Regiões suscetíveis a conflitos por terra e água

28 de março de 2015

© Edvan LessaExistem, na Bahia, 2.483 pontos suscetíveis a conflitos envolvendo recursos naturais – tanto terra quanto água – segundo mapeamento realizado pelo grupo de pesquisa GeografAR – A Geografia dos Assentamentos na Área Rural, do Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que analisou as formas de acesso à terra no estado O levantamento inclui acampamentos, projetos de reforma agrária, colônias e associações de pescadores, indígenas, quilombolas, entre outros povos, que geralmente promovem ações de resistência para garantir o direito a bens naturais.

De acordo com o estudo feito pelo GeografAR,  coordenado pela  pesquisadora Guiomar Ines Germani, as comunidades quilombolas são as mais atingidas por conflitos. Foram identificados 674 conflitos em territórios remanescentes de quilombos – entre estes, 494 são reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares. Apesar do estudo não quantificar quantas comunidades indígenas compõem outra fatia das formas de acesso à terra, 28 povos estão na iminência ou já protagonizaram conflitos.

O dado, entretanto, não é revela um fenômeno isolado. E corrobora, em parte, o último levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT) sobre ações de resistência no campo.

O último relatório anual divulgado pela CPT mostra que, em 2013, houve 21 ações de disputa pelo uso da água no estado. Nesse documento, a Bahia aparece em primeiro no número de conflitos pela água. Ainda segundo a entidade da Igreja Católica, essas ações aumentaram 32% – 79, em 2012, para 104, no último ano.

© Antonio Saturninoregioes

Segundo Guiomar, o acesso à água valoriza a terra. “Ela é um meio de produção, e como meio de produção, vai ser apropriada por quem quer produzir. E aí começa a disputa”, afirma. Na visão da pesquisadora, o coronelismo traduz esse cenário. “Quem vai se apropriar é quem tem o poder, não pelo reconhecimento da história, da tradição, pela necessidade da água como elemento da vida”, observa.

Roberto Malvezzi acredita que isso é uma realidade com menos influência do que em tempos anteriores quando os coronéis controlavam o acesso à água mediante voto.  Quem não votasse nos “coronéis da água”, não recebiam esse recurso. “A derrota da oligarquia Sarney no Maranhão é simbólica nesse sentido. Mas, é preciso sempre estar atento. A tentativa de substituir as cisternas de placa pelas de plástico foi um golpe do coronelismo. Além do mais, entramos na era do hidronégocio. Agora, cada vez mais a água será um negócio de grandes empresas, particularmente as transnacionais da água”, acredita.

Leia na íntegra o Especial “Água mole, terra dura”.

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