Um líder de concretas criações

28 de agosto de 2014 -
© Leo RamosRoberto Figueira Santos

Roberto Figueira Santos

Ao falar de seu trajeto, da pesquisa na área médica às altas esferas da política, o ex-governador reflete sobre a construção do Brasil contemporâneo e desvela uma Bahia fundamental na formulação de futuros 

Um senhor de notável elegância em suas roupas bem cortadas segura com naturalidade na mão direita a bengala que lhe dá apoio na caminhada. É fácil notar a seguir seu sorriso afável com vocação para tornar-se caloroso riso aberto e eventualmente se transmutar em sonora gargalhada, as palavras leves e bem medidas que capturam delicada e rapidamente a atenção do interlocutor, e o intenso azul das íris espantosamente cristalinas por trás dos óculos que não conseguem barrar uma singular mistura de acuidade, inteligência, autoridade e determinação do olhar. Toda a gestalt, digamos assim, ali apresentada de chofre, sugere que se está diante de um líder formado para se exercer como tal por toda a vida.

Roberto Figueira Santos, é ele o personagem, 88 anos a serem completados em 15 de setembro próximo, é, entre outras qualificações, uma referência viva sem competidores quando se trata do tema da produção do conhecimento científico e tecnológico na Bahia. De todo modo, sua rica e multifacetada biografia permite que se tome, ao gosto de cada um, uma multiplicidade de pontos de partida na intenção de apresentá-lo. A seu próprio juízo, por exemplo, duas construções marcam mais profundamente que outras seu trajeto pela vida e pelo mundo: primeiro, ter formado novas gerações de médicos, “instilando neles o gosto pela pesquisa científica”; em segundo lugar, “haver gerado e iniciado a formação de meia dúzia de baianas e baianos, também brasileiras e brasileiros, que por sua vez estão gerando outras e outros que irão enfrentar o futuro que a Deus pertence”. É uma forma de enfatizar com inegável graça seus papéis de mestre e de pai atento e amoroso de 6 filhos, ou, se preferirmos ainda, seu exercício essencial de líder nas esferas intelectual, educativa e afetiva.

Originário de uma tradicional família da elite baiana, filho do fundador da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Edgard Rego dos Santos, e de Carmen Figueira Santos, casado por cerca de meio século com Maria Amélia Menezes Santos, de quem ficou viúvo em 2010, Roberto Santos foi reitor da UFBA, governador da Bahia, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e ministro da Saúde, entre outras funções proeminentes que exerceu. Ocupou cargos políticos relevantes nos anos da ditadura mantendo-se ao largo e na ignorância, ressalta, dos métodos violentos adotados pelo regime militar para esmagar toda e qualquer oposição ou contestação. Transitou para a redemocratização ao lado de Tancredo Neves, atuando na formação do Partido Popular, integrou-se adiante ao PMDB, posteriormente ao PSDB, e tem uma interlocução tranquila e aberta com o governador Jacques Wagner e outros políticos do PT. Não são poucos, na verdade, os admiradores e amigos de Roberto Santos que estiveram em campo oposto àquele em que se dava sua ação política e administrativa em muitos momentos do passado.

Culto, a curiosidade intelectual estendida sobre amplos domínios, sempre às voltas com a leitura em paralelo de pelo menos três diferentes livros e ardoroso devorador de boas biografias, sua formação de pesquisador científico da área médica foi sólida e sofisticada. Ela incluiu três anos nos Estados Unidos, especialmente no Massachusetts General Hospital da Universidade Harvard, onde trabalhou com temas então de ponta do metabolismo hidromineral humano e, entusiasta da aventura do conhecimento, não viu problema em fazer-se cobaia de um pequeno experimento — o que minimiza sob a ponderação de que isso era muito comum na época. Adiante, Inglaterra, Alemanha e França entrariam no circuito de sua formação contínua.

Roberto Santos, com todo o seu conhecimento do campo, tem uma visão crítica aguda do processo de desenvolvimento científico no Brasil, onde vê largamente a emergência de uma ciência que apenas faz acréscimos ao conhecimento já estabelecido, é pobre em ideias inovadoras e em sua articulação com o processo de inovação no setor produtivo. Uma chave central para transformar isso, em sua visão, sempre esteve no âmbito da educação, e não é gratuito, assim, que sua criação mais recente, a Academia de Ciências da Bahia, fundada em 2010 e da qual é presidente, tenha na educação das crianças para a ciência um norte fundamental.

A entrevista a seguir, concedida especialmente para a Bahiaciência, aprofunda algumas questões abordadas 10 anos antes para a revista Pesquisa Fapesp (revistapesquisa.fapesp.br/2004/11/01/observacoes-de-um-espectador-engajado/) e trata de forma sintética temas mais largamente esmiuçados em uma série de conversas gravadas em 2012 e 2013 (e que deverão ter em breve aproveitamento adequado). Registre-se a propósito que, a par de outras características que o tornam a personalidade que é, com sua poderosa coerência e humanas contradições, o professor Roberto Figueira Santos domina como poucos a arte de narrar histórias e conversar descortinando mundos para o interlocutor.

Vamos começar pela Academia de Ciências da Bahia. Como foi criar essa academia em 2010?

O que me levou a cogitar a criação de uma Academia de Ciências na Bahia foi uma motivação de várias décadas: contribuir para maior evidência da participação dos institutos básicos dentro da universidade. Uma retrospectiva histórica permite esclarecer melhor essa questão.

Antes da retrospectiva, o senhor nos diria como funciona a instituição?

A Academia está com 54 membros, todos pesquisadores em algum ramo da ciência. Aos poucos constituímos também um grupo com personalidades da filosofia e das artes, e isso nos levou, em seguida, à formação de novos grupos. Por exemplo, o tema do ensino das ciências no nível fundamental despertou muito interesse, e formou-se um grupo a esse respeito. Tomou corpo no Brasil ultimamente a ideia de que o país tem pouco trabalho que represente inovação em comparação ao que aconteceu com a produção científica. Medida em publicação de artigos em periódicos e livros, esta cresceu muito. O número de patentes resultantes de ideias inovadoras que tiveram sucesso em empreendimentos econômicos é muito menos frequente que o número de pesquisas em ciência que apenas complementam trabalhos já feitos e que não representam, portanto, avanço. Assim, entendemos que para o Brasil se tornar mais inovador na pesquisa científica é preciso que a formação do futuro cientista nesse sentido inovador ocorra desde os primeiros tempos de escola, quando se pode incutir num grande número de brasileiros a vontade de inovar. E então, quando eles chegarem à idade de trabalhar com a aplicação dos princípios científicos,  teremos uma chance maior de ver aparecerem ideias verdadeiramente inovadoras.

Por que é difícil que as ideias verdadeiramente inovadoras ganhem corpo?

Se olharmos para a pesquisa no ambiente baiano, vemos que uma criatividade muito grande logo se manifestou no campo das artes – da música, da dança, do teatro e de outras expressões da atividade artística – e que ela não foi tão intensa no campo das ciências, embora tenhamos, sobretudo na área de saúde, alguns pesquisadores que se destacaram. Nos anos 50 do século XIX, entre 1856 e 1857, surgiu na Bahia a primeira revista científica, a Gazeta Médica da Bahia, que perdurou por várias décadas, depois foi interrompida, atravessou uma segunda fase de publicação e sofreu depois uma nova interrupção. Assim, a pesquisa em saúde foi precoce, especialmente em virtude da projeção da nossa Faculdade de Medicina desde o começo dos oitocentos. Os números da Gazeta Médica da Bahia, hoje digitalizados e disponíveis na internet, mostram que muitos dos primeiros pesquisadores descreveram doenças incidentes na Bahia antes descritas em outros lugares — portanto, eram pesquisas não tão inovadoras. Mas um deles, [Manuel Augusto] Pirajá da Silva, sustentou por meio de trabalhos realmente inovadores uma intensa polêmica com alguns tropicalistas internacionalmente reconhecidos sobre a espécie de schistosoma que existia na Bahia. Eles entendiam que se tratava apenas de uma variedade do que já tinha sido descrito no Egito enquanto Pirajá da Silva sustentou que eram duas espécies diferentes: o Schistosoma japonicum e o Schistosoma mansoni, muito espalhado na Bahia. Por muito tempo aqui era comum se encontrar, nos hospitais que recolhiam os doentes mais graves, pacientes com a forma avançada da esquistossomose desse segundo tipo, incidente com muita frequência no sistema porta da circulação que atinge o fígado. E era igualmente frequente um tipo de cirrose resultante dessa hipertensão portal, que levava inclusive à hematêmese, vômito de sangue. Isso já não é visto com tanta frequência nos hospitais, embora a incidência de Schistosoma mansoni continue bastante alta no estado, mesmo na vizinhança de Salvador. Mas ela vem sendo tratada em suas fases iniciais e as pessoas estão comendo melhor, então há provavelmente um fator nutricional associado à redução notada.

A Academia de Ciências da Bahia foi criada com o apoio da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, a Fieb.Como está hoje essa articulação?

Inauguramos a Academia na sede da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb). Seu presidente era José de Freitas Mascarenhas, um grande realizador que teve a seus cuidados, nos anos 1970, a organização do Polo Petroquímico de Camaçari, de enorme importância para o estado. Na verdade, o Polo seguiu desempenhando pelos anos afora seu papel transformador na economia baiana, uma vez que, a partir do complexo petroquímico, surgiram várias outras indústrias que transformaram Camaçari num polo industrial muito mais abrangente. O modo como a Fieb foi conduzida até recentemente resultou na criação do Cimatec [Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia], que tem levado adiante a modernização dos equipamentos destinados ao aproveitamento da ciência na indústria. Sob a gestão de Mascarenhas foram instalados, por exemplo, o Instituto Brasileiro de Robótica e três supercomputadores no complexo Senai Cimatec, dois deles com apoio da Petrobras, que são os de maior capacidade de processamento da América do Sul. O Cimatec começou formando artesãos e técnicos no nível secundário de educação e cresceu a ponto de criar uma Faculdade de Engenharia e até implantar mestrado e doutorado nas áreas científicas. Houve muita colaboração entre a Academia e a Federação.

Como a Academia apresenta os resultados de seu trabalho?

Publicamos três livros de memórias, um por ano, e um quarto está sendo preparado para sair no começo de 2015. Neles se tem uma visão das atividades da Academia: as palestras, em sua maioria proferidas por acadêmicos convidados das áreas dos setores básicos do conhecimento, e os simpósios e seminários. Tema de grande evidência, como a ética na ciência, já mereceu a publicação de um livro [ver resenha na página 73] com a participação de vários membros da Academia.

entrevista 2   Poderíamos passar à retrospectiva histórica a que o senhor se referiu no começo?

Sim. Durante mais de 300 anos, desde o descobrimento do Brasil, a Metrópole Portuguesa impediu a criação de universidades em seu território. O assunto só foi acolhido pela Corte Portuguesa quando o regente Dom João chegou ao Brasil, em 1808. E só em 1934 surgiria a primeira universidade no país, a Universidade de São Paulo (USP). Não bastasse essa carência, foi muito reduzido o número de profissionais que frequentaram escola superior na Europa e vieram para cá. Assim, houve grande escassez de profissionais de nível superior no Brasil ao longo dos referidos 300 anos. Por isso as primeiras escolas superiores aqui formadas se destinaram a suprir essa falta. Em 1808 foram criadas as primeiras escolas na área da saúde – a de Cirurgia no Real Hospital Militar da Bahia em fevereiro, enquanto a família real estava em Salvador, e em novembro a de Medicina no Rio de Janeiro, que era desde 1763 a sede do governo central da colônia. Pouco depois se formaram as duas primeiras Faculdades de Direito, uma em Olinda e outra em São Paulo. E, mais tarde, criou-se no Rio de Janeiro a Escola Central do Exército, destinada a formar militares, porém oferecendo cursos equivalentes aos de uma escola politécnica. Todas ofereciam o ensino dos setores básicos do conhecimento necessários à compreensão das práticas necessárias ao futuro profissional e, em seguida, no mesmo currículo, as disciplinas profissionalizantes. Isto perdurou ao longo do século XIX e na maior parte do século XX, quando todas as escolas criadas no Brasil tiveram esse feitio. Houve várias tentativas de criação de universidades desde o século XIX, que não foram adiante. Em 1934 o governo do Estado de São Paulo criou a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e, na mesma época, a Universidade de São Paulo (USP). Por acaso isso se deu numa época propícia à vinda de personalidades mundiais de excepcional valor, em razão das perseguições aos israelitas na Alemanha nazista de Adolf Hitler e na Itália fascista de Benito Mussolini. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo formou professores para o ensino básico e iniciou a formação de pesquisadores nos setores básicos do conhecimento (matemática, física, química, geociências, ciências humanas, letras, filosofia), o que teve importância decisiva na educação superior no Brasil. Outras Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras foram implantadas em vários estados, nas quais era ministrado o ensino e se realizavam pesquisas nas disciplinas referentes aos citados setores básicos do conhecimento. A seguir, em algumas cidades do Brasil, foram implantadas universidades pela aglutinação de faculdades até então isoladas. As universidades da Bahia e de Pernambuco datam de 1946.

A da Bahia com seu pai, o professor Edgard Santos, à frente do processo.

Exatamente. Ele foi fundador e primeiro reitor de nossa primeira universidade federal. Mas houve um precursor, na pessoa de Ernesto Souza Campos, professor de microbiologia da USP, que tinha o título de doutor em medicina preventiva pela famosa Universidade John Hopkins. O professor Gustavo Capanema, que ocupou o cargo de Ministro da Educação no governo Vargas, valeu-se muito do professor Souza Campos como assessor de altíssimo nível para as iniciativas nas áreas acadêmicas ligadas à saúde, inclusive quando da criação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Bahia, hoje Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES). O Professor Souza Campos foi trazido à Bahia em 1935, quando meu pai era diretor da Faculdade de Medicina, e se tornou, desde então, um profundo conhecedor da situação do ensino superior na Bahia. A pedra fundamental do Hospital das Clínicas foi lançada em 1938 e só 10 anos mais tarde ocorreu a sua inauguração.

Há um fio que liga esse processo à sua motivação para criar a Academia de Ciências da Bahia?

Sim, o meu entendimento sobre a formação do ensino superior no Brasil. Considero um problema fundamental que as escolas superiores destinadas a formar profissionais, mesmo depois da constituição das universidades, tenham continuado a abrigar o ensino dos setores básicos do conhecimento, juntamente com o das disciplinas referentes às práticas das profissões que exigem nível superior de educação. Assim, na Bahia, por exemplo, havia cátedras de matemática na Escola Politécnica e outras nas Faculdades de Arquitetura, Economia, e mais outras na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Dessa forma, as cátedras de matemática eram distribuídas em várias faculdades e não adquiriram massa crítica para a pós-graduação stricto sensu (títulos de mestre e doutor) nem para a formação de pesquisadores e a realização de atividades de pesquisa. O mesmo se aplicava à física, à química, à biologia básica, às geociências, às ciências humanas e às letras.

Mas essa era, na verdade, uma condição geral do ensino superior no país, não?

Sim, todas as universidades federais sofreram com o atraso nos setores básicos do conhecimento. A primeira mudança a esse respeito nasceu na Universidade de Brasília (UnB), concebida sob a orientação de Anísio Teixeira, um baiano, e de seu discípulo Darcy Ribeiro. Não havia, pela forma como fora concebida a construção da nova capital do país, faculdades isoladas que viessem a ser aglutinadas para formar a universidade local. Anísio e Darcy a idealizaram, então, desde o seu início, com a implantação de unidades responsáveis pelo ensino e a pesquisa nos setores básicos do conhecimento. Assim começou a UnB a funcionar em 1961. Mas poucos anos após, em 1964, ocorreu a grave crise política, da qual resultou a implantação do governo militar, com profundos reflexos na recém-criada UnBa. Assim, a concepção original da estrutura desta instituição foi sofrendo alterações. Pouco depois, no Conselho Federal de Educação (CFE), alguns conselheiros, inclusive Walmir Chagas e Nilton Sucupira, entre outros que haviam conhecido a estrutura originariamente proposta para a UnB, concentraram-se sobre o tema da reformulação das universidades brasileiras a partir daquele modelo inovador. Eu fazia parte daquele Conselho ao apreciar o assunto, que era então presidido por Deolindo Couto, professor de neurologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), uma grande personalidade, dono de uma inteligência fora do comum. Era ele amigo íntimo de Luiz Vianna Filho, então ministro da Casa Civil do presidente [Humberto] Castello Branco, e essa relação facilitou a assinatura por Castello Branco dos dois decretos-leis que, pelo destaque dado aos setores básicos do conhecimento, representaram a grande reforma nas universidades federais do Brasil: o 53, de 1966, e o 252, do começo de 1967. Conto toda essa história porque houve nas universidades quem esquecesse, talvez propositadamente, esses dois decretos-leis por considerá-los leis do governo militar. Mas sua origem era outra. Eles favoreceram o avanço das universidades e foram esquecidos em favor de outros decretos-leis, atribuídos aos acordos MEC-Usaid [convênios de cooperação técnica assinados entre o Ministério da Educação brasileiro e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional], cujo pessoal não chegou a se reunir, e não teve efeito nenhum.

Mas se tratava de uma luta política, não é?

Sim, era uma luta política. Logo depois que entraram em vigor os dois decretos-leis, no final do governo Castello Branco, fui eleito e nomeado reitor da UFBA. Pouco antes eu fora escolhido por Luiz Viana, então indicado para o governo da Bahia, para ser secretário da Saúde do estado. Assumi a Secretaria em 7 de abril de 1968 e fiquei no cargo durante menos de três meses, devido à minha nomeação para a reitoria.

Gostaria que o senhor abordasse, antes de sua gestão como reitor da UFBA, sua trajetória de pesquisador.

Logo depois de formado em medicina, fui em 1950 para os Estados Unidos com uma bolsa da Fundação Kellogg, e lá permaneci por três anos. Tive a oportunidade de fazer uma adaptação da medicina de influência francesa que havia aprendido na Bahia, para o estilo de ensino e o exercício da profissão com a orientação anglo-saxã, especialmente norte-americana. Depois de seis meses dessa adaptação na Universidade Cornell, fui para a Universidade de Michigan, em Ann Arbor, onde trabalhei como residente no hospital da universidade. No final desse período fui para o Massachuesets General Hospital, em Boston, na Universidade Harvard, onde estava o máximo da pesquisa médica nos Estados Unidos. O Massachusetts General Hospital funcionava em terreno onde havia então 13 pavilhões, alguns dedicados só à pesquisa médica. Fui para aquele onde estava começando a funcionar o Laboratório de Metabolismo Hidromineral, chefiado pelo professor Alexander Leaf [1920-2012]. Ele saíra do famoso laboratório do professor Fuller Albright [1900-1969], que cuidava, sobretudo, do metabolismo de fósforo e cálcio no sistema ósseo, e começara pesquisas sobre água, sódio e potássio no novo laboratório, cujo equipamento principal foi o fotômetro de chama, posteriormente industrializado e que facilitava enormemente a dosagem de sódio e de potássio nos vários líquidos do organismo humano, incluindo sangue e urina. Fiz aí minha iniciação em pesquisa médica de elevado nível. Entre outros temas, Leaf estava então trabalhando com o que na época se chamava, abreviadamente, de “receptores de volume”.

Como estudante na Bahia, o senhor pesquisara algo nesse campo?

Não, o metabolismo hidromineral como objeto de pesquisa sofisticada estava apenas começando. Era já bem estabelecido que as pequenas variações da pressão osmótica do sangue, regulada principalmente pelo sódio do organismo, resultavam em alterações do hormônio antidiurético secretado pela hipófise, ou seja, era importante fator de regulação na liberação do pitressin. Mas suspeitava-se de que o conteúdo líquido do organismo também tivesse influência sobre tal regulação. Por isso procuravam-se os “receptores de volume”, que se imaginava ser de regulação muito mais lenta e menos exata do que as variações da pressão osmótica. Trabalhei mais de perto sobre isso e por orientação do professor Leaf, para identificar melhor a desidratação que resultava na diminuição do volume, me internei na enfermaria metabólica do Massachusetts General Hospital. Ali me submeti experimentalmente a uma desidratação que resultou numa variação de volume e tornou claro, por meio da medição do sódio na urina, que havia realmente essa regulação pelo volume do conteúdo líquido do organismo, embora fosse um mecanismo mais lento e menos preciso do que o da variação da pressão osmótica.

O senhor foi então objeto de sua própria pesquisa?

Sim, junto com um colega inglês que trabalhava no mesmo laboratório, sob a orientação do professor Leaf, e que também se submeteu a experiência semelhante. E tudo isso depois foi publicado num artigo cujos autores eram Leaf e colaboradores.

Resumindo, quais são as principais conclusões desse artigo?

Que existem realmente os receptores de volume regulados pelo conteúdo líquido do organismo e que influenciam a liberação do pitressin, o hormônio antidiurético da hipófise.

Onde se encontram esses receptores?

Sobretudo no segmento cefálico do corpo, provavelmente na vizinhança da própria glândula hipófise. Tinha sido publicado um primeiro artigo no Journal of Clinical Investigation, sob o título “Evidence in man that urinary electrolyte loss induced by Pitressin is a function of water retention”.

É outro artigo que leva sua assinatura.

Outro sobre o mesmo tema que assino como coautor. O primeiro autor é o professor Leaf. Depois, já na Bahia, fiz uma tese de doutoramento trabalhando com a literatura por mim levantada em torno do assunto e com a demonstração mais minuciosa dos vários exames feitos durante a experiência da ação dos receptores de volume. Havia, até 1929, uma tradição de exigência das teses de doutoramento na Faculdade de Medicina para o exercício da profissão. Depois essa tradição foi abandonada e essas teses passaram a constituir apenas uma forma de desencadear a carreira universitária, como foi o meu caso.

Na tese foi possível agregar dados locais aos achados da pesquisa em Harvad?

Fiz experiências em torno do metabolismo hidromineral como aprendera em Harvard, mas com material baiano, depois da tese de doutoramento. Com isso, elaborei durante dois anos a tese submetida ao concurso para a docência livre da Clínica Propedêutica Médica, cujo título é “A prova de tolerância a água nas hepatopatias crônicas”. Havia no Hospital das Clínicas muitos pacientes com aquele quadro a que me referi da esquistossomose avançada, cirrose hepática e desnutrição, com consequente hipertensão no sistema portal, que resultava em vômitos de sangue e terminava com óbito do paciente. Estudei, então, o metabolismo hidromineral dos portadores de hepatopatias crônicas, com e sem ascite [barriga d’água] e edema. Para isso submeti à prova da tolerância a água três grupos distintos. Ou seja: a) pessoas jovens e saudáveis, b) portadores de hepatopatias crônicas sem ascite nem edema, e c) portadores de hepatopatias crônicas com ascite e edema. A principal conclusão foi de que nos pacientes do terceiro grupo existiam fatores que levavam à retenção primária de água, somada à que deve ocorrer secundariamente à retenção do sódio. E essa prova de tolerância a água tanto serviu de matéria para o concurso como foi objeto de publicações, uma delas no sofisticado Journal of Clinical Investigation.Mais tarde fiz uma outra série de estudos que serviu para a minha tese de cátedra, sob o título “Da regulação renal e extra-renal do equilíbrio ácido-básico”. A tese foi objeto de publicações em jornais internacionais, como o Journal of Clinical Investigation e o American Journal of Physiology (“Extra-renal action of adrenal glands on potassium metabolism”), ambos muito exigentes na aceitação das matérias.

Seu trabalho com função renal, metabolismo hidromineral, regulação do sódio etc., sempre lidou com a fisiologia do corpo humano?

Fisiologia clínica, muitas delas experiências feitas no ser humano. A tese submetida ao concurso para a cátedra de clínica médica, por exemplo, tomou por base dois trabalhos referentes ao metabolismo hidromineral. Um deles tratava da regulação renal do equilíbrio ácido-básico e resultou de experiências realizadas em pessoas saudáveis para pôr à prova a hipótese de que a depleção sódica [perda de sódio] seria o estímulo essencial para o aumento da excreção urinária de amônia resultante da ação de sais ácido-formadores. A conclusão das experiências-testemunho em seis adultos normais foi que o aumento da excreção renal de amônia em resposta ao uso de sais ácido-formadores, em vários dias consecutivos, não resulta necessariamente no estado de depleção sódica. O segundo trabalho refere-se à regulação tecidual do equilíbrio ácido-básico. Alguns autores negam e outros admitem a influência dos hormônios das suprarrenais sobre a permeabilidade ao potássio das células do organismo em seu conjunto. Eu queria conhecer melhor o mecanismo de ação desses hormônios e os fatores que influenciam o transporte de iontes através da membrana celular, diante de perturbações do equilíbrio ácido-básico. Para isso pesquisamos em animais adreno-privos [sem função da suprarrenal], com a supressão da função renal, se a resposta a sobrecargas ácidas e alcalinas estaria ou não modificada. Realizamos experiências em cães submetidos a nefrectomia bilateral [extração dos rins] quando ainda em situação de normalidade e em outros previamente adrenalectomizados [com as glândulas suprarrenais extirpadas]. A conclusão dessas experiências mostrou que, suprimida a função renal no cão, os produtos das suprarrenais não exercem influência sobre as relações entre as alterações do equilíbrio ácido-básico do líquido extra-celular e a permeabilidade ao potássio da membrana das células do organismo em seu conjunto. Nos trabalhos então realizados, na parte que envolveu seres humanos, assim como tinha ocorrido comigo no estudo em Harvard, alguns alunos de Medicina que se prestaram a experiências ainda hoje se lembram disso com muita alegria.

Isso não levava problemas éticos à pesquisa?

As experiências não ofereciam riscos, perigos reais. Tudo era levado até certo ponto, de modo que não causassem perturbações metabólicas.

Em sua experiência no Massachusetts, por quantas horas o senhor ficou desidratado?

Não foi um processo implantado subitamente em poucas horas. Durou três ou quatro dias, foi gradual, com uma dieta muito cuidadosamente feita pelas supernutricionistas e enfermeiras da Enfermaria 04, chefiada pelo professor Albright. Ele era uma figura extraordinária, um homem ainda relativamente jovem com um parkinsonismo muito avançado. Vejo o livro dele sobre fisiopatologia de cálcio e fósforo no metabolismo ósseo como uma das coisas mais bonitas de toda a literatura médica. Em sua enfermaria sempre trabalhavam em regime de rodízio três ou quatro estudantes e, justamente por causa de seu problema de saúde, uma das condições para se merecer trabalhar na Enfermaria 04 era o estudante poder conduzi-lo de casa para o hospital e vice-versa em automóvel próprio.

O senhor chegou ao topo da carreira de professor ainda muito jovem. Com quantos anos?

Cumpri em pouco tempo as várias exigências acadêmicas e me tornei catedrático exatamente com 30 anos, em outubro ou novembro de 1956. E nesse momento, a Fundação Kellogg, que me concedera a primeira bolsa para os Estados Unidos e, por meu intermédio, para vários alunos recém-formados em medicina e em enfermagem que haviam trabalhado comigo, proporcionou recursos para eu montar meu laboratório de metabolismo hidromineral, no 6º andar do Hospital das Clínicas. Estava desocupado, e então o fui ocupando. Depois vieram outros laboratórios dos ex-alunos da Faculdade que tinham recebido bolsa da Kellogg. Foram vários: o meu, o de genética clínica da professora Eliane Azevedo, o do metabolismo do pós-operatório do professor Álvaro Rabelo, entre outros.

Nesse momento o senhor tinha dedicação exclusiva?

Passei a fazer dedicação exclusiva por minha conta. Eu não estava casado — namorei e casei pouco depois de ter feito essa carreira muito puxada em direção à cátedra –, morava na casa de meus pais, de modo que tinha pouca despesa e o salário de tempo parcial era suficiente para eu sobreviver.entrevista 3

 

O senhor não queria o caminho tradicional do médico formado na época: trabalhar metade do tempo no consultório privado e dividir a outra metade entre o hospital e Faculdade de Medicina?

Exatamente. E foi a maneira de eu conseguir me preparar para a cátedra em pouco tempo. Gostaria de observar que até o começo da Segunda Guerra Mundial a influência na medicina brasileira e latino-americana era francesa. Depois dos 10 anos seguintes, da guerra até o fim do famoso Plano Marshall, quando os Estados Unidos estiveram mergulhados na recuperação da Europa, este país se voltou então bastante para a América Latina. Escolheram entidades beneficentes que criaram laços com a região e, em relação às faculdades de medicina, a escolhida foi a Fundação Kellogg, da empresa fabricante de corn flakes, grande operadora do mercado de cereais na Bolsa de Chicago. Durante aqueles 10 anos entre guerra e Plano Marshall, o Brasil ficou desligado dos países que tinham uma evolução maior em ciência e tecnologia, dessa forma tivemos um atraso tanto na parte clínica quanto na parte da fisiologia e da bioquímica aplicadas à medicina clínica. Mais ou menos a essa altura assumi a cátedra e senti necessidade de uma atualização das nossas faculdades de medicina. Comecei a trabalhar sobre a questão do ensino da medicina, do currículo e da concepção das várias disciplinas do ponto de vista do conteúdo, e em decorrência disso fui me desligando da pesquisa. Nessa época criamos a Associação Brasileira de Educação Médica, com a nossa mobilização e a de vários professores de outras faculdades de medicina do Brasil mais avançadas, caso das escolas da USP, UFRJ, universidades federais de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul (UFMG e UFRGS), entre outras. O primeiro a presidir a Associação foi Oscar Versiani Caldeira, de Minas. Eu fui o segundo presidente e depois foi Clementino Fraga Filho, do Rio, meu amigo-irmão durante décadas. E a Associação segue viva e atuante.

Como o senhor passou da Faculdade de Medicina para a reitoria da UFBA?

Em 1966, Miguel Calmon tinha iniciado seu reitorado como uma renovação da Universidade. Meu pai tinha sido reitor até 1962, fora reeleito como primeiro da lista tríplice para ocupar o cargo novamente, mas o presidente Jânio Quadros resolveu nomear Albérico Fraga. Meu pai ficou muito desnorteado, até porque consultara Jânio antes para saber se seria nomeado, caso entrasse na lista e, diante da certeza que o presidente lhe dera, se preparara para o sexto mandato juntando recursos num fundo de reserva que resultava das sobras de orçamento de um ano para o outro. Assim, ao assumir, Albérico encontrou a Universidade em situação confortável, mas ao fim dos quatro anos ela entrara em crise financeira. Miguel o substituiu e, além de ser da Politécnica, ele era um banqueiro, sabia lidar com finanças, embora não fosse tão rico como muita gente pensava. Muito bem relacionado no ambiente financeiro brasileiro e internacional, consertou as finanças da Universidade. E ele me convidou para dirigir o Departamento Cultural da Universidade.

Que missão tinha esse departamento?

Bastante ampla, porque passava a coordenar as reflexões e a definir junto com o reitor as ações para a modernização da Universidade. Além disso, criei ali o Jornal Universitário, um meio de informar as diferentes faculdades sobre o que as outras estavam fazendo. O jornal era feito por estudantes de jornalismo que, além das condições de espaço para preparar as reportagens, tinham um laboratório de fotografia para fazer as imagens correspondentes. Enquanto Miguel estava como reitor, a expectativa geral, inclusive minha e de minha família, era de que seu substituto fosse Orlando Gomes, que tinha sido vice-reitor durante três dos cinco mandatos do meu pai, sempre com um espírito de lealdade e de colaboração enorme. Ele também desempenhara um papel muito importante junto à Faculdade de Direito, cujo prédio novo, no Vale do Canela, foi construído enquanto ele era vice-reitor, e tinha uma liderança fortíssima no Conselho Universitário – na época, todo-poderoso. Mas havia outro candidato fazendo campanha, um médico. Ao mesmo tempo, como Orlando pertencera na década de 1930 ao Partido Socialista romântico, a que muitos baianos depois eminentes haviam sido ligados, transformaram isso em suspeita de que ele era comunista, então uma palavra feia como o demônio. Eu estava satisfeito na Secretaria de Saúde, mas amigos de meu pai, e entre eles muito amigos de Orlando, começaram a suspeitar que Brasília vetaria seu nome e a insistir para que eu fosse candidato.

Existia uma lista tríplice prévia?

Existia, e nela figuravam os nomes de Orlando Gomes em primeiro lugar, por unanimidade, o médico em segundo, e o terceiro era Hernani Sobral, professor da Politécnica e da Arquitetura – que foi depois meu vice-reitor, uma pessoa excelente. Quando começaram a me pressionar, eu dizia que esperava um dia ser reitor, mas não naquela hora. Mas, diante da insistência, me afastei da Secretaria um pouco antes da lista ser fechada, para fazer campanha.

Luiz Viana entendia bem todo o caso, não?

Sim, ele e Miguel eram casados com duas irmãs, entendiam-se muito bem e representaram durante muito tempo um mesmo pensamento na política baiana. Orlando foi eleito em primeiro lugar por unanimidade, fiquei em segundo, e Hernani em terceiro. E eu estava na reunião mensal do Conselho de Educação em Brasília quando o ministro Tarso Dutra mandou me chamar. Ele tinha sido senador pelo Rio Grande do Sul e fora o presidente da Comissão de Finanças da Câmara e do Senado num tempo em que meu pai ia muito ao Congresso num esforço para incluir no orçamento recursos para a UFBA, e especialmente para construir o Hospital das Clínicas. Quando desci para o gabinete dele, no 2º andar, já estava ali o vice-reitor Adriano Pondé, que fora levar a lista preparada pelo Conselho Universitário — Miguel Calmon tinha falecido. Tarso Dutra disse que me chamara porque ia me nomear reitor da UFBA. Argumentei que esperávamos que o nomeado fosse Orlando Gomes dos Santos. Ele disse que reconhecia o gabarito de Orlando, mas que ele não poderia ser nomeado reitor e acrescentou que me nomeava pelo meu passado tão atuante, apesar de ser ainda um jovem professor, mas também por minha família e por meu pai. Fiz uma ardente defesa de Orlando, mas ele respondeu que, se eu não aceitasse, devolveria a lista para o Conselho Universitário reconsiderar os nomes, o que jamais se fizera. Adriano e eu pedimos a ele que sustasse a nomeação até falarmos com Orlando. O telefone era um problema na época, mas conseguimos falar com Orlando e, quando expliquei a situação, ele disse que não haveria devolução de lista. “Você aceita a nomeação e eu vou lhe ajudar naquilo que você precisar.” Voltamos ao ministro e dissemos qual fora a decisão.

Foram momentos difíceis?

Muito difíceis. Nem terminei minha participação na sessão do Conselho de Educação, pegamos o avião e viemos para Salvador. Quando chegamos, já foi aquela aclamação, e eu sem jeito. Mas fui ser reitor.

O senhor assumiu em meio ao crescimento do movimento estudantil, à generalização das passeatas e de outras formas de protesto e luta política que se intensificaram até o final de 1968.

Exatamente. Fui nomeado reitor em meados de 1967 e peguei o movimento estudantil em sua maior intensidade até dezembro de 1968, quando da edição do AI-5 [o Ato Institucional número 5, que suspendeu as garantias constitucionais e restringiu dramaticamente a liberdade de expressão, entre outros efeitos, assinalando o começo do período mais duro dos governos militares].

Lembro-me de vê-lo vez por outra circulando nas galerias em torno do salão nobre da reitoria, observando as assembleias estudantis.

Eu franqueei ao DCE [Diretório Central dos Estudantes] o salão nobre para o debate dos estudantes. Em determinado momento, em 1968, houve uma greve, a polícia foi advertida e procurou desmanchar a manifestação. Os estudantes, como de costume, dirigiram-se ao prédio da reitoria, entraram no salão nobre, e a polícia quis entrar. Eu estava no andar de cima, junto com outros professores que foram prestar solidariedade diante da confusão que reinava na cidade universitária e tentar impedir que a polícia entrasse.

O senhor, então, desceu até a porta de entrada da reitoria.

Sim, e ao meu lado estava Jorge Hage, hoje ministro-chefe da Controladoria Geral da União (CGU), então meu chefe de gabinete, que colaborou muito para acalmar as coisas e impedir que a polícia entrasse. Mas o fato é que coube a mim aplicar os dois decretos-leis da reestruturação.

Com a universidade reagindo… Interessante, a reação não foi tanto dos estudantes, e sim dos professores das escolas profissionalizantes. Eles acharam que era um esvaziamento profundo dessas escolas.

Exatamente. Na medicina houve um esvaziamento não dos setores básicos das ciências em geral, mas da biologia. As disciplinas de anatomia, fisiologia, bioquímica etc., passaram todas ao Instituto de Ciências da Saúde. Portanto, foi na minha primeira fase no Conselho de Educação e, depois, na reitoria, que cresceu em mim a paixão pelos setores básicos do conhecimento. Minha nomeação para o Conselho, em 1963, foi decorrência do trabalho numa comissão de ensino médico criada pelo Ministério da Educação, em que também estavam Clementino Fraga Filho, Rubem Maciel, do Rio Grande do Sul, e várias pessoas que se destacaram depois na vida pública do país. Fui presidente dessa comissão.

De seu ponto de vista, quais foram suas realizações mais importantes como reitor da UFBA?

Passei os quatro anos implantando os institutos que já tinham sido cogitados por Miguel Calmon. Além da comissão de reestruturação, graças às suas relações financeiras internacionais, ele tinha bolado um financiamento do BID [Banco Interamericano de Desenvolvimento] para a construção dos prédios dos institutos e para trazer do exterior para a Bahia até três professores de matemática, de física, de química etc., escolhidos pela Unesco [Conselho das Nações Unidas para a Educação e a Cultura]. A liberação desse financiamento só foi ocorrer em meu período de reitor, quando foram implantados nove institutos e elaborados seus regimentos, atividade na qual Orlando Gomes e Calmon dos Passos me ajudaram muito. O Instituto de Biologia só foi concluído mais tarde. Quando os professores estrangeiros foram embora, os docentes que os substituíram, assim como os reitores seguintes, não deram aos setores básicos do conhecimento o suporte necessário. Resultado: eles não tiveram a projeção social que eu esperava nem provocaram aquele impulso que imaginei. Os professores das disciplinas profissionalizantes continuaram governando a universidade e projetando-a junto à sociedade baiana. Acontece que, antes mesmo do primeiro decreto-lei de 1966 de que falamos, Newton Sucupira já tinha emitido, em 1965, o famoso parecer que criava os cursos de pós-graduação stricto sensu. Os institutos de pesquisa são, assim, simultâneos à estruturação da pós-graduação e da pesquisa. Nesse meio tempo, o Conselho Nacional de Pesquisa, depois Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), criado em 1951, tomou impulso. E tudo isso ganhou força junto.

Findo seu período na reitoria, o senhor se mudou para Brasília?

Quando meu mandato foi chegando ao fim – e na época não era possível recondução –, comecei a frequentar o Hospital das Clínicas. Mas a reitoria era tão exigente que me afastei. E então, findo o reitorado, me tornei presidente do Conselho de Educação e me mudei para Brasília. O primeiro presidente tinha sido meu pai, o segundo, Deolindo Couto, depois foi Raimundo Muniz de Aragão, baiano que vivia no Rio. Durante a gestão de Muniz de Aragão o Conselho foi transferido do Rio para Brasília. Ele ainda ficou um tempo, mas não quis a recondução, e então se abriu uma vaga para meu começo de vida na comunidade de educação. O Conselho era muito prestigiado pelo Ministério da Educação, e como membro passei a ter contato com o mundo político.

Foi então no Conselho Federal de Educação que se ampliou a base política para sua condução ao governo da Bahia?

Certamente. Entre as figuras políticas com quem comecei a conviver se destacou Petrônio Portela, senador pelo Piauí e presidente da Arena, um político de grande habilidade, e estou certo de que, se ele não tivesse escondido o infarto que o acometeu, a transição para a democracia teria sido melhor e ocorrido mais cedo. Foi Petrônio quem realmente me introduziu no meio federal. Ney Braga era ministro da Educação e colaborou com ele para isso e, acima de tudo, Luiz Viana Filho. Petrônio percebeu, ao tempo em que o MDB [Movimento Democrático Brasileiro, depois PMDB] era muito pequeno em todo o Nordeste, que havia na Arena da Bahia quatro facções que brigavam entre si como cão e gato. Eram os grupos de Luiz Viana Filho, de Jutahy Magalhães – Juracy, o patriarca, já havia se afastado –, de Lomanto Júnior e de Antonio Carlos Magalhães. O presidente Ernesto Geisel, junto com Golbery do Couto e Silva  – de quem eu não gostava e que também não gostava de mim, assim como [João Baptista] Figueiredo, enquanto achavam todos muita graça em Antônio Carlos Magalhães – autorizara cada uma dessas quatro facções a apresentar três nomes de candidatos ao governo da Bahia. Todas indicaram nomes que não eram aceitos pelas outras facções.

O que criava um impasse.

Sim, mas três das quatro facções admitiam ter meu nome como segundo em suas listas. A exceção era a de Antônio Carlos. E, como parte do processo de escolha, ele dizia na Bahia que os políticos, sequer seriam recebidos por mim, e em Brasília dizia para não me nomearem porque eu não seria escolhido pela Assembleia Legislativa. A essa altura, Geisel havia nomeado Petrônio para percorrer todas as assembleias estaduais do país colhendo impressões sobre os candidatos. Antônio Carlos então armou uma situação para que eu não conseguisse estar na Bahia no dia marcado para Petrônio conversar com os deputados. Mas foi em vão, cheguei na véspera. Petrônio constatou que todos me admitiam como segundo nome e levou isso a Brasília.

O senhor o desarmou com um contragolpe.

E isso o deixou furioso. Ele tinha indicado, além de Clériston Andrade, Luís Sande e, em terceiro lugar, Barbosa Romeu. Quando Sande percebeu que não tinha chance, começou a se afastar e acabou brigado mesmo com ele. Um dia, João Falcão, o dono do Jornal da Bahia, que estava numa guerra acesa com Antônio Carlos, me visitou em Brasília. Antônio Carlos soube disso, foi ao Golbery e disse que não podiam indicar ao governo baiano uma pessoa que recebera em seu gabinete na presidência do Conselho de Educação o seu inimigo, portanto, tinham que me tirar da lista. Golbery disse que os nomes já tinham sido indicados. Ele propôs então colocar em sua lista, em vez de mim, José Mascarenhas, um técnico jovem e muito competente, mas Golbery não aceitou e eu fiquei como o segundo na lista de todos. Fui nomeado e voltei à Bahia para preparar o governo.

Quais foram, em sua visão, suas mais importantes realizações como governador?

Como disse em um de meus livros, Na Bahia das últimas décadas do século XX, publicado pela Edufba em 2008, dedicar-me à preparação dos planos de governo foi uma das tarefas mais gratas de toda a minha vida pública. Para isso contei com o auxílio de uma equipe que fez um excelente trabalho sob a direção geral do professor Raimundo Vasconcelos. Preocupava-me especialmente atribuir grande destaque aos projetos da área social, porque bastava a simples análise das estatísticas de saúde e educação para verificar a situação constrangedora em que nos encontrávamos, baianos e brasileiros, mesmo quando comparada com a de alguns países cuja economia era menos desenvolvida que a nossa. Assim, prevaleceu em nosso programa a ideia de que a atenuação da pobreza e das grandes desigualdades sociais da população exigia prioridade absoluta por parte dos órgãos oficiais responsáveis pela educação, pela saúde e pelo bem-estar social. E não fizemos outra coisa ao longo dos quatro anos em que fui governador. Ao mesmo tempo, era fundamental promover o desenvolvimento econômico para dar sustentação aos ambiciosos projetos relativos à melhoria da qualidade de vida dos grandes segmentos populacionais, o que ocorreu, prioritariamente, com a implantação acelerada do Polo Petroquímico de Camaçari, que estava em seu início. No final, os indicadores da economia do estado revelariam com clareza o acerto dessas escolhas: por exemplo, o PIB estadual cresceu à impressionante taxa média anual de 13,1% entre 1975 e 1978, apesar da grande seca de 1976, e a renda per capita dos baianos subiu de US$ 302 em 1975 para US$ 582 em 1978, 43% acima da elevação registrada no Brasil e 24% superior ao crescimento verificado em São Paulo.

Depois de governador da Bahia, o senhor foi presidente do CNPq e ministro da Saúde. Como foi sua experiência nesses cargos em tempos de redemocratização?

Ao deixar o governo, a exemplo de outros governadores e prefeitos que tinham servido naquele período sem adotar os métodos e processos do regime militar, comecei a me afastar da Arena. Aproximei-me de Tancredo Neves e de Magalhães Pinto, antigos adversários que tinham se juntado e começado a preparar um novo partido. Conseguimos no Congresso e contra a vontade do regime sair do bipartidarismo e criar outros partidos, inclusive o Partido Popular (PP), a melhor coisa na área política que já conheci no país. Tancredo se apresentou como candidato a presidente pelo partido, e na Bahia eu seria o candidato a governador. Enquanto o PP ganhava o eleitorado que tinha sido da Arena, sobretudo no Nordeste, onde o MDB criara a imagem de um partido “comunista” e tinha um eleitorado pequeníssimo, Golbery deu um golpe nesse novo partido: ele conseguiu passar no Congresso uma lei pela qual os partidos deveriam ter candidatos a todos os cargos abertos à eleição em cada estado. O MDB na Bahia, mesmo sendo muito pequeno, tinha profundas divergências internas, e os grupos de Chico Pinto e de Josaphat Marinho se digladiavam. Ao voltar do exílio, Waldir Pires assumiu o comando do partido e se tornou o candidato a governador pelo MDB. Mas, a minha candidatura pelo PP e a de Waldir pelo MDB, compunham uma fórmula para nenhum de nós sequer se aproximar da eleição, porque, com a oposição dividida, a Arena, muito mais forte, acabava com qualquer veleidade de outra candidatura. Nesse quadro pouco favorável, a solução proposta por Tancredo foi juntar o PP ao MDB de Ulisses Guimarães e formar um partido só. Assim nasceu o PMDB. Importa dizer que fiquei pertencendo ao mesmo partido que José Sarney, que resolveram colocar como candidato a vice-presidente na chapa do PMDB. Ele estava em evidência naquele tempo, não lembro por quê. Sarney hesitou, mas aceitou. Tancredo foi eleito e veio aquele período de sua doença e, como fizera Petrônio, Tancredo escondeu a doença. Quando, afinal, descobriram que ele estava com um processo inflamatório grave, já estava grave demais. Tancredo morreu. Havia um dispositivo legal que indicaria levar para a presidência da República o presidente da Câmara, mas Ulysses Guimarães, não sei por quê – ele era uma figura interessante, mas tinha uns recuos e umas cerimônias – não aceitou. E Sarney tinha sido escolhido vice-presidente, portanto, seria o presidente.

Ulysses dizia que, do ponto de vista legal, Sarney é que deveria assumir.

É, ele disse, mas foi ele quem não quis a presidência que lhe foi oferecida com insistência. Sarney começou a preparar o governo de acordo com o que sabia que Tancredo montara. E respeitou que eu fosse presidente do CNPq, o órgão que desde 1950 comandava a área da ciência e tecnologia. Ulysses teve direito a escolher três ministros: Waldir Pires para a Previdência, Almir Pazzianotto para o Trabalho e Renato Archer, que assumiu um ministério que tinha de ser formado: o da Ciência e Tecnologia. Dentre os órgãos que caberiam num tal ministério, o CNPq, que eu estava presidindo, era o único organizado, com uma estrutura e uma tradição. Archer, acredito que com satisfação e liberdade, me confirmou no CNPq, que passara a ser o principal órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia. Os principais assistentes dele, com quem passei a conviver, eram o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, secretário-geral do Ministério, e o atual ministro Celso Amorim, chefe de gabinete. De modo que formamos os três o Ministério da Ciência e Tecnologia da época.

Mas o senhor ficou pouco tempo no CNPq. Por quê?

No ministério de Sarney tinha sido incluído, por ser um deputado de muito destaque, um ex-secretário da Educação de meu governo, Carlos Sant’anna. Mas exatamente porque era um deputado destacado, ele precisou deixar o ministério em 1986 para se tornar líder do governo Sarney na Assembleia Nacional Constituinte. Voltaria em janeiro de 1989, com a nova Constituição promulgada, para assumir a Educação. Eu fui convidado para o ministério da Saúde em fevereiro de 1986 em substituição a Sant’anna, creio que Sarney considerou aquilo uma promoção. Mas o Ministério da Saúde até a nova Constituição só atuava na área preventiva, e todo o dinheiro da Saúde ia efetivamente para o Ministério da Previdência, que lidava com a saúde do trabalhador. Assim, o que para Sarney foi uma promoção, para mim foi um corte na carreira. Não me ajeitei muito no Ministério da Saúde.

Adiante o senhor se candidatou a deputado e a governador de novo.

Quando exerci o cargo de governador, me esforcei muito para atingir assuntos prioritários para a Bahia e, mesmo sem ter trabalhado especificamente para isso, fiz um eleitorado que ficou sem aproveitamento do ponto de vista político. Figueiredo, que se revelaria o pior e mais fraco dos presidentes militares, se entendia bem com Antônio Carlos Magalhães, então já brigado comigo. Figueiredo jamais se entendeu bem comigo, nem como chefe do SNI, enquanto eu estive na reitoria e no governo, nem enquanto presidente. Então, o que fez? Botou Antônio Carlos para me substituir. Isso era um problema para a política da Bahia, porque ele iria tentar destruir tudo que eu tinha feito. Procurando atenuar isso, o que pude fazer foi me candidatar a eleições partidárias para governador. Fui derrotado, diante do poder enorme que Antônio Carlos havia angariado. Mais tarde, quando me demiti do Ministério da Saúde e voltei para Salvador, Sarney me nomeou para representar o Brasil na Organização Mundial da Saúde (OMS). Fiquei por quatro anos e gostei muito dessa atividade internacional. Findo aquele período, voltei a Salvador e me candidatei a deputado federal. Fui eleito com a maior votação dos candidatos de oposição e exerci o mandato por quatro anos.

Contrariado?

Sim, porque a pessoa se mexe muito e não produz nada mais sólido. Vi que não era conveniente para alimentar o eleitorado para continuar os mandatos e encerrei a carreira.

Sua biografia é marcada por várias criações institucionais efetivas. Uma delas é o Museu de Ciência e Tecnologia da Bahia, implantado quando o senhor era o governador, e cuja decadência começou logo depois. Haveria certo interesse em reativar essa instituição pioneira?

Como governador, pude refletir no exercício do cargo a minha formação. Daí nasceram iniciativas como a criação do Museu de Ciência e Tecnologia. Eu visitara vários desses museus nos períodos em que vivi no exterior e daí me surgiu a ideia de que precisávamos fazer na Bahia algo similar. Não seria um museu histórico nem artístico, mas didático, e o primeiro da América do Sul. Trouxemos um dos diretores do Museu de Ciência e Tecnologia de Londres, Keohane, e ele teve aqui um papel extraordinário, por sua capacidade de organizar as táticas de um museu didático e pela competência científica em apontar caminhos para a demonstração de princípios das ciências básicas de forma lúdica para as crianças das escolas de ensino fundamental.

O museu foi implantado dentro do Parque de Pituaçu, certo?

Sim, dentro do parque, já na periferia, com espaço previsto para ampliação. A topografia do Parque de Pituaçu permitia o uso de pedalinhos nesse pequeno lago, equipamento que insistimos em instalar pensando nas crianças.

Lembro-me de uma réplica de uma torre de petróleo no museu.

A Petrobras, entre 1975 e 1979, nos ajudou muito. E talvez as peças mais caras do material de exposição fossem as moléculas em três dimensões de produtos do Polo Petroquímico. Eram modelos específicos que incluíam produtos intermediários da indústria petroquímica, muito complexos, com informações tanto sobre as matérias-primas usadas para fazê-lo quanto sobre produtos de consumo resultantes do trabalho em torno delas.  Outra coisa que despertava bastante interesse era o trabalho de um anatomista das faculdades de Medicina e de Odontologia da UFBA, Aldemiro José Brochado, que injetava corantes no sistema vascular. Parte foi feita em adultos e outra parte, em fetos, em modelos reais depois das autópsias. Ele usava um produto que fazia o que chamavam “diafanização” tanto no músculo cardíaco quanto no tecido que forma os pulmões, e por esse processo de tornar diáfanas essas massas de tecidos era possível trabalhar as peças distintas com diferentes cores.

Algo parecido com as técnicas usadas naquelas grandes exposições do corpo humano que vieram dos Estados Unidos nos anos 2000?

Exatamente, essa técnica representa um avanço do que conseguimos aqui em 1975. Quanto à torre de petróleo, sim, tinha um modelo que a Petrobras nos facilitou. Já a Secretaria Estadual de Transporte providenciou camadas de estradas e trajetos, desenhos de estradas em diferentes épocas, desde os tempos mais remotos, passando pela Idade Média, chegando ao começo do uso do asfalto, até finalmente as estradas asfaltadas contemporâneas. A Aeronáutica nos ofereceu um pequeno avião e a então Rede Ferroviária Leste Brasileiro nos forneceu uma locomotiva e vagões de estrada de ferro, em tamanho real.

O museu foi inaugurado em 1979, quando o senhor estava prestes a deixar o governo do estado.

Isso. Depois houve um empenho do governo do estado em dificultar as coisas para o museu, até que entre 1992 e 1996 ele ficou fechado. Conseguiu-se reabri-lo, adiante foi entregue à Universidade do Estado da Bahia (Uneb), que instalou áreas de trabalho de ordem burocrática nas salas onde antes havia experiências. Mais recentemente surgiu um debate entre vários órgãos do governo estadual a respeito da destinação daquele espaço.

Em que pé está hoje o museu?

Praticamente fechado, com o espaço disputado e numa situação de incerteza. Os equipamentos sumiram quase todos.

Parece-lhe haver alguma possibilidade de reativação do museu?

Tem havido um empenho. O museu foi oficialmente transferido para a SECTI por decreto do governador Jacques Wagner no final da gestão do secretário Paulo Câmera, que se empenhou por essa transferência. A secretária Andrea Mendonça, que o substituiu, já demonstrou interesse em dar prosseguimento à iniciativa.

O senhor acredita que há condições hoje favoráveis na Bahia para que a produção do conhecimento científico e a capacidade de inovação tecnológica consigam um status decisivo e socialmente reconhecido no processo de desenvolvimento deste estado?

Essa é minha expectativa e a minha esperança. Continuo trabalhando para isso na Academia de Ciências da Bahia.

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