No Boqueirão da onça

28 de outubro de 2014 -

Pesquisador da Univasf lidera esforço para implantar um parque voltado à preservação da caatinga em área de 800 mil hectares

Não é coincidência que Ariano Suassuna, em sua dramaturgia genuinamente nordestina, ligasse sua vida às caatingas e, dentro deste ecossistema que é o único 100% brasileiro, tivesse a onça como um personagem sempre presente. Esse felino, tão ameaçado em vários dos locais onde vive, tanto na mata atlântica quanto no pantanal, consegue sobreviver com certa tranquilidade no Boqueirão da Onça, perto de Sento Sé, município do noroeste baiano, às margens do lago de Sobradinho.

Se tem onça, tem também tatu-bola, exatamente aquele que inspirou o Fuleco, mascote da Copa do Mundo do Brasil. Entre as espécies ameaçadas deste grupo, algumas vivem nas caatingas e outras no cerrado brasileiro.

Além da fauna, a flora do Boqueirão, conservada e abundante, fato que ajuda a derrubar ainda mais o mito de a caatinga ser um ambiente pobre, sempre seco e sem vida, é outro importante motivo que leva o professor José Alves Siqueira, biólogo da Universidade Federal do Vale do São Franciso (Univasf), em Petrolina (PE), ser enfático na sua luta para, finalmente, transformar a região em um parque nacional. A ideia é discutida faz vários anos, mas a área de proteção ainda não é uma realidade.

© Fotos: José Alves Siqueira/Arquivo pessoal/wikimediaCaatinga_Umbuzeiro_Spondias

Umbuzeiros e bodes na caatinga: o conhecido ambiente seco em paralelo à biodiversidade de riqueza insuspeitada

“A dimensão prevista para o parque nacional é de 800 mil hectares. É nele que está a caatinga selvagem, com uma população única de onça-pintada, o tatu-bola, o imbuzeiro, outra árvore típica da caatinga. Trata-se de o maior parque nacional fora da região amazônica”, afirma Siqueira, que, assim como Suassuna, se define como um cientista que decidiu, há mais de 10 anos, estudar algo genuinamente típico do Nordeste e do Brasil, as caatingas. Ele trocou o litoral, no caso a cidade do Recife (PE), pelo interior do estado, para ficar mais perto do seu objeto de estudo. “Os moradores de Salvador e Recife muitas vezes se viram apenas para as ondas do mar, não sabem o que existe no interior do estado”, defende. O Boqueirão tem serras de mais de mil metros de altura, quando a paisagem assume outras cores e formas como os campos rupestres. Vales e rios ajudam a compor o cenário.

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Quipea ou palmatória (Tacinga inamoena)

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Carrapicho de cavalo ou ratanha de Nova Granada (Krameria tomentosa): flores da caatinga

O plural que Siqueira usa para o termo caatinga não é um exagero e nem uma questão semântica. As estimativas, sempre abaixo da realidade, porque os cientistas nem sempre conseguem esgotar com seus estudos todas as descobertas que podem ser feitas, indicam a existência de 4.470 espécies vegetais na região “caatingueira”. O que revela a existência de várias fisionomias e, portanto, alguns tipos de caatinga, e não apenas uma. Existem pelo menos sete tipos de fisionomia vegetal identificados pelos pesquisadores dentro da região.

Os números de espécies animais também impressiona aos leigos, que sempre têm em mente aquela imagem típica do sertão nordestino associado à palavra caatinga. Aquela paisagem árida, sem verde, com o chão sempre rachado, com animais mortos ao fundo. O que, diga-se passagem, também existe no Nordeste, mas não é a imagem única da região. Em todo o ecossistema semiárido, que ocupa área de 800 mil quilômetros quadrados, são conhecidos 51 espécies de aves, 143 de mamíferos, 98 de répteis, 61 de anfíbios e 250 de peixes – para ficar apenas entre os principais grupos. Números que nem sempre são atualizados com frequência e, por isso, estão subestimados.

Entre grupos de animais, a diversidade também é grande. A composição da ictiofauna das caatingas tem por volta de 250 espécies. Mas os peixes, ao contrário de vários grupos terrestres que estão adaptados ao ambiente seco do sertão, costumam, pelo rios, chegar até outros biomas.

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Gato-maracajá (Leopardus wiedii)

Caatinga_Myrmecophaga_tridactyla_-_Phoenix_Zoo

Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla)

Como era a caatinga o ambiente da ararinha-azul, pássaro extinto na natureza, que hoje vive apenas em cativeiro, com projetos para, talvez, ser reintroduzido na natureza, o semiárido também é rico em diversidade de pássaros. Mais de 500 espécies existem no bioma, apesar de nem todas ainda serem totalmente conhecidas.

Os mamíferos não se restringem às onças e tatus. Existem marsupiais, morcegos e roedores, que também vivem na caatinga. Vários grupos são exclusivos dessa região. Na serra da Canastra, outra região importante de biodiversidade perto de onde o Velho Chico começa, vivem exemplares da onça-pintada (Panthera onca), da onça-parda (Puma concolor), do tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla), do tatu-bola (Tolypeutes tricinctus), da jaguatirica (Leopardus pardalis), do gato-maracajá (Leopardus wiedii) e do gato-do-mato (Leopardus tigrinus).

Em relação aos primatas, descobertas feitas na região de Canudos, na Bahia, na segunda metade da década de 1990, ampliaram a lista de espécies agora conhecidas. Existem no ecossistema do semiárido do Brasil ao menos dois tipos de macaco-guariba, o já famoso macaco-prego e, há dez anos, o macaco-sauá foi identificado na região de Canudos também.

Caatinga_Licuri_Syagrus

O licuri ou oricuri (Syagrus coronata), palmeira nativa; frutos comestíveis disputados pelas crianças e sementes ricas em óleo vegetal.

Siqueira, para quem o pesquisador de uma área tão frágil como a caatinga não pode deixar de ter uma visão holística do problema, também não deixa de citar outro habitante da região: “São 30 milhões de pessoas que moram na região”. É por isso que o termo desenvolvimento sustentável precisa ser realmente implantado na região. É uma área de muitas carências, mas também a de muitas oportunidades”, diz o pesquisador. Entre as lutas de Siqueira está cobrar os órgãos públicos pela implantação de um plano desenhado no início do século com base em levantamentos científicos feitos por vários grupos de pesquisa da região.

“A caatinga hoje tem menos de 2% de sua área protegida de forma integral. O ideal, e isso já foi determinado, é que pelo menos 10% da caatinga virassem áreas realmente conservadas”, afirma Siqueira.

Os levantamentos mais recentes mostram que o ritmo da destruição da caatinga é alarmante. Se há mais de 10 anos os números indicavam que por volta de 30% do ambiente estava alterado, hoje aproximadamente 60% do bioma não existe mais em sua forma original. Apesar de estar muito à frente de outras regiões, como a mata atlântica, que tem menos de 7% da sua formação original de pé, e mesmo assim vários desses trechos são muito pequenos, Siqueira não vê com otimismo a situação da região. Mesmo porque por volta de 22% das áreas já alteradas da caatinga estão sofrendo com processos de desertificação em diversos estágios, alguns bastante avançados.

A alteração de um ambiente originalmente exuberante começa a gerar distúrbios ecológicos importantes. O próprio Siqueira e colaboradores identificaram seis espécies invasoras que realmente já colonizaram mais de 800 hectares nas margens do rio São Francisco. E novas invasões estão a caminho, o que representa uma ameaça real à biodiversidade da caatinga.

Quando o assunto é o Velho Chico, a Onça Caetana de Ariano Suassuna, que o escritor costumava associar à morte, que o levou em julho deste ano mesmo tendo trabalho, como o autor gostava de dizer, volta ao foco principal. O pesquisador da Universidade Federal do Vale do São Francisco é categórico: “O São Francisco está condenado”.

Segundo Siqueira, apesar de ter sido chamado de “maluco” há dois anos, quando disse que o grande rio brasileiro estava morrendo, infelizmente os fatos apenas têm reforçado ainda mais esta sua tese.

“O que ocorreu agora, com as nascentes do rio secando, com uma boa parte do Parque Nacional da Serra da Canastra queimado, é muito triste. A simbologia que envolve a nascente do rio secando, mesmo que isso ainda possa ser revertido, é muito grande. Chegamos ao fim do poço.” Em Ibotirama (BA), não há navegacão, lembra Siqueira. Fenômeno também causado pela falta de chuvas e por alterações no ecossitema do rio.

Sobre o São Franciso, Siqueira e seus colegas podem falar de carterinha. Entre 2008 e 2012, foram mais de 200 expedições, que totalizaram 344 mil quilômetros, para fazer o livro A Flora das Caatingas do Rio São Francisco: História Natural e Conservação, vencedor do Prêmio Jabuti de 2013, na categoria Ciências Naturais.

Para o pesquisador, que fez a obra com um grupo de 99 pesquisadores e 40 instituições científicas, o São Franciso “não é mais um rio com vida exuberante como era no passado. É apenas um canal de água”.

As causas para este processo ter ocorrido, diz ele, não é única, nem de responsabilidade de uma pessoa ou de uma única obra de engenharia. “O mais correto é dizer que houve uma falência múltipla dos órgãos.”

Um exemplo citado por Siqueira é o desmatamento histórico que ocorreu ao longo dos anos. “Nós temos hoje 2% de mata ciliar no São Franciso. Isso é um dos itens que precisam ser recuperados.” Esta vegetação, que deveria ficar a centenas de metros das duas margens do rio, tem um papel ecológico fundamental na preservação do rio. Ela protege a vida aquática e o próprio rio de substâncias poluidoras e da erosão.

Se em relação ao ambiente da caatinga como um todo, Siqueira se diz um entusiasta por esse “ambiente mágico”, quando o assunto é o principal rio que corta a região, a projeção do futuro é outra. “Não posso deixar de ter uma visão apocalíptica”, afirma o cientista, que, por meio de suas lentes – ele é também fotógrafo –, vem registrando as transformações ruins, segundo ele, da região. 

Uma campanha pelo parque

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Riacho do Navio, afluente do rio Pajeú

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Jacucacas (Penelope jacucaca)

Na sexta-feira 10 de outubro, o professor Edivaldo Boaventura, ex-secretário de Educação e vice-presidente da Academia de Ciências da Bahia, entre diversos outros títulos, orientou seu artigo na página 2 de A Tarde e toda a sua influência cultural para uma campanha. “É preciso preservar, pelo menos, um bom pedaço da caatinga!”, ele escreveu, propondo “a participação de toda a comunidade baiana, principalmente do governo estadual, das lideranças do meio ambiente, das universidades e de organizações outras da sociedade civil” no projeto de criação do Parque Nacional do Boqueirão da Onça, na região do Vale do São Francisco, “para a preservação do bioma caatinga”.

O inventário das espécies da área foi feito em 2006 por solicitação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), visando à criação do parque. “O projeto, no semiárido baiano, envolve os municípios de Umburana, Sento Sé, Sobradinho, Campo Formoso e Juazeiro. A caatinga, o semiárido e o rio São Francisco formam um conjunto. Uma rede só”, ele observou no artigo, para dizer a seguir que “a região, rica em cavernas e flora, repleta de flores raras, está ameaçada de extinção”. E isso inclui as onças-pintadas que dão o nome à região.

O professor Edivaldo Boaventura defende que só com parques protegidos por lei preservamos a natureza. “Se quisermos salvar parte da caatinga, é preciso a decretação da região do Boqueirão da Onça para a criação do parque. O processo de criação tramita em Brasília há 12 anos. O governo federal começa a delimitação do polígono cuja densidade populacional é baixa. Todavia, além do decreto de criação, é preciso que os 800 mil hectares coloquem a Bahia em um lugar de destaque nacional e internacional.”

Na visão do professor, o Boqueirão da Onça deverá ser “o maior parque extra-amazônico do país”, coisa que as dimensões generosas do território baiano permitem. “Anteriormente, preservamos a serra do Sincorá, na chapada Diamantina, a partir dos estudos pioneiros de Roy Funch. O Parque Estadual de Canudos permitiu que preservássemos os antigos campos de batalha do conflito sangrento. Em outras condições,
o berço do nosso poeta maior, em Cabaceiras do Paraguaçu, possibilitou o surgimento do Parque Histórico Castro Alves”. Agora, ele conclama, “é a vez da caatinga ficar de pé”.

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