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24 de outubro de 2014 -

Novas experiências pedagógicas buscam despertar o interesse pela ciência nos estudantes de escolas públicas da Bahia

© Leo Ramosed03_paraentender

Alunos do colégio Polivalente de Amaralina

Um grupo de 12 alunos dos ensinos fundamental e médio do Colégio Polivalente de Amaralina, em Salvador, envolveu-se numa atividade proposta por professores de ciências que produziu uma experiência transformadora. No âmbito de um programa chamado Ciência na Escola, que busca promover a educação científica na rede de escolas estaduais da Bahia, os estudantes foram desafiados a construir um projeto capaz de reproduzir as etapas de uma pesquisa científica, da formulação de uma pergunta envolvendo um tema relevante à busca de evidências para sustentar uma resposta – com todos os dados e reflexões registrados numa espécie de diário de bordo. “Os alunos levaram o desafio muito a sério e alguns propuseram questões que atingem o seu cotidiano, como a solução do problema da criminalidade. Sugeri que eles concentrassem o foco em algo mais ao alcance deles”, lembra o professor Denilson Alcântara, que articulou a experiência com as colegas Dinalva Mesquita e Dolores Bastos.

O tema surgiu de modo difuso. Alguns alunos sugeriram alguma temática relacionada ao bulliyng sofrido pelos colegas que estão acima do peso. Depois de discutirem com o professor, chegaram ao ponto: por que não investigar a incidência de obesidade entre eles. O passo seguinte, mediado pelos professores, foi levantar a bibliografia sobre o assunto – experiência útil também para que aprendessem a não acreditar em tudo o que leem na internet e buscassem dados em artigos científicos e fontes oficiais. Em seguida, foram pesados e medidos 153 alunos, a fim de levantar o índice de massa corpórea (IMC) de cada um deles. Constatou-se que 16,3% da amostra, o equivalente a 25 alunos, estava acima do peso – sendo 11 classificados com obesidade mórbida, 5 com obesidade severa e 9 moderada. Tamiris Gomes Menezes, de 16 anos, sensibilizou-se e foi procurar ajuda: uma psicóloga sugeriu que ela come demais porque é ansiosa, e agora uma nutricionista vai ajudá-la a criar um novo cardápio. Mais impressionante, para alguns alunos, foi descobrir que tinham problemas de saúde. Os alunos também mediram a pressão arterial e alguns estavam hipertensos. “Não sabia que tinha hipertensão”, diz Danilo Souza Luciano, 15 anos, cuja pressão arterial chegou a 15 por 9 – o ideal, como se sabe, é que não ultrapasse 13 por 8. “Uma vez tinha tido um desmaio, mas não sabia que tinha um problema”, diz Jaine Borges, 15 anos, com pressão arterial de 16 por 9 registrada na escola.

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Mas o denominador comum do trabalho foi uma investigação sobre os hábitos alimentares dos alunos, tanto em casa quanto na própria escola. A conclusão foi que muitos deles consomem mais alimentos industrializados do que deveriam, na forma de sucos e biscoitos, e que raramente uma alimentação mais saudável lhes é oferecida. Agora, querem discutir o que pode ser modificado na merenda para transformar esse panorama. “A intenção é incorporar as reflexões ao planejamento da escola no ano que vem e pensar em novas soluções para a merenda”, diz o professor Denilson.

O Ciência na Escola é uma das novas experiências que buscam melhorar o aproveitamento dos alunos do ensino público da Bahia no campo da educação científica. “Partimos do diagnóstico de que a educação científica na Bahia tinha indicadores ruins, como acontece em outros lugares, e precisava mudar para melhorar”, diz o secretário estadual de Educação, Osvaldo Barreto. Em 2012, a Bahia ficou em 14º lugar entre os estados brasileiros na prova do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), com média de 390 pontos em Ciências. A média nacional foi de 405 e, entre países desenvolvidos, superior a 500. A campeã mundial foi a China, com 580 pontos. Segundo Barreto, o projeto tem ajudado a valorizar o ambiente escolar, tornando-o mais atrativo. “Já constatamos um crescente envolvimento dos estudantes em seu processo de aprendizagem”. Segundo Irene Cazorla, diretora do Instituto Anísio Teixeira (IAT), órgão vinculado à Secretaria de Educação que há três décadas é responsável pela formação dos professores da rede estadual da Bahia, o ponto de partida foi garantir que os estudantes pudessem ter letramento científico, além do letramento em matemática e língua portuguesa. “A ideia do Ciência na Escola é formar os professores, dar a eles materiais que permitam trabalhar dentro da escola a questão da iniciação científica para além do conteúdo disciplinar e estimular a sensibilidade para que despertem no estudante o espírito científico e uma compreensão sobre o mundo que o rodeia, trabalhando fenômenos da natureza de uma forma interdisciplinar e transversal”, diz a professora Irene.

A organização do programa mobilizou o ambiente acadêmico. “Dialogamos com vários grupos de pesquisa da Bahia, com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), com a Academia de Ciências da Bahia, com a Fundação Oswaldo Cruz e com os coordenadores dos cursos de licenciatura em química, física, biologia e ciências de todo o estado”, diz Irene. A formação dos professores foi discutida no âmbito do Fórum Permanence de Apoio à Formação Docente do Estado da Bahia, presidido pelo secretário Barreto. “Fizemos cinco workshops sobre educação científica com as instituições de ensino superior e diversas instituições científicas da Bahia”, diz Irene.

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Simulador de voo no Centro Juvenil de Ciência e Cultura (esquerda) e os estudantes Denise Lima, Edmilson Barreto, Isaac Silva e Roberta Fraguas (acima), da oficina Embaixadores da Ciência

O Ciência na Escola teve início em 2012. Foi implantado no ensino fundamental II (do 6º ao 9º ano) e no ensino médio. “Toda a concepção e criação foi feita por profissionais baianos. Ele se materializou através dos professores, trabalhando sobre a realidade local”, diz Shirley Costa, coordenadora executiva do programa.

O programa baseou-se, na esfera do ensino médio, na formação de professores, através de cursos e oficinas sobre procedimentos de pesquisa estudantil e docente. No ano passado, a iniciativa vinculada à formação continuada de professores e coordenadores de ensino médio foi incorporada a outro programa, que envolve várias disciplinas, o Pacto pelo Fortalecimento do Ensino Médio, do Ministério da Educação. Já no ensino fundamental, o Ciência na Escola tem como foco os livros Bahia, Brasil: espaço, ambiente e cultura e Bahia, Brasil, vida, ambiente e saúde, distribuídos para mais de 120 mil estudantes do ensino fundamental. A formação dos professores buscou garantir o uso produtivo do material didático e de apoio. O conteúdo é vinculado à realidade da Bahia e apresenta conhecimentos das diversas áreas, como biologia, geografia, química e história. “É um material georreferenciado, que valoriza a região onde a escola está integrada”, diz Irene Cazorla, do IAT.

Os trabalhos produzidos pelos estudantes são apresentados em feiras nas escolas e reunidos na Feira de Ciências e Matemática da Bahia (Feciba), cuja quarta edição acontece nesta semana, entre os dias 28 e 30 de outubro no Estádio da Fonte Nova, em Salvador. Um exemplo do impacto do programa Ciência na Escola pode ser visto no Colégio Estadual São Daniel Comboni, que atende cerca de mil alunos do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio na região de Sussuarana, um bairro formado por loteamentos e conjuntos habitacionais a 15 quilômetros do centro histórico de Salvador. O desafio de levar, pela primeira vez, um projeto da escola à Feira de Ciências da Bahia mobilizou o professor de física, Fabrício Santos Vieira Oliveira, de 31 anos, e três alunos do 3º ano do ensino médio. “A ideia inicial era reaproveitar lixo eletrônico para fazer um aquecedor solar”, lembra Oliveira.

O projeto evoluiu e culminou num chuveiro portátil, com água aquecida por placas de acrílico reaproveitadas de TVs de LCD e que circula numa estrutura de canos de PVC. Os estudantes tiveram de integrar conhecimentos em matemática e geografia (para adaptar a inclinação da placa à incidência do sol em Salvador) e em física (a água esquenta dentro da placa e, ao se tornar mais leve, sobe para um reservatório, empurrando a água armazenada para baixo e realimentando o sistema). “A placa é o maior componente da TV de LCD e o benefício, em termos de reciclagem, é grande”, diz Oliveira. “Vimos vários aquecedores que usaram outros materiais, como garrafas PET, mas o uso da tela de LCD foi original.”

O processo durou dois meses e foi adiante em meio a tentativas e erros, todos eles anotados num diário de bordo. A água, aquecida ao ficar represada entre duas placas de acrílico expostas ao sol, vazou pelas bordas na primeira tentativa. Na segunda, a vedação funcionou, mas a concentração de água abaulou as placas, que trincaram. Só na terceira tentativa, agora usando a placa mais resistente entre as que compõem uma TV de LCD, é que o chuveiro funcionou.

O esforço do grupo não foi trivial. O professor, que dá 18 horas de aulas por semana naquele colégio e leciona em outras duas instituições, aproveitou as poucas horas vagas para se reunir com os alunos. A ausência de um laboratório na escola também não ajudava – os trabalhos práticos foram improvisados numa sala sem estrutura. Mas, ao final, funcionou. “A ideia de levar à feira deixou a gente entusiasmado”, diz o estudante Ronald de Jesus Castro, 18 anos, que cogita estudar medicina ou segurança no trabalho. “Foi uma forma de aprendizagem nova para a gente, pois tivemos pouco tempo para planejar e fazer tudo”, afirma Amado Rodrigues Pinto, de 17 anos, que planeja ser engenheiro mecânico. “Outros alunos da escola também ficaram motivados e querem participar de projetos nas próximas feiras”, diz Lucas Gonçalves Correia de Jesus, de 19 anos, que quer ser dentista. Para o professor Oliveira, é preciso criatividade para motivar os alunos. “O ensino é estruturado em torno das aulas e das provas. Quando o aluno tem alguma atividade que fuja disso, acha sensacional”, diz o professor, que experimenta outras inovações. Ele propôs que suas turmas preparassem seminários sobre temas da física. Com uma peculiaridade: os seminários têm de ser apresentados na forma de vídeos de cinco minutos cada um. “Eles se motivam muito mais do que se fosse um seminário comum. Têm de estudar os temas e pensar no desempenho diante da câmera”, diz o professor. “Esse tipo de estratégia mobiliza habilidades e competências que os estudantes não costumam usar”, diz Lázaro de Jesus Lima, 48 anos, coordenador dos projetos do Ciência na Escola no Colégio São Daniel Comboni e em outras escolas.

No Senai-Cimatec, a integração de conhecimentos fragmentados

Uma metodologia de origem alemã que promove a aprendizagem a partir da solução de  um problema real está mudando o modo como são formados os alunos dos ensinos técnico e universitário do Senai-Cimatec, sigla para Centro Integrado de Manufatura e Tecnologia do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, em Salvador. Conhecida como TheoPrax, a metodologia consiste em mobilizar grupos de estudantes em torno do problema apresentado por uma empresa, fazendo com que mostrem uma solução concreta e a executem. “Os estudantes têm de formular uma proposta de solução, cumprir prazos e negociar diretamente com a empresa a implementação do projeto”, explica Augusto César Almeida Araújo, coordenador do núcleo TheoPrax do Senai-Cimatec. Três professores acompanham a elaboração e execução de cada projeto. “A intenção é desenvolver autonomia dos futuros profissionais, que também aprendem a trabalhar em equipe e a gerenciar conflitos”, diz Araújo. Frequentemente, os problemas exigem abordagens multidisciplinares e envolvem estudantes de diferentes cursos, o que também gera um impacto na aprendizagem. “Os projetos exigem a integração de conhecimentos fragmentados de diversas disciplinas. O resultado é a integração desses conhecimentos.” Só no segundo semestre de 2014, foram iniciados 93 projetos em cinco unidades do Senai-Cimatec: 74 com estudantes do ensino técnico e 19 projetos de alunos de graduação. Ao todo, já são 300 projetos em andamento, e serão 750 em 2015, uma vez que a metodologia foi incorporada ao currículo dos cursos.

Um dos projetos em andamento busca automatizar a fabricação de blocos de concreto em uma empresa do litoral norte baiano. Um grupo de cinco alunos do curso técnico em mecatrônica do Senai-Cimatec desenvolveu um sistema que, ao toque de um único botão, controla por acionamento pneumático as comportas que liberam quantidades precisas de matéria-prima para produzir pavimentos. Um controlador lógico programável (CLP), equipamento eletrônico que utiliza uma memória programável para armazenar instruções e implementar funções específicas, organiza o processo de pesagem e liberação dos ingredientes. “Hoje, o acionamento das comportas é feito manualmente por um funcionário”, diz o estudante Meuris da Rocha Guimarães Neto, 24 anos, gestor do projeto e líder do grupo que reúne os alunos Edvam Sales Pires, 25 anos, Iuri Nascimento Brito, 22, Uoston Santana Dantas, 29, e Arnaldo Borges dos Santos Jr., 25. “É desafiador, pois envolve a parte técnica, que é o que a gente gosta, mas também uma série de outras habilidades, como produzir documentos sobre o trabalho, cumprir prazos e avaliar custos”, afirma Meuris. A implementação do projeto está avaliada em cerca de R$ 15 mil. “É um valor competitivo, porque envolve o principal processo dessa empresa. O impacto vai ser grande”, afirma Meuris.

No mesmo laboratório do Senai-Cimatec, o estudante de graduação Raony Santana, de 23 anos, monta um protótipo de Comando Numérico Computadorizado (CNC), sistema que permite o controle de máquinas, utilizado principalmente em tornos e centros de usinagem. No caso, o objetivo é produzir desenhos geométricos em placas de madeira ou acrílico por meio de uma fresa. Um computador gera o código e o equipamento executa as funções, reproduzindo desenhos programados. Raony, que está no terceiro ano do curso de engenharia mecânica, criou o protótipo orientado pelo professor Guilherme Oliveira. Alguns projetos buscam soluções para processos internos. Os estudantes do curso de eletrotécnica Flavio Oliveira Carvalho Filho, 24 anos, e Antônio Gomes Rabelo Neto, 24, criaram um plano de manutenção elétrica para as guaritas de uma empresa capaz de reduzir custos e facilitar o trabalho dos funcionários de manutenção – cada item ou equipamento utilizado nas guaritas foi classificado e pode ser facilmente identificado quando a troca é necessária. “Nosso plano melhora a segurança e acaba com o improviso”, diz Carvalho. Para os alunos do ensino técnico, a atividade no núcleo TheoPrax equivale a um estágio. Já para os estudantes de graduação, é o trabalho de conclusão de curso.

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Entre os projetos do TheoPrax, estudantes criam sistema para automatizar produção de concreto e protótipo que controla máquina (abaixo)

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Uma outra experiência está mudando a perspectiva do ensino de ciências na Bahia. Os Centros Juvenis de Ciência e Cultura (CJCC), que começaram a ser implantados no ano passado, acolhem estudantes do ensino médio interessados em oficinas que oferecem atividades duas vezes por semana. Os alunos são atraídos para atividades de fotografia, ciências, leitura e cursos de inglês, entre outras, organizadas em ambientes lúdicos e interativos. Já há dois centros funcionando, um em Salvador, no Colégio Estadual da Bahia, e outro em Senhor do Bonfim. “Mas a intenção é disseminar a experiência em outras cidades já a partir do ano que vem”, diz Iuri Rubim, coordenador do projeto. Um dos destaques do CJCC de Salvador é a oficina Embaixadores da Ciência, que mobiliza um grupo de 12 estudantes, desafiando-os a fazer projetos de cunho científico. No evento SBPC Jovem e Mirim, realizado paralelamente à última reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Rio Branco, no Acre, três projetos feitos por alunos da oficina ficaram entre as 20 melhores colocações nas seletivas nacionais, disputadas por mais de mil projetos. Roberta Andrade Fraguas, 16 anos, ficou em segundo lugar, com o projeto Sustentabilidade Z. Ela criou uma embalagem plástica, biodegradável e orgânica, para polpa de frutas, cuja matéria-prima é o amido de mandioca. “É comestível. A pessoa tanto pode bater a polpa junto com a embalagem no liquidificador, como pode descartá-la, pois o período de decomposição desse plástico é de 10 a 20 dias”, explica Roberta, aluna da Escola Técnica Casa Pia. O nome do projeto é uma referência à chamada Geração Z, a geração de jovens nascidos entre 1990 e 2000. “É uma geração que consome muitos alimentos industrializados, mas se preocupa em buscar novos hábitos, mais sustentáveis.” As estudantes Denise dos Santos Lima, 16 anos, e Ingrid Lima Nascimento Santos, 15, ambas do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, e Isaac Matheus de Jesus Silva, de 16 anos, do Colégio Modelo Luis Eduardo Magalhães, criaram o projeto “Simulando tornados: a parceria da física com o meio ambiente”. Para simular o tornado, os estudantes reproduziram o choque do ar quente com o ar frio numa caixa e utilizaram glicerina, que passa do estado líquido para o gasoso, para visualizar o fenômeno. “Já vi simuladores que usam gelo seco. O nosso é mais sustentável, pois usa glicerina”, diz Isaac. Outro projeto selecionado para a SBPC Jovem e Mirim foi “O clique sustentável sob a ótica de uma pinhole”, liderado pelos estudantes Edmilson Barreto Júnior, 17 anos, e Felipe Fontes Carvalho, 18 anos. A dupla criou uma câmera fotográfica feita de bambu. “Queríamos criar uma câmera artesanal feita de um material sustentável e chegamos ao bambu”, diz Edmilson.

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Fonte Nova, que vai abrigar a Feira de Ciências (alto à direita), e o chuveiro criado pelo professor Fabrício e os alunos Ronald, Amado e Lucas (abaixo)

Apesar do entusiasmo com que se dedicam às atividades da oficina, a maioria dos alunos não chegou ali por algum interesse específico em assuntos científicos. De modo geral, procuraram o CJCC atraídos pelo curso de inglês gratuito e lá conheceram a oficina, coordenada pela professora de biologia Suely Ribeiro dos Santos. “Começamos a trabalhar neste ano e a ideia era fazer trabalhos acadêmicos com os alunos e criar um espaço onde eles possam desenvolver projetos, o que eles não conseguem fazer com frequência na sala de aula”, diz Suely. “Eles trazem as ideias e nós os ajudamos. O objetivo é mostrar que ciência não é um bicho de sete cabeças, que tudo ao nosso redor tem uma ligação com a ciência e que o desafio é deixar o aprendizado interessante”, diz a professora.

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Laboratório de Animais Peçonhentos da UFBA, pioneiro em divulgação científica (acima), e o professor Charbel El-Hani (à direita)

As novas experiências no ensino de ciências da Bahia têm vínculo com iniciativas oriundas do ambiente acadêmico. O trabalho coordenado há mais duas décadas por Rejane Maria Lira da Silva, professora do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), ajudou a formar vários profissionais envolvidos nos programas recentes. Coordenadora do Laboratório de Animais Peçonhentos da UFBA e do Núcleo Regional de Ofiologia e Animais Peçonhentos da Bahia, vinculado ao Ministério da Saúde, Rejane engajou-se no início dos anos 1990 num trabalho de divulgação científica em escolas sobre cobras, aranhas e escorpiões. Seu grupo foi um dos artífices do programa nacional Não Existem Vilões na Natureza, que, de maneira lúdica, levou a escolas e comunidades conhecimentos sobre animais peçonhentos.

Em 2004, a iniciativa evoluiu, no âmbito de um projeto financiado pela Finep, para o programa Ciência, Arte, Magia. O objetivo foi criar centros de ciências nas escolas para trabalhar com os alunos no turno oposto ao que frequentavam, além de formar redes de colaboração com as universidades, articulando-se, por exemplo, com pesquisadores da área de jornalismo científico – a professora Simone Bortoliero, da Faculdade de Comunicação da UFBA, foi parceira da iniciativa. Em 2006, o trabalho de cerca de uma centena de estudantes de educação básica envolvidos nesses centros de ciências foi compilado num livro e começou a ser apresentado em eventos da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Outro fruto foi o advento do Encontro de Jovens Cientistas, que ganhou abrangência nacional e chegou à quinta edição. No evento, os estudantes apresentam seus trabalhos, na forma de experimentos, textos de divulgação científica, vídeos e games, e participam de conferências com pesquisadores. “É um evento em que os estudantes tomam contato com diversos aspectos do trabalho científico. Não é uma feira de ciências”, diz Rejane.

O Ciência, Arte, Magia, que chegou a envolver dez centros de ciências em escolas públicas da Bahia, hoje continua em dois colégios estaduais e um municipal, e passou a se chamar Programa Social de Educação, Vocação e Divulgação Científica da Bahia. Busca envolver o aluno de educação básica e média num ambiente genuíno de iniciação científica, em que o papel do professor é o de mediador e quem se articula para fazer o projeto se realizar é o estudante. “Os professores têm um trabalho enorme ao orientar e apoiar os alunos, mas quem defende o projeto e se empodera de seus resultados são sempre os alunos.” Há atualmente 30 alunos participando do programa, sendo 10 deles bolsistas de iniciação científica. Rejane comemora as novas experiências em educação científica na Bahia, mas adverte que elas podem ter um resultado limitado. “Não se pode esperar que um projeto desenvolvido em três meses, que envolva uma turma grande de alunos ou tenha o professor como agente principal resulte em construção de novos conhecimentos”, diz Rejane. “Aprendemos com nossa experiência que esse processo é bastante demorado. Ficamos de dois a três anos trabalhando com um aluno”.

Outra iniciativa acadêmica que se tornou referência na Bahia é desenvolvida em colaboração com professores da educação básica pelos grupos de pesquisa liderados por Charbel Niño El-Hani, Claudia Sepulveda e Rosileia Oliveira de Almeida. Charbel é professor também do Instituto de Biologia da UFBA, onde coordena o Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia (LEFHBio). Em 2009, um edital de projetos de pesquisa lançado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e pela Secretaria de Educação da Bahia permitiu ao grupo colaborativo investir na construção e investigação de inovações educacionais em escolas do estado da Bahia. Setenta por cento dos recursos obtidos pelo edital, de cerca de R$ 75 mil, foram canalizados para o pagamento de bolsas aos professores e o mesmo montante de recursos, destinados às escolas pela Secretaria de Educação, à implantação de Núcleos de Pesquisa em Ensino de Ciências em três escolas públicas, uma em Salvador, uma em Feira de Santana e outra em Lauro de Freitas. A grande vantagem dos núcleos, diz Charbel, é a visibilidade institucional da pesquisa, que deixa de ser vista nas escolas como atividade da universidade apenas. A iniciativa hoje envolve professores de nove escolas, que atuam de modo presencial. As inovações aplicadas numa escola são compartilhadas em reuniões mensais gerais com os professores e pesquisadores e outras reuniões, de acordo com cronogramas próprios. “Entendemos como inovação educacional qualquer mudança que tenha um caráter emancipatório para os professores. E, se não envolve o professor na construção e investigação sobre o processo de mudança, não consideramos inovação”, diz Charbel, resumindo um conceito essencial do projeto, o de que o professor deve ser o protagonista das mudanças implementadas na escola.

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O conceito que norteou a criação da rede começou a ser construído alguns anos antes, quando o Laboratório de Ensino, Filosofia e História da Biologia buscava soluções para um problema crítico: a distância entre a pesquisa sobre educação feita nas universidades e sua aplicação nas escolas. “A lacuna entre a pesquisa e a prática existe em vários campos do conhecimento. No caso da educação, havia diagnósticos equivocados que geravam soluções equivocadas”, diz Charbel. Segundo ele, a distância tem três razões importantes. Uma é o da relevância: a pergunta que o pesquisador julga relevante não é a mesma do professor, e vice-versa. Outra é o fato de a pesquisa depender do domínio de um referencial teórico e metodológico que demora muito tempo para ser consolidado e não é absorvido com facilidade pelos professores, a não ser que passem por um extenso processo de formação para a pesquisa pelo qual os pesquisadores educacionais passaram. A terceira é que o conhecimento científico generaliza as experiências, enquanto o professor vive uma realidade particular que não necessariamente se encaixa na generalização acadêmica. O caminho trilhado pelo grupo recorreu a um conceito proposto pelos antropólogos Jean Lave, norte-americana, e Ettiene Wenger, suíço, o da “comunidade de prática” (CoP), formada por um grupo de indivíduos com habilidades e experiências distintas, mas que participam de modo ativo em processos de colaboração, compartilhando conhecimentos, interesses e práticas. “Esse tipo de comunidade foi capaz de promover inovações e mudanças de repertório nos grupos mesmo sem a intermediação de um líder. Algumas das experiências de sucesso envolviam professores, principalmente nos Estados Unidos”, diz Charbel. Partindo de um grupo de três professores de escolas públicas que já eram interlocutores do grupo da UFBA, a rede começou a crescer e, em 2009, já envolvia 140 participantes, entre pesquisadores de universidades, professores de biologia e estudantes de graduação em vários estados. Em 2013, Charbel participou, a convite do Instituto Anísio Teixeira e juntamente com Rosileia Oliveira de Almeida e Amanda Amantes, da organização do programa Ciência na Escola, ajudando a formar 36 professores articuladores, encarregados de formar outros professores – o total de docentes atingidos foi de mais de mil. Segundo Charbel, a adesão foi significativa. O grupo, no entanto, ficou por volta de 700 professores de 277 escolas – alguns desistiram depois que seus projetos foram analisados e pedidas revisões. “Mas os que ficaram se mostraram muito engajados. O programa estimulou o protagonismo dos professores e abriu espaço para a produção do conhecimento”, diz Charbel, que se desvinculou do programa neste ano.

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O secretário de Educação, Osvaldo Barreto: iniciativa para garantir letramento dos alunos

É cedo para avaliar os frutos que as novas iniciativas em educação científica na Bahia irão render. O reconhecimento às vezes demora para vir, como se vê no projeto Ciência na Estrada, lançado há dez anos pelo Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz, em Salvador, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que no mês passado foi agraciado com o Prêmio Sergio Arouca de Saúde e Cidadania, concedido pelo Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz. Desenvolvido por uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Biologia Parasitária da Fiocruz, dirigido por Marcos Vannier dos Santos, o projeto se baseia num ônibus transformado em laboratório que faz expedições por cidades do interior do país – principalmente na Bahia – para promover atividades de divulgação científica monitoradas por especialistas. Busca disseminar conhecimentos entre estudantes sobre microorganimos causadores de doenças e envolve atividades lúdicas, como jogos eletrônicos, animações e publicações. O laboratório faz também testes parasitológicos para a população. “Como muitas escolas não têm infraestrutura de laboratórios, o ônibus acaba suprindo uma lacuna importante”, diz Marcos Vannier dos Santos, que conduz a iniciativa com a ajuda de seus alunos de pós-graduação. “É uma forma de comprometer socialmente aquele estudante que está fazendo mestrado e doutorado”, diz Vannier. Uma recente aquisição do projeto foi a de um projetor capaz de transformar praças em cinemas, por meio do Instituto Nacional de Ciências e Tecnologia em Pesquisa Translacional em Saúde e Meio Ambiente na Região Amazônica, do qual Vannier participa. “Visitamos com o ônibus recentemente quatro cidades do interior da Bahia, todas elas sem cinema, e juntou gente para ver filmes sobre temas de ciência e saúde”, diz Vannier. 

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