Apostas em torno da terapia celular na Bahia

Estudo de células-tronco voltadas ao tratamento de lesões ósseas provocadas por anemia falciforme e traumas pode ser o embrião de um novo centro de pesquisas

22 de janeiro de 2015
Gildásio Daltro

Gildásio Daltro

O Complexo Hospitalar Professor Edgard Santos, o velho Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), é hoje, o único credenciado no país para utilizar células-tronco no tratamento de lesões ósseas e de articulações resultantes da anemia falciforme ou de traumas. Diga-se logo que esse trabalho do HC é desenvolvido em estreita colaboração com o Instituto de Ciências da Saúde (ICS), da mesma universidade. Mas o coordenador desse projeto, professor Gildasio Daltro, sonha com possibilidades mais amplas: ele vislumbra um grande centro de pesquisa de terapia celular implantado em Salvador ou em alguma outra cidade da Região Metropolitana, onde os estudos hoje sob sua liderança ganharão outra envergadura e escala, e se poderá fazer ciência básica vinculada a engenharia celular sem restrições de infraestrutura e pesquisadores, mantendo-se ao mesmo tempo o alvo da pesquisa aplicada, ou seja, o tratamento de pacientes com osteonecrose, com necrose da articulação do quadril e outras tantas lesões sérias dessa natureza.

É aí que ganha maior significado a notícia divulgada na semana passada sobre a emenda ao orçamento federal de 2015 de autoria do senador Walter Pinheiro (PDT-BA), destinando R$700 mil justamente às pesquisas com células-tronco coordenadas pelo doutor Daltro (ver http://bahiaciencia.com.br/2015/01/pesquisa-em-celulas-tronco/ e www.ufba.br/noticias/pesquisa-com-células-tronco-na-bahia-terá-aporte-de-r-700-mil-0).  Se esses recursos saírem, o que não é exatamente fácil em duros tempos de contingenciamento de verbas, o sonho do novo centro começará a ter chance de se materializar sem muitas delongas.

Iniciado em 2004, o projeto contabiliza até aqui, em sua vertente prática, 486 pessoas assistidas do Brasil inteiro, enquanto 500 outras estão na fila de espera. “As pessoas tomam conhecimento da pesquisa por alguém, pela mídia ou de algum outro modo e nos enviam emails se candidatando a participar do estudo. Os hemocentros também têm contato conosco e nos sugerem pacientes”, comenta o pesquisador. Todos os pacientes são atendidos no Hospital das Clínicas. Já na pesquisa básica, a equipe de doutor Daltro é constituída por oito pós-graduandos do Instituto de Ciências da Saúde (ICS) da UFBA, entre médicos, bioquímicos e biólogos, que lidam em laboratório com cultura das células, expansão, caracterização e outros processos de engenharia celular.

As células-tronco aqui em questão não são aquelas retiradas de embriões descartados, plenipotenciárias, ou seja, com potencial para gerar em princípio outras células de qualquer tecido de qualquer órgão humano. São na verdade células ósseas autólogas, extraídas do próprio paciente. E nos experimentos comandados por doutor Daltro, elas tanto podem ser injetadas no local lesado logo depois da extração e quantificação, procedimento que ao todo exige cerca de duas horas, quanto podem ser levadas ao laboratório para expansão e cultura das células ao longo de 21 dias, ao fim dos quais serão injetadas no paciente. “Nesse tempo teremos proteínas morfogenéticas, terão crescido osteoblastos, fibroblastos, condoblastos e adipócitos”, detalha o médico.

Revisões cientificamente rigorosas dos resultados já obtidos com o uso de células-tronco no tratamento de lesões de ossos e articulações ainda não foram feitas, conta o doutor Daltro, em seu consultório no 2º andar do Hospital das Clínicas. Mas o exame clínico e outros têm dado ao médico ortopedista sinais positivos de redução de dores e melhora de movimentos de muito dos pacientes selecionados. Os sorrisos que com que alguns pacientes deixam o pequeno consultório, mesmo apoiando-se em bengalas ou outros suportes, são também um valioso indicador nesse sentido. “O problema é que a maioria desses pacientes chega a mim já na fase 3 ou 4 da necrose óssea, quando é bastante difícil obter bons resultados”, diz ele, depois de explicar o processo da evolução dessas lesões ósseas num tempo médio de 5 anos. “Na fase zero só se sente uma dorzinha a que não se dá nenhuma importância; na fase 1 a ressonância magnética detecta a necrose; na 2 ela já é captada por radiografia; na 3 a cartilagem está fraturando e, na 4,  se tem a artrose”.

Vale explicitar duas questões fundamentais para que se entenda a importância da pesquisa liderada por doutor Gildasio. Primeiro, a anemia falciforme, sistêmica,  responsável por uma grande variedade de problemas de saúde (de AVC, a problemas cardiopulmonares, osteoarticulares e graves infecções), é a mais comum entre todas as doenças genéticas conhecidas e não se dispõe para ela de alternativas de tratamento realmente eficaz. Portanto, é um problema sério de saúde pública. Sua incidência é maior na população negra do que em outros grupos (no Brasil, de três a seis vezes mais), o que explica em boa medida porque na Bahia e em Salvador, com uma grande parcela de população afrodescendente, nasce 1 bebê portador da patologia em cada grupo de 650 nascidos vivos, enquanto no país essa relação é de 1 para mil, de acordo com os dados oficiais — o Ministério da Saúde estima o nascimento de 3.500 bebês portadores dessa condição a cada ano.

Em segundo lugar, a anemia falciforme apresenta seus agravos e lesões incapacitantes de todo tipo num dos períodos mais produtivos, senão o mais produtivo, da vida das pessoas. “É em adultos jovens, na faixa de 18 a 40 anos, que as lesões invalidantes começam a aparecer. E em relação às lesões ósseas e de articulações nós só tínhamos a lhes dizer ‘aguardem para colocar uma prótese com 50, 60, 65 anos’”, observa doutor Daltro.

De forma bastante simplificada, a doença resulta de um defeito estrutural da hemácia (glóbulo vermelho do sangue), que provoca alteração da hemoglobina com a substituição de um aminoácido usual por um outro na cadeia proteica e, em consequência, alteração no transporte de oxigênio. Aliás, o nome da doença resulta justamente do fato de a hemácia perder sua forma arredondada e flexível e ganhar forma de foice, além de se tornar enrijecida, o que dificulta a passagem do sangue pelos vasos de pequeno calibre e a oxigenação dos tecidos.

Vale dizer a essa altura que, dos 486 pacientes até agora assistidos no projeto do doutor Daltro, 308 são portadores de anemia falciforme, apresentando lesões de quadril, principalmente, de ombro e joelho, enquanto os demais têm lesões ósseas em decorrência de sequela do uso de corticoide, alcoolismo e traumas diversos.

E por fim, um aviso: a próxima edição impressa da Bahiaciência trará reportagem mais alentada sobre este assunto.

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