Os baianos em Sakaide

Esforço por transferência de tecnologia de ponta levou cinco turmas de operários e engenheiros baianos a estaleiro da Kawasaki no Japão

9 de maio de 2015
© Foto: Site Navegando JuntosPrimeira turma de 40 engenheiros e técnicos que passou cerca de quatro meses na cidade de Sakaide, no Japão, recebendo treinamento em construção naval.

Primeira turma de 40 engenheiros e técnicos que passou cerca de quatro meses em Sakaide, no Japão.

Um belo processo de absorção de tecnologia de ponta em construção naval, adotado pela Enseada Indústria Naval até alguns meses, está em risco de ter seus resultados completamente dissipados em decorrência da produção de uma crise que afeta duramente pelo menos cinco estaleiros brasileiros que têm contratos com a empresa Sete Brasil – entre eles, o estaleiro Paraguaçu, no Recôncavo baiano.

A propósito, ontem, sexta feira, de acordo com notícia do Estado de S. Paulo, o presidente da Sete Brasil, Luiz Eduardo Guimarães Carneiro, disse na CPI da Petrobras que “os escritórios de auditoria contratados para averiguar todos os contratos da companhia logo que aconteceu a Operação Lava Jato concluíram que não foi encontrada nenhuma irregularidade”. E informou que o balanço da empresa foi aprovado pela PricewaterhouseCoopers (PwC).

Segundo ele, “a Sete é uma coisa real e está acontecendo, gerando milhares de empregos”. Quando as investigações começaram, a empresa estava pronta para assinar contratos de financiamento com o BNDES e os valores seriam superiores aos recursos do banco à Usina de Belo Monte. Até o momento, nenhum aporte financeiro à Sete foi feito pelo banco público (ver aqui). Hoje, sábado, o Estadão fala da possibilidade de perda total dos R$8,3 bilhões aportados pelos bancos e fundos de pensão sócios da Sete à empresa. Até junho a Sete deve apresentar um plano de reestruturação, incluindo a forma como vai se financiar no longo prazo.

Carneiro disse que a companhia busca sua reestruturação para dar seguimento aos projetos. Ele, no entanto, admitiu que, desde novembro, a empresa não paga os estaleiros. Aos deputados, o executivo disse que ao assumir a Sete Brasil, há um ano, não imaginava que teria de lidar com uma investigação policial da envergadura da Lava Jato.

Registre-se logo que transferência de tecnologia de verdade não tem nada a ver com a compra de uma caixa preta a um produtor que representa o estado da arte em determinado campo. Ela não é tampouco a aquisição de um misterioso pacote fechado de ferramentas para avançar em um mister específico, que será enfiado goela abaixo de trabalhadores sem nenhuma vivência, nenhuma intimidade, nenhuma aproximação com os passos gradativos que levaram àquela dada concepção tecnológica que se pretende adotar.

Transferência de tecnologia para valer pressupõe passagem de informação cérebro a cérebro, interação de pessoas, cooperação, aprendizagem. Tem a dimensão de um processo educativo. Percorre, portanto, uma via capaz de conduzir um grupo à transformação na abordagem de um problema técnico por influência de outro grupo que nela detém expertise. E não há aqui a rigor nenhuma novidade, a boa literatura sobre o assunto é pródiga a esse respeito, incluindo o clássico Diffusion of innovations, de Everett M. Rogers, cuja primeira edição data de 1962.

Mas antes, de contar detalhes de um valioso processo de absorção de tecnologia ao qual se tem prestado menos atenção do que parece justo, vale lembrar, primeiro, que a Enseada Indústria Naval foi criada em 2012 para atender à demanda que se previa da exploração do petróleo na camada do pré-sal. Investiram no projeto a empresa brasileira Enseada Indústria Naval Participações S/A, formada por três construtoras, com 70% das ações, e a japonesa Kawasaki, com 30%. A estrutura societária da empresa brasileira tem, assim, a Odebrecht, com 50% das ações, a OAS e a UTC, cada uma com 25%..

Antes da Operação Lava Jato, esses nomes identificavam tão somente grandes empreiteiras brasileiras. Depois, a OAS e a UTC, no rastro das delações premiadas, foram insistente e escandalosamente envolvidas, inclusive com a prisão prolongada de alguns de seus dirigentes, nas acusações de pagamentos de propinas à Petrobras e à  Sete Brasil, empresa criada justamente para gerenciar a construção de sondas a serem usadas pela Petrobras na exploração do pré-sal. A Odebrecht ficou mais preservada, mas o empreendimento dos três e mais a Kavasaki começou a ser tremendamente afetado a partir de novembro de 2014.

O Estaleiro Paraguaçu, mal tinha chegado a uma fase fervilhante e já começou a a vislumbrar o rosto feio da crise. A partir de novembro, a Sete Brasil, que contratou no total 28 sondas por US$25 bilhões, sem contar com a liberação do financiamento de longo prazo que teria do BNDES, suspendeu os pagamentos acertados com todos os estaleiros, inclusive a Enseada Indústria Naval. Em dezembro começaram as primeiras demissões nesta empresa, que hoje já ultrapassam a casa dos 5 mil trabalhadores.

© Foto: Mariluce MouraMario Moura, 36 anos, gerente industrial da Enseada.

Mário Moura, 36 anos, gerente industrial da Enseada, com o Goliath ao fundo.

Voltemos, no entanto, à transferência de tecnologia, dando a palavra sobretudo ao gerente industrial da Enseada Indústria Naval, o engenheiro Mário Moura. Ele é capaz de discorrer com incrível senso didático sobre as várias experiências de retomada da indústria naval brasileira, e de lembrar, por exemplo, do papel do estaleiro de São Roque do Paraguaçu (em frente ao Estaleiro Paraguaçu, separado dele apenas por algumas centenas de metros do rio), de meados dos anos 1970 até meados dos 1980 (para saber sobre o desmonte da indústria naval que então tem lugar, ver, por exemplo, Scielo.

Ele fala também com entusiasmo da experiência de construção das plataformas P59 e P60, durante o primeiro governo Lula, que já mostrava que a Odebrecht precisaria adiante de um grande parceiro de tecnologia se quisesse avançar decisivamente em sua expertise de construtor naval.

“Quando então a Enseada foi lançada, já era claro que seu estaleiro teria que ter a estrutura mais moderna e mais potente existente para que ele pudesse concorrer com outros estaleiros brasileiros e internacionais”, conta Moura, 36 anos, há 10 na Odebrecht. “Já havia parceiro holandês para o projeto, mas era preciso absorver novas tecnologias fabris propriamente, know-how industrial, que tornassem nossa produtividade homem/hora incomparável”, prossegue.

Como dito ao jornalista Domingos Zaparolli, em outubro passado, por Humberto Rangel, diretor institucional da Enseada, os sócios concluíram que deveriam atrair um parceiro tecnológico capaz de acelerar o processo de aprendizado necessário a todo novo empreendimento.

A busca, depois de uma curta tentativa de parceria com uma empresa coreana, terminou levando à Kawasaki (Kawasaki Heavy Industries Ltd), um grande parceiro japonês, tanto em termos tecnológicos quanto  negociais, atuando no setor naval desde 1878, anunciado por Fernando Barbosa, presidente da Enseada, em 4 de maio de 2012, no gabinete do então governador Jacques Wagner.

“Nos primeiros meses, os especialistas japoneses vieram para a Bahia para fazer conjuntamente com os brasileiros todo o planejamento do processo de transferência de tecnologia”, diz Moura. E tratava-se de estabelecer como se daria isso, “de modo que as coisas evoluíssem numa interface do fabril com o gerencial. Os métodos construtivos no aço tinham que ser aprendidos em paralelo a organização do processo, a questões de TI, de engenharia, etc.”.

A partir de meados de 2013, começou a ida de turmas de brasileiros para estadas em torno de 3 meses no estaleiro da Kawasaki na cidade de Sakaide, província de Kagawa.

“Foram 5 turmas, a última voltou em janeiro. Dessas, 75 pessoas eram do pátio industrial mesmo, pessoal técnico e 25 eram engenheiros”, conta Moura, intercalando essas informações com outras sobre processos técnicos do estaleiro. “A oficina 6 é o lugar onde mais se investiu em infraestrutura e  treinamento. Aqui se concentra todo um saber de preparação dos bloquinhos e, depois,  de inserção neles de calhas, tubulação, suporte de iluminação, antes que sigam para jateamento e pintura e, em seguida, para a composição dos megablocos do casco do navio, ainda fora do dique”.

Moura exalta as qualidades do dique seco do estaleiro, do super guindaste Goliath, cujas peças vieram da Finlândia, e exigiu um enorme trabalho de montagem até ser posto de pé em fevereiro último, peça chave na movimentação dos megablocos, e assim por diante. Seu olhar transita do know-how japonês na construção dos cascos e de sua eficiente cultura produtiva, para a expertise brasileira em metalurgia e em montagem eletromecância. “Somos capazes aqui de soldar qualquer tipo de aço e temos uma parceria de cursos de soldadores com o Senai-Cimatec que é excelente.

Mario Moura observa que as obras civis que ainda faltam no estaleiro (como os 50%  da construção do dique seco), quando retomadas, demorarão a recuperar o ritmo que tinham até dezembro. Mas ele não quer nem pensar na hipótese de não haver uma retomada.

© Foto: Mariluce MouraJailson Ribeiro, 34 anos, especialista em máquina de cortes.

Jailson Ribeiro, 34 anos, especialista em máquina de cortes, foi um dos enviados ao Japão.

Aliás, é esse sentimento de recusa a jogar a toalha que também manifesta Jailson Ribeiro, 34 anos, baiano de Salinas, um especialista da máquina de corte que se mostra encantado com a experiência dos três meses que passou no estaleiro da Kawasaki no Japão. “A gente mantém a esperança de que vai retomar a atividade. Tive uma experiência única, fui contemplado com algo cuja possibilidade era uma em uma milhão na vida da gente, e não posso achar que isso vai se perder”, ele diz.

Jailson concluiu o ensino médio, formou-se torneiro mecânico pelo Senai e conta que antes da Enseada teve um treinamento muito bom no estaleiro de São Roque. “Mas o Paraguaçu mudou minha vida. E no Japão, me impressionou muito o tratamento às pessoas, também a forma de fazer o serviço, a possibilidade de o trabalho fluir de forma simples e eficiente, tudo isso”. E ele se diz pronto para outra experiência de aprendizado fora do Brasil.

 

 

 

 

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