Escada e linha

27 de outubro de 2014 -

© Luis Maria Batista003_outros olhares_ESCADA E LINHA 1 003_outros olhares_ESCADA E LINHA 2

Sempre se pensou a ciência como uma escada: colocado o pé no primeiro degrau, podemos pensar depois em colocá-lo no segundo. Existe uma linha, a que podemos chamar raciocínio ou lógica, e a metodologia é avançar sem tirar os pés da linha. Se não o fizermos, caímos. Ou seja: abandonamos a metodologia da ciência.

Não são permitidos saltos. Ao argumento 3 deve seguir-se o argumento 4; o argumento 3 deve ter sempre no seu campo de visão as costas do 4 e o 4, por seu turno, nunca deverá perder de vista a parte da frente do argumento 3. No fundo, falamos de carruagens de um comboio, mas de um comboio parado. Para sairmos do sítio onde estamos, passamos de uma carruagem para a outra e portanto a viagem apenas termina se as nossas pernas não tiverem comprimento suficiente para passar de uma carruagem para a seguinte.

Nas ciências mais clássicas chamamos prova ao que nos permite passar para a carruagem seguinte e nas ciências que se baseiem mais na linguagem do que nas coisas materiais chamamos a essa tal coisa: argumentação. Na prova, a matéria argumenta; na argumentação, a linguagem prova.

O problema, num lado e noutro, é este: onde se começou?

Porque, de fato, para começar a andar é necessário começar. Pressupõe-se então que antes do caminhar existiu o não caminhar.

Para uma linha existir (um raciocínio ou uma série de provas) é necessário ocorrer o momento determinado onde se começa a desenhar a linha. Como defendia Kandinsky: a linha nasce sempre de uma força aplicada a um ponto. O ponto existe antes da linha. É, de certo modo, o que a gera. O pai e a mãe da linha são uma única personagem, neste caso, o ponto. Sem ele, a linha é apenas potência.

O problema é então este: se o desenvolvimento de uma linha é lógico, apoiado na razão e na prova (e por isso chamamos ciência a essa linha e cientistas aos que a desenham), o início da linha – o ponto – é sempre uma fixação que não tem causa: marca-se um ponto aqui, neste sítio específico do espaço, como se poderia perfeitamente marcar ali, mais à frente ou mais atrás. A marcação do ponto inicial – da linha de raciocínio ou da linha de montagem de uma prova científica – é, pois, não causal, mas casual.

Começamos a raciocinar a partir daqui como poderíamos perfeitamente começar a raciocinar a partir dali.

* Gonçalo M. Tavares é escritor português, autor de Imagens dos Especialistas, entre outras obras.
Fotos de Luis Maria Baptista (Os Especialistas)

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