Pesquisador baiano vence prêmio Capes de Tese 2014

18 de dezembro de 2014

IMG_20141210_172653José Amarante Santos Sobrinho é um dos ganhadores do concurso anual de teses de doutorado promovido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). É dele a melhor tese em Letras e Linguística, na grande área de Ciências Humanas, Linguística, Letras e Artes, Ciências Sociais Aplicadas e Multidisciplinar (Ensino), com “Dois tempos da cultura escrita em latim no Brasil: o tempo da produção e o tempo da conservação – discursos, práticas, representações, proposta metodológica”.

O resultado de seu trabalho acabou indo muito além das 1200 páginas da tese para converter-se em um site (http://www.latinitasbrasil.org) com materiais disponíveis para o uso de educadores e estudantes, que já vem sendo bastante acessado. Antes mesmo do prêmio, a tese já vinha sendo discutida em congressos da área e utilizada por professores, especialmente na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Amarante conta que não ficou muito satisfeito com os materiais didáticos de latim que encontrou na UFBA, em 2009, antes de fazer seu doutorado. Segundo ele, muitos livros não estavam traduzidos e os que havia no mercado apresentavam uma linguagem muito rebuscada, adequada apenas aos públicos das décadas de 1940 e 1950. Essa foi  sua grande motivação no desenvolvimento da tese vencedora.

Na época, também chamou sua atenção o fato de um funcionário da copiadora da universidade ter lhe oferecido livros antigos de latim que iriam para o lixo, o que ele julgou lamentável. Foi o estopim que faltava para que o professor decidisse se dedicar a entender a história do latim no Brasil, começando pela pesquisa de seus autores e métodos.

Amarante comenta que a premiação lhe causou grande surpresa, já que geralmente são as teses de linguística e literatura que costumam ter mais destaque, e não as de letras clássicas, além de o Nordeste não ser tão bem cotado nos prêmios Capes.

O pesquisador iniciou seu trabalho recuando ao desenrolar da história do ensino do latim no Brasil desde o século XVI, dividindo a tese em duas partes. Na primeira, se debruçou exclusivamente sobre a análise crítica dessa história e, na segunda, propôs novos materiais de latim úteis para alunos e educadores do século XXI.

Ele acredita que foi justamente o caráter propositivo de seu trabalho que sensibilizou a banca em relação a uma tese vinculada a uma área ainda em ascensão dentro das letras clássicas. “Não me limitei a uma análise teórica, mas trouxe o latim ao encontro desta esfera de modernidade que se respira atualmente, oferecendo novos materiais de consulta e aplicação”, disse.

Satisfeito com os frutos do trabalho desenvolvido em dois anos e meio, tempo no qual não se afastou de suas funções de professor, o autor comenta que muitos foram os colegas que o aconselharam a desenvolver sua pesquisa fora da Bahia, indicando instituições como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo. Ele confessa que de fato tinha medo de fazer algo tão amplo fora de um eixo acadêmico já consagrado, mas decidiu arriscar. “Essa conquista aquietou essa coisa de dizer que não se pode fazer dentro da Bahia”, diz Amarante.

Ele observa ainda que depois da década de 1940 houve uma grande desvalorização do humanismo e uma corrida desenfreada pelo tecnicismo. “É preciso repensar esse currículo tecnicista na educação e resgatar o equilíbrio com as humanidades. Acredito que, no momento, estejamos neste caminho”, acrescenta.

Em tempo: Amarante graduou-se em Letras Vernáculas na Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1999, é mestre em Letras e Linguística (2005) e doutor em Língua e Cultura (2013) também pela UFBA. Atuou em educação básica no ensino público e foi diretor pedagógico de ensino privado na Bahia. É professor de Língua e Literatura Latinas na UFBA, onde desenvolve pesquisas em Didática do Latim e História Social do Latim no Brasil. Em 2006, seu livro de contos Ainda em flor recebeu o Prêmio Braskem de Literatura e foi publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado

O Prêmio Capes de Tese 2014 foi outorgado às melhores teses de doutorado defendidas em 2013 e selecionadas em cada uma das 48 áreas do conhecimento reconhecidas pela Capes nos cursos de pós-graduação. O resultado foi divulgado em outubro e a cerimônia de entrega dos prêmios ocorreu no último dia 10 de dezembro, em Brasília, quando também foi entregue o prêmio final às melhores teses de cada grande área de conhecimento na versão vídeo.

A premiação para o autor da tese, além das custas de viagem, certificado e medalha, consiste em uma bolsa para estágio pós-doutoral de até três anos em instituição nacional, que pode ser convertida em estágio pós-doutoral de um ano fora do País, em uma instituição de notória excelência na área de conhecimento do premiado.

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Outro baiano selecionado foi Eduardo Augusto da Silva Tudella, na categoria Artes e Música, com a tese “Práxis cênica como articulação de visualidade: a luz na gênese do espetáculo”.

Veja o vídeo no qual Amarante resume o teor e a importância de sua tese.

 

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