A Bahia tem propensão a inovar?

Especialistas reunidos em simpósio apresentaram diagnósticos agudos e caminhos possíveis para autoridades, pesquisadores e empresários do Estado

27 de julho de 2015 -
© Zig Koch/SECTI/SEINFRA/CIMATEC - SENAI-BAComplexo Eólico Desenvix Bahia

Complexo Eólico Desenvix Bahia, em Brotas de Macaúbas: o setor de energia é um dos que criam o oportunidades de inovação no estado

Num momento em que a economia brasileira vive uma recessão e a necessidade de inovar se reafirma como essencial para superar a crise, o simpósio Propensão a Inovar do Empresariado Baiano, realizado entre os dias 27 e 29 de maio, apresentou diagnósticos agudos e caminhos possíveis para pesquisadores, gestores e empresários do estado presentes no Salão Lazareto da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), em Salvador. O evento, promovido pela Academia de Ciências da Bahia (ACB), com apoio da Fapesb e patrocínio da Ferbasa Companhia de Ferro Ligas da Bahia, reuniu mais de uma dezena de especialistas numa programação que abordou temas como as origens e as limitações do sistema de inovação da Bahia, as oportunidades de inovação no estado em setores como energia e saúde e a questão da propriedade intelectual, entre outros.
*Participaram da cobertura Mariana Alcântara, Mariana Sebastião e Nádia Conceição.

© Vaner CasaesPolo Industrial de Camaçari

Polo Industrial de Camaçari: responsável por uma mudança de mentalidade sobre inovação na economia da Bahia, com a geração de produtos competitivos e novos
negócios

Amilcar Baiardi, professor da Universidade Católica de Salvador (UCSal) e principal organizador do simpósio, abordou a evolução da mentalidade empresarial na Bahia, desde o complexo açucareiro escravista até a contemporaneidade. Mencionou que, apesar da escravidão, tanto os senhores como os escravos promoveram inovações no processamento do açúcar. “Com o complexo têxtil, o Centro Industrial de Aratu, o Polo Petroquímico, a indústria automotiva e as experiências bem-sucedidas do agronegócio no extremo oeste, Juazeiro e extremo sul, vem se formando uma mentalidade que cogita investir em pesquisa e desenvolvimento”, afirmou.

O advento do Polo Petroquímico para a Bahia trouxe de fato uma mudança de mentalidade, avaliou José Adeodato de Souza Neto, membro do Conselho de Inovação da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), com a geração de produtos mais competitivos e a criação de novos negócios. Mas a dificuldade em inovar ainda permeia o setor industrial. “As indústrias instaladas na Bahia em geral são tradicionais, unidades de transformação que inovam muito pouco e apenas no final da produção, na relação entre a fábrica e o cliente. Não é por ineficiência, é parte da regra do jogo estabelecido por essas empresas”, afirmou.

Adeodato, cujo currículo inclui a passagem pelos cargos de vice-presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), diretor-executivo do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT) e superintendente de inovação tecnológica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), repetiu um diagnóstico que permeou várias apresentações. Disse que o enfrentamento do problema envolve o aumento no investimento em educação, ciência e tecnologia. “É necessário aproveitar melhor a produtividade da Bahia e investir em educação. Sem investimento em educação, ciência e tecnologia não iremos a lugar nenhum”, ressaltou.

Inovação depende não só de investimentos, mas também de criatividade, disse o engenheiro Irundi Edelweiss, membro da Academia de Ciências da Bahia (ACB) e da Fieb. Ele destacou que não é trivial reunir “cabeças criativas”, capazes de movimentar o cenário empresarial. “Precisamos buscar as cabeças inteligentes, que não necessariamente se encontram nas grandes corporações, mas estão por aí, perdidas pelo interior, necessitando de estímulos e de uma formação voltada para a criatividade”, disse. Para Edelweiss, a Bahia tem que andar mais rápido, ser mais criativa, e ter coragem para implantar as reformas necessárias, a fim de forjar uma universidade que estimule posturas inovadoras e cobre atitudes proativas dos estudantes em relação ao desenvolvimento do estado e do país. Tais reformas, segundo ele, precisam ser pensadas a partir da educação básica, porque um ensino deficiente nessa etapa vai alimentar uma universidade também deficiente que, por sua vez, deixará de estimular uma cultura de inovação na indústria.

O engenheiro destacou que a indústria e a tecnologia na Bahia são marcadas por três momentos importantes: o primeiro, o da criação do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped), em 1966, cujo objetivo era desenvolver tecnologias inovadoras e prestar serviços tecnológicos; o segundo, o da implantação do primeiro mestrado das engenharias da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em 1987; e o terceiro, o momento atual, que sustenta uma perspectiva de fortalecer a inovação na Bahia, centrada na estrutura do Senai-Cimatec (Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia), que presta serviços especializados e promove a pesquisa aplicada. A reflexão sobre questões de inovação e tecnologia, segundo ele, ainda é “insignificante na Bahia e no Brasil”.

O baixo desempenho inovador das empresas baianas foi esmiuçado na palestra do professor Francisco Lima Teixeira, da Escola de Administração da UFBA. Segundo ele, variáveis como a instabilidade das instituições ligadas à ciência e tecnologia, uma infraestrutura industrial especializada em bens de baixo valor agregado e o desempenho ainda pouco qualificado de universidades e centros de pesquisa, além de investimentos pouco satisfatórios no estado, ajudam a compreender essa realidade. Teixeira abordou a desarticulação histórica entre os agentes do sistema local de inovação na Bahia. Lembrou que o estado teve uma fundação pioneira no país, a Fundação para o Desenvolvimento da Ciência na Bahia (Fundec), criada em 1950 e extinta em 1974. A reversão desse atraso histórico, segundo Francisco Teixeira, parece estar nos investimentos de longo prazo, principalmente em infraestrutura e numa política estável.

Para o físico Marcelo Moret, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e coordenador do Programa de Pós-Graduação do Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia do Senai-Cimatec, a formação de recursos humanos com capacidade de inovação é condição fundamental para reposicionar a Bahia no cenário nacional. Em função dessa necessidade, ele considerou positiva a expansão do sistema de pós-graduação brasileiro ao longo dos últimos 12 anos, ao formar contingentes de mestres e doutores em 3.613 programas. A Bahia teve um aumento significativo na distribuição quantitativa dos cursos. “De 2002 a 2014, os mestrados passaram de 17 para 72 cursos e os doutorados, de 42 para 166 cursos”, disse Moret. “Se em 2000 contávamos somente com um curso fora da capital baiana, agora temos 40% dos mestrados e 20% dos doutorados espalhados pelas universidades e centros de pesquisa no interior”, disse.

A economista Ana Célia Castro, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), usou a China como exemplo de reformulação em políticas públicas que vem mudando o panorama em áreas como educação, ciência e tecnologia e indústria. Segundo ela, que é membro do Instituto de Estudos Brasil-China, o financiamento na China está acontecendo de maneira mais rápida do que no Brasil. “Na China, a inovação é o ponto de partida. Os empreendedores chegam com o produto no sistema bancário em busca de financiamento. Já no Brasil, a inovação é o ponto de chegada e passa por agências de fomento governamentais”, informou. Outro ponto-chave para avançar, segundo a economista, diz respeito à cultura nos escritórios de patentes no Brasil. Para ela, a burocracia impede que os pesquisadores brasileiros consigam registrar seus produtos e partir para a fase de comercialização. A economista também lamentou a falta de uma divulgação efetiva da ciência brasileira, que mostre de fato onde o Brasil está contribuindo. “É preciso fazer um esforço no campo da divulgação de nossos feitos para sairmos da situação do desânimo que norteia a sociedade brasileira neste atual momento de crise econômica”, completou.

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