Conhecer para inovar e crescer

Parceria entre empresas e centros de pesquisas é fundamental para dotar a Bahia de maturidade para inovar

3 de junho de 2015
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Parceria entre empresas e centros de produção de ciência e tecnologia, como as universidades e os institutos de pesquisas, é fundamental para que um produto seja lançado com sucesso no mercado

A falta de uma cultura empreendedora voltada para inovação e tecnologia coloca a Bahia, hoje, numa situação complicada. “Nossas empresas devem investir mais em inovação, sem o que será difícil manter o nível de expansão que precisamos. Apenas com recursos públicos, a sustentabilidade do sistema de inovação está em risco”, disse o físico Marcelo Moret em palestra no simpósio “Propensão a Inovar do Empresariado Baiano”, promovido pela Academia de Ciências da Bahia (ACB), de 27 a 29 de maio. analisou.

Segundo ele, a parceria entre empresas e centros de produção de ciência e tecnologia, como as universidades e os institutos de pesquisas, é fundamental para que um produto seja lançado com sucesso no mercado, porque “o primeiro grau na escala de maturidade da inovação está no conhecimento”.

Professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e coordenador do Programa de Pós-Graduação do Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia do Senai (Cimatec), Moret abordou no evento da ACB o sistema de inovação na Bahia, cujo fortalecimento, em sua visão, depende também da capacidade de articulação do governo estadual e federal com diversas instituições. Entre elas, destacou a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o Parque Tecnológico da Bahia, agências de fomento nacionais e estaduais, bancos públicos e privados.

A formação de recursos humanos voltados para a capacidade de inovação foi alinhada por Moret entre as condições fundamentais para reposicionar a Bahia no cenário nacional. “A empresa precisa do especialista para desenvolver seu produto. Somente o pesquisador terá visão crítica, formação necessária e capacidade para fazer sínteses até conseguir chegar a uma inovação”, disse.

Em função dessa necessidade, ele considerou positiva a expansão considerável do sistema de pós-graduação brasileiro ao longo dos últimos 12 anos, ao formar contingentes de mestres e doutores em 3.613 programas. A Bahia particularmente experimentou um aumento significativo na distribuição quantitativa dos cursos. “De 2002 a 2014, os mestrados passaram de 17 para 72 cursos e, os doutorados, de 42 para 166 cursos”.
Moret chamou a atenção também para a distribuição espacial da pós-graduação no interior do estado. “É importante salientar que, se em 2000 contávamos somente com um curso fora da capital baiana, agora, temos 40% dos mestrados e 20% dos doutorado espalhados pelas universidades e centros de pesquisa no interior”, disse.

Apoiada por fomento e a avaliação, a pós-graduação cresceu e contribuiu para alargar a produção científica em números. “Rankings internacionais sobre produção científica indexada, como as bases Scopus e ISI, espelham o investimento brasileiro na área: em 2008, o Brasil aparece nas 13ª e 14ª posições quando comparado a outros países”, destacou.
Mas a área de tecnologia e inovação não contou com a mesma injeção de recursos em idêntico período e isso, junto com a falta de uma cultura empreendedora voltada para inovação, põe a Bahia numa situação complicada.

Francisco Teixeira, professor da Escola de Administração da UFBA, abordou a desarticulação histórica entre os agentes do sistema local de inovação na Bahia

Francisco Teixeira, professor da Escola de Administração da UFBA, abordou a desarticulação histórica entre os agentes do sistema local de inovação na Bahia

Avanços e retrocessos – Esse baixo desempenho inovador das empresas baianas foi esmiuçado na palestra do professor Francisco Lima Teixeira, da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Segundo ele, variáveis como a instabilidade das instituições políticas e administrativas ligadas à ciência e tecnologia, uma infraestrutura industrial especializada em bens intermediário de baixo valor agregado, a baixa produção e o desempenho pouco qualificado da pesquisa nos programas de pós-graduação das universidades e centros de pesquisa, além de investimentos pouco satisfatórios com relação ao PIB do estado, podem ajudar a desvendar essa realidade.

Teixeira também abordou a desarticulação histórica entre os agentes do sistema local de inovação na Bahia, mostrando numa linha do tempo uma série de avanços e retrocessos na política de ciência e tecnologia do estado. Lembrou que o estado teve uma fundação pioneira no país, a Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia (Fundec), criada em 1950 e extinta em 1974. “Muitos pensam que a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo-Fapesp (criada em 1962) foi a primeira agência de fomento criada no Brasil, mas estão enganados. A falta de divulgação da Bahia sobre seus feitos em ciência e tecnologia é que leva a não se saber que esse pioneiros foi da Fundec”, informou.

A reversão desse atraso histórico, segundo Francisco Teixeira, parece estar nos investimentos de longo prazo, principalmente, em infraestrutura e numa política clara e estável. “Inovação e aprendizado geram vantagens competitivas que geram emprego e renda qualificados. Alguns exemplos nos dão esperança de que é possível inovar na Bahia”, concluiu.

Gênese e evolução - No encerramento do simpósio sobre a propensão a inovar do empresariado baiano, seu principal organizador, professor Amilcar Baiardi, da Universidade Católica de Salvador (UCSal), focou a gênese histórica e a evolução da mentalidade empresarial na Bahia, desde o complexo açucareiro escravista até a contemporaneidade. Mencionou que malgrado a escravidão, tanto os senhores como os escravos promoveram inovações no processamento do açúcar. Baiardi observou que mais adiante, “com o complexo têxtil, o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico, a indústria automotiva e as experiências bem sucedidas do agronegócio no Extremo Oeste, Juazeiro e Extremo Sul, vem se formando uma mentalidade que cogita investir em pesquisa e desenvolvimento”.

Baiardi, um dos membros mais ativos da Academia de Ciências da Bahia, avalia que o Simpósio Propensão a Inovar do Empresariado Baiano foi um sucesso porque, pela primeira vez no estado, ensejou o diálogo de empresários com pesquisadores. Com isso, já se cogita outro evento para analisar casos concretos de cooperação entre esses dois campos.

 

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