Imagens para um não-lugar

Máscaras afro-brasileiras de Renato da Silveira passaram pelo minhocão em São Paulo

27 de julho de 2015 -
© Léo RamosReproduções das máscaras de Renato da Silveira no Elevado Costa e Silva em São Paulo

Reproduções das máscaras do artista e antropólogo baiano Renato da Silveira, afixadas sobre pilares do Elevado Costa e Silva no centro de São Paulo

Uma exposição de máscaras africanas do Museu de Arte Contemporânea da USP em 1967 fez com que Renato da Silveira transformasse completamente sua produção artística, até então influenciada pela arte pop norte-americana. “Foi um choque tão avassalador que a partir dali eu não podia mais fazer arte de outro jeito”, afirmou ao Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia. Até 28 de fevereiro de 2015, reproduções das máscaras criadas pelo artista e antropólogo baiano permaneceram afixadas sobre pilares do Elevado Costa e Silva no centro de São Paulo, a polêmica obra viária conhecida como Minhocão. A exposição, iniciada em novembro de 2014, fez parte das comemorações do mês da consciência negra na capital paulista.

A intrincada bricolagem exigia tempo e atenção para cada detalhe. Era preciso caminhar pelas calçadas da rua Amaral Gurgel ou pelo canteiro central para observar devidamente. As imagens foram produzidas a partir da colagem de figuras de tecidos, flores, sementes, hortaliças, adereços, desenhos, grafismos e animalismos. Embora predominasse a frontalidade, algumas faces se posicionavam de modo levemente enviesado. Todas buscavam o olhar do espectador.

As imagens não eram hostis aos trabalhos dos artistas de rua, muito comuns nas metrópoles brasileiras. Nas laterais dos pilares, as máscaras provocaram releituras e as pichações dialogaram com elas, preenchendo os fundos vazios sem depredá-las, uma vez que a sobreposição e a aglutinação de elementos heterogêneos tembém são linguagens da arte urbana.

Produção artística e pesquisa antropológica convergem na reconstituição histórica das contribuições africanas e do reconhecimento público de certas práticas religiosas e medicinais desde o período colonial. A diáspora africana foi uma primeira migração a que as imagens foram submetidas. Elas viajaram com as mercadorias exportadas, como os veludos da região do rio Cassai, tidos por “melhores do que os de Veneza”. Viajaram como saberes medicinais adotados por conventos, mosteiros e pelo exército português. E viajaram na memória dos indivíduos deportados, para encontrar os seus lugares nos calundus e candomblés cujas histórias foram investigadas pelo professor da UFBA e doutor pela “École des hautes études en sciences sociales” de Paris.

Depois de ter sido preso três vezes no Brasil em 1969, 1970 e 1971 por causa da militância contra o regime autoritário, Renato da Silveira viveu sete anos no exílio e estudou antropologia para se reaproximar de suas origens. Tanto como artista quanto como pesquisador, seu trabalho reivindica uma África que lhe foi “sonegada desde a escola,” como declarou no seminário A nação Angola na Bahia. Cada pormenor das máscaras afro-brasileiras provém de uma faceta do continente “rico em tradições e humanidade” e equivocadamente considerado como “um lugar onde não acontece nada, a não ser catástrofes e guerras tribais.”

Uma segunda viagem das imagens foi promovida pelo trabalho de arte. As máscaras foram criadas a partir de elementos preexistentes, extraídos de revistas, esculturas, enfeites, pinturas faciais e referências a costumes tradicionais e modernos. O termo “máscara” tem aqui um sentido antropológico, uma vez que não designa apenas o objeto, mas uma identidade social ou persona, por oposição à face natural. “Decoração facial e tatuagem podem transformar a face humana efetiva em máscara”, afirmou Hans Belting.
Artistas modernos se apropriaram de máscaras africanas como formas estéticas vazias, sem considerar seus usos rituais. Renato da Silveira, por sua vez, criou nomes para cada uma das máscaras publicadas em 2010 no álbum Máscaras afro-brasileiras – artimanhas digitais. A exposição do Minhocão proporcionou uma terceira migração para aquelas imagens que vieram da África e foram recombinadas em novas composições.

A via elevada que liga a zona oeste ao centro de São Paulo transformou partes consideráveis de diversos bairros em “não-lugares”, como o antropólogo Marc Augé chamou os locais de passagem, por oposição aos “lugares antropológicos”, detentores de significado. Sob o Minhocão é possível observar como a urbanização gera “zonas de vazio” ao transformar lugares antropológicos em não-lugares.

Depois da edição do projeto Giganto, de Raquel Brust no Minhocão, com fotografias “hiperdimensionadas” de moradores, novamente se usaram imagens para preencher os vazios desse não-lugar. Seria a arte capaz de restituir significado a um lugar vazio? As exposições são temporárias e as imagens parecem estar sempre de partida, em busca de outros meios. É mais fácil produzir a imagem de um lugar do que um lugar para as imagens.

© Léo Ramos

 

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