Centro de ponta no sertão baiano

29 de outubro de 2014 -

Moscamed domina criação massiva de mosquitos Aedes transgênicos e torna-se referência para outros países

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Toda semana um exército composto por 1 milhão de mosquitos Aedes aegypti geneticamente modificados é liberado em três bairros de Jacobina, cidade com 45 mil habitantes localizada na região noroeste da Bahia, com o objetivo de combater a dengue – doença endêmica no Brasil. Os machos criados em laboratório e soltos para cruzar com fêmeas selvagens, encontradas na natureza, carregam um gene letal, transferido para a sua prole. A soltura dos transgênicos faz parte de um estudo epidemiológico da doença, iniciado em junho do ano passado e com duração prevista de três anos, que se estenderá por todo o município. “Começamos na ponta da cidade e estamos fazendo uma barreira para empurrar o mosquito para o centro”, relata a pesquisadora Margareth Capurro, coordenadora do Projeto Aedes Transgênico, feito por meio de um convênio entre a Universidade de São Paulo (USP) e a biofábrica Moscamed, sediada em Juazeiro, na região do semiárido baiano. Quando os insetos selvagens são suprimidos dos bairros mais externos, outros entram no circuito. “No bairro de Pedra Branca, onde os testes tiveram início, já conseguimos redução de 85% no número de mosquitos selvagens.”

moscamed_IMG_0810

moscamed_DSCF1050Assim que toda a cidade estiver participando do estudo, o número de transgênicos liberados saltará para 4 milhões semanalmente. Experimentos feitos entre 2011 e 2013 em dois bairros de Juazeiro – Mandacaru e Itaberaba – tinham como foco avaliar se, após a soltura dos transgênicos, havia ocorrido uma redução no número de mosquitos transmissores da dengue, o que se confirmou. Nesses locais, a liberação de mais de 17 milhões da linhagem transgênica reduziu em até 93% a quantidade dos Aedes selvagens. “Em Jacobina, a proposta é investigar, do ponto de vista da saúde, se a redução do vetor resultou em uma diminuição, de fato, da dengue”, diz Jair Fernandes Virginio, presidente da Moscamed, engenheiro florestal de formação, com mestrado em entomologia e doutorando no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP, em Piracicaba, no interior de São Paulo. “Esse projeto de pesquisa tem como objetivo a validação por completo da tecnologia.” Se o resultado final se confirmar, a técnica será adotada pelo Ministério da Saúde como um dos mecanismos de combate à doença em escala nacional.

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Armadilha usada para monitoramento das moscasdo-mediterrâneo Pupas abertas com os machos estéreis das moscas Soltura de mosquitos transgênicos em Juazeiro

O conhecimento angariado durante o processo desenvolvido pela Moscamed na criação massiva de mosquitos transgênicos já está sendo repassado para outros países. Em setembro, pesquisadores de dez países, entre os quais China, Paquistão, Cingapura, Malásia e Filipinas, participaram de um curso de treinamento em Juazeiro. Além de técnicas de criação do mosquito, eles também conheceram e debateram a experiência no controle do Aedes.

Dos laboratórios da Moscamed, uma organização social sem fins lucrativos criada em 2005 e instalada desde agosto de 2006 em uma área cedida pelo governo da Bahia, sai toda a produção dos mosquitos liberados em Jacobina. Os recursos para a sua construção, da ordem de R$ 3 milhões, foram repassados pelos ministérios da Integração Nacional e da Agricultura. A linhagem transgênica foi criada pelo laboratório inglês Oxitec, mas coube à biofábrica baiana desenvolver todas as etapas para a criação massiva do inseto. A linhagem transgênica é composta apenas por machos – escolhidos porque não picam e, portanto, não transmitem a doença –, que carregam um gene letal. Quando cruzam com as fêmeas selvagens, eles passam para a prole um gene que provoca uma desregulação celular. “Esse gene fabrica uma proteína em excesso no corpo do mosquito que mata seus descendentes ainda na fase de larva ou de pupa”, diz a pesquisadora Michelle Pedrosa, que realiza experimentos de otimização na criação massiva de mosquitos transgênicos, tema do seu doutorado na USP, e também acompanha as demandas da produção na biofábrica.

Os transgênicos criados em laboratório conseguem chegar à fase adulta porque recebem o antibiótico tetraciclina na fase larval, que funciona como um bloqueador para o gene modificado. Margareth quer ir além da linhagem criada pela Oxitec e estuda outros métodos de produção de mosquitos transgênicos. Segundo ela, mesmo com a redução da população de mosquitos selvagens e diminuição de casos da doença, depois de alguns anos a dengue volta a atacar. Por isso seu grupo de pesquisa está trabalhando em uma segunda fase, que consiste em pegar a população residual de mosquitos nos locais em que houve a liberação de transgênicos e inserir neles um novo gene que irá atingir o vírus causador da dengue, e não mais o mosquito. “Ainda estamos na fase de pesquisa básica, mas este é o nosso objetivo para chegar à completa eliminação do vetor.”

A fabricação dos mosquitos envolve seis etapas, iniciadas com a produção dos ovos para formação de colônias de machos. Isso é feito pelo método tradicional de reprodução entre machos e fêmeas, ambos com o gene da transgenia. Depois é realizado o processo de eclosão do ovo, com o nascimento da larva. Essa larva passa por um processo de criação dentro de bandejas com água, ração de peixe e tetraciclina. No oitavo dia as larvas começam a virar pupas (semelhantes ao casulo da borboleta) e nesta fase é feita a separação de machos e fêmeas em um equipamento que se assemelha a um grande funil com duas placas de vidro e uma abertura em cima. “Como as fêmeas são maiores do que os machos, eles passam pela abertura e elas não”, diz Michelle. Mesmo assim, ainda é feito um controle adicional para certificação de que apenas os machos foram efetivamente selecionados. Essas pupas são transportadas então para um laboratório da Moscamed em Jacobina, onde são acondicionadas em dispositivos de liberação durante dois ou três dias. “O ciclo completo do ovo para chegar ao mosquito é de dez dias”, diz Michelle.

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Macho adulto estéril da moscado-mediterrâneo pronto para ser solto em pomares para combater pragas

Trabalham na produção da biofábrica oito pessoas e outras três ficam em campo em Jacobina cuidando da liberação dos insetos, em rotas e em quantidades predefinidas, e da coleta de armadilhas, sob supervisão da bióloga Luiza Garviera. Outras três pessoas na fábrica de Juazeiro são responsáveis pela análise das informações obtidas na coleta em campo. O projeto está baseado em quatro pilares: engajamento público – que é o esclarecimento da população sobre o transgênico e se dá antes, durante e depois da liberação –, criação massiva, liberação de insetos e monitoramento, com a instalação de armadilhas de captura do mosquito por toda a cidade. “Com o monitoramento é possível avaliar a população selvagem antes, durante e depois da liberação”, diz Michelle. Os mosquitos transgênicos têm um marcador genético que permite ver, com a ajuda de uma lupa especial, quais larvas e pupas são ou não transgênicas.

O objetivo inicial da Moscamed era produzir machos estéreis de moscas-do-mediterrâneo (Ceratitis capitata) por irradiação de cobalto. Uma das principais pragas dos pomares, elas são responsáveis por prejuízos da ordem de US$ 120 milhões aos fruticultores brasileiros. Os estragos são feitos pelas fêmeas, ao depositar seus ovos dentro dos frutos. Quando as larvas se desenvolvem, elas se alimentam das polpas das frutas, inviabilizando a produção. A escolha do local para instalação do laboratório foi estratégica – no centro da maior região produtora e exportadora de frutas tropicais do Brasil, o Vale do São Francisco. Lá, os machos estéreis produzidos são soltos para competir com os selvagens pelas fêmeas.

O cobalto foi substituído pela irradiação por raios X, feita em um equipamento desenvolvido por uma empresa americana em parceria com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), uma organização das Nações Unidas com sede em Viena, na Áustria. “O equipamento foi doado pela agência e hoje a Moscamed é a única biofábrica no mundo a utilizar esse tipo de radiação para esterilização do macho das moscas-do-mediterrâneo”, diz a pesquisadora cubana Maylen Gómez, que desde 2005 começou a trabalhar com a Moscamed, por meio de uma parceria com o Instituto de Investigações em Fruticultura Tropical, de Cuba. Em 2011, ela se mudou para o Brasil e atualmente faz doutorado no Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP. “A agência de energia atômica apoia com consultoria técnica e capacitação de pessoal todas as biofábricas instaladas em países em desenvolvimento”, explica Maylen sobre a parceria.

Os insetos estéreis produzidos são levados a campo em sacos de papelão e soltos nos pomares. “A ideia é que esses machos copulem com fêmeas selvagens para reduzir a população no campo”, diz Maylen. Para que esses machos ganhem a competição com os selvagens, eles são soltos em grande número. “São nove machos estéreis para cada selvagem.” Após ser aplicada no Vale do São Francisco, a técnica será empregada nas culturas de manga, goiaba, acerola e uva de Pernambuco para o controle de pragas na região.

À frente da biofábrica desde a sua implantação até junho deste ano, quando assumiu a diretoria adjunta da AIEA, em Viena, Aldo Malavasi, professor aposentado do Departamento de Genética da USP, foi quem teve a iniciativa de começar a produzir os mosquitos Aedes transgênicos nos laboratórios da Moscamed. “Ele me ofereceu a biofábrica para fazer a produção e em 2009 foi assinado um convênio entre a USP e a Moscamed para dar início ao projeto”, relata Margareth Capurro, professora do Instituto de Biociências da USP, que conheceu a tecnologia de mosquitos transgênicos em 1997, quando fazia seu pós-doutorado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. “Em um dos congressos científicos que participei foram apresentadas essas linhagens transgênicas pelo cientista britânico Luke Alphey, da Universidade de Oxford, fundador da Oxitec”, relata Margareth.

Alphey propôs à pesquisadora brasileira que ela testasse no Brasil os insetos transgênicos que ele havia desenvolvido. Para conseguir importar os insetos, Margareth solicitou à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), responsável pela regulamentação de transgênicos no país, autorização para importar os insetos, concedida em 21 de setembro de 2009. Uma semana depois recebeu da empresa britânica em seu laboratório um envelope com 5 mil ovos, sem nenhum custo. A partir daí, ela começou a criar o inseto transgênico em laboratório, mas precisava de um local para criação em larga escala, a fim de que eles pudessem ser soltos e testados na natureza. E também de um local adequado para essa soltura, que fosse isolado e tivesse mosquitos Aedes selvagens.

A proposta de Malavasi de produzi-los na biofábrica de Juazeiro e a sua sugestão de que fossem soltos por lá mesmo, em vilas isoladas, foi aceita e selada por meio de um convênio. “Foi um casamento perfeito entre universidade e aplicação”, diz Margareth. Na avaliação de Malavasi, a Moscamed foi pioneira em vários projetos únicos no Brasil, “a exemplo do uso da técnica do inseto estéril, o monitoramento de pragas de forma totalmente inédita com acesso on-line e a utilização de mosquitos transgênicos para o controle da população de vetores”. Ele também considera relevante o desafio da biofábrica de prover tanto para o setor privado como para os órgãos de estado soluções eficientes e ao mesmo tempo factíveis tanto do ponto de vista técnico como econômico. Além da produção dos mosquitos transgênicos e dos machos estéreis, a Moscamed também está construindo uma biofábrica de mudas de palma forrageira no mesmo local, prevista para entrar em funcionamento em novembro. “É uma demanda do governo da Bahia para atender os caprinos criados na agricultura familiar”, diz o presidente da Moscamed. 

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