Território reocupado

28 de agosto de 2014 -
Na galeria 3 do 1º piso do Mosteiro de São Bento: Homem-tubo, de Juarez Paraíso; Gélédé Muquirana, de Pedro Marighella; O fim do homem cordial (projetado sobre piso de madeira), de Daniel Lisboa e Cristo de Roca do século XVIII

Na galeria 3 do 1º piso
do Mosteiro de São
Bento: Homem-tubo, de
Juarez Paraíso; Gélédé
Muquirana, de Pedro
Marighella; O fim do
homem cordial (projetado
sobre piso de madeira), de
Daniel Lisboa e Cristo de
Roca do século XVIII

Interrompida há 46 anos, Bienal da Bahia volta a existir, tateando relações entre o Nordeste, o Brasil e o Mundo

Máscaras mortuárias de integrantes do bando de Lampião (Maria Bonita, Lampião, Corisco, Canjica, Maria de Azulão, Azulão, Zabelê)

Máscaras mortuárias
de integrantes do
bando de Lampião
(Maria Bonita,
Lampião, Corisco,
Canjica, Maria de
Azulão, Azulão, Zabelê)

Mais de vinte mostras poderiam ter sido realizadas neste hiato de 46 anos. Mas, interrompida em sua segunda edição (1968) pela censura, e também depois, no contexto político desfavorável herdado dos militares, a Bienal da Bahia minguou. Retomada neste ano, a megamostra, que começou no dia 29 de maio e prossegue até o dia 7 de setembro, quer compreender uma imensa lacuna.

A palavra compreender, aqui (em interpretação amalgamada a partir de uma entrevista realizada com o curador-chefe da mostra, Marcelo Rezende, também diretor do MAM-BA), pode ser lida em dois sentidos principais: no sentido de abarcar, uma vez que a mostra agrupa e reexibe trabalhos apreendidos pelos órgãos censores em um episódio que também levou ao fechamento da edição de 1968 por dez dias; e também no sentido de investigar e revelar o significado deste episódio, bem como seu reflexo nos dias de hoje.

“O estado da Bahia só voltou a se interessar por um sistema de artes nos anos 1990. E mesmo assim, para os políticos que governaram o estado até 2007, a Bienal nunca foi vista como possibilidade interessante”, diz Rezende. A mostra foi promovida com cerca de R$ 7 milhões, provenientes do estado. Dentro da terceira edição, realizada em várias cidades baianas e que em Salvador ocupa quase vinte diferentes lugares com 200 obras, a retomada é simbolizada principalmente pelo conjunto A Reencenação, que revê os conceitos e exibe obras das mostras de 1966 e 1968. Sozinha, A Reencenação ocupa cinco espaços expositivos e conta com obras dos artistas veteranos Juarez Paraíso, Arthur Scovino, Pierre Verger, Tuti Minervino e Sante Scaldaferri, entre outros. Simbolicamente, há lápides instaladas no Mosteiro São Bento que registram os títulos das obras que desapareceram após o confisco da censura em 1968. Entre os artistas que foram prejudicados pela situação, o português radicado no Rio de Janeiro Antonio Manuel não topou integrar a mostra sem a retratação do governo baiano e acabou se ausentando.

Lágrimas separadas (gota de lágrima do olho esquerdo), de Charbel-joseph Boutros

Lágrimas separadas
(gota de lágrima
do olho esquerdo),
de Charbel-joseph
Boutros

Esta não é a primeira tentativa de resgate da Bienal. Nos anos 1990, diz Rezende, houve um esforço, “por meio de um projeto que circulou entre artistas e intelectuais da Bahia em 1987, mas que nunca avançou”, conta. O olhar desta edição, de qualquer forma, não tem como foco apenas o passado triste. Em seu subtítulo, “É tudo Nordeste?”, parte de um ponto específico (o Nordeste), mas abre-se para o  contexto geral (o Brasil e o mundo). Seria, assim, uma revisão do conceito de regionalismo, ou de um posicionamento “que traduz a possibilidade de olhar a cultura brasileira ou os acontecimentos do mundo pela perspectiva de uma região”, explica Rezende.

A vontade de abertura também tem reflexo nas escolhas estruturais, com a mostra transbordando dos espaços expositivos tradicionais. No início de julho, houve, por exemplo, uma oficina de cerâmica realizada no Terminal Rodoviário de Salvador. Os trabalhos produzidos pelos alunos compõem um painel coletivo que será instalado nos dias próximos ao fim do evento.

Ainda segundo Rezende, o título “É tudo Nordeste?” amplia-se para outras impressões e deslocações da realidade nordestina: “Como o Brasil se relaciona com o Nordeste? Que imagens do Nordeste foram construídas pelo Nordeste? Quais foram construídas sobre o Nordeste? E o que foi imposto como imagem ao Nordeste e acabou assimilado pelo Nordeste?”. Em um dos diversos encontros que já a Bienal realizou entre artistas e o público, o pintor Sante Scaldaferri exemplificou, trivialmente, uma situação em que há imposição de leituras dos estados do Sul. As previsões do clima, nos noticiários de TV, disse Scaldaferri, quando classificam o dia ensolarado e a temperatura de 36º com a expressão “tempo bom no Nordeste”, não apontam que no sertão, por exemplo, tempo bom é quando as temperaturas são amenas e com chuva.

Esse poderia ser um diálogo corriqueiro. Mas a Bienal, segundo sua curadoria, procurou valorizar justamente os encontros, o contato presencial, seguindo a avaliação de que as camadas de história da Bahia foram e ainda são trabalhadas oralmente. Já houve encontros com José Rufino, criador da Comissão da Verdade Paralela, que tem registrado depoimentos de vítimas da ditadura, e com o artista Paulo Bruscky e o curador-adjunto Fernando Oliva, sobre pesquisa desenvolvida em torno das obras censuradas sob alegação de subversão na segunda edição.

O registro de como o Nordeste se relaciona com o mundo reflete-se ainda no trabalho do artista libanês Charbel-Joseph H. Boutros. Por dois meses, ele morou na pequena cidade de Itaparica para, a convite da Bienal, expor sua visão sobre diferenças e similaridades entre o sertão nordestino e o Líbano. “Essa experiência trouxe observações sobre comportamentos em comum com o Oriente; desordem não é exatamente bagunça, mas pode ser uma outra maneira de operar, onde pode ser organizado um território menos ocidental.”

A Bienal não determinou que a experiência do libanês resultasse em um trabalho, mas ela rendeu mais de uma obra, e uma delas é composta por duas lágrimas do próprio artista coletadas e exibidas dentro de tubos de vidro. Uma lágrima está no Mosteiro de São Bento e a outra, na Igreja do Pilar.

Também dentro do espectro da valorização das tradições orais está o programa que retoma a exposição Cadastro, realizada pela primeira vez por Chico Liberato no MAM em 1986. A exposição consiste em oficinas ministradas pelo próprio público. Qualquer pessoa com um conhecimento específico, mesmo que seja algo não relacionado a sua profissão, pode participar. Um exemplo, conta Rezende, foi um sujeito que se inscreveu para ensinar a simples tarefa de desatar nós. Pode não ter tido utilidade para muito gente. Mas foi simbólico dentro de uma edição que pretende desenlaçar velhos problemas de um passado ainda a ser compreendido, rumo a um presente promissor.

 Fotos: Léo Ramos

 

Deixe uma resposta