessão, novamente muito aplaudida e terminando com ele muito assediado, uma mulher o abordou para entregar pessoalmente a tese de doutorado que escrevera sobre sua obra. A moça, uma jovem professora baiana, de tão emocionada com o encontro e com a simpatia do escritor, desatou num choro convulso, incontido, que foi a coisa mais tocante da noite. João Ubaldo ficou tímido, sem graça, mas eu achei lindo e me recriminei por nunca na vida ter demonstrado minha admiração com tanta ênfase.

Do local do evento fomos jantar, com nossas esposas e alguns amigos. Naquela noite, além da conversa deliciosa, fiquei impressionado com seu controle sobre a bebida. Ele não havia deixado inteiramente de beber, conseguira o mais difícil, isto é, beber e se controlar. Todos nós bebemos mais que ele, e ficamos em pior estado. Isso eu nunca tinha visto antes, é a maior vitória sobre o alcoolismo que conheço. Para mim, foi importantíssimo vê-lo inteiro de novo. O escritor e o homem. O modelo de primeira hora para mim, reencontrado. Foi a última vez que nos vimos.

Numa hora, discretamente, no canto de uma mesa redonda, abri meu coração para ele, falei tudo – sua importância na minha adolescência, a paralisia cerebral que sua proximidade me causava, a história da entrevista regada a guaraná e afogada nas páginas da Isto é etc. etc.

Ele, sinceramente surpreso, respondeu:

“Eu nunca soube de nada disso!”.

Incrível que nunca tenha percebido. Eu dava as maiores bandeiras… Me tranquiliza um pouco, agora que ele morreu, pensar que tive a chance e a coragem de falar. Ainda poderia ter falado mais, contado outros episódios de uma relação que, para mim, começou muito antes do que para ele, por meio dos livros. Mas falei o que deu, e agora, como a doutora literária de Salvador, já posso chorar à vontade.

Rodrigo Lacerda é escritor, autor do prefácio da nova edição de Viva o povo brasileiro (no prelo). É tradutor e editor. Seus últimos livros são A república das abelhas (Companhia das Letras, 2013) e Outra vida (Alfaguara, 2008).

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