Descobertas na Bahia

27 de outubro de 2014 -

Elevador_Lacerda_Salvador_BahiaUma breve conversa com o secretário da Educação, Osvaldo Barreto, no final de julho, deixou-me a impressão de que algumas experiências novas no ensino de ciências na rede de educação do estado eram bom assunto para uma capa da Bahiaciência. Algumas semanas adiante, as várias exposições que ouvi sobre o programa Ciência na Escola, ao longo de uma agradável manhã no Instituto Anísio Teixeira (IAT) – a começar pelas de Irene Cazorla, diretora da instituição, e de Shirley Costa, coordenadora executiva do programa, terminando pelos relatos de experiências realizadas por desenvoltos estudantes –, confirmaram minha impressão original. Saí do IAT convencida de que era necessário e urgente partilhar com os leitores informações sobre um programa de educação pública com visível potencial para fertilizar certas dimensões da cultura científica de que o Brasil carece tanto e, ao mesmo tempo, ajudar a formar jovens cidadãos intelectualmente autônomos e capacitados para reflexões e raciocínios mais complexos.

A consequência prática dessa minha disposição de espírito é a reportagem de capa desta edição, que o leitor pode conferir a partir da página 24. Ela é trabalho primoroso do jornalista Fabrício Marques junto com nosso editor de fotografia, Léo Ramos, possibilitado pela estreita e entusiasmada colaboração dos muitos entrevistados que aparecem nesse texto ricamente polifônico e no qual se procura trazer à luz um empreendimento de educação bem coordenado e multicêntrico, que se realiza espalhando-se em múltiplas formas pelo estado da Bahia. Depois de ler muito material, trocar inúmeros e-mails e telefonemas, Fabrício e Léo despenderam dois dias inteiros no corpo a corpo com palcos e protagonistas do Ciência na Escola em Salvador para oferecer uma visão mais vívida do que este programa é. De quebra, a reportagem ainda nos ligou à extraordinária figura que foi Anísio Teixeira, que assim aparece nesta edição nas rememórias do respeitado físico Sérgio Mascarenhas (página 5) e na resenha sobre o livro Anísio Teixeira: a polêmica da educação, de Luís Viana Filho (página 72). Não dava para desperdiçar a oportunidade de falar do grande baiano, cidadão do mundo e revolucionário da educação.

Quero destacar também a entrevista de João Carlos Salles Pires da Silva (página 12), o novo reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O vigor e a profundidade de suas respostas permitem concluir que na liderança da maior universidade da Bahia está um brilhante intelectual, professor e pesquisador reconhecidamente produtivo, um gestor testado e com profissão de fé sempre renovada nos métodos republicanos e democráticos de conduzir as instituições. É claro que os destinos da UFBA estão, a rigor, nas mãos da comunidade de mais de 40 mil pessoas que a constituem. Mas, se a qualidade das lideranças faz diferença, certamente essa comunidade, nas proximidades dos 70 anos de sua instituição, pode sonhar com um lugar de mais destaque no sistema universitário brasileiro e nos rankings da produção científica.

Se qualquer publicação jornalística deve ter energia para se renovar sempre, sem, entretanto, trair seus propósitos originais, aquelas que estão começando desfrutam o especial privilégio de uma grande liberdade de experimentação para ir conformando seu projeto. É assim que a Bahiaciência em seu terceiro número traz, em lugar de alguns artigos de duas páginas de diferentes especialistas, o primeiro capítulo do livro de divulgação científica de um grande especialista em história da ciência, Olival Freire Júnior (página 40). O livro, um trabalho de fôlego, em linguagem acessível, sobre a segunda revolução quântica, será publicado em inglês até janeiro de 2015 pela Springer, uma das maiores editoras internacionais no campo da ciência e da divulgação científica. Mas, enquanto isso, Olival, hoje pró-reitor de pesquisa, criação e inovação da UFBA, permitiu que esta revista traduzisse e oferecesse em primeira mão a seus leitores o belo material. Isso honra a revista e certamente constitui um privilégio para seus leitores. A propósito, seria muito interessante se uma editora brasileira de livros lançasse The quantum dissidents em português.

Esta carta não pode se estender muito mais, por isso brevemente destaco e recomendo a reportagem sobre experiências relevantes de nanociência no Instituto de Física da UFBA (página 36) e o esforço em defesa do bioma 100% brasileiro, que é a caatinga, partido da Univasf (página 50). Observo, por fim, que é um imenso prazer reencontrar amigos de décadas de Salvador em seu esforço para fazer avançar as ciências sociais. É assim que olho afetivamente para o Dicionário temático desenvolvimento e questão social, obra coordenada por Anete Ivo, objeto de reportagem desta edição a partir da página 68, ou para a revitalização das Oficinas de Dança, depois de uma interrupção de 17 anos, pelas quais Dulce Aquino tanto batalhou (página 62).

Boa leitura!

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