E a luz não se apagou

30 de outubro de 2014 -
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Anisio Teixeira: A polêmica da educação Luís Viana Filho Editora Unesp; Edufba 236 páginas – R$ 38,00

É surpreendente, para quem só conhece de Luís Viana Filho o trajeto político francamente conservador, o quanto o seu Anísio Teixeira: a polêmica da educação traz do espírito revolucionário, generoso e profundamente comprometido com a transformação social do grande educador brasileiro nascido na pequena Caetité, na Bahia. Mas Viana (1908-1990), além de ministro-chefe da Casa Civil de Castelo Branco, o primeiro presidente do período da ditadura militar (1964-1967), governador da Bahia (1967-1971) e senador de 1974 até sua morte, era um intelectual produtivo. Vale lembrar que foi professor de direito internacional privado na Faculdade de Direito e de história do Brasil na Faculdade de Filosofia, ambas posteriormente vinculadas à Universidade Federal da Bahia (UFBA). Como escritor, foram as biografias que o notabilizaram, algumas de fôlego, como A vida de Ruy Barbosa e A vida de Joaquim Nabuco, e ambas certamente deram suporte à sua eleição para a Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1954.

O livro que ele dedicou a Anísio Teixeira não é uma biografia em sentido pleno, mas uma memória biográfica focada nas gigantescas lutas que o baiano franzino, visionário, e às vezes melancólico, travou pela implantação de um sistema educacional pujante, público e gratuito, além de universal e em todos os níveis, dentro de uma realidade onde tudo isso soava como heresia. Da Escola Parque em Salvador à Universidade de Brasília (UnB), do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep) e Institutos Regionais de Educação a ele articulados à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Viana faz aparecer todos os sonhos – e realizações – nascidos da mente inquieta de Anísio Teixeira em sua obsessão por mudar o panorama da educação no país e assim transformar o próprio país. Como contraface, deixa emergir também os momentos de desânimo profundo a cada batalha perdida. E elas foram inumeráveis, assim como as perseguições movidas contra o notável empreendedor.

Na origem, o empreendimento de Luís Viana Filho em relação a Anísio Teixeira era modesto, apenas uma resposta positiva à solicitação do professor Benedito Silva para que prefaciasse o livro do próprio Anísio sobre o ensino superior que a Fundação Getulio Vargas ia editar. “Sem ânimo para recusar, entreguei-me às pesquisas que, ampliadas, deram origem a este trabalho”, ele conta no agradecimento que abre o volume (p. 9-10), datado de janeiro de 1990. “Muitos me ajudaram, trazendo-me sugestões, cartas, documentos e lembranças. De fato um mundo de amigos e admiradores de Anísio Teixeira sempre prontos para colaborar com um bom conselho ou achega esclarecedora de uma dúvida”, completa.

E é mesmo principalmente sobre fragmentos das cartas, em especial as enviadas por Anísio a amigos e parceiros de batalha e as respostas dos destinatários a estas, que o autor constrói uma narrativa elegante e consistente, pela qual o leitor consegue entrever tanto a grandeza de um homem em seus conflitos e lutas de extraordinário alcance quanto o ambiente adverso no qual ele se move. O que o país tem de mais mesquinho também é, assim, iluminado na obra que Viana divide em sete capítulos: A religião nova, Columbia University, A grande aventura, A roda da fortuna, O manifesto dos bispos, A monotonia da vida e O mito de Sísifo. O percurso que cumpre através desses capítulos vai naturalmente do nascimento de Anísio Teixeira, em 12 de julho de 1900, à sua morte intrigante em 11 de março de 1971, supostamente por uma queda no poço do elevador do prédio onde morava o acadêmico Aurélio Buarque de Holanda, o Edifício Duque de Caxias, na Praia de Botafogo, 48.

Anísio era candidato à ABL e saíra da Fundação Getúlio Vargas, onde trabalhava, também na mesma Praia de Botafogo, para uma das visitas de praxe que postulantes a uma vaga na ABL devem fazer aos futuros confrades. E desapareceu. Dois dias depois sua família foi avisada de que seu corpo fora encontrado no fosso do elevador. Escreve Luís Viana Filho: “Anísio morrera caído no poço do elevador do edifício para o qual se dirigira. Ninguém vira nada. Era a tragédia sem testemunhas, e sobre ela pairavam todas as conjecturas e todas as interrogações. Esquecidos de haver ele próprio dito vivemos em um universo de acidente e de sorte, onde não havia lei nem justiça, muitos não admitiam haver sido uma simples fatalidade. O advogado Marcelo Cerqueira, criminalista conceituado, acompanhou o inquérito para apurar os pormenores da tragédia que ninguém presenciara, e sobre a qual as dúvidas se alastravam. Concluiu-se haver sido um acidente. Uma armadilha do destino”. (p 229).

Estava-se então na pior fase da ditadura brasileira, que tinha então o general Medici na presidência. Registre-se que, com abundância de depoimentos, inclusive os do filho de Anísio Teixeira, Carlos Antonio Teixeira, e de seu biógrafo, João Augusto de Lima Rocha, a Comissão Nacional da Verdade e a Comissão da Verdade da UnB, passaram a investigar em 2013 as circunstâncias da morte do educador. E até meados de 2015 devem apresentar os resultados de seu trabalho. É possível então que a verdade seja estabelecida sobre esse morte tão suspeita. Viana acata a versão oficial, mas deixa reluzir na última página de seu livro o lamento de um companheiro de batalhas de Anísio. “Do exílio Darcy Ribeiro mandou uma palavra de emoção: ‘Uma luz apagou no Brasil: sua inteligência mais luminosa’. Tudo acabara? Além da tristeza dos amigos, ficava quanto ele fizera pela educação.” (p. 229).

De volta ao começo, o primeiro capítulo do livro de Viana retrata a inclinação religiosa de Anísio Teixeira, a imensa influência que sobre ele exerceram os jesuítas, ordem a que pertencia o colégio em que estudara em Caetité, e seu projeto de tornar-se, ele mesmo padre jesuíta, contra o qual lutou bravamente seu pai, o senador e proprietário rural Deocleciano Teixeira, um agnóstico convicto. Foi ao deixar Caetité que ele comunicou seus planos aos pais, numa carta de 25 de março de 1920. “As leituras me iniciaram ainda mais na grandeza deste movimento que é a última cruzada branca de paz e de luz e que virá de novo conquistar o mundo aos ensinamentos divinos de Jesus (…). De logo não pude mais compreender a vida como a luta pelas pequenas ambições materiais dos homens. Compreendia-a como a luta por este ideal superior da Verdade e do Bem”, dizia (p. 17).

Malgrado o trabalho incessante de aliciamento de alguns jesuítas, a Universidade Columbia abriria depois horizontes muito mais largos e inteiramente diversos para o jovem de sentimentos tão ardentes. Ali começou a nascer o admirável educador brasileiro. Em carta a Fernando de Azevedo, seu parceiro de tantos projetos pela vida afora, ele diria em 1929: “Eu já-lhe disse aí o bem que me fez esse contato com o seu espírito e com sua obra. Saíra da Bahia direto para Nova Iorque. Lá estive dez meses. O exame diário do trabalho gigantesco dos Estados Unidos em matéria de educação, a visão do que ela envolvia de complexidade, de conhecimento especializado e dinheiro, a compreensão mais viva desse exasperante determinismo econômico do progresso moderno, me haviam feito, deixe que lhe diga, meio cético a respeito da possibilidade de uma obra educativa séria em nosso meio. Mesmo que nos sobrasse dinheiro, faltava-nos conhecimento técnico e especializado para realizar uma obra de cooperação e de grupo. Cheguei mesmo a pensar que era cedo para um trabalho de renovação propriamente da escola”. (p 41).

O capítulo 3, A grande aventura, é o núcleo fundamental e mais denso do livro de Luís Viana Filho sobre Anísio Teixeira. E a epígrafe escolhida é certeira para introduzir o leitor nas batalhas imensas que se levantariam no percurso do educador que está investindo sem pena contra o status quo: “Só existirá uma democracia no Brasil no dia em que se montar no Brasil a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública”. Essa bandeira , Anísio levará, erguendo-a de diferentes formas, da Bahia ao Rio, a Brasília e a todo o país. Não esquecerá totalmente dela nem mesmo quando abatido pela ditadura de Vargas retira-se para Caetité e torna-se por sete anos, até 1945, um próspero exportador e importador. A certa altura, à beira de tornar-se milionário com a posse de uma mineradora, recebe um convite para juntar-se à Unesco em formação, como conselheiro educacional (p.115). Ele escolhe uma vez mais a educação e desiste dos negócios.

É nos capítulos 5 e 6 que Viana entrega ao leitor uma das mais fortes amostras da perseguição odiosa tantas vezes movida contra Anísio Teixeira. Depois de virulentos ataques de Gustavo Corção e de Carlos Lacerda contra o que chamavam “o dono da educação”, o educador mereceria a ira do arcebispo de Porto Alegre, dom Vicente Scherer, que iria levantar contra ele a Igreja em geral, liderando o Memorial dos Bispos publicado em março de 1958, pedindo sua cabeça da direção do Inep “para evitar-se a revolução preparada nas escolas” (p. 162).

Veja-se uma amostra da pregação dos bispos: “Ainda que inculque não advogar ‘o monopólio da educação pelo Estado’ – o que não admira, porque o socialismo, em suas correntes predominantes, não é estatista – o professor Anísio Teixeira espera da escola pública ou comum, que tão ardentemente preconiza, os mesmos resultados pré-revolucionários, previstos, com ansiosa expectativa, pela doutrina socialista (…). O povo brasileiro na verdade não quer que se transforme, por uma revolução social, a começar da escola, a República Brasileira em uma República Socialista; que o queiram e proclamem esse desejo, servidores elevadamente situados no Ministério da Educação e Cultura, é fato, por isso mesmo que deverá merecer especial atenção dos Altos Poderes da República”. E, como o autor, “sem rodeios”, os bispos solicitavam “as providências necessárias e inadiáveis para a cessação desse estado de cousas” (p. 163-164).

A contrareação democrática e liberal salvou Anísio. Pelo menos daquela vez. (p. 1g5-167).

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