Conversas filosóficas no sul da Bahia

27 de julho de 2015 -
Ilustração de Nara Lacerda Ferreira

Ilustração de Nara Lacerda Ferreira

O que é a matéria? Substância em si mesma ou mero fenômeno derivado da percepção do sujeito de conhecimento? Se substância, a matéria é uma massa extensa que não oferece lugar ao vazio, nem a átomos, ou é justamente o resultado da combinação de partículas últimas e indivisíveis? A matéria é dotada de força para atuar ou o movimento que se observa nos corpos tem uma causa estranha a eles?

Essas questões, sobre as quais se debruçaram filósofos do século XVII e XVIII, como Galileu, Descartes, Hobbes, Hume, entre outros, foram objeto de discussão na XIII Semana de Filosofia – A questão da matéria na modernidade, realizada entre os dias 17 e 21 de novembro de 2014, na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), em Ilhéus. Longe da ostentação e do excesso de atividades dos grandes colóquios que hoje se organizam em filosofia, o encontro na Uesc lembrava uma conversa entre amigos, ainda que nem todos os palestrantes se conhecessem antes do evento. Nesse clima informal, pesquisadores de 15 instituições (Uesc, UFBA, Ucsal, Uneb, USP, Unicamp, UFPR, Uerj, UFG, Uefs, UFS, Unicentro, Universidade de Quilmes, Unijorge e Cefet/RJ) apresentaram conferências e minicursos aos alunos de graduação em filosofia da Uesc, com a descontração da época da saudosa Associação Nacional de Estudos Filosóficos do Século XVII – criada, no início da década de 1990, para congregar os estudiosos da filosofia seiscentista espalhados pelo Brasil, a Associação, presidida pela professora Marilena Chaui, foi extinta no fim da década de 1990, quando a Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (Anpof) decidiu promover a formação de grupos de trabalho.

Foi Galileu quem disse que a natureza está escrita em caracteres matemáticos. Se quiséssemos encontrar um mote que reunisse os diferentes pensadores dos séculos XVII e XVIII seria esse. Os pensadores da modernidade buscam, todos eles, uma matematização do saber. Buscam fundar o saber em uma certeza que seja, como a matemática, universal e indubitável. Tomemos o caso exemplar de Descartes – exemplar porque, além de ser cronologicamente um dos primeiros modernos, contemporâneo de Galileu, Descartes aprofunda a revolução científica iniciada por Galileu, expandindo-a para os fundamentos mesmo do saber, para a filosofia.

Galileu (1564-1642) era um estudioso das leis do movimento e da queda dos corpos. Inventou e construiu o telescópio, e com esse instrumento fez uma série de descobertas que questionavam a ordem medieval do mundo, ditada pela Igreja, na qual o homem e a Terra estavam no centro do universo. Simultaneamente, ao vencer os limites impostos pela natureza aos sentidos do homem com a construção desse instrumento novo, inaugurou uma nova fase na ciência, chamada de “ciência instrumental” por Alexandre Koyré, especialista em filosofia e história da ciência. O telescópio de Galileu afasta definitivamente as objeções de seus contemporâneos contra o heliocentrismo e deixa margem à afirmação de que o universo é infinito, e jamais uma esfera fechada de estrelas fixas como se pregava em seu tempo. Mas é Descartes, e não Galileu, quem formula de maneira clara os princípios da nova ciência.

A filosofia de Descartes é, em seu tempo, uma revolução na maneira de pensar. Essa revolução poderia ser resumida como a afirmação da primazia do sujeito, em detrimento de um objeto exterior ao pensamento, no processo de conhecimento. O que primeiro conhecemos é o sujeito de conhecimento e suas ideias são nossos objetos de conhecimento. Mesmo que se diga que a matéria dos corpos existe fora do pensamento, isto é, que há uma substância extensa, material, distinta do pensamento, que tem existência separada e independente do pensamento, mesmo que eventualmente se identifiquem os corpos como as maneiras de existir dessa substância extensa, tudo o que conheço de verdadeiro a respeito dessa substância, conheço por meio do pensamento: trata-se da ideia de extensão. Há, portanto, uma redução da substância material ao pensamento, na medida em que o que conheço da matéria é uma ideia (e a ideia é uma maneira de pensar).

A revolução cartesiana está na afirmação da autonomia da razão ou do pensamento frente ao objeto a ser conhecido. Embora Descartes seja conhecido vulgarmente como o inventor da subjetividade, é possível estabelecer uma diferença entre a afirmação cartesiana da autonomia do pensamento e a invenção propriamente dita da subjetividade, como sugere em conferências proferidas desde 2009 a professora Marilena Chaui — para quem a subjetividade está umbilicalmente ligada à consciência de si reflexiva que não está presente em Descartes, mas surge no idealismo alemão, a partir de Kant (1724-1804). Em outras palavras, embora o pensamento só alcance o mundo por uma ideia, o mundo continua existindo fora do pensamento — o ser do pensamento não esgota todos os sentidos de ser. Ainda assim, pode-se dizer que Descartes planta as sementes do futuro idealismo transcendental kantiano, porque o mundo material se transforma em representação na mente, embora não se reduza a esse objeto do pensamento.

Descartes afirma, assim, a autonomia da razão humana. Pela primeira vez, na história da filosofia, não é mais o sujeito de conhecimento quem deve se adaptar aos diferentes objetos que quer conhecer e à particularidade de cada um deles. A afirmação da autonomia da razão é também a afirmação de um método universal para os diferentes objetos e, portanto, a atribuição de uma importância fundamental ao método de investigação enquanto tal.

O projeto cartesiano é uma nova fundação do saber. Descartes concebe a filosofia como uma árvore, cuja raiz é a metafísica, o tronco é a física e todas as outras ciências são os ramos desse tronco. Porque se trata de uma nova fundação do saber, o projeto implica antes de tudo uma crítica da tradição e do saber existente, uma crítica da escolástica, que, valorizando a cultura antiga e, sobretudo, a filosofia de Aristóteles, tornava o saber dependente da autoridade (da Igreja ou dos filósofos padres), impedindo o exercício livre da razão. Essa crítica da tradição não exige, porém, o exame de cada conhecimento aceito como verdadeiro, mas a recusa de todos eles. A física cartesiana, ciência fundamentada na metafísica, será o estudo da matéria extensa, do movimento e da figura dos corpos. Apesar de todos os erros conceituais do ponto de vista atual, a elaboração cartesiana da física como uma ciência matematizada com leis universais, afasta a física medieval das qualidades ocultas dos corpos a que a razão humana não tinha acesso. Descartes formula três leis de natureza, as duas primeiras resumiriam o que depois vai ser sistematizado por Newton como o princípio de inércia, e a terceira lei explica o choque dos corpos. Eis a nova ciência, uma física matemática, uma ciência do movimento.

Leibniz (1646-1716), herdeiro de Descartes, vai buscar uma conciliação entre a ciência moderna cartesiana e a ciência antiga, afirmando que a matéria é um fenômeno ou a maneira de aparecer das verdadeiras substâncias, átomos espirituais, dotados de força. Com a introdução da noção de força, Leibniz lança as bases para uma nova ciência física, a dinâmica que, sem desprezar as explicações da cinemática de Descartes, explica a razão do movimento dos corpos e se coloca como novo fundamento da cinemática. Kant em sua juventude vai ser extremamente influenciado por essa concepção de Leibniz. Mas a surpresa, para os participantes da XIII Semana de Filosofia da Uesc, foi a interpretação segundo a qual mesmo na maturidade, quando critica a metafísica dos herdeiros de Descartes, Kant divide a ciência da natureza em quatro partes, e duas dessas serão ainda um acerto de contas com a dinâmica de Leibniz, enquanto outras duas apontam para a filosofia da natureza de Newton.

A XIII Semana de Filosofia da Uesc foi um passeio por essas questões que nortearam a concepção da ciência na modernidade; esse passeio não percorreu apenas a via idealista de Descartes, Leibniz e Kant, mas enveredou também por caminhos empiristas com interpretações a respeito da filosofia de Hobbes, de Locke e de Hume. A discussão desinteressada e de alto nível levou os professores e alunos a pensar na origem de determinadas noções e visões contemporâneas. A organização impecável dos professores Marcelo Moschetti (Uesc), Juliana Pinheiro (Uesc), Giorgio Ferreira (Uneb) e do Centro Acadêmico de Filosofia Tales de Mileto merece elogios.


Tessa Moura Lacerda é professora de filosofia da USP

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