Quem vive de passado?

18 de novembro de 2014

campodogadoO início do documentário ‘Campo do gado de Feira de Santana’, após breve vinheta de abertura, apresenta imagens aceleradas da vida urbana com o contraponto da música ‘Feira do gado’, de Luiz Gonzaga, na voz do artista local Asa Filho, responsável também pela locução de todo o filme. Alternando essa voz over com depoimentos de um historiador, de freqüentadores e de trabalhadores, conta a história dessa feira de animais, importante para o desenvolvimento da região, e como ela se adaptou às diferentes realidades que a cercaram desde o século XIX.

Trata-se de um trabalho de conclusão de curso de faculdade*, o que permite certa condescendência em relação à análise formal da obra, mas é preciso apontar os problemas. Os cortes de som são abruptos, a edição, de um modo geral, é pouco rigorosa (há até um corte que associa o século XIX aos anos de 1937 e 1943) e a seleção das músicas é especialmente discutível: se acerta precisamente na abertura e no fim do vídeo com a canção de Luiz Gonzaga, tem escolhas incompreensíveis em outros momentos. Acompanhando a voz over que narra fatos históricos, entra sempre uma música épica, que não condiz com o tom da narrativa. Voltaremos a isso. Por outro lado, o acervo de fotos antigas e os testemunhos de velhos freqüentadores são historicamente ricos. A escolha do narrador é claramente um trunfo.

Embora o filme não ataque diretamente o tema, chama a atenção o cotejo entre o tradicional e o moderno que perpassa toda a história. Seja nos momentos em que um entrevistado ou o narrador mencionam que mais de uma vez a cidade cresceu, cercou a feira e essa teve que se mudar, seja na resistência a um eventual fim da feira por parte de frequentadores (e aqui há outro problema: não se menciona sua importância econômica atualmente – por que há a discussão sobre seu fim?), seja na própria abertura do vídeo com imagens urbanas aceleradas e música rural cantada com voz de cordelista. Essa tensão entre tradicional e moderno é um tema caro à modernidade e que tem na Bahia um palco privilegiado para tal discussão. Salvador, por exemplo, primeira capital do país, cheia de belezas coloniais, envelheceu mal ao longo do século XX e início do XXI e perdeu relevância cultural mesmo no campo da música, em que era reconhecidamente uma potência há não muitas décadas.

Nesse sentido, a confusa seleção musical e a também confusa edição do documentário fazem eco a essa indefinição da Bahia contemporânea, que nem bem cuida de seu passado nem o exorciza em busca do novo. Se, no início, as imagens aceleradas da Feira de Santana moderna fazem um contraponto interessante à música de Gonzaga, já perto do fim, as imagens aceleradas do Campo do Gado acompanhadas de uma bela música de pífanos não parecem obedecer a nenhuma lógica formal – por que são aceleradas, se estamos no ambiente da tradição? O efeito beira uma comicidade involuntária, como nos velhos filmes mudos exibidos em velocidade maior do que foram feitos.

O filme tem méritos, seu objeto é interessantíssimo, mas sua realização parece indecisa entre a contemplação ao passado e a discussão do valor desse passado para o presente e o futuro. Assim como boa parte da cultura e da mentalidade baianas, o filme parece preso na armadilha de um passado épico que talvez nem seja tão épico assim.

*Faculdade Anísio Teixeira

Assista ao vídeo:


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