Em alta velocidade

Grande projeto de retomada da indústria naval sofre reversão acelerada

4 de fevereiro de 2015
© Fábio Marconi

Estaleiro Paraguaçu

Ainda em novembro passado, há menos de 90 dias, portanto, planejávamos para a capa da Bahiaciência número quatro uma vistosa e otimista chamada, “A retomada da indústria naval na Bahia”, na qual as letras se disporiam em diálogo forte e harmonioso com um belo desenho de Cau Gomez. Em meio ao exercício de imaginar essa capa, em 28 de novembro eu dizia por email ao artista que estava pensando em algo claro e luminoso, na base de linhas sobre uma imagem do mar vasto, “naquela sua abordagem eivada de humor sutil e muito bom”. Argumentava que as fotografias de estaleiros e navios, mesmo quando bonitas, são muito áridas, excessivamente técnicas, e mais afastam que atraem o leitor leigo, por isso preferia algo visualmente mais leve e envolvente.

Antes, em meados daquele mês, o jornalista Domingos Zaparolli, muito experiente em temas de economia e inovação tecnológica, viera de São Paulo para uns cinco dias de coleta in loco dos dados, informações, impressões e conversas que lhe permitiriam elaborar uma reportagem de capa vigorosa sobre a referida retomada. O fotógrafo baiano Fabio Marconi o acompanhava nas visitas.

O principal alvo físico dos dois profissionais era o estaleiro Paraguaçu, quase concluído àquela altura e mobilizando um contingente de 3.200 trabalhadores. Mas dispensavam atenção também ao estaleiro São Roque, em processo de revitalização, e às cidades de Maragogipe, Saubara e Salinas das Margaridas, núcleos urbanos que acolhem e vinham sendo sacudidos pelo empreendimento inovador em seu conjunto, levado a cabo pela Enseada Indústria Naval, um consórcio liderado pela Odebrecht e com participação das empresas OAS, UTC e Kavasaki. No complexo industrial estava em construção naquele momento o Ondina, o primeiro dos seis navios-sonda encomendados à Enseada pela Sete Brasil ao preço total de US$4,8 bilhões e prazo de entrega gradativa até 2020. Todos eram destinados a perfurar poços de petróleo na camada do pré-sal e o Ondina deveria ser entregue já em julho de 2016.

© Fábio Marconi

Estaleiro Paraguaçu

Em dezembro, 9, a Enseada demitiu 470 operários e divulgou dois dias depois uma nota a respeito da medida. A essa altura, com as pesadas incertezas sobre desempenho econômico se avolumando em torno da Petrobras, a usuária final dos navios-sonda, de empresas participantes do consórcio da Enseada e, especialmente, da Sete Brasil, a destinatária e compradora dos equipamentos, a capa imaginada para a quarta edição de Bahiaciência só seria possível se o mar desenhado por Cau Gomez estivesse coalhado de obstáculos de todo tamanho e a chamada passasse a ser “Muitas pedras no caminho da retomada da indústria naval na Bahia”.

O cenário continuou se deteriorando e, em 31 de janeiro, reportagem do jornal A Tarde assegurava que até agora foram 2.300 os trabalhadores demitidos pela Enseada, além de 321 que estão de férias, segundo Sinézio Bispo dos Santos, secretário de articulação e mobilização do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada e Montagem Industrial (Sintempav). A expectativa é de que estes sejam também dispensados ao voltarem das férias. A Enseada explicou uma vez mais que está responsavelmente readequando o planejamento da obra do estaleiro Paraguaçu, já com 80% do projeto pronto, e assegura que manterá o cronograma das entregas até 2020.

A capa sobre a retomada baiana da indústria naval foi derrubada de vez, claro, ainda que a Bahiaciência 4 vá publicar reportagem sobre o tema, só que agora, infelizmente, numa moldura de crise desenhada com múltiplos e imprevisíveis componentes. Até porque, se o valor da encomenda feita pela Sete Brasil à Enseada é da ordem de quase US$5 bilhões, os prejuízos para a economia baiana decorrentes da forte freada no estaleiro Paraguaçu certamente se elevarão bem acima disso. Sim, porque na esteira da movimentação produzida pela retomada da indústria naval, uma série de outros investimentos de portes diversos estava em marcha. E no rastro da paradeira e do desemprego na região de Maragogipe muitos outros prejuízos estão sendo gestados.

© Fábio Marconi

Estaleiro Paraguaçu

Boas notícias no front da inovação industrial em outras áreas do estado, como a inauguração no final de janeiro da Fábrica de Torres Eólicas do Nordeste, a TEN, em Jacobina, no centro-norte do estado (aliás, noticiada pelos jornais baianos no mesmo dia em que A Tarde contava do aprofundamento da crise na Enseada), não são suficientes para sustar a forte sensação de desconforto produzida com a freada brusca no projeto da indústria naval. Faz acenos à manutenção de algum otimismo, mas só isso, porque entre as duas notícias não se chega sequer a um jogo de resultado zero, já que, por exemplo, entre empregos diretos e indiretos a TEN vai produzir 850 apenas. Seja como for, este é um projeto importante e que agrega bastante para a consolidação na Bahia de um grande mercado de equipamentos para parques de energia eólica.

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