Nossos sertões

26 de março de 2015

© Edvan Lessasertoes2Boa parte do imaginário sobre o semiárido foi construído através da literatura. Obras clássicas como Os sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e Vidas Secas, de Graciliano Ramos eternizaram o chão rachado, gado morto e a miséria como sendo os únicos olhares possíveis nessa região.

O próprio título da obra de Euclides da Cunha sugere, entretanto, uma pluralidade no semiárido. Ao versar em “Os sertões”, o autor legitima o que estudiosos do assunto repetem exaustivamente: pensar o semiárido como um lugar não homogêneo ajuda a compreender questões que são intrínsecas a algumas localidades, mas não a outras.

O consumo médio per capita de água no semiárido brasileiro é de 102, 20 l/dia. O da Bahia é menor – 94,99 l/ dia.  E 23,34% do volume de água que se produz no Nordeste vem do estado baiano. Em números absolutos, temos mais água do que os outros estados, mas também somos acometidos pela escassez.

A perda de água durante a distribuição indica que, a cada 1000 l distribuídos, apenas 551,33 l chegam aos consumidores em todo o Nordeste. Considerando-se uma redução de 20% na perda de água e mantendo-se o atual consumo per capita de 102, 20 l/da e o volume disponibilizado (1,02 bilhão m³/ano), seria possível atender a uma população de aproximadamente 5,3 milhões de habitantes, apenas com o aumento da eficiência do sistema de distribuição de água já existente, conforme o INSA.

Aniversário da seca histórica

Já são quatro anos consecutivos de intensa seca e os impactos também são registrados na economia. Segundo dados do Relatório Análise da Seca de 2014 da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), os prejuízos causados pela estiagem em 2013 foram de R$ 18,5 bilhões aos cofres públicos.

A Análise da CNM sobre a seca do Nordeste destaca que, na Bahia, houve uma diminuição do nível dos mananciais utilizados para abastecimento. Por conta disso, a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) adotou o racionamento em 53 municípios e lançou campanha para que a população instalasse mais caixas d’água com capacidade suficiente para atender a própria necessidade diária de consumo. Desses, Caetité, no sudoeste baiano, continua enfrentando racionamento.

A melhor maneira de convivência com a seca, conforme análise do CNM, se dará através de obras hídricas estruturadoras, a exemplo de barragens, interligação de bacias a partir do São Francisco, infraestrutura para a agricultura irrigada e gestão permanente da água. No site do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), projeto do Ministério das Cidades, é possível acompanhar o andamento das obras hídricas realizadas por todo o país.

“Já estamos deixando faz tempo [de tratar as questões do semiárido do ponto de vista emergencial], mas principalmente, pelas mãos da sociedade civil. Um clima semiárido não é fácil para nenhuma população, ainda mais o nosso que é o mais populoso do planeta. Construir a cultura da convivência é uma novidade histórica, em implantação. Mesmo com todos os problemas, na minha opinião, não tem mais retorno”, destaca Roberto Malvezzi, membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Apesar de existir serviço de abastecimento de água nos 1.122 municípios do semiárido nordestino, não significa que todas as pessoas nesse universo – 13.586.495 habitantes – tenham água para matar sede e produzir. Estima-se que 727.808 habitantes não dispõem de serviço de fornecimento de água através de rede de distribuição.

Conforme o balanço feito pelo Instituto Nacional do Semiárido (INSA), o ponto crítico dos sistemas de abastecimento de agua do semiárido brasileiro está mais associado à sua capacidade de produção do que à insuficiência de água nos atuais mananciais existentes. Haveria, assim, a necessidade de investimentos na ampliação das unidades de captação, adução e tratamento dos sistemas existentes para assegurar que água chegue na torneira dos sertanejos e sertanejas.

Leia na íntegra o Especial “Água mole, terra dura” 

 

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