Um filósofo quer sacudir a UFBA

2 de fevereiro de 2015 -

A cerimônia de transmissão do cargo de reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) a João Carlos Salles Pires da Silva, 53 anos, no fim da tarde da segunda feira 8 de setembro, foi um acontecimento. À frente do chamado cortejo reitoral, de braços dados com a ex-reitora Eliane Azevedo e acompanhado pelos ex-reitores Dora Leal Rosa, Germano Tabacoff e Roberto Figueira Santos, Salles atravessou o Salão Nobre do tradicional palácio do Canela, da entrada até o palco ao fundo, sob os aplausos prolongados e para lá de entusiasmados da multidão de estudantes, professores, funcionários da universidade, políticos, autoridades do estado, amigos e familiares.

Das galerias do salão, pendiam faixas da União Nacional dos Estudantes, a velha UNE, e de outras instituições estudantis, a proclamar “Democracia na UFBA. Reitor empossando + 1 aliado”. Se numa galeria acomodava-se o madrigal da universidade, versado em repertório mais erudito, na porta do prédio uma filarmônica já tratara de saudar os convidados que chegavam, e perto do palco concentravam-se os músicos do Ilé Funfun com os atabaques preparados para a abertura dos trabalhos e dos caminhos. Pouco depois de o cortejo ter alcançado seus lugares na mesa solene, o hino nacional cantado vigorosamente por todos daria uma medida da elevada temperatura emocional daquela celebração dentro de uma solenidade político-administrativa, e que, aliás, se manteria inalterada até as últimas palavras do discurso do novo reitor e a sessão de cumprimentos subsequente.

Mas quem é o personagem central deste ato, este reitor escolhido, numa disputa acirrada, por mais de 50% dos votantes, ou seja, professores, estudantes e funcionários técnico-administrativos da universidade? Um filósofo especializado em Wittgenstein, pasmem! – nada menos popular. O filho de uma conservadora e tradicional família de Cachoeira, criança criada num sobrado do século XVIII que hoje, transformado em espaço cultural, carrega o poético nome de Pouso da Palavra, para alegria de Salles, que louva a coincidência. Afinal, a palavra tem peso fundamental, decisivo, em seu trabalho.

Ele é também o adolescente de 13 anos que, no começo da década de 1970, chega a Salvador para estudar no Colégio Dois de Julho, presbiteriano, mas liberal como poucos naquele período pesado, e que descobrirá entre deslumbrado e assustado a cidade grande e novas formas aventurosas de estar no mundo. Experimentará um certo modo de ser hippie, a macrobiótica e uns tantos percursos até a militância estudantil e a participação na Ação Popular Marxista Leninista, a AP, que alguns jovens idealistas buscam reorganizar em 1977, depois de a organização ter sido destroçada em 1973, com a prisão e a morte de seus principais dirigentes. À distância, Salles fala com carinho de Jair Ferreira de Sá, um dos poucos dirigentes sobreviventes do massacre, que ele conheceu naqueles verdes anos.

© Léo RamosJoão Carlos Salles

João Carlos Salles

O jovem militante marxista escolheria naturalmente a economia como carreira a se dedicar, mas a filosofia o atrairá sem concessões. E é de dentro de seus domínios que ele trabalhará firmemente para que a filosofia na Bahia rompa um longo isolamento institucional e intelectual e se articule com a comunidade filosófica brasileira e internacional. Nada a estranhar, assim, que João Carlos Salles tenha se tornado diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA de 2009 a 2014. Ao longo desse trajeto também sua produção acadêmica tornou-se robusta e hoje inclui, entre outros livros, A gramática das cores em Wittgenstein (CLE/Unicamp, 2002), O retrato do vermelho e outros ensaios (2006) e O cético e o enxadrista: significação e experiência em Wittgenstein (2012), publicados pela Editora Quarteto.

Foi em seu gabinete, na ensolarada manhã do sábado 27 de setembro, que João Carlos Salles concedeu à revista Bahiaciência a entrevista cujos principais trechos publicamos a seguir.

Comecemos pela incrível cerimônia de sua posse. A que você atribui tamanha torcida por sua condução à reitoria da UFBA?

Vou ensaiar algumas possibilidades de resposta. A primeira, acho que tem a ver com a própria situação da universidade. A UFBA apresentava um cenário de esvaziamento da política e de diminuição da sua tradicional estima elevada, do seu orgulho, da sua alegria. Estava entrando um pouco numa certa pauta negativa de enfrentar problemas que, às vezes, não eram próprios dela, como mobilidade urbana, segurança, violência. Também enfrentava pressões as mais diversas, precarização do trabalho dos docentes, uma terceirização bastante acentuada, problemas com relação à assistência estudantil, problemas com relação à divulgação e ao reconhecimento de suas pesquisas. Ou seja, a UFBA estava atravessada por um sentimento estranho de que a mais importante instituição de ensino superior do estado da Bahia não vivia seus melhores dias, pressionada por um contexto econômico, por novas legislações que burocratizavam desde a simples licitação a até mesmo o convívio, a liberação, a progressão funcional de professores e coisas desse tipo. Daí uma certa sensação de mal-estar, da qual posso diagnosticar como um dos elementos a falta de uma política de autorreflexão, de uma identidade da gestão com os sentimentos mais característicos da universidade. Começamos uma campanha com uma pauta positiva que levou à eleição.

Vocês começaram a campanha uns seis meses antes da eleição, não?

Até dezembro de 2013 eu não estava certo de que ia ser candidato. Estava com passagem, seguro e visto para viajar aos Estados Unidos. Após um tempo na gestão da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, eu disse: “é hora de fazer um pós-doutorado”. Aliás, não tinha feito isso ainda porque desde que retornei do doutorado tinha sido tragado pela gestão, ao tempo que continuava a trajetória de pesquisador. Era o momento de sair, mas a pressão dos amigos, o cenário que se desenhava, me tocou. Fui tocado pela militância.

A propósito, por falar em amigos e militância, que forças são as que você representa? Primeiro, não diria que são forças políticas, curiosamente. Acho que é um campo. Acadêmico?

Um campo acadêmico e político. Como campo acadêmico compreende a universidade como um lugar de trabalho requintado, sofisticado, formador, comprometido com valores científicos, mas, ao mesmo tempo, não um lugar de pesquisa separado do mundo, desvinculado de compromissos sociais. Esse campo acadêmico compreende a composição da universidade, a necessidade de sua abertura para uma camada mais ampla da população, sem perder a qualidade. Portanto, ele compreende e consegue ligar essas duas coisas. Tenho uma visão de esquerda em relação à universidade, o que tem a ver com minha trajetória política. E, embora meus amigos estejam hoje espalhados em várias agremiações políticas – PC do B, PSol, várias correntes do PT etc. –, temos um vínculo de confiança conquistado há muito tempo.

Você foi originalmente da Ação Popular, não?

Sim, fui da Ação Popular Marxista Leninista. Essa é minha trajetória de 1977 até 1981, cujo começo coincide mais ou menos com o da a existência do jornal Em Tempo. Saio da condição de militante secundarista (quando criamos a corrente Avante) e passo a fazer a transição para a universidade. E aí se criam laços de confiança muito fortes com pessoas que conheci na militância, até o momento de fundação do PT. Cheguei a assinar a ficha de filiação ao PT, mas essa filiação não se confirmou depois e eu me afastei inclusive da política mais organizada, digamos assim, e migrei para a filosofia, que já é outra história. Esses amigos, mais os amigos pesquisadores da UFBA, os amigos de São Lázaro, da Filosofia e do Instituto de Psicologia, que viveram comigo uma experiência de gestão que teve como base um diálogo muito intenso, são importantes na continuação do diálogo e do campo que a candidatura veio a representar.

Foi então com base principalmente em sua trajetória como diretor da Faculdade de Filosofia que se encaminhou sua candidatura à reitoria?

Digamos assim, esses amigos e os pesquisadores se organizaram em função de uma experiência recente de gestão muito bem-sucedida que tirou a Faculdade de Filosofia de um sentimento para baixo, um sentimento de que as coisas não estavam dando certo, de que a pesquisa não estava sendo valorizada.

Durante sua gestão a Faculdade de Filosofia recuperou um sentimento de poder fazer?

Sim, mas sobretudo, eu diria, a sociabilidade ficou destravada. Os grupos de pesquisa que sempre disputavam espaços e posições sentiram um tratamento republicano, um espaço democrático de diálogo, tanto que eu consegui – talvez essa seja uma chave – que pessoas com posições muito afastadas e em conflito até recentemente, por exemplo, em função de uma greve que tivemos, apoiassem a candidatura.

 Você se tornou aquela liderança capaz de aglutinar diferentes visões e polos divergentes.

Acho que sim. E talvez a alegria da posse signifique que pessoas que têm e devem continuar tendo divergências, o que é bom, sabem, entretanto, que podem constituir um espaço público de diálogo que não se separa da gestão. Não consigo pensar a gestão como um lado tecnocrático separado da política. A gestão tem sua dinâmica, seu ritmo, seu tempo, e a política tem outro tempo, às vezes bem diferente, mas se pode combinar e oxigenar uma pela outra. A experiência de São Lázaro, que não deixa de ser um lugar especial para a reflexão sobre a universidade e sobre o próprio sentido da universidade, lugar de filosofia, história, sociologia, beneficiou o diálogo com as diversas áreas da UFBA. E isso contagiou as pessoas. Então, tivemos apoio e uma votação extremamente expressiva, cerca de 55% dos votos nas três categorias de eleitores (professores, trabalhadores técnicos e administrativos e estudantes). Na alegria da posse tem outra coisa: um modo de construção em torno de um projeto com determinados valores. Fizemos, de fato, um trabalho conjunto de construção – e esse foi o nome da chapa, Construção Coletiva.

Você tomou toda a sua experiência de militância e fez essa construção.

Fizemos juntos. Foi mais a experiência da gestão, porque às vezes a militância é limitada. Se fôssemos apenas pensar nas experiências de militância, poderia ser o contrário. Traríamos um pacote pronto de projetos, uma carta de propostas, e buscaríamos convencer as pessoas. Em vez disso, lancei um texto-compromisso com uma série de valores, e juntos, num seminário, construímos uma plataforma política. Foi um processo democrático e com ideias não previstas que surpreendem. E isso é bom, a imprevisibilidade da política invadindo a possibilidade de uma gestão mais participativa.

Olhando já da posição de reitor, quais são os pontos fundamentais dessa plataforma?

Primeiro, uma vontade de integração da gestão. Percebia-se que a gestão estava fragmentada por não haver um espaço político de debate. E não haver esse espaço, curiosamente, acaba fazendo com que mesmo o gestor mais generoso se torne um pouco tirânico involuntariamente. Porque há uma separação, um corte. Da mesma forma, não haver um espaço público faz a gestão se fragmentar, porque ela acaba representando as diferentes correntes, posições, interesses, e não se tem uma gestão concentrada, oxigenada pelo diálogo com a sociedade. Assim, a primeira questão é um certo procedimento democrático de deliberação, de construção da gestão, isso é o que estamos sentindo e tentando hoje. Faltava muito a ideia de equipe que pensa articuladamente a universidade, e insistimos nisso. Por exemplo, a assistência estudantil não se descola de pesquisa, não se pode fazer pesquisa na UFBA desconhecendo a extração social do mundo dos estudantes. Então, tem que se ter uma política de pesquisa articulada, que não gere uma elite de pesquisadores por oposição à massa desvalida. O interessante é possibilitar esse diálogo enriquecedor, no qual se junta um bom pesquisador a um estudante que às vezes tinha um déficit de escolaridade e ao qual se oferecem condições para que se aproxime e aqui se realize plenamente.

Trata-se então de trazer estudantes que entram na universidade pelo sistema de cotas para as possibilidades plenas de desenvolvimento oferecidas na universidade. Como?

Esse é um ponto-chave: não basta acesso, é preciso real inclusão. Então, fizemos uma operação conceitual, na qual a palavra excelência foi uma chave importante. Queríamos mostrar que só tem excelência acadêmica a instituição que possui uma boa assistência estudantil, que combate a homofobia, manifestações de autoritarismo etc. Ou seja, a excelência acadêmica é um conceito mais amplo, não elitizante, mas de combate à elitização que os mecanismos da produção de saber naturalmente geram.

Onde vocês se reuniam para fazer discussões dessa natureza durante a campanha?

Em várias unidades. Claro que em São Lázaro, nos vários institutos, na Geociências, na Arquitetura… Então, eu diria que houve, sim, uma construção conceitual, uma compreensão nova de certas noções que estavam isoladas e pareciam ser meras bandeiras. Elas apareceram a todos nós como possíveis sementes, como projetos efetivos de gestão. Conseguir fazer com que uma bandeira política, que geralmente está no campo da utopia, se desloque para alterar decisões acerca de que bolsas vão ser concedidas, que orçamento vai ser destinado, como se vai querer equilibrar, decidir certas questões, dá uma energia nova, que é o sentimento de que podemos fazer isso conjuntamente, oxigenando o espaço público, compreendendo a boa energia da UFBA. E se pensamos na posse, vemos que ela congrega talvez alguns elementos interessantes do nosso projeto. Primeiro, essa presença dos políticos, da qual não temos medo porque não estamos subordinados: eles são interlocutores, não senhores. Não temos medo do diálogo com o Estado, precisamos dialogar com o Estado e com todas as dimensões da sociedade. é neste diálogo que mantemos a nossa autonomia, não o contrário, não por isolamento. Ao mesmo tempo, precisamos dialogar com a nossa cultura, com a história. E isso é tanto um madrigal sofisticado ou um virtuose como Mario Ulloa, cujo toque do El Cóndor Pasa foi o tema da campanha, quanto a filarmônica na entrada da reitoria recebendo as pessoas, com Fred Dantas, da Oficina de Frevos e Dobrados, e também os atabaques do Ilê Funfun abrindo os caminhos, com um certo tipo de tradução respeitosa em relação ao que é a nossa posição no nosso discurso, no próprio ritual. E onde a continuidade não impede a diferença, onde a diferença não significa desrespeito, ao contrário, uma reverência até mais do que justa a toda dedicação da professora Dora, a reitora que me antecedeu. A cerimônia trouxe as marcas de nossa campanha. Não fizemos uma campanha de ruptura, de oposição, de crítica negativa, sobretudo não em relação à reitora, cuja condução sempre foi muito elegante, respeitosa e responsável com a universidade. E depois o nosso discurso representa um pouco esse tipo de tentativa de juntar as coisas.

O que você destacaria que tem que ser feito em seus anos de reitoria?

Primeiro tentei fixar essa ideia do que seria atual. Segundo, penso que é fundamental recuperar um certo cuidado com o patrimônio público, numa correção dos procedimentos que nos levam a um tratamento burocrático, por exemplo, na condução das obras. Hoje somos obrigados a entrar num jogo pesado das licitações em que é muito difícil garantir qualidade, preço, bom emprego dos recursos, boa fiscalização. E como a universidade foi sacudida por um grande investimento em obras, esse é um ponto fundamental do nosso compromisso. Temos muitos prédios em obras, muitas obras paradas, obras com qualidade bem longe do desejável, tanto que abri uma sindicância geral do conjunto das obras da universidade nesta semana [final de setembro].

Isso compromete o orçamento da universidade?

A destinação de verbas para essas obras já vem rubricada [pelo governo federal]. Assim, mesmo que sejam insuficientes e precisem ser complementadas, eu diria que se compromete mais a vida da universidade. Há setores parados às vezes por anos a fio, várias escolas na iminência de mudar e sem conseguir fazê-lo, laboratórios sem poderem ser usados. Problemas com as empresas são uma luta constante, então, embora eu não goste que seja assim, as obras precisarão ser o centro da atenção. E se conseguirmos dentro dos próximos quatro anos dizer que não nos preocupamos mais com obras, isso terá sido uma grande vitória. Com a comissão de sindicância criada, vamos responsavelmente ver o que pode ser acelerado e o que deve ser corrigido para que nossa comunidade possa recuperar e usar esses espaços. Mas o que impacta o orçamento hoje é um crescimento muito grande dos custos com limpeza, vigilância, proteção e portarias. Tudo isso se deslocou para contratos terceirizados que representam gastos de cerca de R$ 40 milhões por ano. Só à vigilância patrimonial são destinados cerca de R$ 25 milhões, um valor bastante pesado.

E o patrimônio está tão ameaçado de roubo?

Não, mas existe um sentimento não justificado de insegurança muito forte. Temos na UFBA mais de 500 câmeras, é mais do que o município dispõe. Certamente o número de ocorrências dentro da UFBA é bem menor do que fora. Isso não significa que vamos descuidar da nossa segurança, mas não deixa de ser em parte infundada essa sensação.

Aconteceu algo que tenha levantado essa paranoia?

Episódios isolados. Houve recentemente uma ocorrência, absolutamente aleatória, que escapa a toda previsibilidade, que foi um disparo feito por um vigilante contra um aluno que estava pichando um muro. Nada justifica o que o vigilante fez, mas isso também não tem a ver com uma política. E só para registrar: um ou outro furto, um que outro episódio numa festa, tudo isso pode criar um sentimento de insegurança não estatisticamente justificado ou relevante. Mas temos que dizer: há, sim, ocorrências de furto, isso deve ser combatido e a vigilância é necessária.

Então o esquema de vigilância está passando por um redimensionamento?

Vamos estudar isso para exatamente ordenar e mobilizar a comunidade a enfrentar o que seria uma política de segurança. Mas, ao mesmo tempo, mobilizá-la para o que seria uma política de pesquisa, ensino etc., correspondente à nossa situação de hoje, de necessidade de internacionalização do conhecimento e de incremento da produção científica. E, para isso, vamos fazer um grande congresso na UFBA. Este foi um dos pontos na nossa proposta que mais entusiasmaram as pessoas: a possibilidade de fazer a UFBA parar e pensar sobre si mesma, pensar quais são seus projetos de longo prazo.

Esse congresso coincide com os 70 anos da universidade? Não, vamos fazê-lo no segundo semestre de 2015, e os 70 anos serão comemorados em 2016. E como você o vislumbra?

A ideia é fazer um congresso numericamente expressivo e cuidadosamente preparado. Vamos tentar fazer com que a nossa comunidade, um conjunto de mais de 40 mil pessoas, tenha a oportunidade de participar. As aulas estarão suspensas, vamos usar nossos pavilhões de aulas e transformar a UFBA, por pelo menos uma semana, num grande centro de convenções. É claro que será antecedido por uma grande preparação, vamos definir alguns eixos de força para os quais vamos mobilizar nossa comunidade acadêmica, as pesquisas, o debate, e trazer convidados. É sempre importante que a universidade não dialogue sozinha, não se feche. Até para pensar sobre si mesmo você tem que dialogar com outras experiências.

 Qual é o fulcro do congresso?

Pensar a UFBA é pensar seus marcos regulatórios, o estatuto, o regimento. Será que esses documentos que regem a vida universitária estão em conformidade com o que se deseja? Há pontos do regimento que são questionados pela comunidade, por exemplo, uma exigência de carga horária superior ao que a Lei de Diretrizes e Bases obriga. É necessário refletir sobre como estão funcionando os nossos conselhos, os fóruns rotineiros de deliberação. Há questões muito objetivas do ponto de vista da legislação da UFBA a serem pensadas. Mas há sobretudo questões acerca de política: como a UFBA lida com as avaliações do conhecimento que produz? Qual é a política que tem em relação à graduação e em relação à pós-graduação? Compreende diferenças, vai aplastrá-las? Vai investir mais na internacionalização? Como? Pelo intercâmbio, pela publicação de papers? Talvez este seja o grande desafio acerca da produção sobre o que a UFBA tem que refletir: o que torna a produção acadêmica relevante? São indicadores de impacto? Vamos ter medidas distintas para as diversas áreas, dado que realizam a competência acadêmica de formas muito diversas? Vamos valorizar o livro? E quanto ao ensino? Ele pode se beneficiar das experiências de ensino a distância, de novas tecnologias? A política de cotas, tão fundamental, deve ser aprofundada? Quais são seus resultados depois de 10 anos? A expansão foi suficiente? E outra coisa que é a vocação (ou vocações), a marca distintiva, da UFBA. Como ficam as artes? Acho que a nossa posse recupera um pouco a ideia de que a universidade envolve ciência, arte, filosofia. A UFBA nasce como universidade nesse sentido mais generoso de não ser técnica, de não ser unilateral. A possibilidade de recuperar esse diálogo, essa energia, é própria de um congresso. Trata-se de confrontar medidas, confrontar ciências duras com outros modos de articular o conhecimento, e tudo isso pode nos permitir a elaboração de medidas conjuntamente.

Exercendo-se filósofo, em seu discurso você transitou da indagação “o que é a UFBA?” para “quem é a UFBA?”. Mantenho as duas perguntas: o que é a UFBA e quem é a UFBA?

Objetivamente eu poderia definir o que é a UFBA, segundo vários marcos legais, como uma instituição de ensino superior que cumpre tais e quais métricas, que forma tantas pessoas, que contrata tantas pessoas, que tem um orçamento bem definido, tem obrigações em relação à expansão, sendo tutora de outras universidades, que tem uma história. Tudo isso é a UFBA, mas assim descrita ela aparece flagrada numa rotina massacrada pela previsibilidade, podendo ser fotografada por relatórios de gestão e balancetes contábeis. Mas, se deslocarmos o olhar para perceber quem é a UFBA, começamos a vê-la como um lugar de investimento pessoal muito grande, onde as pessoas realizam – não sempre e não todas, mas boa parte das que definem esse ser –, onde associam profissão e vocação. São pessoas que vivem a universidade integralmente sem saber quantas horas estão gastando aqui, sem se preocupar com frequência, porque a estão pensando sempre, estão inovando, realizando pesquisas as mais sofisticadas. E estão se realizando como cidadãos, fazendo aqui sua militância, defendendo os interesses dos trabalhadores, os interesses da ciência, defendendo as artes, procurando articular saberes, procurando estar na vanguarda. Essa energia de pessoas que não privatizam o espaço da universidade, que se dedicam a ela completamente, é o que aparece quando respondo “quem é a UFBA?” ou, ao menos, “quem nós queremos que seja a UFBA”. É claro que nossa universidade tem também – e sempre houve no serviço público – aqueles que veem o serviço público como uma prebenda da qual vão se beneficiar pelo resto da vida, trabalhando o menos possível, se desgastando o menos possível, não se comprometendo com gestão, não se comprometendo com qualquer coisa a mais do que sua carga horária ou fazendo daqui um lugar de carreira. Tem pessoas que pensam o lugar da universidade como um espaço de sua realização a mais isolada. São as pessoas que, dizíamos durante a campanha, acreditam que o “Homo Lattes” é superior ao Homo sapiens, aquelas que começam a se medir por índices. E não se preocupam se a palestra que vão dar é relevante ou se mantêm uma troca, preocupam-se mais com certificados, assim como não é o conteúdo do artigo publicado que é relevante, mas onde foi publicado. E se o foi em inglês, é mais importante do que as ideias que foram comunicadas. Só podemos resistir a esse tipo de distorção que afeta e pressiona o melhor do que temos em termos de capacidade acadêmica se tivermos força acadêmica instalada. Eu diria o seguinte: não é absurdo, não é criminoso que as pessoas procurem os índices. Elas precisam se defender e, se para se afirmar academicamente é preciso ser reconhecido como intelectual de destaque, como um cientista de prestígio inclusive lá fora, se precisam produzir papers, se há, enfim, uma cadeia dessa ordem, é compreensível que até sacrifiquem o tempo da maturação, da reflexão, do diálogo, da formação, para cumprir essas tarefas. Entretanto, se elas encontram na universidade um ambiente que protege e cobra o bom pensamento, vão viver de verdadeira riqueza intelectual e menos dessas manifestações exteriores de riqueza. Esse é um desafio que vem sendo colocado para a universidade, ou seja, como reagir a esses indicadores externos, a essa pressão produtivista. Sou absolutamente favorável à cobrança da produtividade e da avaliação, mas isso não pode apenas alimentar carreiras isoladamente – isso tem a ver com a produção real do conhecimento.

E essas métricas contribuem para certas fraudes reais ou disfarçadas, como se ficar reproduzindo o mesmo artigo com diferentes palavras mil vezes, não?

Exatamente, requentando textos, vivendo do turismo acadêmico, tendo essas pequenas retribuições que, em vez de transformá-los em pesquisadores ou elevarem seu talento de pesquisadores, a longo prazo o diminui.

Como você vê a UFBA vis-à-vis a outras universidades brasileiras? Por um recente ranking do jornal Folha de S. Paulo, ela ocupa o 14o lugar, atrás da Federal do Ceará e da Federal de Pernambuco, para citar duas universidades na região Nordeste.

Estar nessa posição significa que talvez haja certa falta de coordenação da gestão para atingir os índices adequados. Não sei exatamente quais são todos os índices que a Folha utiliza para ranquear. Confesso que estranhei muito o ranking quando me detive na classificação dos cursos de filosofia. As escolhas feitas me causaram muita surpresa, porque não expressam a maneira como a comunidade filosófica compreende a filosofia do país. Há um descompasso profundo entre aquilo que é representativo da boa filosofia, que tem qualidade acadêmica e representatividade no país e o que está colocado lá.

 Como aparece a Filosofia da UFBA?

Está bem embaixo [15º lugar], e isso não corresponde ao sentimento que temos nem à própria avaliação da Capes. Por exemplo, temos dois cursos nota 7 para a pós-graduação em filosofia no Brasil, o da USP e o da UFMG. Todos sabemos que o da USP é o departamento de filosofia com maior importância no país e ela está em segundo lugar no ranking. Se eu fosse tomar esse exemplo como um critério amostral, diria que tem um problema sério nos resultados da Folha. Mas os rankings devem ser respeitados porque fotografam certos índices e imagino que os resultados da Folha tenham a ver, por exemplo, com a avaliação da graduação. Ora, a avaliação da graduação às vezes depende de um esforço concentrado da gestão que é capaz de mobilizar os estudantes a responder bem no Enade, que é capaz de apoiar os coordenadores de curso para que os documentos estejam em dia, as ementas estejam atualizadas, que haja uma boa visibilidade das páginas dos cursos, o acesso etc. E esses elementos devem ser levados em conta.

Como você vê a UFBA entre as universidades brasileiras produtoras de conhecimento, que oferecem formação superior consistente e com pós-graduação consistente?

Temos um quadro desigual em relação à comunidade científica nacional e internacional, temos que diminuir a diferença. Temos centros que fazem pesquisas mais avançadas até que outras universidades, algumas pesquisas de impacto extraordinário… Por exemplo?

Em Saúde Coletiva, por exemplo, para destacar só pesquisas de grande relevância e impacto, reconhecidas em diversos centros. Vou dar um exemplo que me ocorreu por causa dos 20 anos do Instituto de Saúde Coletiva (ISC), comemorados recentemente. Assinamos um convênio com a Fiocruz para transformar o cadastro do SUS em uma base para um estudo de coorte que pode ser fantástico. Ou seja, será possível utilizar toda a documentação que veio da implementação de políticas públicas para analisar o efeito dessas próprias políticas (o Bolsa Família em especial), em relação a outros índices de escolaridade, de crescimento etc. Agora, você também tem cursos cuja inserção na pós-graduação é recente. E temos uma expansão importante cujos melhores frutos ainda precisam ser tirados, por exemplo, na expansão dos bacharelados interdisciplinares, com o desafio de retirar da interdisciplinaridade os melhores frutos.

Mas isso não é uma certa ilusão, quando o pesquisador sempre formula a pergunta que orienta sua pesquisa de dentro do campo estrito de uma disciplina? A interdisciplinaridade não seria mais uma boa intenção do que uma prática efetiva?

Concordo, mas aí há um desafio. A interdisciplinaridade não se faz por ajuntamento nem por boa intenção, será real se de fato tivermos questões, problemas, que solicitem e desafiem formações disciplinares. A formação interdisciplinar não é boa porque dá maior cultura, maior lustro. Fazer com que um engenheiro possa recitar um poema ou um filósofo entender física e tecnologia, não é o que forma um trabalho interdisciplinar consistente. Eu, como recito poemas até em discursos de posse e como não deixo de trabalhar com lógica ao fazer filosofia, sei bem que a interatividade real não é aparente, ela resulta de uma costura que é feita institucionalmente por programas de investigação que precisam ser desenvolvidos. Então, talvez a UFBA, ao ter enfrentado um processo de expansão, precise agora se beneficiar da riqueza potencial que faz com que professores com formações disciplinares distintas sejam chamados a cooperar num projeto de formação interdisciplinar. E isso pode ser um dos vetores de crescimento e de destaque da universidade. Mas para isso é preciso integrar a formação interdisciplinar com uma boa disciplinaridade, que é, sim, o primeiro lugar, o primeiro modo, e talvez o mais fundamental, com que você se localiza e se estabelece no discurso científico.

© Léo RamosJoão Carlos Salles

João Carlos Salles

Há críticos segundo os quais o problema central da pesquisa científica, básica ou aplicada, é ser ou não ser relevante, inovadora, transformadora, em vez de meramente incremental. Não lhe preocupa que na UFBA haja muita produção que serviria só para cumprir trâmites acadêmicos? Por exemplo?

Admitamos por hipótese que nas ciências sociais, e especificamente nas pesquisas que há muito tempo investigam pobreza e trabalho informal na Bahia, repitam-se velhos padrões de abordagem e métodos que tornam impossível capturar e oferecer interpretações mais ambiciosas e inovadoras que de fato iluminem o fenômeno em suas manifestações contemporâneas.

Veja, não deixa de haver na formação e na prática acadêmicas um traço meio partidário. Em que sentido? No da renovação do mesmo paradigma, repetição do mesmo. Acaba-se trabalhando no interior de um conjunto de referências e os dados novos são obrigados a se acomodar quando chamados a depor. Confessem! Confessem uma verdade que já sabemos, não é? Sem dúvida, isso é próprio da sociologia, da física, de qualquer conhecimento científico bem estabelecido. A realidade é que geralmente a ciência normal é mais produtiva do que a ciência nos seus estados de anomalia, de renovação. Certamente há o lado do conforto acadêmico que faz com que o aluno que repete o professor tenha até mais chance de sucesso acadêmico do que aquele que tem ideias inovadoras. No imediato, não deixa de ser uma tentação muito grande fazer um trabalho previsível ou fazer com que o líder de pesquisa tenha seus liderados como subordinados num projeto cujo horizonte já limitou. Isso parece descrever bem o que ocorre toda vez que você estabelece até critérios para decidir que algo esteja em conformidade com a comunidade científica. Para que um trabalho seja aceito dentro da comunidade científica, o pesquisador tem que sentir que ele paga o preço de recusar os extremos de inovação e de se deixar surpreender com os dados. Nesse sentido, a universidade não é um laboratório, e ela não pode ser a soma de laboratórios isolados. Eu gosto da ideia de departamentos plurais, exercícios de tolerância epistemológica constante, porque esse confronto pode fazer com que os pesquisadores se tornem mais permeáveis à ideia de que os seus receituários não se aplicam. Então, nesse sentido, sim, eu acho que os dados podem surpreender. Entretanto, não podemos esquecer que, normalmente, a própria recolha dos dados já está comprometida com os seus princípios iniciais e então é muito difícil que o dado surpreenda porque ele já é selecionado em função de hipóteses prévias que o limitam.

É claro que esta pergunta em relação à UFBA vale para qualquer universidade.

Sim, e eu não vejo que a UFBA seja especialmente marcada por essa limitação. Nesse sentido, por exemplo, na sociologia do trabalho, o fenômeno da precarização do trabalho redesenha o modo como o trabalho foi compreendido ao longo do tempo por nossos pesquisadores. Há estudos clássicos sobre o trabalho informal na Bahia, sobre relações precárias, mas digamos que as recentes condições de precarização, a partir da terceirização constante e tão incrementada, remodelaram nossa reflexão sociológica com frutos muito interessantes. Percebo em alguns estudos atuais de relações de precarização uma sofisticação conceitual que não faz simplesmente subordinar o fenômeno a uma determinada matriz estrita marxista, como se ele estivesse todo previamente contido nessa reflexão.

Em sua visão, quais seriam as melhores e mais eficientes formas de articulação de uma universidade como a UFBA com a Bahia, com sua realidade rica e pobre, desafiadora, culturalmente multifacetada?

São tantas! A UFBA se relaciona com a Bahia das maneiras mais diversas, e eu queria aproveitar essa pergunta para falar da questão da visibilidade da universidade. Temos nos divulgado mal, nossa página institucional é fria, as notícias mais importantes não têm destaque, e o público acaba não tendo ciência de que eventos os mais diversos, abertos à comunidade, estão acontecendo todo o tempo em nossa universidade [a nova gestão mudou bastante a página institucional 15 dias após esta entrevista]. A UFBA tem nisso, historicamente, uma importante forma de operação. Eu tenho um sonho de que possamos fazer em breve um investimento forte em nossa orquestra para nos orgulharmos dela, queremos que a orquestra da UFBA tenha um lugar destacado e com todas as condições para fazer o belo trabalho que já faz. Parafraseando Érico Veríssimo, como me foi contado por meu amigo José Maurício, maestro, que disse: “Ah, eu venho de uma cidade que tinha uma orquestra!”, seria muito bom podermos dizer: “Ah, eu sou de uma universidade que tem uma bela orquestra!”. Isso modifica nossas relações, organiza nosso espaço de possibilidades de refinamento de uma forma extraordinária. Mas, ficando na questão da visibilidade, a UFBA vai ter que cuidar disso, até mesmo porque essa é uma forma de prestação de contas e de interação, é preciso mostrar à sociedade o conjunto de relações que a universidade estabelece. E temos relação efetiva com o Ministério da Saúde, com a Secretaria de Saúde, através dos atendimentos feitos no complexo hospitalar que são campos de práticas e de ensino fundamentais. Temos intervenções importantes de nossos pesquisadores na baía de Todos os Santos e na formulação de políticas públicas. Há várias relações, algumas mais delicadas, envolvendo empresas, que têm a ver com projetos que precisam dessa energia de diálogo com a Federação das Indústrias. Temos ações financiadas pelos ministérios da Ciência e Tecnologia, da Saúde e da Educação, não somos uma estrita e separada unidade de ensino que apenas oferece diplomas. Nossa principal retribuição à sociedade não é apenas fornecer diplomas, que são fundamentais, e o são também porque vêm na esteira de relações boas de pesquisas, de qualidade de ensino, de um trabalho bem articulado com a sociedade.

Os recursos que a UFBA recebe do governo federal para sua manutenção são suficientes para ela continuar se desenvolvendo como universidade líder deste estado?

São insuficientes. Temos um orçamento da ordem de R$ 1,2 bilhão, fortemente comprometido quase todo com pagamento de pessoal.

Mas o pessoal não chega a representar 105% da receita orçamentária…

Não, por isso estou dizendo que é mais fácil hoje administrar a UFBA do que a USP. Mas a USP tem um fundo de reserva que eu gostaria muito de ter à disposição agora. É pouco o que nos sobra para investir efetivamente. Dos cerca de R$ 200 milhões que seriam a parte que podemos manejar, grande parcela já está comprometida, por exemplo, com a terceirização. Nossa margem para um investimento real é muito restrita.

Além de dobrar a população estudantil em 10 anos, com a política de cotas cresceu muito na UFBA o ingresso de estudantes de baixa renda que, segundo vozes importantes ligadas à UFBA, demandaria um reforço nos instrumentos de formação oferecidos. Parece-lhe que é assim?

Isso nos falta. Embora tenhamos a verba específica do Pnaes [Plano Nacional de Assistência Estudantil] para assistência estudantil, não se pode pensá-la como uma coisa isolada, apenas um auxílio permanência ou o restaurante universitário. Quando se faz o investimento para acolher pessoas que teriam déficit em sua formação, há que se ter ações também acadêmicas. Por exemplo, vamos ter de investir para equipar nossas bibliotecas, fazê-las funcionar nos fins de semana e torná-las um espaço de pesquisa efetiva. Essa é uma maneira de começar, uma forma de acolher e garantir a inclusão social. A rubrica específica para a assistência estudantil minimiza o tamanho da tarefa e acaba transformando a ideia de assistência estudantil numa espécie de favor. Ela é uma obrigação, mas é também estrategicamente necessária para garantir a qualidade da instituição.

Há setores, campos do conhecimento, que deverão ser mais fortemente apoiados que outros em sua gestão?

Há necessariamente um apoio desigual aos cursos porque há aqueles que solicitam mais investimentos e outros que solicitam menos. Por exemplo, se vamos dar um aporte de assistência estudantil ao curso de odontologia, o custo efetivo do aluno para ser apoiado com os equipamentos necessários chega a R$ 27 mil por ano.

Já a física teórica não solicita quase nada.

Talvez uma rede, lembrando uma anedota de Einstein… Essa não é uma conta que um contador possa fazer, ela tem de ser pensada academicamente. Um exemplo: um aluno de filosofia, que aparentemente não custa nada, na verdade custaria muito para ter uma formação de boa qualidade, porque uma verdadeira biblioteca de filosofia é muito cara. Estamos longe de ter verdadeiras bibliotecas, com as obras clássicas das melhores edições, acesso aos melhores comentadores, renovada com investimentos mensais, mesmo semanais, em livros. Quando viajamos para outros centros, descobrimos verdadeiras bibliotecas. É claro que hoje, com a internet, diminuiu o impacto dessa diferença. O portal de periódicos da Capes, os livros em pdf, devemos admitir, facilitaram extremamente o acesso e nivelaram mais as condições de estudo. De qualquer modo, estamos longe de ter autênticas bibliotecas que comportem investimentos que superariam até os do curso de odontologia. Mas vamos a sua pergunta: avançaremos mais em algum centro? Eu vou resistir a essa ideia, embora eu ache que é verdade que a UFBA pode ter uma vocação maior para certas áreas.

Era justamente nisso que eu estava pensando.

Mas vou dizer que acho que a gestão deve equilibradamente resistir a jogar todas as fichas naquele centro para o qual a universidade teria mais vocação, por exemplo, as artes na UFBA. Então agora vamos descuidar das ciências básicas? Eu tenho a impressão de que a melhor maneira de fazer um investimento nas artes é não descuidar das ciências básicas.

E por quê? Como se dá a relação entre uma coisa e outra?

Simplesmente porque toda universidade é esse lugar estranho, singular, onde você guarda até os conhecimentos que parecem inúteis. Ela precisa preservar certo tipo de saber que não tem impacto imediato, que não tem aplicação imediata, por isso o gestor deve ter uma visão universitária ao lidar com essas diferenças. É claro que, se certas áreas se destacam, merecem apoio. Os sucessos devem ser apoiados institucionalmente, mas esses grupos mais destacados de pesquisa vão ter mais facilidade para captar recursos por si só em editais etc., eles sobrevivem melhor. Então, por vezes é até mais importante compensar deficiências do que apenas reforçar sucessos, a universidade não pode fazer com que o rio só corra para o mar, ela tem de ter a capacidade de ver os diversos setores e até mesmo de estimular setores que não estão tendo as melhores condições de competição e dar a eles apoio específico. Diferença sempre vai haver, mas o gestor precisa trabalhar com a ideia da universidade como um conjunto de saberes que dialogam.

A universidade é um tema inesgotável, mas eu gostaria que você falasse também um pouco sobre o que significa fazer filosofia e buscar ser efetivamente alguém que atua no campo da filosofia num lugar como a Bahia.

É uma boa questão. Veja bem, acho que, se eu tivesse feito medicina ou engenharia, talvez não tivesse a percepção que tenho hoje acerca do que é a universidade. O desafio de fazer filosofia na Bahia me obrigou a algumas medidas – e um conjunto de pessoas participou desse processo – de interlocução com outras universidades, o que foi interessante. A filosofia é local, mas ela tem de ser universal, essa é a dificuldade básica. Pensando nessa trajetória, eu começo num departamento de filosofia que tinha pessoas muito talentosas, mas não diplomadas. Graduadas em filosofia, mas sem mestrado ou doutorado. Era um departamento que acabava favorecendo um certo beletrismo, o filósofo acabava sendo um pouco literato, pessoas com o dom do dito espirituoso, da observação crítica, com uma certa visão às vezes ácida, mas sem um trabalho denso reconhecido. Esse trabalho não estava em diálogo, não estava em linha de conta, não participava da comunidade filosófica nacional. Essa é a minha percepção inicial.

Em que ano você entrou na universidade?

Em 1979, como estudante de economia porque, como marxista, eu achava que a Faculdade de Economia era o lugar natural para mim. Eu vinha da militância secundarista, tinha passado todo o ensino secundário como militante, então tinha essa visão. Logo percebi que meu lugar de fato era a Faculdade de Filosofia, com pessoas importantes como Ubirajara Rebouças e Fernando Rego.

Ubirajara foi seu orientador no mestrado, não?

Sim. Ubirajara foi um grande amigo. Comunista, marxista, generoso, com uma leitura sempre um pouco mais ampla dada sua riqueza intelectual, era uma figura exemplar do que era o profissional de filosofia nos anos 1970. E vamos esquecer neste caso o beletrismo. Era um militante, participou de várias lutas políticas, e era dono de uma grande biblioteca pessoal, traço próprio do nosso modo de viver. Ou seja, se você não tem boas bibliotecas públicas de filosofia, faz as suas bibliotecas privadas. Falava bastante e muito bem, escrevia pouco e não tinha os títulos devidos para se tornar o que seria hoje um típico cidadão universitário, isto é, com mestrado, doutorado e publicando com uma certa constância, senão está fora do sistema. Ele foi meu professor já na graduação, quando na economia fui pegando matérias na filosofia, isso era fácil antigamente. Fiz uma transferência de curso, me graduei em filosofia e imediatamente passei a ensinar lógica, em setembro de 1985. Em certo momento percebi que minha formação deixava a desejar, faltava o diálogo com o que se produz efetivamente, esse diálogo que faz a comunidade filosófica interagir e ter medidas comuns, que faz com que ela se desafie. Em outras palavras, o filósofo na Bahia tendia ao isolamento. Como quem tende ao isolamento pode sempre parecer alguém que fala javanês, que se especializa num tema exótico que só ele domina, isso acaba criando uma couraça protetora.

E talvez gerando uma certa arrogância?

Sem dúvida. O isolamento transforma o filósofo em alguém cujas idiossincrasias se avolumam e podem gerar trejeitos, violências verbais, atos explosivos que se autoexplicavam e não explicavam nada. Isso acontecia com o famoso “gênio de palestra”, a figura de pessoas muito geniais que gostavam de fazer as perguntas mais difíceis a um palestrante para vê-lo tropeçar. Você o via numa palestra, muito inteligente, mas ele nunca saía da repetição, na próxima palestra estava lá para desafiar, mas ele mesmo não era capaz de fazer a palestra que criticava. Essa assimetria é a do isolamento. Percebi claramente os problemas da formação ao fazer uma dissertação de mestrado sobre a filosofia de Durkheim. Percebi a inanição bibliográfica local e a minha necessidade de saber, de ter acesso. Fiz investimentos em livros para poder ter acesso às fontes clássicas, aos bons comentadores, para conseguir superar essa inanição. Percebi então que eu tinha de fazer o doutorado e foi uma experiência muito legal.

Por que no doutorado na Unicamp, você, com seu passado de reflexões marxistas, escolhe Wittgenstein como tema de pesquisa?

Foi uma paixão oriunda do fato de eu ter passado a ensinar lógica. E tenho que registrar que, se minha graduação foi marcada por figuras muito fortes, extremamente talentosas, mas que não estavam no cenário filosófico nacional, como os já citados Ubirajara e Fernando Rego, e mais Delmar Schneider, por outro lado, algumas figuras de fora da Bahia, que vieram dar cursos na UFBA, foram importantes para eu ter contato com um modo distinto de fazer filosofia. Destaco dois cursos (além de algumas palestras), dos quais o de José Arthur Giannotti, na medicina preventiva, onde apareceu um Wittgenstein muito giannottiano, como tudo, aliás, que emerge das reflexões de Giannotti. Marx, Kant, Skinner e o próprio Durkheim, tratados por ele, tornam-se giannottianos. Naquele curso destinado à pós-graduação, do qual participei, embora estivesse ainda na graduação, creio que Giannotti viu em mim algum potencial, tanto que me convidou para ir para o Cebrap, ofereceu bolsa… Mas eu não podia por razões familiares, tive que recusar. O segundo, um belo curso sobre Husserl, que foi dado por Carlos Alberto Ribeiro de Moura, trazido por José Crisóstomo. Carlos Alberto me aproximou também de Merleau-Ponty, e eu diria que isso favoreceu o que já estava latente em minha formação, para a qual tiveram importância, devo destacar, as belas aulas de Carlos Costa, um professor bastante marcado pela fenomenologia. Então, o meu marxismo foi batizado um pouco pela fenomenologia, pela sociologia (com o mestrado orientado por Bira), sendo depois desafiado fundamente por Wittgenstein. Pois bem, por esses contatos, por essas referências, procurei uma leitura constante do que se produzia, lia muitas teses que foram importantes para mim, como “O espírito e a letra”, de Rubens Rodrigues Torres Filho. Com esses exemplos, sempre tinha uma coisa bem focada numa certa dicção e direção do que eu queria fazer em filosofia, e sempre um cuidado com o texto era uma questão fundamental. Uma certa veleidade literária sempre me acompanhou, ou seja, eu sempre tive um cuidado muito grande com a palavra. Mesmo quando me aproximo da lógica, mesmo quando me inicio nesse processo pela visão de Wittgenstein, que me ajuda nos trabalhos de lógica, o que tenho é uma aproximação marcada por um cuidado intenso com a palavra. Recentemente, soube que meu orientador de doutorado, Arley Moreno, em um colóquio, mencionou esse contato entre poesia e argumentação em meus textos. Esse contato é característico e estranho, e muito contente e grato com a menção de Arley, devo admitir que, para o bem e para o mal, ele tem razão.

Uma marca de escritor.

Acho que é isso que me faz agora membro da Academia de Letras da Bahia. Mas o fato é que o meu modo de aproximação à filosofia é marcado pelo que, na linha do estruturalismo francês, chamaríamos o cuidado com o texto, a procura da estrutura. Então, eu mantive um horizonte: “Tenho que fazer a formação fora”. Caso contrário, julgava, não conseguiria realizar um trabalho profissional em filosofia. Aí Wittgenstein se afirmou como um projeto possível e desafiador. E desenhei um projeto de doutorado sobre A gramática das cores.

O que lhe encantava em Wittgenstein?

Olha, a densidade de seu pensamento é algo extraordinário. Primeiro, o Tractatus é por si só uma das obras mais belas da filosofia, e Luiz Henrique [Lopes dos Santos] tem toda razão ao dizer, provocativamente, que é a segunda obra mais importante do século passado, sendo a mais importante as Investigações filosóficas, também de Wittgenstein. Talvez porque a obra de Wittgenstein exija uma imersão no pensamento, ou seja, você tem que pensar com ele, fazer nascer o texto com ele.

 Mas isso você poderia dizer também de Kant, de Heidegger, de Nietzsche…

Poderia, mas a diferença é que a densidade do aforismo lhe obriga talvez a mais. Heidegger facilmente gera um patuá, por excelente que seja. Ele lhe guia pela mão e você vai pensar com ele, mas ele vai apontando o modo de pensar dele. Ele se explicita mais do que Wittgenstein.

Com quem você tem que ficar colhendo pistas.

Pistas, sim, e você vai entender o aforismo apenas se conseguiu ver todo o campo de pensamento. Ou seja, é como se você tivesse que, aí sim, de fato, ser capaz de adivinhar a forma do prédio pela ruína. Acho que essa é a imagem. Wittgenstein tem esse lado de força de escritor. Talvez seja a herança do aforismo, que é um convite singular ao pensamento, o que mais me encanta. Não quer dizer que eu concorde com todas as posições dele, mas considero que ele tem uma profundidade formadora extraordinária, uma capacidade de pensar questões essenciais para a filosofia, e que é mais bem lido se tivermos essa adesão a um tipo de leitura, como leríamos um fragmento pré-socrático, mais do que a leitura que os analíticos fazem – aí começa uma diferença. Eu não gosto e me afasto da leitura de Wittgenstein que canibaliza argumentos isoladamente e que, lamento, caracteriza muito um certo tipo de via mestra hoje da filosofia, a filosofia analítica, que está se impondo de uma maneira muito forte. Isso cria um constrangimento no âmbito do pensamento de Wittgenstein, a quem repugna o pensar segundo os procedimentos do paper.

Como você lida com essa questão da linguagem em Wittgenstein versus, digamos, uma abordagem materialista da realidade? É claro que pergunto isso considerando seu percurso pelas leituras marxistas.

Não quero sugerir um ecletismo, não acho que seja verdadeiro. É evidente que eu não pretendo que Wittgenstein vá tratar das agruras do capitalismo contemporâneo, não é? Não pretendo que com Wittgenstein eu vá dar conta da gestão da universidade em certos aspectos, mas acho que, se eu consigo pensar “aquilo que dá sentido a essa ação”, Wittgenstein vai me ajudar bastante.

Então, é no campo da criação do sentido que ele se mostra mais rico?

Na verdade, se a filosofia não é simplesmente a busca da verdade, mas uma reflexão sobre as condições da produção do sentido, poucos, ou talvez ninguém, tenham ido tão longe quando Wittgenstein nisso, ao interrogar exatamente o que faz a linguagem se produzir, o que é necessário a essa produção da linguagem, como pela linguagem inventamos a necessidade e o acaso. Então, nesse sentido desse lado mais fundo, Wittgenstein nos lembraria, quem sabe, pensadores que podem continuar sendo atuais como Leibniz, por exemplo. Ou seja, seria tolo pensar numa aplicação imediata ou imaginar que eles suplantariam aqueles que estão colhendo os dados mais diretos. Nesse sentido é que um Wittgenstein talvez possa, sim, se aproximar de um Marx. Não na vertente que talvez Giannotti pretendeu explorar, como se fosse uma coisa óbvia, mas, e nisso Giannotti tem razão, o que para mim subsiste em Marx não é a análise específica de uma realidade específica do capitalismo, mas um modo de articular os conceitos, um modo de procurar a construção categorial que lembraria em muitos momentos um modo wittgensteiniano de trabalhar.

Você formou um grupo de “wittgensteinianos” na UFBA? Eu gostaria também de saber como está sua linha de pesquisa “Conhecimento e Ação”.

Temos um grupo de cerca 30 pessoas que se reúnem aos sábados – ou melhor, se reuniam, já que minhas atividades de gestor fizeram com que em alguns meses só fizéssemos uma ou outra das reuniões de trabalho, o que é ruim porque filosofia exige constância, dedicação. Nesse grupo tenho conseguido acompanhar não só trabalhos sobre Wittgenstein, mas também sobre outro filósofo de eleição, David Hume, além de fenomenólogos e pensadores do campo do empirismo. Integram o grupo desde alunos de iniciação científica até doutorandos e doutores que continuam apresentando seus trabalhos, suas inquietações. Em torno disso e também no espaço em que vou apresentando o que continuo produzindo, temos formado um bom número de professores, alguns já na UFBA, UEFS, UFRB, UNEB, UESC, UFG e IFBA. E, em meio a tudo isso, tenho continuado minha pesquisa, que agora se volta para a filosofia da psicologia em Wittgenstein, mas que acolhe e dialoga com essas outras pesquisas, desde as levadas a cabo pelo aluno novo de iniciação científica que, por exemplo, está se debatendo com a causalidade em Hume (tema mais técnico e previsível, digamos assim), até as de doutorandos que estão se aventurando em textos ainda pouco explorados como os trabalhos sobre um dos livros mais difíceis e sutis de Wittgenstein, Da certeza. 

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