Enseada Indústria Naval: o gigante pede socorro

7 de maio de 2015
© Foto: Mariluce Moura

Pintura para preservar equipamentos no Estaleiro Paraguaçu

O impacto é incontornável: ver vazia e às escuras a gigantesca Oficina 6, um galpão de 75 mil metros quadrados e pé direito de 40 metros, que a essa altura deveria estar fervilhante de gente em ininterrupta produção, gera um peso inesperado no coração – tristeza, apreensão e medo. Ver também vazios o grande e moderníssimo cais 1, a área de estocagem, a do dique seco e a do dique molhado do estaleiro Paraguaçu, deserta de gente toda essa paisagem composta por obras de engenharia e inovação tecnológica materializada em máquinas de última geração, circundadas pelas águas do rio e marcada pelo altíssimo Goliath, um guindaste de 150 metros de altura, um dos mais potentes do mundo com sua capacidade para 1.800 toneladas, leva a uma pergunta torturante: vai-se mesmo correr o risco de deixar que todo esse magnífico investimento se transforme em sucata? São R$3,2 bilhões de reais que já estão investidos numa obra de grande significado para a Bahia e que se alinhava entre as decisivas para a retomada da indústria naval brasileira, no rastro das demandas produzidas pelas expectativas da exploração do Pré-Sal. Seis navios plataformas teriam que ser montados ali até 2020. A essa altura, o primeiro, o Ondina, estaria em vias de ficar pronto, e o Pituba já estaria começando a ser montado. Ainda em outubro passado, quando o repórter Domingos Zaparolli esteve no estaleiro para fazer uma reportagem para a Bahiaciência, 4.500 pessoas trabalhavam entre a etapa final da construção do estaleiro, que está com pouco mais de 80% de suas obras concluídas, e a montagem do Ondina. Hoje, não chegam realmente a duas centenas os trabalhadores que se vê ali, e trata-se sobretudo de fazer a administração do valioso empreendimento e a manutenção dos equipamentos. Lembremos que em fevereiro de 2014, quando a construção ainda estava a pleno vapor, o Paraguaçu chegou a reunir 7 mil trabalhadores da construção civil e da montagem do próprio estaleiro e projetava juntar 4 mil quando ele estivesse pronto e em completo funcionamento. Essa história começou a ser desmontada em novembro, e com estonteante velocidade levou à demissão de praticamente 5 mil trabalhadores em pouco mais de 4 meses. Três horas e meia depois de deixar Salvador, via um moroso ferry boat (sou ardorosa defensora da ponte para Itaparica), com o objetivo de constatar in loco como evoluiu a freada e o desmonte de um ambicioso projeto, eu estava ouvindo extraordinárias histórias de dedicação, de esperança e desesperança, dentro e fora do estaleiro, histórias de ainda empregados, de nível médio de educação, que saíram do Recôncavo para absorver de tecnologia construtiva naval de ponta no Japão, e de desempregados que repetem “o sonho virou pesadelo” e que espero dividir um pouco com os leitores nos próximos dias.

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