A ressurreição de Anísio no século XXI

27 de outubro de 2014 -

Fui aluno de Anísio Teixeira na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio, na antiga Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), entre os anos de 1948 e 1952.

Juntamente com Lourenço Filho, Anísio criara a Coordenação das Instituições do Ensino Superior (Capes) e o Instituto Nacional de Educação e Pedagogia (Inep) e implantava a revolução da Escola Nova, começada na Bahia, agora em nível nacional, com Fernando Azevedo e outros.

Anísio me convidou para trabalhar com ele em educação para ciência e cheguei a publicar na Revista Brasileira de Educação análise crítica e dura dos livros didáticos de física e química da época. Anísio aguentou o “tranco”, pois eu mostrava o atraso nessas áreas em plena revolução da física e da química modernas.

Com meu declarado interesse em iniciar esforços para modernizar a educação pelo caminho das ciências, Anísio me convidou para ir dar um crash course de ensino de ciências inteiramente experimental para professoras primárias na Bahia, em Salvador.

Fomos eu e minha esposa Yvonne em lua de mel para uma inesquecível experiência num mosteiro em Salvador, cheios de entusiasmo e com inúmeros experimentos simples em ciências para as professoras primárias motivarem seus alunos e a elas próprias e colegas para o ensino que hoje chamaríamos “mão na massa”.

Anísio sabia que o desenvolvimento da sociedade brasileira teria que trilhar o caminho da educação pela ciência e tecnologia e sair da velha trilha do blá-blá-blá com que nos colonizaram. Parece incrível que até hoje permaneçamos com esse imobilismo em pleno séulo XXI. Imobilismo no sentido de que, apesar dos esforços inegáveis trazidos pela criação da Capes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), todos mais recentemente no bojo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), até hoje não houve um decisivo investimento de recursos com musculatura e longo prazo suficientes para nos levar a transformar o presente quadro educacional na ciência, tecnologia e inovação. Esta é a grande decisão política que nos falta, como ocorreu com a Coreia e a China, por exemplo. E não é somente investimento do Estado, mas da sociedade brasileira, incluindo empresas e capital privado.

Há tempos venho propondo um projeto amplo, não um piloto, mas uma ação nacional estruturante com a criação de uma rede nacional de difusão, a CTIE (Ciência, Tecnologia, Inovação e Educação Multimídia), nas cinco regiões do Brasil, com respectivas centrais de produção regionais, rede esta capaz não apenas de produzir conteúdos multimídia, mas também de inserir-se na rede educacional municipal capilarizada com estilo e conteúdos atuais ao século XXI, com as redes sociais, ensino a distancia, conhecimento e métodos de ensino-aprendizagem globalizados e democráticos já disponíveis. Seria essa a nossa via para a ressurreição de Anísio no século XXI. Em tempo: criamos a Academia de Ciências em Ribeirão Preto e, tendo sido convidado, criei a cadeira Anísio Teixeira, na esperança de que nessa região pioneira da ciência, onde nasceu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), possamos perpetuar a sua memória.

SÈrgio Mascarenhas O físico-quimíco Sérgio Mascarenhas, 86 anos, é um dos mais destacados e premiados cientistas brasileiros, tanto por suas pesquisas básicas quanto pela criação de instrumentos inovadores – entre eles um sistema de tomografia de solos pioneiro no mundo e um equipamento não invasivo da pressão intracraniana – e, sobretudo, por sua incansável liderança na implantação de áreas e instituições fundamentais do sistema brasileiro de ciência e tecnologia e na divulgação científica. Incluem-se entre as materializações de seus sonhos a área de engenharia de materiais em São Carlos, a Unidade de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento de Instrumentação da Embrapa e o Instituto de Estudos Avançados de São Carlos.

Ver sobre ele em:

http://revistapesquisa.fapesp.br/2014/07/15/sob-pressao/ http://revistapesquisa.fapesp.br/2007/07/01/a-fisica-do-mundo-presente/ http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2009/05/68-71_159.pdf

foto Miguel Boyayan

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