Inovação versus pessimismo

Em aula inaugural aos alunos da primeira graduação em engenharia de inovação no país, ministro diz que o Brasil tem que investir em sua soberania científica e tecnológica

24 de fevereiro de 2015

© Beatriz Arruda

O momento e a plateia eram mais que propícios para um olhar crítico a algumas mazelas nacionais, combinado a uma injeção de ânimo contra “um pessimismo que – em sua visão –está em conflito com a realidade”. O ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação, Aldo Rebelo, estava diante das mais importantes lideranças corporativas da engenharia brasileira e paulista, além de políticos e representantes da comunidade científica. A razão desse encontro era o começo efetivo das operações do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), instituição sonhada e materializada pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (SEESP). A aula inaugural na segunda feira, 23 de fevereiro, dirigida aos 57 estudantes, selecionados dentre mais de 600 candidatos que se apresentaram para uma vaga no curso de engenharia de inovação, era o primeiro ato público de uma instituição que nasce com a pretensão de ser uma referência nacional e internacional em seu campo.

Vários oradores antecederam o ministro (ver próximo post sobre o Isitec), buscando sintetizar o significado desse novo instituto, que tem a originalidade de ser uma faculdade criada por um sindicato de uma imensa categoria profissional, voltada para as questões mais emergentes da engenharia contemporânea. E o tanto que os engenheiros apreciaram sua materialização pode ser inferido, para além dos discursos, na afluência mesma ao ato inaugural. O auditório preparado para a solenidade no 4º andar do prédio do Isitec era pequeno demais (em torno de 200 lugares, creio) e funcionários do novo instituto tiveram que encarar a desagradável missão de “convidar” insistentemente convidados já devidamente instalados a se transferirem para outra sala no 1º andar onde poderiam apreciar tudo de um telão, abrindo assim espaço neste lugar mais nobre, digamos, para os estudantes e professores do novo curso. Justo, democrático, mas um tantinho deselegante e imprevidente.

Rebelo começou sua fala pelo Egito “um presente da engenharia hidráulica”, para associar a engenharia à aventura humana pela sobrevivência e construção da existência. Em instantes estava nos trabalhos de engenharia civil aplicada à defesa que resultaram nos fortes construídos na colônia portuguesa que se tornaria o Brasil. A natureza contraditória do colonialismo, ressaltou, exigia dos países dominantes transferir algum conhecimento às suas colônias e, assim, em 1792 foi criada a Academia Real de Edificações e Desenho, antes mesmos das mudanças que a transferência da família real portuguesa para o Brasil iria garantir nessa área da formação de recursos humanos. “As fortalezas são patrimônio de nossa história, são uma base física certamente com influência na formação do imaginário e da percepção do destino de nosso povo”, comentou.

A relação entre base física, materialidade e o imaginário que se vai construindo deu uma via fácil para o ministro Aldo Rebelo investir contra o pessimismo avassalador de alguns grupos, no presente, “inclusive parte da imprensa” e que “está em conflito com a realidade”. Em apoio a isso ele se valeu de dados publicados na sexta feira, 20, pelo jornal Valor (http://www.valor.com.br/brasil/3917664/apesar-da-crise-empresas-preveem-investir-r-14-tri), com base em pesquisa realizada pelo BNDES, segundo a qual empresas dos setores industrial e de infra-estrutura estão prevendo investir R$1,38 trilhão no quadriênio 2015-2018, mais do que o R$1,11 trilhão investido entre 2010 e 2013 (2014 não foi incluído).

“Todos nós lamentamos e queremos que seja investigado e punido tudo que houver de corrupção afetando a Petrobras e as grandes construtoras”, disse. Mas para Aldo Rebelo, a história e a memória dessas empresas, a inteligência de sua engenharia, precisam ser preservadas. “Proteger a Petrobras é do interesse do povo brasileiro e do país”, ele enfatizou para a plateia de engenheiros e tecnólogos. O ministro destacou todo o conhecimento acumulado e mobilizado de geologia e de história geológica, os muitos anos de pesquisa investidos, para se chegar a saber da existência da camada do pré-sal.

 Referiu-se a gerações passadas de estudantes talentosos que estavam de costas para as engenharias para observar que tantos jovens hoje vão para este campo movidos por um momento novo de esperança, de confiança. “Há uma noção de compromisso, mas também a

esperança numa cesta de recompensa, que inclui para cada um o respeito de sua comunidade”.

Fez referência a grandes dificuldades do país, apesar de suas metrópoles, de sua agricultura ser a terceira mais competitiva do mundo e sua indústria aeronáutica ser também a terceira.

“Mas estamos pela sexagésima casa em capacidade de inovação. Estamos mal no Pisa, em 59º ou 60º lugar. E a nossa escola ostenta o primeiro lugar em indisciplina, o que não vem de nossa formação. Há doutorandos da área científica que não conseguem redigir sua tese, gente boa em física que se atrapalha na leitura dos enunciados. Então, temos que melhorar a educação em prol do futuro da ciência, da tecnologia e da inovação”, disso. Aldo Rebelo deteve-se no que revelam sobre o país as transações em conta corrente, com o forte declínio das exportações de produtos com componentes de alta tecnologia e revelou-se muito preocupado com a perda de substância da capacidade industrial.

“Nosso desafio é inovar, em tudo, se quisermos nos manter entre as 10 maiores economias do mundo”. Não basta se apoiar apenas em ser potência agrícola e mineral, disse, para defender que o país enfrente o desafio de se construir sua soberania científica e tecnológica, incluindo os investimentos no programa nuclear brasileiro e em defesa cibernética, entre muitos outros.

Ficou uma questão em aberto: há uma nova e verdadeira equação econômica para enfrentar desafio desse tamanho?

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