O gigante nunca dormiu

28 de agosto de 2014 -
bahia1978

Bahia, 1798, Luis Henrique Dias Tavares, Editora Edufba 41 páginas – R$ 15,00.

Durante as manifestações de junho de 2013, muitos levantaram o slogan “o gigante acordou”. Referiam-se a uma força popular rebelde e política talvez inédita, já que paira na identidade brasileira o estigma apontado na letra do Hino Nacional de que estaríamos todos deitados eternamente diante da passagem da história. Essa suposta letargia ou falta de interesse em interferir nas questões de ordem social foi, muitas vezes, erroneamente apontada como característica inata dos brasileiros.

Contudo, na história do Brasil e da Bahia, há fartos  exemplos de agitações, revoltas e motins que tiveram as ruas como cenário, desde o período da dominação portuguesa, passando pelo período imperial, até a República.

Um desses movimentos ocorreu na cidade de Salvador, no ano de 1798, e pode ser apresentado com diferentes denominações: Revolução dos Búzios, Conjuração dos Alfaiates, entre outros. Definido pelo historiador István Jancsó como “ensaio de sedição”, já que seus articuladores foram denunciados e presos antes da ação rebelde propriamente dita, este evento tem hoje grande importância, sobretudo por evidenciar a luta de setores negros (livres e escravos) em torno de pautas antirracistas e republicanas.

Uma excelente e original abordagem desse movimento está em Bahia, 1798, de Luís Henrique Dias Tavares. Reeditado pela Edufba em 2012 como obra paradidática, o livro é de grande interesse não só para estudantes do nível fundamental, mas também  para todos os brasileiros e baianos interessados em melhor conhecer a trajetória de lutas do nosso povo. Amplamente reconhecido no meio historiográfico, o autor transita com naturalidade nessa narrativa ficcional baseada em fatos históricos: lastreia suas descrições de personagens e cenários na vasta documentação pesquisada, e narra os desdobramentos da rebelião com a familiaridade de quem dedicou anos ao estudo das fontes do período. Junto ao texto estão as ilustrações de Cau Gomez, que reforçam a dramaticidade da narrativa e dialogam com força com o leitor. Texto e imagens se complementam, cumprindo o importante papel de informar, sem deixar de lado a fluidez da leitura e o interesse do leitor.

Por ser ficcional, o livro evita a aridez dos textos históricos convencionais, sem deixar de lado o rigor que a historiografia exige. Indica, ao final, obras de referência para aqueles que desejam se aprofundar sobre o assunto.

Entre os elementos que ganham destaque na narrativa de Dias Tavares, estão alguns pontos já levantados pelo debate historiográfico: o cotidiano de negros livres, libertos e escravos na cidade de Salvador, que permitia a construção de uma rede de sociabilidades e a articulação não apenas de atividades lúdicas ou religiosas, mas também de insatisfações e projetos políticos contundentes. O dinamismo das relações comerciais e humanas na antiga capital colonial fica evidente no vai e vem dos personagens do livro. As demandas políticas antiescravistas e antirracistas das camadas mais oprimidas da população, em consonância com o discurso iluminista da Revolução Francesa que atravessara o Atlântico e chegava às colônias das Américas – redundando em diversos movimentos populares – estão ali, nos panfletos distribuídos pelos rebeldes dispostos a eliminar o domínio português da Bahia e as restrições de ordem racial e escravista que atingiam a maior parte da população. Vale apontar que, além de influenciar o movimento baiano de 1798, as ideias da revolução europeia ajudaram a construir, poucos anos depois, a impressionante vitória dos negros contra a escravidão e a dominação colonial de Saint Domingue, no Caribe francês. Não seria, portanto, em vão a luta dos baianos presos e executados em Salvador. A força de suas ideias continuaria a circular e faria parte de um amplo movimento histórico no Brasil e no mundo.

Ao conhecermos a trajetória de tais movimentos, sabermos os nomes de suas lideranças, celebrarmos a memória dessas lutas, podemos afirmar, sem receio: o gigante jamais esteve dormindo. O povo brasileiro muitas vezes apontou caminhos diferentes dos que os poderosos previam. Algumas vezes obteve vitórias, em outras, sucumbiu frente aos poderes mais bem estabelecidos. Assim, lutadores e lutadoras das classes populares, não nos faltam razões para celebrar.

Juliana Serzedello Crespim Lopes é professora de história na Faculdade Cásper Líbero

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