Do picadeiro ao teatro

28 de agosto de 2014 -

Luana Serrat, coordenadora da Escola Picolino, recebe o Prêmio Fundação Bunge por contribuição às artes circenses 

Luana Tamaoki Serrat tem 32 anos – e dedicou todos eles ao circo. Conta a lenda que mesmo antes de nascer esteve em apresentações dentro da barriga da mãe, malabarista e equilibrista. A estreia involuntária no picadeiro se deu aos 2 meses de idade, nos braços de um palhaço chamado Pinguim. Aprendeu a engatinhar nos tapetes da Academia Piolin de Artes Circenses, em São Paulo, e deu cambalhotas antes de arriscar os primeiros passos. Aos 4 anos, em 1985, deixou a capital paulista e se mudou com a família para Salvador – seus pais, Anselmo Serrat e Verônica Tamaoki, fundaram a Escola Picolino, hoje uma referência em artes circenses, que funciona numa lona no bairro de Pituaçu e já formou mais de 2 mil crianças e adolescentes em cursos de acrobacia, dança, iluminação, teatro e trapézio, entre outros. Aos 5 anos, Luana estreou como contorcionista e, dois anos depois, fez a primeira apresentação internacional, num encontro de crianças de circo na França.

O tempo passou, Luana formou-se instrutora circense na Escola Picolino (da qual, hoje, além de herdeira, é coordenadora artística) e se graduou em interpretação teatral pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nos últimos tempos, ela fundou duas companhias circenses, dirigiu vários espetáculos e teve um filho, Otto, que aos 3 anos de idade já segue seus passos. A trajetória da atriz circense e diretora teve um reconhecimento de peso no dia 25 de julho. Luana foi um dos ganhadores do 59º Prêmio Fundação Bunge, categoria Juventude, que neste ano agraciou profissionais de destaque nas artes circenses – na outra categoria, denominada Vida e Obra, o vencedor foi o palhaço e diretor Hugo Possolo, 52 anos, criador do grupo Parlapatões. O anúncio foi feito logo após a reunião do júri do prêmio, formado por reitores de universidades e presidentes de entidades científicas e culturais. Luana receberá um prêmio de R$ 50 mil e uma medalha de prata numa cerimônia que vai acontecer no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado de São Paulo, no dia 22 de setembro. Criado em 1955 com o nome de prêmio Moinho Santista, o Prêmio Fundação Bunge é um dos mais importantes do país, por reconhecer a importância de profissionais que contribuem para o desenvolvimento da cultura e da ciência. Entre os ganhadores estão nomes como a escritora Ligia Fagundes Telles,  a arqueóloga Niède Guidon e o bioquímico Isaias Raw.

Luana (à frente) no espetáculo de circo, teatro em dança Delirios Refletidos (2014), baseado em conto de Guimarães Rosa

Luana (à frente) no espetáculo de circo, teatro em dança Delirios Refletidos (2014), baseado em conto de Guimarães Rosa

Considerada uma das mais completas artistas circenses da atualidade, Luana Serrat foi indicada pela Escola de Teatro da UFBA e pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo em reconhecimento a uma atuação que aproxima elementos do teatro e do circo. Segundo o júri do prêmio Fundação Bunge, a escolha se deveu pelo seu trabalho inovador, que integra o circo tradicional e o contemporâneo e mantém referências ao Nordeste brasileiro. Em 2008, o talento de Luana pôde ser conferido na televisão aberta, num quadro do programa Domingão do Faustão. Ela foi a professora e parceira do ator Cássio Reis em cinco apresentações de um quadro em que artistas e celebridades eram desafiados a se exibir em performances circenses. A dupla Reis e Luana venceu o desafio que reuniu outros seis artistas competidores, graças a números que envolveram mágica, acrobacia, tecido aéreo, equilibrismo e trapézio.

Luana afirma que o prêmio da Fundação Bunge vem num momento especial. “Este ano tem sido muito especial em termos de trabalho. Conseguimos sair em turnê com dois espetáculos”, diz. Um dos grupos que lidera, a Cia Luana Serrat, foi contemplado no edital Artes em todas as Partes, da Fundação Gregório de Mattos, da prefeitura de Salvador, e levou o espetáculo Moças Aéreas ao Festival Internacional de Circo, no Rio de Janeiro. Encenado desde 2011 na Bahia com alunas da Escola Picolino, o Moças Aéreas reúne num picadeiro mulheres de várias idades para representar o universo das aeromoças e das acrobatas de circo que, em comum, vivem nas alturas. A criação é resultado de uma experiência como instrutora de tecido acrobático, técnica em que Luana é uma das pioneiras na Bahia, na qual o acrobata faz seus movimentos deslizando num tecido preso no alto a uma barra de ferro.

Também levou o espetáculo circense A Rádio do seu Coração à Virada Cultural Paulista e a apresentações no Teatro Oficina, em São Paulo, e agora segue para uma turnê em cidades do interior paulista. Montado pela grupo Fulanas Cia. de Circo, fundado por Luana e a trapezista Nana Porto, retrata a história da época de ouro do rádio narrada por duas mulheres que sofrem de amor e fazem peripécias aéreas no trapézio duplo e fazendo contorcionismo. Contemplada no Edital Setorial de Circo, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), a montagem estreou em 2008, quando a Fulanas Cia. de Circo ganhou o Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo, da Funarte. O grupo também levou aos palcos neste ano o espetáculo Delírios Refletidos, inspirado no conto O Espelho, de Guimarães Rosa. Com Luana e Bia Simões no elenco, conta a história de duas mulheres que realizam um encontro lúdico com a luz e a sombra de si mesmas, ao perceberem suas imagens refletidas no espelho. “O reconhecimento da Fundação Bunge mostra que estamos no caminho certo”, diz Luana. Mas ela também destaca a importância do prêmio em dinheiro. “Estamos sempre fazendo milagres para produzir espetáculos. Continuo na equipe de coordenação da Escola Picolino, que vive um momento difícil. Estamos em campanha para comprar uma lona nova, porque a lona principal estragou”, diz Luana.

 

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