O forró não continuou

15 de maio de 2015

O São João da Bahia é considerado a maior festa regional do país, ao menos na sua propaganda. Em Salvador, os festejos são hoje menos marcantes do que os arrasta-pés do interior do estado, mas a região da Saúde, que fica no Centro Antigo da cidade, já teve a melhor festa do São João soteropolitano. Isso muito antes de o Pelourinho, limítrofe, atrair gente para forrozear no mês de junho.

Essa história é contada no documentário de Carlos Pronzato, “Forrobodó: uma história de São João na Bahia”, lançado em 25 de abril, no bairro de Nazaré, ao qual pertence a Saúde. O trabalho é resultado de um projeto conduzido pelos grupos de pesquisa “CriaAtivos: criando um novo mundo” e “Gestão, Educação e Direitos Humanos, ambos coordenados por José Cláudio Rocha, professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

© Foto: Reprodução Forrobodó: Uma história do São João na Bahia

A proposta, diz ele, articula a economia criativa com a educação profissional. “Como se tratava de um projeto de articulação da pós-graduação com a educação básica, nós o definimos em parceria com o Centro de Educação Profissional em Artes e Design (CEPP), que funciona no bairro de Nazaré e forma jovens para áreas criativas como música, design e artes performáticas”, explica o professor.

O documentário está dentro de uma iniciativa firmada em 2013 para estudar Nazaré e seus sub-bairros: Mouraria, Tororó, Jardim Baiano, entre outros interligados pela Avenida Joana Angélica e delimitados pela Baixa dos Sapateiros.

A ideia é produzir pelo menos uma peça criativa para cada localidade; um segundo documentário já está em andamento para o próximo semestre. Além disso, os grupos contam com 30 pessoas e pretendem mapear um cluster criativo, definição para uma quantidade de empresas do setor criativo – como tecnologia, design, arquitetura, moda, literatura, gastronomia e artes visuais – numa mesma região.

© Foto: Reprodução Forrobodó: Uma história do São João na Bahia

Além do próprio São João, há um personagem central em “Forrobodó”, seu Vavá, falecido morador do bairro e desde os anos 1980 organizador a festa.  Algumas imagens do final daquela década junto com as falas de pessoas que ajudavam a promover as homenagens aos santos católicos Santo Antônio, São João e São Pedro, em tom saudosista, sugerem que o esforço de seu Vavá não foi duradouro. Ele morreu há dois anos, mas o São João da Saúde só foi bem-sucedido nos moldes de antigamente até o fim da  década de 1990.

Na visão do professor José Cláudio Rocha, o bairro tem uma vida cultural ativa e com gastronomia, música em vários estabelecimentos. “Para que o São João retome seus melhores dias é preciso que novas lideranças se formem e assumam o processo de organização da festa”, acredita. No passado, até 400 pessoas irrompiam do Pelô e de outros bairros vizinhos para colorir as noites acesas pelas fogueiras.

© Foto: Reprodução Forrobodó: Uma história do São João na Bahia

O filme também evoca alguns rituais juninos em seus 26min17s. Há destaque para o hábito de enfeitar as ruas com bandeirolas e palha, soltar balão, colocar o licor na calçada e atrair vizinhos com comidas típicas; pintar calçadas e tocar sanfona dentro das moradias. Além de menção a brincadeiras como o pau de sebo, quebra-pote e quadrilha, o trabalho recupera o significado da palavra forró.

O próprio título do documentário, que ainda não está disponível ao público, foi inspirado na definição mais aceita do termo, diz Rocha. Forrobodó, ele conta, significa diversão, algazarra e remete aos anos 1900, conforme a obra Falares Africanos na Bahia – considerada a mais completa sobre as influências das línguas africanas no português do Brasil – da pesquisadora baiana Yeda Pessoa de Castro.

O documentário já está sendo distribuído em DVD e será hospedado em um site, após exibição na TV Educativa do estado. Segundo o coordenador do projeto, houve recurso captado por meio do Edital Programa de Educação e Trabalho da Superintendência de Educação Profissional do estado, em parceria com a UNEB.

Para saber como ter acesso ao DVD, basta entrar em contato com os organizadores através do email: cluster.criativos@gmail.com .

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