O pulo do gato

Investimento em inovação permite que países em desenvolvimento ultrapassem fronteira tecnológica

28 de maio de 2015

© Foto: DivulgaçãoinovaçãoA inovação e a organização de um sistema nacional de inovação forte configuram-se como o “pulo do gato” que permite ultrapassar a fronteira tecnológica onde países em desenvolvimento, como o Brasil, possam ter vantagens comparativas. Essa foi a conclusão da economista Ana Célia Castro, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), durante palestra realizada na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb).

Com o tema “A inovação como fonte de competitividade: experiências internacionais e nacionais”, a professora participou da conferência de abertura do simpósio “Propensão a Inovar do Empresariado Baiano”, na noite desta quarta-feira, 27. O evento, organizado pela Academia de Ciências da Bahia, segue até o dia 29 de maio.

Ana Célia Castro, que é membro do Instituto de Estudos Brasil-China, ressaltou que a escolha da tecnologia adequada, em sentido amplo, a ser aplicada no processo de produção de um país configura-se como um aspecto crucial da orientação imprimida ao desenvolvimento, uma vez que ela afeta o nível de eficiência da utilização dos recursos já existentes e o potencial de evolução futura. Segundo ela, no Brasil, ainda há a possibilidade de escolher trajetórias tecnológicas diferenciadas em vez de replicar cases de sucesso dos países desenvolvidos. “A inovação, nestes casos, figura como a opção mais inteligente e menos dependente”, disse.

Para ilustrar a questão da escolha tecnológica, ela usou o exemplo chinês e mostrou um quadro comparativo entre a arquitetura dos sistemas nacionais de inovação da China e do Brasil, ressaltando pontos fortes e fracos característicos das duas realidades. A ideia foi apresentar a autocrítica que fez o governo do gigante asiático sobre o processo de industrialização iniciado no passado, o que levou à reformulação profunda de políticas públicas em diversas áreas: educação, ciência e tecnologia, indústria, dentre outros. Para a pesquisadora, essa foi uma atitude crucial que levou a China ao patamar de importante jogador no cenário econômico internacional.

O processo de busca de financiamento entre os dois países também foi citado. Segundo Ana Célia, o financiamento na China está acontecendo de maneira mais rápida do que no Brasil. “Na China, a inovação é o ponto de partida. Os empreendedores chegam com o produto no sistema bancário em busca de financiamento.  Já no Brasil, a inovação é o ponto de chegada e passa por agências de fomento governamentais”, informou.

© Foto: Mariana AlcântaraA economista Ana Célia Castro é membro do Instituto de Estudos Brasil-China

A economista Ana Célia Castro é membro do Instituto de Estudos Brasil-China

Outro ponto-chave para avançar na questão da inovação, segundo a economista, diz respeito à cultura nos escritórios de patentes no Brasil. Para ela, a burocracia institucional impede que os pesquisadores brasileiros consigam registrar seus produtos e partir para a fase de comercialização dos mesmos nos mercados nacional e internacional. “Nossos índices de patenteamento não acompanham o ritmo de nossa produção científica. Acredito que os escritórios de patenteamento nacionais estão sendo muito duros em suas exigências e, talvez, isso explique os baixos índices”, analisou.

Em sua apresentação a professora também lamentou a falta de uma divulgação efetiva da ciência brasileira, que mostre de fato onde o Brasil está contribuindo. “É preciso fazer um esforço no campo da divulgação de nossos feitos para sairmos da situação do desânimo e concepção de fracasso que norteia a sociedade brasileira neste atual momento de crise econômica”, completou.

Processos decisórios – É sabido que em países em desenvolvimento, principalmente em momentos de crise, a disponibilidade de recursos não está totalmente garantida para todos os setores. Desta maneira, devem ser feitas escolhas para saber onde o dinheiro será aplicado, quais as áreas prioritárias. Ao analisar este cenário, Ana Célia Castro mais uma vez utilizou o exemplo chinês para ilustrar como um país pode investir seus recursos a fim de saltar etapas do desenvolvimento por meio da inovação.

Segundo ela, o governo deste país mantém escritórios especializados em acompanhar sistematicamente o que está sendo pesquisado em vinte países desenvolvidos em termos de fronteira tecnológica e setores de ponta. “A partir desse verdadeiro observatório internacional da inovação, o governo decide onde atuar para competir”, explicou.

No caso brasileiro, a arquitetura do sistema de inovação também possui um trabalho sistemático da mesma natureza. Segundo Ana Célia, existem muitos estudos prospectivos realizados pela ABDI e Finep, mas o questionamento passa pela certeza ou não de como os mesmos influenciam no processo decisório de base política e empresarial. “O problema, neste caso, é definir em que medida esses estudos entram nos processos de decisão e quais setores serão efetivamente apoiados”, concluiu.

 

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