Amigos que se vão, saudades que ficam

28 de agosto de 2014 -

“Tarde na várzea com chuva

A João Ubaldo Ribeiro

(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)

A chuva há de passar… De quando em quando,
um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.

Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo aos ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tia ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”

Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.

É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.

Salvador, Bahia, dezembro de 2012″

Integrantes da Geração Mapa: João Ubaldo; Glauber Rocha; Calasans Neto (artista plástico, no centro); Sante Scaldaferri (artista plástico) e Paulo Gil Soares (cineasta e jornalista)

Integrantes da
Geração Mapa:
João Ubaldo; Glauber
Rocha; Calasans Neto
(artista plástico,
no centro); Sante
Scaldaferri (artista
plástico) e
Paulo Gil Soares
(cineasta e jornalista)

Hoje estou triste. Logo cedo, fui acordado com um telefonema de Luiz Antonio Cajazeira Ramos anunciando súbita morte de um amigo de grandes recordações, o escritor e membro da Academia Brasileira de Letras (e da baiana), João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores prosadores e romancistas brasileiros, com quem convivi intensamente, quando ele vivia em Salvador, nos anos 1960 e parte dos 1970. Tenho a honra de, estando uma noite na sala de trabalho e leitura de seu apartamento na rua Oito de Dezembro (Graça), ouvir, narrado por ele, o primeiro capítulo de seu primeiro romance, Sargento Getúlio, para que eu dissesse o que pensava do que escrevera, que seria, logo que publicado, a sua primeira reconhecida obra-prima. Lá, na sala, de silêncio e pouca luz, conversávamos bastante, em papos levados a uísque nacional, sobre literatura e assuntos vários, ouvindo jazz, ou então uma gravação com o saudoso capoeirista Canjiquinha, da então Sutursa, cantando clássicos do folclore da capoeira baiana. Era um dos integrantes da Geração Mapa, aderente ao movimento artístico e literário, por ser um dos bem mais jovens, mais jovem até do que Glauber Rocha, nosso líder. Ano passado, mandei-lhe um poema inédito, a ele dedicado, onde está: “A João Ubaldo Ribeiro”. “Não existe poesia sem infância”, ele disse. Recordava uma frase que ele dissera certa vez numa entrevista à revista Playboy, que ele não mais lembrava… Grande escritor, grande saudade, de inesquecível amigo e de excelente “causeur”, em papos infindáveis. Ano passado fez um bonito discurso, ao tomar posse na Academia de Letras da Bahia, descrevendo o que era a Bahia e o sentir-se baiano. Neste ano, em janeiro, houve festa na comemoração de seus 73 anos de idade, na sua amada Itaparica, seu ícone existencial. Que as luzes e a paz sejam o seu eterno emblema.

Texto publicado no Facebook em 18 de julho de 2014

* Florisvaldo Mattos é poeta, jornalista e foi professor da Facom-UFBA

 

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