Prontos para um salto

Excelência científica em energia e saúde inclui esses setores entre os mais apropriados para receber investimentos destinados a inovação

29 de maio de 2015

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À pergunta sobre onde se pensar inovação na Bahia, uma resposta assertiva pode ser ,“nos setores energético e de saúde”. Porque o estado não somente é beneficiado por características naturais, como seus ventos e vegetação, em relação ao primeiro caso, mas ainda dispõe de capacidade científica de excelência em ambas as áreas em suas universidades e institutos de pesquisa, de acordo com os diagnósticos do engenheiro Caiuby Alves da Costa e da economista Érika Aragão, apresentados na manhã da quinta feira, 28, durante o simpósio “Propensão a inovar do empresariado baiano”, promovido pela Academia de Ciências da Bahia (ACB), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb) e patrocínio da Ferbasa Companhia de Ferros Liga da Bahia.

Entretanto, para pensar qualquer investimento e seus possíveis impactos positivos ou negativos, é necessário conhecer em diferentes perspectivas o território onde se pretende atuar, consideraram os palestrantes, ele professor da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ela pesquisadora do Instituto de Saúde Coletiva (ISC) da mesma universidade.

Para cada tipo de energia, a Bahia guarda um potencial que pode ser explorado. No caso da energia solar, por exemplo, as altas taxas de radiação solar que o Estado possui permitem o funcionamento das usinas geradoras em todo seu território, especialmente na região de Bom de Jesus da Lapa, além da produção de aquecedores solares d’água, com materiais recicláveis ou de baixo custo. Já no caso da energia eólica, os ventos com velocidade entre cinco e oito metros por segundo possibilitam que multinacionais possam produzir grandes geradores para os parques eólicos baianos de Caetité, Igaporã e Guanambi.

Caiuby afirma, no entanto, que no caso da energia eólica é preciso inovar com foco nas características do local: “Nós podemos construir aerogeradores de pequeno e médio porte, que atendam até 500W, mas é necessário estudar a construção deles de modo que sejam adequados aos ventos da Bahia, como os grandes, que são ajustáveis. Os que existem são projetados para trabalhar com ventos em velocidade superior aos do Estado e precisam de reformulação”, explica. De acordo com o pesquisador, os estudos para essa produção estão sendo conduzidos pelo National Renewable  Energy Laboratories (NREL), nos Estados Unidos (EUA). Dispondo dessa nova formulação  aerodinâmica, que poderá ser desenvolvida pela universidade, as empresas da Bahia poderão construir pequenos e médios geradores eficientes.

O desafio que ainda se apresenta neste contexto é a relação entre indústria e universidade, até então não muito profunda e por vezes incipiente. Caiuby explica que há dificuldades de temporização e de objetivos entre as universidades e as empresas, e são necessários ajustes de comportamento e linguagens: “O resultado para universidade é a publicação.  A  empresa  objetiva, antes de tudo, assegurar sua existência  e para isso tem que atender de modo eficaz as demandas de mercado. Ambas , universidade e empresa,  precisam  ampliar suas linguagens”, diz.

A questão levantada para contínua discussão no campo são as medidas para trazer mais centros de desenvolvimento à Bahia, e o que está na pauta de ações para formação de pessoal capacitado, apto a tornar a indústria baiana fortalecida no desenvolvimento de produtos.

Saúde pública e inovação - A área de saúde já é um potencial campo para inovar por estar na agenda global de desenvolvimento e ter importante participação no orçamento dos países. Dados publicados em 2014 pelo Banco Mundial demonstram que a Suíça, em 2011, foi o país que teve maior gasto per capita em saúde, totalizando cerca de US$9 mil. Neste mesmo ano, o Brasil ficou na 39ª posição, com um gasto per capita de cerca de US$ 1mil. Um conjunto de fatores é responsável por impulsionar a inovação nesta área dentro de um país, a exemplo de indústria e lucro e políticas públicas. Mas para compreender os caminhos de novas iniciativas no campo, tudo depende de como o país o encara: como um direito ou como iniciativa privada.

A pressão para inovar na área de saúde está na aquisição de novas tecnologias. De acordo com Érika Aragão, esta é uma característica do campo, e quanto mais aumenta a renda per capita, maiores são os gastos com saúde. Mas isso não necessariamente faz melhorar o ramo. No caso brasileiro, a interpretação é dúbia: “Como um dos países de renda média, o Brasil gasta muito, mas em comparação com países industrializados como os Estados Unidos, ainda gasta pouco”, afirma.

Para os países como o Brasil, que colocam em sua constituição a saúde como um direito de todos, o grande desafio é incorporar tecnologias, como novos medicamentos e equipamentos aos sistemas de saúde. Isso se configura como um princípio, pois pela legislação, a assistência igualitária deve ser dada a todo cidadão. O que acontece é que o processo é cada vez mais caro.

Um exemplo é que o gasto com a compra de biofármacos em empresas estrangeiras para doenças como o câncer, asma e artrite reumatoide, representa 5% do valor total usado na aquisição de medicamentos pelo país. O montante utilizado para compra de medicamentos pelo Ministério da Saúde está em torno de 14 bilhões de reais.

Para Érika, este é o ponto chave que surge como oportunidade para o Brasil e para a Bahia. Embora existam laboratórios públicos de referência na produção de biofármacos no Brasil, é necessário alargar mais o campo. No caso do câncer, apenas uma empresa estrangeira, a Roche, abarca mais de 50% do mercado de vendas e este quadro precisa ser modificado: “A oportunidade está na articulação entre o setor público e o setor privado para dar conta das inovações tecnológicas que precisam ser incorporadas à saúde de acordo com as demandas da população”, explica.

A produção interna destes biofármacos para o Brasil é importante, mas requer transferência de tecnologia. O Brasil está munido de capacidade científica, instituições de referência em pesquisa e financiamento para tal, mas as empresas aptas a produzir os produtos ainda são muito poucas. O resultado é uma dificuldade cada vez maior para incorporação de inovações tecnológicas dos biofármacos, e uma produção pequena frente à necessidade populacional. A discussão deve persistir, pois é urgente o seu papel social: “A lógica econômica só tem valor se for articulada com a lógica da saúde coletiva”, concluiu Érika.

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