Duas lembranças e um clube de ciências inesquecível

28 de agosto de 2014 -

O professor Silvany Filho assumiu o curso de embriologia para minha turma em 1965. No ano seguinte, levou para o Hospital Aristides Maltez os alunos que mais se aproximaram dele: Roque Andrade, hoje renomado quimioterapeuta, ex-presidente da Associação Baiana de Medicina (ABM); Augusto Castilho, residente em Manaus e patologista, certamente por influência do professor Silvany; José Francisco da Silva, que viveu muitos anos em Campinas (SP) e hoje é o diretor do laboratório de patologia clínica do Hospital Aliança; acho Gilson Feitosa, também de nossa turma, professor de clínica médica da Escola Bahiana e renomado cardiologista;  e Robson Souza, jornalista de formação, que iniciou com Silvany seu percurso como patologista e que vive hoje, salvo engano, em São Paulo.

Não posso me deixar de fora! Em 1966, fui com mais alguns colegas, contratado como auxiliar acadêmico, o que nos permitiu dedicar mais tempo e organizar o Clube de Ciências. Nós de medicina, como estávamos saindo do curso de anatomia e entrando na fisiologia, nos responsabilizamos por estas “matérias”. Assim, anestesiamos inúmeros camundongos e vimos seus pequenos corações e pulmões funcionando, sob o olhar maravilhado de “nossos alunos”. Evidentemente, raramente aqueles pequenos camundongos escapavam da morte!

O estudante de física Carlos Eduardo Veloso de Almeida (conhecido na Bahia como um dos rapazes mais bonitos da terra, tinha o apelido de Cacuá, provavelmente corruptela de seu nome, pronunciado por sua irmã mais nova). Carlos Eduardo dedicou-se à cancerologia e à física das radiações, tendo sido diretor do Instituto Nacional de Física. Foi um dos 50 cientistas homenageados na Europa por sua contribuição ao tratamento radioterápico. Após sua aposentadoria, fez concurso para a UERJ, onde mantém importante laboratório de pesquisa.

Talvez valha lembrar que o Clube de Ciências foi para nós, estudantes de medicina, o ponto de partida para inúmeros trabalhos. Daí surgiu, mais tarde, a proposta de realização do I Encontro Científico de Estudantes de Medicina (Ecem), realizado em 1969 sob minha presidência, certamente o mais importante evento estudantil durante período difícil da história do Brasil. Finalmente, lembro-me que Silvany organizava verdadeiras excursões pelas praias e em seu sítio Caratinga, em Itacimirim, para observação de organismos marinhos e vegetais. Para surpresa de Silvany, em 1968 decidi que minha vida profissional seria na psiquiatria, deixando a cirurgia iniciada com Lair Ribeiro, Carlos Maltez, Coracy Bessa e Adriano Gordilho. Creio que merece ser mencionado o apoio irrestrito que o diretor do Hospital Aristides Maltez, doutor Luiz de Oliveira Neves, emprestou a todas as iniciativas acadêmicas do professor Aníbal Muniz Silvany Filho.

É o que me lembro.

Antonio Nery Filho

Professor Associado IV da Faculdade de Medicina da UFBA (aposentado)

 

Silvany conversando com alunos da Medicina que faziam parte do Clube de Ciências

Silvany conversando com alunos da Medicina
que faziam parte do Clube de Ciências

O Clube de Ciências foi organizado pelo doutor Aníbal Muniz Silvany Filho, médico patologista que era também um educador e vivia cercado de estudantes de medicina. Seus dois filhos, Aníbal Neto e Eugenia Cristina Silva Silvany, estudaram no Colégio de Aplicação da UFBA. Eugênia foi minha colega desde o curso primário [primeiros cinco anos do atual curso fundamental] no Colégio Pedro Calmon, no Matatu. Doutor Silvany queria desenvolver a curiosidade científica em estudantes secundaristas e teve a ideia de organizar esse clube. Convidou colegas de Eugenia e de Neto do Aplicação – daí a participação de Márcia Porto, de Rivane e minha, colegas dela, e de Paulo Costa Lima e Chico Santos Pereira, colegas de Neto. Também havia filhos de outros médicos amigos de Silvany, como Angela Garcez Senna. Nossos professores no Clube eram os estudantes de medicina Robson Souza, Antonio Nery, Jairnilson Paim e, de física, Cacuá [Carlos Eduardo Veloso de Almeida].

Todos os sábados, íamos ao Hospital Aristides Maltez para ter aulas práticas de biologia, dissecando animais de pequeno porte. Íamos a praias observar as algas e animais. A ida ao cais do porto, creio que estava ligada a alguma aula prática de física, já não lembramos muito bem. As aulas eram de química, física e biologia.

Desse grupo, vários vieram a cursar medicina, como Paulo Costa Lima, Maria Romilda e Angela Garcez. Márcia Porto fez inicialmente engenharia e depois medicina. Paulo Lima abandonou o curso de medicina e foi ser músico e compositor com uma trajetória acadêmica importante. Eu fiz inicialmente uma residência em anatomia patológica e meu trabalho de iniciação científica foi nessa área, numa clara influência do Clube de Ciências. Em seu memorial para o concurso de titular, em 2001, Jairnilson diz que também a experiência do clube foi importante para ele.

Ligia Maria Vieira da Silva

Professora Associada do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA (aposentada)

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