A recuperação do cacau baiano

28 de agosto de 2014 -

Com tratos culturais corretos e clones resistentes, produtores conseguem manter vassoura-de-bruxa sob controle

Fotos Luciano Andrade, enviados especiais à região de Ilhéus.

De segundo maior produtor de cacau do mundo nos anos 1980 à sétima posição no mercado atualmente, o Brasil e principalmente o sul da Bahia – de onde saem as maiores safras brasileiras de amêndoas torradas – ainda convivem com os efeitos da devastação causada pela vassoura-de-bruxa. A doença, detectada na região em 1989, trouxe em sua esteira gravíssimas implicações econômicas, sociais e ambientais. Causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, que penetra nos frutos e provoca perdas significativas nas plantações, a doença arrasou um modo de vida e de cultura tradicionais no sul baiano – microrregião de Ilhéus e Itabuna, composta por 41 municípios, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

© Luciano AndradeFrutos em processo de amadurecimento (à esq.) e colheita manual de cacau em fazenda de Gandu, em Ilhéus.

Frutos em processo de amadurecimento (à esq.) e colheita manual de cacau em fazenda de Gandu, em Ilhéus.

Para se ter ideia dos estragos, basta comparar a queda de produção enfrentada pelos produtores baianos em pouco mais de dez anos – as quase 400 mil toneladas colhidas em 1988 despencaram para pouco menos de 100 mil em 2000. Se antes bastava plantar os pés de cacau nas clareiras abertas na região úmida recoberta por mata atlântica e esperar a época certa para colher os frutos, hoje a produção depende de tratos culturais constantes, como adubação foliar e nutrição do solo em épocas certas, controle de pragas, poda de galhos em lugares estratégicos para que a árvore receba luz na medida certa e, principalmente, de clones resistentes à doença.

Com os devidos cuidados, a vassoura-de-bruxa pode ser mantida sob controle. Mas basta encontrar um ambiente favorável para ela causar sérios estragos. Isso porque o esporo do fungo pode permanecer por muito tempo dentro da planta sem contaminá-la. “Tem que fazer tudo muito benfeito, com muito zelo, muito trabalho e seguir as etapas na época certa, além de contar com mão de obra capacitada”, diz o produtor Edmond Ganem, que tem duas fazendas, uma em Ilhéus com 30 hectares e outra em Una com 242 hectares. “A produção das duas fazendas ficará, neste ano, entre 2.300 e 3.000 arrobas. Ainda é pouco pela área cultivada, mas está em ascensão”, relata o produtor. Segundo o IBGE, a região concentra atualmente pequenas propriedades produtoras, de 20, 30 e 50 hectares. “As grandes propriedades produtoras, com 10 mil hectares, não existem mais. Se tiver, é uma ou duas”, diz Ganem, que tem na sua fazenda de Una, além do cacau, cultivos comerciais de seringueira, açaí, jequitibá-rosa, guanandi, teca, pau-brasil e diversas espécies nativas da mata atlântica.

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Amêndoas torradas, prontas para o consumo.

Os números fornecidos pela Comissão Executiva dos Planos da Lavoura Cacaueira (Ceplac), órgão do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, mostram uma recuperação gradativa da produção no sul da Bahia. “Temos observado um aumento gradual, com acréscimo na produção em cerca de 90%, nesses últimos 12 anos”, diz José Marques Pereira, coordenador de pesquisas no Centro de Pesquisas do Cacau, da Ceplac. Ele ressalta que, no início da década de 2000, a produção era de 96 mil toneladas, a mais baixa registrada após a entrada da vassoura-de-bruxa na região. Uma década depois, na safra 2010/2011, chegou a 153 mil, e na seguinte a 180 mil toneladas. A safra encerrada em abril deste ano, período 2013/2014, ficou abaixo do esperado, com 132 mil toneladas.

“A oscilação é reflexo do clima mais seco, que influi sobre a floração e a quantidade de frutos, e da maior ou menor incidência de doenças, como a vassoura-de-bruxa e a podridão parda”, diz Thomas Hartmann, analista do mercado de cacau e cacauicultor. O analista também atribui os resultados ao nível dos tratos culturais que os produtores dedicam às fazendas. “Eles ainda não têm sido tão intensos quanto deveriam por falta de condições financeiras”, relata Hartmann, dono de uma fazenda em Maraú. A estimativa para 2014/2015, segundo o analista, é de uma ligeira recuperação, com safra entre 140 mil e 150 mil toneladas. “Ainda que em ritmo lento, existe uma nítida tendência de recuperação.” A boa notícia para os produtores é que os preços do cacau estão no nível mais alto dos últimos três anos. A cotação da Bolsa de Nova York está acima de US$ 3 mil por tonelada. “O mercado externo está em alta e essa tendência aparentemente vai continuar ainda por mais uns dois meses, mas, em um futuro médio, haverá uma correção para baixo nos preços”, diz.

O movimento de recuperação da cacauicultura baiana também pode ser medido pela grande produção de mudas no Instituto Biofábrica de Cacau, em Itabuna. Diariamente são produzidas em seus viveiros de 15 mil a 20 mil mudas de cacau multiplicadas por estaquia, um meio de propagação vegetativa muito utilizado na produção de plantas ornamentais e frutíferas. O Instituto Biofábrica conta com 17 viveiros de produção, de onde saem também mudas de pau-brasil, ipê, jequitibá, jaca, teca e outras madeiras usadas em reflorestamento.

Amêndoas torradas prontas para consumo (à esq.); pé com frutos verdes e maduros(ao lado); e produção de mudas no Instituto Biofábrica de Cacau, em Itabuna (abaixo)

Pé com frutos verdes e maduros.

A batalha para dominar a vassoura-de-bruxa – doença descoberta em 1895 no Suriname e que já tinha demonstrado o seu poder de destruição ao atingir em 1920 as lavouras de cacau no Equador – passou por várias etapas desde que chegou à região. Na época os produtores baianos enfrentavam ainda uma crise com a queda do preço do cacau no mercado internacional. Inicialmente incrédulos quanto ao seu poder de devastação, muitos fazendeiros só se deram conta dos estragos após o fungo já estar instalado em suas plantações. Alguns tratos indicados para o combate à doença, como poda radical das copas ou retirada das matrizes para plantio de clones, resultaram em mais perdas para os produtores. Com isso muitos se endividaram e abandonaram suas fazendas.

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Produção de mudas no Instituto Biofábrica de Cacau, em Itabuna.

 Ao percorrer de carro as estradas rurais ao redor de Ilhéus, Itabuna, Gandu e outras regiões produtoras, constataram-se a degradação de muitas sedes de fazendas, o abandono de outras e a transformação de plantações em pastos. Por entre as nesgas de cacaueiros que se entrelaçam, é possível ver em algumas fazendas, outrora produtivas, mirrados frutos amarelos – sinal de que já estão maduros – pendurados em árvores centenárias. Ou seja, mesmo abandonadas, muitas plantações sobreviveram à vassoura-de-bruxa e continuam a produzir.

Nas plantações com tratos culturais, os frutos amarelos convivem com vermelhos e amarronzados, sinal da grande variedade de clones testados pelos produtores que apostaram no renascimento do cacau. Com o passar do tempo, os mais produtivos e resistentes foram e ainda hoje são selecionados para tomar lugar dos pés que não demonstraram aptidão para essa nova fase da cultura. Estimativas de produtores da região apontam que, atualmente, apenas cerca de 30% das fazendas continuam a produzir cacau.

Plantação em Gandu é exemplo de tratos culturais corretos, como podas conduzidas (ao lado), e sementes retiradas da polpa antes da fermentação e secagem

Plantação em Gandu é exemplo de tratos culturais corretos, como podas conduzidas (ao lado), e sementes retiradas da polpa antes da fermentação e secagem

Os cadastros do Centro de Extensão Rural da Ceplac contabilizam 35 mil produtores do fruto. “Hoje o maior problema do cacau não é a vassoura-de-bruxa, mas sim a falta de infraestrutura, de estradas rurais e de mão de obra capacitada”, diz Ganem. “Além disso, muitos produtores não conseguiram se recuperar do endividamento gerado pela crise e ficaram sem recursos para investir em novas tecnologias e na recuperação do solo esgotado pela exploração intensiva.”

A primeira fazenda foi comprada por seu pai em Una, em 1976. Após se formar técnico agrícola, Ganem voltou para a região em 1982. “Eu tinha uma vida boa”, resume sobre a fase áurea da cacauicultura. “Pagava bem os meus funcionários e ficava com uma boa sobra.” No final da década de 1980, a doença chegou às fazendas que margeiam a BR-101, a quase 100 quilômetros da sua propriedade. “Ela foi introduzida criminalmente em 1989 e se espalhou em diferentes pontos”, relata. Sete anos mais tarde, ele começou a sentir os seus efeitos. Em 1996 teve a primeira perda de produção por conta do fungo e, um ano depois, a doença já havia tomado conta de 50% a 70% de sua produção. “Eu tinha árvores prontas, produzindo, e quando chegava a vassoura levava tudo embora”, conta. O fungo age de dentro para fora, ou seja, quando a doença se manifesta na parte externa, o fruto já está podre. Ganem ainda tentou por algumas safras, mas acabou vencido pelas sucessivas perdas. “Saí da região, fiz um mestrado em gestão de negócios e procurei outra atividade porque não via mais futuro naquilo”, diz Ganem.

Numa das visitas que fez à região em 2007 encontrou-se com um amigo, que lhe contou sobre os progressos obtidos no combate à doença pelo cacauicultor Edvaldo Sampaio. Morador de Gandu, cidade próxima a Ilhéus, Sampaio formou-se em agronomia e teve como primeiro emprego um posto de técnico na Ceplac. Ao sair da instituição, ele começou a prestar consultoria para produtores da região e com o resultado dos seus acertos nos plantios alheios começou a comprar as suas fazendas. “Fui visitá-lo e assim que coloquei o pé em sua fazenda decidi que queria fazer daquele jeito, porque ele sabia o caminho”, diz Ganem.

Os ensinamentos de Edvaldo são seguidos em suas duas fazendas e citados em detalhes pelo administrador Reginald Melen. Amigo de infância de Ganem, Reginald nasceu no Congo (África), uma ex-colônia belga chamada Zaire, filho de pai belga e mãe alemã. Aos 4 anos, após a independência da ex-colônia, seus pais se mudaram para Una, no sul da Bahia, onde compraram uma fazenda e plantaram cacau. Inicialmente ele aplicou o que aprendeu com Sampaio na propriedade de Ilhéus e depois replicou na propriedade de Una, onde trabalham e moram atualmente 18 funcionários. “Eles têm casa, energia elétrica e escola rural”, relata.

O cultivo de cacau em suas fazendas – assim como na maioria das plantações da Bahia – é feito no sistema cabruca. “Esse é um processo empírico que 250 anos atrás já era adotado pelos antepassados”, diz Ganem. “Eles limpavam a mata fechada, plantavam cacau e iam tirando a madeira, mas a de lei ficava preservada”, diz. Como os preços oscilavam muito na bolsa, nos momentos de crise as madeiras nobres eram vendidas. cacau6Quando o preço do cacau retornava a um bom patamar, os fazendeiros voltavam à atividade. “Era um processo empírico que funcionava bem na região, mas foi degradado com a entrada da vassoura, porque houve uma retirada total de madeira em muitas fazendas que foram transformadas em pasto.” Posteriormente, a aprovação de um decreto federal proibiu a retirada de árvores nativas da mata atlântica. Uma nova mudança no manejo está prevista com um decreto estadual, assinado no dia 2 de junho de 2014, que regulamenta a gestão das florestas da Bahia e irá definir metas de conservação de vegetação nativa e permitir ao produtor a extração de produtos madeireiros mediante compensação.

“Não temos a cura da vassoura-de-bruxa, mas sim uma mitigação do problema baseada no manejo e na utilização de clones com maior resistência à doença”, diz o professor Gonçalo Amarante Pereira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que comprovou, por meio de pesquisas científicas, o que Edvaldo fazia empiricamente. Ele ressalta, no entanto, que a resistência dos clones tem sido quebrada com muita frequência em pouco tempo. Ou seja, o fungo caminha mais rapidamente do que as plantas resistentes. A recuperação da produção brasileira, na sua avaliação, é baseada no conhecimento. Não existe, no entanto, solução definitiva para a praga, porque “o fungo sempre consegue ir mais rápido do que a planta”, diz o pesquisador nascido em Salvador, dono de duas fazendas produtoras de cacau na região.

026-033_Cacau INFO_2Pereira foi um dos artífices dessa produção de conhecimento. Em 2000, como coordenador do Laboratório de Genômica e Expressão do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele organizou uma rede de pesquisa para estudar o genoma da planta e do fungo causador da vassoura-de-bruxa nas culturas do sul da Bahia. Participaram da empreitada, financiada inicialmente pela Secretaria Estadual de Agricultura da Bahia, com R$ 1,3 milhão, verba depois complementada com R$ 1 milhão do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus, a  Universidade Estadual de Feira de Santana, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Recursos Genéticos e Biotecnologia.

Pereira formou-se em engenharia agronômica pela UFBA em 1987, portanto no auge da produção cacaueira. Com mestrado em genética pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), doutorado em genética molecular pela Universidade de Dusseldorf, na Alemanha, e pós-doutorado no Instituto de Química da USP, ele participou do grupo de pesquisa responsável pelo sequenciamento do genoma da Xylella fastidiosa, causadora de uma doença que devastava as plantações de citros, principalmente no estado de São Paulo. No final de 2001, junto com dois sócios, comprou uma fazenda de 900 hectares em Ilhéus, que durante um período funcionou como uma extensão do seu laboratório na Unicamp.

cacau7Credenciais para liderar a rede de pesquisa que tinha como objetivo descobrir os mecanismos de atuação da doença para ajudar a combatê-la ele tinha de sobra. “A partir do entendimento dos genes do fungo, começamos a estudar o funcionamento da doença”, relata Pereira. Em 2006, quando alguns artigos já haviam sido publicados pelos pesquisadores da rede explicando o modo de ação do fungo, o caminho de Gonçalo Pereira e o de Edvaldo Sampaio se cruzaram, por meio de uma lista de discussão sobre o cacau na internet, da qual participavam pesquisadores, produtores e compradores do produto, além de interessados no tema. Muitas das descobertas de manejo cultural para o fruto feitas por Sampaio foram depois corroboradas com explicações científicas pela equipe de

Lesão irregular na casca do cacau é sinal de invasão da vassoura-de-bruxa (acima) e parte interna do fruto totalmente tomada pelo fungo

Lesão irregular na casca do cacau é sinal de invasão da vassoura-de-bruxa (acima) e parte interna do fruto totalmente tomada pelo fungo

Pereira. Apesar de parecer que muitas foram ao acaso, os relatos de quem o conheceu mostram que ele era um observador nato e um fazendeiro que vivia o dia a dia junto com os trabalhadores no campo. Descrito como audacioso e polêmico, Sampaio morreu em março de 2013, mas deixou seguidores. Um dos seus filhos, Rogério Sampaio, cuida das quatro fazendas que ele deixou e de mais duas que comprou com os mesmos cuidados que aprendeu no dia a dia convivendo com o pai, que são explicados em minúcias para os interessados em conhecê-los. Diariamente, Rogério sai da cidade de Gandu, onde mora, para percorrer as fazendas e acompanhar de perto a rotina dos trabalhadores nas roças de cacau.

Uma das descobertas de Sampaio, confirmadas depois por Pereira, refere-se à antecipação da época das podas dos pés de cacau, que na Bahia eram feitas tradicionalmente entre janeiro e março, quando não havia produção. “Meu pai gostava de veranear nesse período e adiantava a poda entre setembro e dezembro”, relata Rogério, considerado herdeiro do seu legado. O outro filho de Edvaldo, Danilo, também replica em sua fazenda os ensinamentos do pai. Como a reprodução do microrganismo costuma acompanhar o ciclo reprodutivo do cacaueiro, a antecipação fez com que essa interação fosse quebrada, dificultando o trabalho do fungo em se espalhar. “Sampaio descobriu que havia uma sincronização muito forte da planta com o fungo quando a forçou a adiantar o seu ciclo”, relata Pereira.

Outra observação importante feita por Sampaio e corroborada pelas pesquisas é que, ao deixar de jogar a ureia (fertilizante nitrogenado) nas plantações no fim de março, quando começavam as chuvas fortes na região, houve um grande aumento da vassoura-de-bruxa. “Por meio de nossos estudos, observamos que na fase em que o fungo causava a doença parecia que ele estava com ausência de oxigênio”, diz Pereira. Realmente isso faz parte da estratégia de sobrevivência do fungo para resistir ao ataque da planta hospedeira e aos mais potentes fungicidas do mercado. “Na fase inicial da infecção, a planta tenta deter a ação do invasor liberando grandes quantidades de óxido nítrico, substância capaz de bloquear a cadeia respiratória do fungo”, relata Pereira. Para resistir ao ataque, o microrganismo ativa uma enzima, chamada oxidase alternativa, que garante a sua sobrevivência. “Como a respiração do fungo é bloqueada, ele recorre a uma respiração alternativa, em que suas células produzem menos energia, mas que tem a capacidade de detoxificação, de forma que as substâncias tóxicas acabam matando a planta, e não ele”, explica.

“O fungo permanece latente na fase biotrófica, quando está dentro da planta viva, e depois, com a morte do ramo infectado, a produção de óxido nítrico cessa e ele entra na segunda fase, chamada necrotrófica, em que se alimenta do tecido morto, cresce rapidamente e coloniza toda a planta”, relata Daniela Thomazella, que entrou no projeto durante a sua iniciação científica e pesquisou os mecanismos de atuação do fungo durante o seu doutorado na Unicamp, orientado por Gonçalo Pereira. Ao tratar o fungo com fungicida comercial, os pesquisadores descobriram que ele induzia uma resposta da enzima, mas apenas após a doença ter se instalado. “Foi quando tivemos a ideia de usar um químico de laboratório, inibidor da oxidase alternativa, que conseguiu bloquear o desenvolvimento do fungo em ambas as fases”, explica Daniela.

Os pesquisadores testaram uma combinação de princípios ativos – azoxistrobina e ácido salicil-hidroxâmico – capazes de inibir simultaneamente os dois mecanismos respiratórios da praga. Embora tenha se mostrado promissora nos testes de laboratório, essa combinação de moléculas não pode ser usada como um fungicida comercial porque a fórmula é instável e se degrada com facilidade. Por isso, atualmente a equipe de Gonçalo Pereira está trabalhando em um projeto para desenvolver uma droga capaz de bloquear a enzima oxidase alternativa. “Se conseguirmos isso, será a primeira vez no Brasil que se desenvolve um agroquímico especializado”, ressalta. A mesma enzima está presente em uma série de fungos tropicais, como a ferrugem da soja e do café.

Pelas suas pesquisas, Daniela foi contemplada com uma bolsa de pós-doutorado nos Estados Unidos, com duração de dois anos, dentro do prestigioso Programa Pew Charitable Trusts. A partir de setembro deste ano, ela começará a trabalhar no laboratório de Brian Staskawicz, pesquisador da Universidade de Berkeley, na Califórnia, que fez descobertas importantes na área de biologia de plantas e microrganismos.

A interação entre o cacau e o patógeno causador da vassoura-de-bruxa também é o tema de pesquisas coordenadas pelo professor Carlos Priminho Pirovani, do Departamento de Ciências Biológicas, Genética e Bioquímica da Uesc. Aluno de doutorado de Gonçalo Pereira, o tema de sua tese, defendida em 2008, foi a identificação e caracterização de genes expressos no espaço intercelular de folhas de cacau em resposta ao fungo M. perniciosa. Desde 1999 trabalha na universidade como professor e atualmente também orienta alunos no programa de pós-graduação em genética e biologia molecular. A principal linha de pesquisas que coordena é na área de proteômica, em que a interação entre planta e fungo é vista em nível molecular. “O banco de dados do genoma do cacau foi utilizado como um disparador para uma série de pesquisas na área molecular”, relata. “Desde o sequenciamento do genoma para cá, as pesquisas avançaram muito e agora estamos entrando em novas abordagens genômicas, que permitirão avanços biotecnológicos para a cacauicultura.”

Um sequenciador de última geração, comprado recentemente pela universidade, irá contribuir para os estudos de genômica funcional da planta e do patógeno em diferentes condições. “As pesquisas em proteômica dependem de bancos de dados robustos para identificação das proteínas nas amostras”, relata. “Só neste último ano identificamos em torno de 2.600 proteínas que envolvem o fungo e a planta”, diz Pirovani. Um dos projetos que coordena atualmente, “Proteômica da interação cacau-Moniliophthora perniciosa e estudos funcionais de genes: alvos e produtos”, foi aprovado no âmbito do Programa de Apoio a Núcleos Emergentes (Pronem), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) no valor de R$ 467.800,00. “Estamos caracterizando mecanismos de defesa pré-infeccionais do cacau, disparados antes de o patógeno invadir o tecido da planta”, diz.

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