Tensões éticas do progresso científico

28 de agosto de 2014 -

eticaecineciaÉtica e Ciência
Eliane S. Azevêdo e
João Carlos Salles (orgs.)
Academia de Ciências da Bahia, 232 páginas.

Em Ética e Ciência, livro organizado por Eliane S. Azevedo e por João Carlos Salles, o leitor encontra uma série de artigos dedicados à investigação das tensões entre progresso científico e responsabilidade ética. A coletânea comporta diferentes abordagens do problema, desde a elucidação da gênese histórica da ética – e de sua ligação com os desafios impostos pelo ideal de emancipação humana – até a reflexão sobre o papel da universidade enquanto instituição produtora de conhecimentos e de valores. Pautado pela pesquisa interdisciplinar, o livro avança na contracorrente da especialização acadêmica, buscando abarcar contribuições provenientes da filosofia, das ciências naturais e biológicas, da pedagogia, da estética e da arquitetura no intuito de vencer a separação entre a pesquisa científica e a reflexão acerca do escopo ético do saber.

No início da modernidade, Descartes propôs que a totalidade do conhecimento fosse compreendida por um sistema único, cuja raiz seria a metafísica e o tronco principal,  a física. Da última brotariam os ramos pertinentes à prática humana, isto é, a mecânica, a medicina e a moral. Essa sistematização defende que a razão opera em todas as esferas do conhecimento, o que permite a construção de um sistema harmônico do saber, em que a teoria pode se desdobrar em conhecimentos práticos, não havendo entraves para a convivência entre o conhecimento puro e as suas aplicações úteis. No decorrer da história da modernidade, porém, o progresso da ciência e o consequente aprimoramento das técnicas fizeram prevalecer o caráter instrumental da razão e do conhecimento. Essa reviravolta foi ocasionada pelo próprio domínio da realidade proporcionado pelo progresso científico. Eis que se delineia historicamente o problema abordado por Ética e Ciência, pois a consideração da prática segundo termos meramente instrumentais tornou cada vez mais difícil manter a delimitação tradicional do lugar da ética. Além disso, o fato de a racionalidade ter se tornado exclusivamente técnica acabou por incidir sobre a nossa capacidade de produzir conhecimentos e tecnologias comprometidos com valores que extrapolem o mero desejo de dominar a natureza ou a necessidade premente de produzir mercadorias. A partir de então, corremos o risco de transformar a conduta humana num objeto de administração técnica a partir de parâmetros científicos unilaterais, alheios ao compromisso com a dignidade da vida ou com o respeito ao meio ambiente e às diferentes culturas existentes.

É inegável que a ampliação do conhecimento científico e o decorrente poder de dominação das engrenagens da natureza trouxeram enormes contribuições para a vida humana. O crescimento da produtividade agrícola, o controle ou a erradicação de diversas doenças e o aumento da expectativa de vida são exemplos de melhorias trazidas pelo investimento em ciência e tecnologia. Analisado em seus aspectos positivos, o progresso científico e tecnológico parece não necessitar de qualquer controle. Porém, de acordo com as discussões alavancadas por Ética e Ciência, notamos que tal progresso trouxe como consequência o predomínio do caráter instrumental da razão e do conhecimento. Ora, esse modelo de racionalidade expulsa do campo do desenvolvimento científico e tecnológico uma série de valores que tradicionalmente ligavam a conquista do conhecimento à responsabilidade ética. Ao explorar a história dessa separação entre ciência e ética, e os perigos que ela representa, o livro busca novos caminhos para superar a dicotomia entre conhecimento e valores comprometidos com a democracia, a liberdade e a emancipação.

Visando explorar esse desafio, o livro traz à tona perspectivas diversas, capazes de alimentar um novo modo de encarar a produção de conhecimento. Assim, centrado na imagem do índio brasileiro ou empenhado na visão inovadora de uma arquitetura ciente dos atuais problemas sociais e urbanos –, Ética e Ciência procura afrontar o predomínio do paradigma instrumental em proveito de experiências desenvolvidas no interior de uma estética multifacetada. Trata-se de provocar a ciência, mostrando que uma abordagem expressiva dos impasses que enfrentamos pode ativar um potencial criativo adormecido e abrir no horizonte a possibilidade de novas práticas.

Silvana de Souza Ramos é professora do Departamento de Filosofia da USP

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