Com a mão no leme

Estaleiro em Maragojipe se orienta pela produtividade para dar vida nova à indústria naval baiana e se lançar no mercado global

27 de julho de 2015 -
O estaleiro da Enseada

O estaleiro da Enseada em tempos ainda produtivos, em outubro de 2014. Em primeiro plano, à direita, a montagem do imenso guindaste Goliath, com 150 metros de altura

Em julho de 2016 serão concluídos os trabalhos da Enseada Indústria Naval no Ondina, o primeiro de uma série de seis navios-sonda baianos que perfurarão poços de petróleo na camada do pré-sal. A encomenda, no valor de US$ 4,8 bilhões, foi realizada pela Sete Brasil, empresa que desde 2010 já contratou cinco estaleiros brasileiros para construir 29 equipamentos de perfuração de óleo e gás em águas ultraprofundas, injetando us$ 22 bilhões na indústria naval do país. Os desafios na Enseada até lá são muitos. Ao mesmo tempo que constrói Ondina, a nova companhia naval baiana põe de pé o estaleiro Paraguaçu e revitaliza o estaleiro São Roque, as duas unidades industriais responsáveis por entregar até 2020 os seis navios-sonda. Em paralelo, a Enseada seleciona e qualifica mão de obra e fornecedores locais e cuida de melhorar as condições socioambientais das cidades do Recôncavo Baiano ao entorno do empreendimento – Maragojipe, Saubara e Salinas da Margarida.

A empresa ainda tem que lidar com uma conjuntura econômica e política adversa gerada por três fatores distintos. O primeiro é global. O mercado de petróleo passa por um ajuste, com redução significativa de preços devido a um aumento simultâneo da capacidade de produção e redução do consumo. No Brasil, o governo federal já sinalizou que 2015 e 2016 serão anos de ajuste fiscal, o que deve encarecer e reduzir os recursos para investimentos. O terceiro fator são as incertezas geradas pela operação da Polícia Federal batizada de Lava-Jato, na qual está sendo investigada a lisura dos contratos realizados entre a Petrobras e seus fornecedores, entre eles a Sete Brasil. Em dezembro, esse cenário adverso levou a Enseada a rever seu planejamento das obras de construção do Paraguaçu, que já está 80% concluído, o que levou a uma dispensa de 470 – total que pode chegar a mil – dos quase 3.200 trabalhadores da construção.

Trabalhador no estaleiroO cronograma de produção industrial dos navios, tarefa na qual já se dedicam mil operários, foi mantido. Mario Moura, gerente industrial da companhia, diz que os trabalhos de cada etapa produtiva dos seis navios-sonda que serão construídos nos próximos anos já possuem data e até mesmo hora em que serão realizados. A precisão é trabalhada internamente como um símbolo da eficiência com a qual a Enseada pretende ser identificada, e pode vir a ser fator decisivo para a companhia, em longo prazo, se lançar na disputa por contratos internacionais no competitivo mercado naval global.

Produtividade e competitividade são desafios colocados a todos os estaleiros brasileiros que surgiram nos últimos 10 anos para atender às encomendas da Petrobras. O Sindicato Nacional da Indústria de Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval) calcula que os pedidos em carteira até 2020 somam 381 embarcações, entre petroleiros, plataformas, sondas, submarinos e navios de apoio.

Atender essa demanda estimulou investimentos em novos estaleiros em vários estados do país e eles já ocupam diretamente uma força de trabalho na casa de 80 mil pessoas. Uma marca importante para uma indústria que nos anos 1990 não empregava nem dois mil trabalhadores, apesar de nos anos 1970 o país ter figurado entre os maiores produtores navais do mundo.

enseada-12Os anos de inatividade resultaram em falta de mão de obra qualificada e pouca expertise produtiva. Estimativa da Sociedade Brasileira de Engenharia Naval (Sobena) aponta que a produtividade nos estaleiros brasileiros chega a ser quatro vezes inferior a apresentada por concorrentes japoneses e coreanos. Essa realidade ficou evidente nos primeiros navios produzidos nessa nova fase da indústria naval. Alguns foram entregues com meses de atraso, sendo que o petroleiro João Candido, produzido no Estaleiro Atlântico Sul (EAS), só entrou em operação 21 meses depois do programado e após a correção em 18 mil dos 21 mil metros de solda realizados.

Os problemas enfrentados pelos concorrentes serviram de alerta para os três sócios originais da Enseada, as companhias baianas Odebrecht, OAS e UTC. Segundo Humberto Rangel, diretor institucional da Enseada, os sócios concluíram que deveriam atrair um parceiro tecnológico capaz de acelerar o processo de aprendizado necessário a todo novo empreendimento. A escolhida foi a japonesa Kawasaki, um grupo industrial com ampla atuação no segmento de transportes e ativa no setor naval desde 1878. A parceria foi selada com as companhias baianas detendo 70% do empreendimento e a Kawasaki 30%. “Foi um casamento perfeito entre a experiência japonesa em construir cascos de navios com a brasileira em montagem eletromecânica de equipamentos offshore de exploração de petróleo”, diz Mario Moura. A Kawasaki, diz o gerente industrial, tem sido determinante não apenas para o desenvolvimento tecnológico, mas também para a formação da cultura produtiva da Enseada. Os japoneses foram decisivos na escolha de equipamentos de última geração e no layout da unidade Paraguaçu. “Teremos um dos estaleiros mais modernos do mundo”, diz Moura.

Cerca de 80% das obras de construção do novo estaleiro estavam prontas, quando foram paralisadas no fim de 2014. Ao fundo, à esquerda, o estaleiro São Roque

Cerca de 80% das obras de construção do novo estaleiro estavam prontas, quando foram paralisadas no fim de 2014. Ao fundo, à esquerda, o estaleiro São Roque

O estaleiro Paraguaçu é fruto de um investimento de R$ 2,7 bilhões, o maior da iniciativa privada na Bahia nos últimos 10 anos, está com 82% das obras efetuadas e a previsão de conclusão é dezembro de 2015. No auge da construção mobilizou sete mil trabalhadores e hoje ocupa por volta de 4,5 mil. Pronto, terá capacidade para processar 36 mil toneladas de aço por ano, trabalhando em turno único. Por ora, o Paraguaçu, mesmo em obras, divide com o São Roque a tarefa de construir os blocos topsize, os que vão sobre o casco, do Ondina. A logística de matérias-primas é realizada principalmente por via marítima, uma vez que o Paraguaçu conta com um terminal portuário. Sob inspiração japonesa, relata Moura, o estaleiro trabalha o mais próximo possível do sistema just in time, ou seja, com estoques baixos, reduzindo custos de capital de giro. Em chapas de aço, por exemplo, a unidade mantém estoques de 3 mil a 4 mil toneladas, bem abaixo da média em que trabalham outros estaleiros brasileiros.

As chapas já chegam com um tratamento anticorrosivo prévio, o prime, e cortadas em 100 diferentes tamanhos e formatos, reduzindo desperdícios. Como as siderúrgicas brasileiras ainda não estão acostumadas a trabalhar nesse sistema, as primeiras remessas de aço estão vindo da Espanha e do Japão. As chapas e perfis são estocados de modo a facilitar a movimentação para a chamada Oficina 6, de acordo com a etapa produtiva. É nesse local, um galpão de 75 mil metros, onde máquinas automatizadas farão os trabalhos de corte e solda, permitindo um processamento em um terço do tempo realizado por equipamentos tradicionais.

Os blocos que compõem o navio serão içados por um guindaste, o Goliath, que no momento encontra-se em fase de montagem. Ele terá 150 metros de altura, o equivalente a um prédio de 50 andares, será o mais alto do Brasil e acredita-se que poderá ser visto de Salvador.

Terá capacidade de 1.800 toneladas, um dos mais potentes do mundo. Os blocos içados seguem para um dique seco, que é fundamental para a montagem do casco do navio, ou diretamente para um dique molhado, permitindo a instalação de blocos topsize em cascos prontos. “É inovador. Isso nos permitirá trabalhar dois navios ao mesmo tempo”, diz Moura. A unidade Paraguaçu já está sendo preparada para contar no futuro com um segundo guindaste Goliath, dobrando a performance.

Visão do Såo Roque a partir do cais do estaleiro novo

Do cais do estaleiro novo, visão do Såo Roque, implantado nos anos 1970

A Kawasaki também tem influenciado a cultura de trabalho dos operários da Enseada. No acordo de parceria ficou estabelecido que operários brasileiros seriam treinados no estaleiro de Sakaide, no Japão, onde está sendo construído o casco do Ondina – o plano é que a partir do terceiro navio-sonda os cascos serão feitos no Brasil. Segundo Márcia Lapa, coordenadora de recursos humanos, 82 funcionários já passaram por treinamentos de quatro meses no Japão e até o fim de 2015 esse total chegará a 164. “A ideia é que esses trabalhadores, de volta ao Brasil, se tornem multiplicadores de uma cultura produtiva baseada em disciplina, organização e produtividade”, diz. Hervecy da Silva Rabelo, 44 anos, encarregado de pintura industrial, esteve em Sakaide entre maio e agosto do ano passado. “Foi a maior experiência da minha vida, mudou a forma que me relaciono com minha família e meu comportamento no trabalho”, afirma. Morador de Itaparica, Rabelo é casado, tem dois filhos e diz que aprendeu no Japão a ouvir, mesmo os mais jovens, e dar valor aos pequenos detalhes. Passou a ser mais disciplinado e organizado no trabalho e a cuidar da limpeza do ambiente a sua volta. E a valorizar a perfeição na execução de cada tarefa. “No Japão retrabalho é pecado. Para nós, na pintura, também”, diz.

Quando estiver a plena carga, a Enseada contará com quatro mil funcionários. Márcia Lapa diz que a meta é preencher as vagas principalmente com mão de obra do Recôncavo baiano, com o cuidado de incluir a força de trabalho feminina. “Elas são detalhistas, ótimas para tarefas de solda”, observa. A empresa trabalha com a estratégia de fomentar a criação de cursos locais para a adequação de trabalhadores em parceria com o Senai e o Pronatec. Em 2013, inclusive, sugeriu ao Pronatec a inclusão de cursos voltados à indústria naval, como caldeiraria naval, solda naval e mecânico montador. Como a escolaridade média nas cidades vizinhas ao empreendimento é baixa, a companhia também tem apoiado melhorias na qualidade de ensino da região, já pensando na incorporação das gerações futuras, e oferecido escolarização adulta para seus operários da construção.

A estimativa da Enseada é que a futura folha de pagamento de seus quatro mil funcionários injetará na região R$ 12 milhões mensais, gerando um impacto propulsor na economia das cidades vizinhas, antes dependentes da renda da pesca e do pequeno varejo local. Hoje já injeta por volta de R$ 3,5 milhões mensais. “Já é possível observar um novo dinamismo na região”, diz o gerente de relações institucionais, Márcio Cruz. “Estão sendo construídos hotéis, restaurantes, supermercados, padarias, farmácias, novos condomínios residenciais e até bancos”, diz. Antonio Ricardo Alban, presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), diz que o novo estaleiro, além de reafirmar a capacidade empresarial baiana, gera oportunidades para a criação de uma cadeia produtiva naval local, atraindo empresas fornecedoras para o estado, como também pela contratação de fornecedores locais. Em parceria com a Fieb, a Enseada desenvolve um programa de qualificação técnica, gerencial e financeira de empresas baianas para a atuação no setor. O momento é de triagem dessas empresas, mas algumas já foram selecionadas. É o caso da metalúrgica Cebece, de Simões Filho, que conta com 37 funcionários. O diretor comercial, Márcio Santana, diz que produziu componentes utilizados nas plataformas de petróleo P59 e P60, construídas no São Roque e depois compareceu a uma chamada da Fieb de apresentação da Enseada. No momento, atende encomendas da empresa para a produção de mastro do radar, suportes da lança do guindaste, torres de escada e plataformas dos tensionadores. “Estamos investindo e qualificando nossa produção. Nossa meta é produzir 560 toneladas por ano em estruturas navais”, afirma Santana. Márcio Cruz diz que a Enseada trabalhará com três grandes fornecedores globais. A norueguesa National Oilwell Varco (NOV), responsável pelo pacote de perfuração. A americana GE, que se encarregará das áreas de eletromecânica, automação e geração de energia, e a também americana Almaco, responsável pelos módulos de habitação.

Humberto Rangel, diretor institucional da Enseada

Humberto Rangel, diretor institucional da Enseada

O Ondina, por exemplo, terá capacidade de abrigar 180 empresas. Elas, diz Cruz, terão que atender índices progressivos de nacionalização de seus produtos, chegando a 65%. Paulo Roberto Guimarães, superintendente de desenvolvimento econômico da Secretaria de Indústria e Comércio da Bahia, avalia que essa necessidade é uma oportunidade para atrair investimentos para a região e relata que já existem dois projetos para a construção de condomínios empresariais no entorno do novo estaleiro: o Complexo 2 de Julho, de iniciativa de investidores privados em parceria com a prefeitura de Maragojipe, e outro de iniciativa do grupo ASK. “O governo, além de apoio institucional para a obtenção de licenças e infraestrutura de energia e água, ainda mantém uma política progressiva de incentivos fiscais para os novos empreendimentos no estado”, diz.

Além do contrato de US$ 4,8 bilhões com a Sete Brasil, a Enseada também possui em carteira um contrato de US$ 1,7 bilhão com a Petrobras para a conversão de quatro navios petroleiros nos cascos de quatro plataformas para a exploração de petróleo, as chamadas FPSO, trabalho que está sendo realizado no Estaleiro Inhaúma, no Rio de Janeiro.

Os planos para o futuro da unidade Paraguaçu já começam a ser esboçados. A exemplo de todos os outros estaleiros nacionais surgidos nos últimos 10 anos, a Enseada depende atualmente das encomendas de um único cliente, a Petrobras. É um cliente de porte, com um plano de encomendas na indústria naval de US$ 100 bilhões entre 2014 e 2018 e que, após esse período, já avalia a contratação de pelo menos mais 41 plataformas de petróleo. Mesmo assim, é um único cliente. Rangel diz que a meta da Enseada é diversificar e buscar contratos no exterior. “Acreditamos que seremos competitivos e teremos potencial principalmente para atender demandas na costa atlântica da África e no Golfo do México”, diz.

Obras do dique seco

Obras do dique seco: menos de 50% feitas


R$ 40 MILHÕES EM INVESTIMENTOS SOCIOAMBIENTAIS

O estaleiro Paraguaçu está localizado no município de Maragojipe, na confluência dos rios Baetantã e Paraguaçu na baía de Todos os Santos. A escolha da localização foi influenciada por uma série de critérios geográficos. Era necessário um terreno de grandes proporções e para isso foram adquiridas três fazendas inativas, que somam 1,6 milhão de metros quadrados. O estaleiro deveria estar em águas profundas e abrigadas e com facilidade de saída oceânica.

Caroline Azevedo, do estaleiro Paraguaçu

Caroline Azevedo, do estaleiro Paraguaçu: região de mangue preservada

O local escolhido, porém, apresenta uma rica e frágil biodiversidade e influencia toda uma região de pesca, atividade imprescindível para a sobrevivência de comunidades, muitas delas quilombolas, no entorno do empreendimento, fato que suscitou dúvidas e questionamentos das comunidades vizinhas. “De início houve uma forte oposição ao empreendimento”, diz a gerente de sustentabilidade, Caroline Azevedo. “Situação hoje superada.”

A virada se deu com a implantação de um conjunto de ações socioambientais que, diz Caroline, superam as meramente necessárias para a obtenção das licenças de funcionamento do empreendimento. Uma conta que já chegou a R$ 30 milhões e deve totalizar R$ 40 milhões, segundo a diretoria de relações institucionais da empresa.

O próprio layout do estaleiro foi pensado de forma a gerar o menor impacto possível. Uma área de 400 mil metros quadrados foi mantida como reserva ambiental, incluindo uma região de mangue. Na área destinada à construção foi realizado um trabalho prévio de retirada da fauna, ao mesmo tempo em que foi realizado um inventário oceonográfico da região, que é mantido atualizado, permitindo monitorar qualquer impacto sobre a pesca.

Junto às comunidades vizinhas, o trabalho foi detectar expectativas e receios entre os moradores que não se sentem atraídos pelas perspectivas de empregos diretos no novo empreendimento. Nas áreas mais urbanas a demanda era por qualificação profissional e para o empreendedorismo, atendidas por meio de parcerias com o Senai e Sebrae.

Ouvindo as comunidades pesqueiras, relata Caroline, chegou-se a um plano diretor constituído de cinco eixos. O primeiro é o apoio à formalização do trabalho. O segundo é um acordo de pesca, envolvendo educação e inibição do uso de bombas e malhas finas, que prejudicam a fauna marítima. O terceiro é a criação de unidades produtivas de beneficiamento da pesca, que estão sendo implementadas.

O quarto está relacionado com a logística da atividade, com a construção de píer de atracação em várias localidades e a compra de freezers para a estocagem. E o último eixo é o estímulo de atividades complementares, abrindo possibilidades às mulheres dos pescadores, como a criação de fábricas de produção de polpa de frutas, de vassouras de piaçaba, oficinas de costura e atividades de apicultura.

Como diz Antônio Manoel da Silva, liderança quilombola da comunidade Enseada do Paraguaçu, não havia futuro na região para os jovens além de mudar-se para Salvador. Foi o que fizeram dois de seus três filhos. “Mas eles voltaram, e agora todos moram na comunidade”, diz.

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