Prêmio Nobel 2014

29 de outubro de 2014 -

Poucas_Turma

O Nobel e a América Latina

A safra 2014 do Prêmio Nobel reconheceu contribuições como a descoberta do LED azul, que viabilizou a fabricação de lâmpadas econômicas, a identificação de um grupo de células cerebrais que constituem uma espécie de “GPS” do nosso organismo e o desenvolvimento da microscopia de super-resolução.

O Prêmio de Economia coube ao francês Jean Tirole, por seus estudos acerca da regulação de setores industriais. O Nobel da Paz foi dividido entre a paquistanesa Malala Yousafzay e o Kailash Satyarthi, referências na luta pela educação de crianças. Já o de Literatura surpreendeu ao laurear o francês Patrick Modiano, fora das bolsas de apostas.

Mais uma vez, a América Latina ficou fora da premiação, num sinal, observado por uma reportagem publicada pela agência France-Presse, das dificuldades da pesquisa e da educação superior no continente. A região multiplicou por seis sua produção científica nos últimos 20 anos, chegando a 4,3% da produção mundial, mas suas universidades seguem malcolocadas nos rankings internacionais.

“A má notícia é que a quantidade não foi necessariamente acompanhada pela qualidade”, disse o sociólogo argentino Jorge Balan, professor da Universidade de Columbia, em Nova York. “Temos mais cientistas do que nunca, porém a qualidade da pesquisa não é tão boa de um ponto de vista internacional.”

Regulamentação de mercados

O professor francês Jean Tirole, de 61 anos, ganhou o Nobel de Economia de 2014, por investigar como grandes empresas devem ser reguladas de forma a evitar que os consumidores sejam prejudicados. “Ele tem importantes contribuições teóricas em várias áreas, mas esclareceu, especialmente, como entender e regular setores com poucas empresas poderosas”, diz a nota da Academia Sueca. Tirole mostrou teoricamente que algumas regras – como limitar preços dos monopólios e proibir a cooperação entre empresas concorrentes para evitar cartéis – podem funcionar bem sob certas condições, mas têm mais efeitos negativos do que positivos em outras. Para o economista, a política de regulamentação da concorrência deve ser cuidadosamente adaptada às condições específicas de cada setor industrial.

A inovação do LED azul

A invenção do LED azul rendeu o Nobel de Física de 2014 a três pesquisadores do Japão: Isamu Akasaki e Hiroshi Amano, da Universidade de Nagoia, no Japão, e Shuji Nakamura, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos.

Nakamura Laser

Nakamura

LED é a sigla em inglês de light-emitting diode, ou díodo emissor de luz. Tais dispositivos eletrônicos convertem energia elétrica em luz de forma bastante eficiente, utilizando materiais semicondutores. O que o trio de pesquisadores fez foi desenvolver, no início dos anos 1990, um diodo emissor de luz azul bastante eficiente e ambientalmente sustentável. Até então, apenas diodos emissores de luz verde e vermelha haviam sido criados.

Poucas_Fisica_Isamu

Akasaki

Poucas_Fisica_Hiroshi

Amano

 À luz do modelo de cores RGB, era necessário um terceiro componente para que fosse possível obter a luz branca. Em termos práticos, a criação do grupo contribuiu para a concepção das lâmpadas LED de luz branca utilizadas hoje, mais eficazes e duradouras que as convencionais.

 

 

Além do limite da microscopia

Betzig, Hell e Moerner: marcação de moléculas com proteína fluorescente

Poucas_Quim Eric Betzig Crédito- Matt Staley _ HHMIPoucas_Quim Stefan inferno- Créditos- MPIBPCPoucas_Quim_William Moerner_Linda Cícero, Stanford News Service

O Nobel de Química foi conquistado por Eric Betzig, do Instituto Médico Howard Hughes (Estados Unidos), Stefan Hell, do Instituto Max Planck (Alemanha), e William Moerner, da Universidade de Stanford (Estados Unidos), pelo desenvolvimento da microscopia de super-resolução por fluorescência. A tecnologia permite estudar com mais precisão o que acontece no universo molecular dentro de células vivas. Com ela se tornou possível observar as células nervosas do cérebro transmitindo impulsos elétricos ou investigar proteínas relacionadas ao desenvolvimento das doenças de Parkinson, Alzheimer e Huntington. A microscopia óptica convencional apresenta uma limitação física: sua resolução é sempre inferior a metade do comprimento de onda da luz utilizada. Por outras palavras, não seria possível visualizar objetos de dimensões inferiores a 0,2 mícron (milésimo de milímetro). Esta barreira teórica foi superada pelos vencedores do Nobel, por meio da marcação de moléculas biológicas com uma proteína que se torna fluorescente. Hoje, os cientistas conseguem fazer várias imagens de uma mesma área, permitindo que apenas uma molécula brilhe de cada vez. Em seguida, sobrepondo imagens, obtém-se uma imagem em escala nanométrica.

Mais um prêmio para a França

A Academia Sueca premiou o escritor francês Patrick Modiano, 69, com o prêmio Nobel de Literatura “pela arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis”, conforme o comunicado oficial. O livro mais famoso de Modiano é Uma rua de Roma, que narra a história de um detetive que perde a memória. Seu primeiro romance, La place de l’étoile, foi publicado em 1968. Ao longo da carreira, também escreveu roteiros para o cinema. Foi um dos autores do filme Lacombe Lucien (1974), dirigido por Louis Malle. Modiano é o 11º autor francês a ganhar o Nobel de Literatura. Entre seus livros publicados no Brasil está Filomena Firmeza, de 1988, editado pela Cosac Naify.

Educação e proteção das crianças

A jovem ativista paquistanesa Malala Yousafzay, de 17 anos, dividiu o Prêmio Nobel da Paz com o engenheiro indiano, e também ativista, Kailash Satyarthi, 60 anos. Ambos são referência na luta pela proteção de jovens e crianças e a garantia de seu direito à educação. A dupla dividirá 8 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 2,64 milhões. Malala foi baleada na cabeça em outubro de 2012, no Paquistão, em represália do Talibã à sua campanha pelo direito das meninas à educação no país. Em 2013, foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes pela revista Time. Já Satyarthi há anos se dedica à organização de protestos pacíficos contra a exploração de crianças e contribuiu para a criação de convenções internacionais voltadas aos direitos das crianças.

A descoberta do GPS cerebral

Norway Nobel MedicinePoucas_John O'Keefe_Photo- David Bishop, UCL

O casal Moser e John O’Keefe: grupo de células que permite orientação

A descoberta de uma espécie de “GPS cerebral”, um conjunto de células que dão forma a um sistema de posicionamento do cérebro permitindo a orientação no espaço, rendeu o prêmio Nobel da Medicina de 2014 a John O’Keefe, do University College de Londres (Reino Unido) e ao casal May-Britt e Edvard Moser, da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia de Trondheim. O trio resolveu um problema que há tempos intrigava os neurocientistas: como o cérebro conseguia desenvolver um mapa do ambiente que o rodeia e como conseguimos nos orientar em espaços tão complexos e distintos com base nesse mapa? O´Keefe identificou os primeiros componentes celulares desse sistema de posicionamento em 1971. À época, observou que um grupo de neurônios era sempre ativado quando camundongos eram colocados em lugares específicos mais de uma vez. Mais de 30 anos depois, em 2005, o casal Moser identificou outro tipo de neurônio, chamados de “células de grade”, ativado quando os animais estavam em uma determinada região. Esses neurônios geravam um sistema de coordenadas que permitiam o posicionamento preciso.

Pesquisas que fazem rir

Poucas_Ig Nobel

Os Prêmios Ig Nobel de 2014, que premiam pesquisas que fazem “rir primeiro e pensar depois”, foram entregues no dia 18 de setembro numa cerimônia na Universidade de Harvard, nos EUA. O Ig Nobel de Física foi atribuído a um grupo de pesquisadores do Japão, que se dedicou a investigar por que cascas de banana são escorregadias. O trabalho mediu o atrito entre um sapato, uma casca de banana e o chão. Entre seus achados, constatou que a banana é mais escorregadia do que a casca da maçã e da tangerina. Já o prêmio de Neurociência coube a um grupo de pesquisadores da China e do Canadá que estudou, por meio de ressonância magnética, como funcionam os cérebros de pessoas que veem o rosto de Jesus Cristo em torradas. O prêmio de Psicologia reconheceu a contribuição de pesquisadores da Austrália, do Reino Unido e dos Estados Unidos, que, em artigo publicado na revista Personality and Individual Differences, encontraram uma relação entre o hábito de ficar acordado até tarde e a probabilidade de se tornar um psicopata. Na categoria Saúde Pública, a vitória foi de um conjunto de artigos, feitos por pesquisadores dos Estados Unidos, Índia, Japão e República Checa, que avaliaram se viver com um gato é ou não é perigoso para a saúde mental. O Ig Nobel de Biologia, conquistado por pesquisadores da Alemanha, República Checa e Zâmbia, documentou que os cães, quando defecam e urinam, preferem alinhar o eixo de seu corpo com o eixo geomagnético norte-sul da Terra. O artigo foi publicado na revista Frontiers in Zoology. Na categoria Arte, venceu um trio italiano que comparou o sofrimento causado por olhar uma pintura feia, em relação a olhar para uma pintura bonita e a ser alvejado na mão por um feixe de raio laser. O prêmio de Economia foi conferido ao Instituto Nacional de Estatística da Itália, por incluir as receitas com prostituição, comércio de drogas, contrabando e outras atividades ilícitas nos cálculos do tamanho da economia. O prêmio de Medicina foi conferido a pesquisadores da Índia e dos Estados Unidos, que demonstraram a eficiência de usar tiras de carne de porco para conter hemorragias nasais persistentes. Pesquisadores da Noruega, Estados unidos, Canadá e Alemanha ganharam o Ig Nobel de Ciência sobre o Ártico ao testarem como as renas reagiam quando viam humanos fantasiados de ursos polares. Por fim, o prêmio de Nutrição foi dado a pesquisadores espanhóis que testaram o uso de bactérias encontradas nas fezes de bebês na fermentação de linguiças. A paródia do Nobel é promovida todos os anos pela organização Improbable Research, que analisa centenas de estudos publicados em revistas científicas sobre assuntos que estão no limite entre a curiosidade científica e o humor. Em 2008, dois pesquisadores brasileiros venceram a categoria Arqueologia do Ig Nobel. O estudo dos arqueólogos Astolfo Mello Araújo e José Carlos Marcelino demonstrou que os tatus, hábeis em escavar terrenos, podem embaralhar a posição de fragmentos de peças arqueológicas e atrapalhar o trabalho dos pesquisadores.

Deixe uma resposta