Imensamente Cênicos

De um anterior terceiro lugar, a bahia tem hoje a maior concentração reconhecida de inselbergs, as ilhas terrestres

27 de julho de 2015 -
© Geraldo Marcelo LimaItatim

A maior concentração mundial de inselbergs, ilhas terrestres de notável importância social, ecológica e econômica, fica no semiárido baiano sob uma microplaca tectônica chamada Jequié

Quando ainda era menino, Geraldo Marcelo Lima subia quase todos os dias um imenso morro de pedra que ele costumava encarar da sua casa, localizada em Tanquinho, município que fica no semiárido baiano. Mais tarde, voltou a Salvador, onde nasceu, interessado pela área de geologia e se tornou pesquisador do Instituto de Geociências (IGeo) da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Não por coincidência decidiu que desafiaria novamente formações rochosas como aquela, mas dessa vez em nome da ciência.

Ele e outros três pesquisadores do mesmo grupo de pesquisa começaram a estudar os morros e a chamá-los de inselbergs ou ilhas terrestres. Apesar de sua variada grafia – inselberge, inselbergues – são por definição uma classe especial de acidentes geográficos com paisagem marcada por um contraste entre elevações, com altura maior que 100 metros, e arredores de superfícies planas. O mais famoso é o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e a Pedra da Galinha Choca, que fica em Quixadá, no Ceará. Na Bahia, uma forma não tão marcante, mas em certo ponto conhecida, fica à margem da BR-116, próximo ao município de Itatim.

Ali, em meio ao cenário verde quando a seca não castiga, a enorme pedra exibe uma hipotética boca.

Em 2007, a Bahia era considerada pela equipe de pesquisadores do IGeo o terceiro principal recinto desses monumentos naturais no país. “Hoje é onde tem a maior concentração dos inselbergs no Brasil”, conta Lima. O destaque nacional e mundial em relação a Moçambique e Zimbábue, entre outros países da África, e à Austrália, por exemplo, se dá pela quantidade e variedade de formas identificadas ao longo da pesquisa, concluída em 2012, na qual ele verificou a origem e a evolução dos inselbergs baianos. Monumentos com tais características também estão presentes nos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Amazonas.

O morro próximo a Itatim, por sua forma de cúpula com superfície arredondada, foi reconhecido como um bornhardt. Esse exemplar pode ter mais de 1 quilômetro de comprimento e é o tipo mais comum de inselberg daqui. Mas a diversidade de formas locais também inclui castelos, torres, inselgebirgs, que são grupos de elevações próximas umas das outras, e koppies castelo, blocos empilhados angulares com bordas e paredes de pedra bem marcadas.

O MAIOR SÍTIO DO MUNDO
Além de Itatim, há formações com essas características em Pé de Serra, Santa Luz e Guanambi. Outras três cidades
no semiárido baiano – Santa Terezinha, Iaçu e Itaberaba – também possuem as ilhas terrestres. Pela concentração de cinquenta elevações, integram o sítio geomoformóligo de Itatim, o maior do mundo, situado sobre a microplaca tectônica Jequié.

Entre os fatores determinantes para a origem e forma dos curiosos afloramentos de rochas na região de 1.000 quilômetros quadrados, estão os processos erosivos que isolaram essas pedras nas superfícies planas onde se encontram. São também importantes as características minerais dos inselbergs, em relação às rochas que ficam ao redor deles, as intempéries, a esfoliação que age sobre as imensas ilhas e o próprio clima árido no passado e semiárido hoje.

Esses fatores explicam a beleza cênica e as diferenças entre Tocas, Napoleão, Itibiraba, Meus Pertences, Gavião, Leão, Torre e São Geraldo, todos nomes de acidentes geológicos do sítio de Itatim. “Na África, há lugares onde estão usando esses ambientes [para fins turísticos ecológicos]. Tem toda uma infraestrutura de turismo, inclusive com padrão internacional. É um ambiente mais árido do que o Brasil, e aqui a gente poderia aproveitar um pouco”, acredita Lima.

© Geraldo Marcelo LimaA Pedra de Tocas

A Pedra de Tocas, localizada no sítio geomorfológico de Itatim, é um maciço rochoso que se formou há 30 milhões de anos

No sítio de Itatim, os inselbergs têm entre 280 e 300 metros e se formaram do magma cristalizado em grandes profundidades até a sua subida para a superfície da terra, chamadas pelos geólogos de intrusões, centenas de milhões de anos mais jovens do que as rochas subjacentes nas áreas planas. Ao longo do tempo, as pedras se tornaram mais resistentes do que as suas vizinhas e o processo de denudação pela qual passaram, sendo desgastadas até 130 metros por milhão de anos, remete ao período Neogeno, há cerca de 30 milhões de anos.

Na visão do pesquisador do IGeo Luiz César Corrêa-Gomes, um dos coautores da pesquisa, ainda há muito a ser estudado sobre os inserbergs, principalmente sobre as suas gêneses e evoluções. “Atualmente existe um ramo da geologia que estuda esses maciços, o da geomorfologia tectônica, e a relação entre a formação de relevos e eventos tectônicos. E, entre as técnicas de estudos, têm sido utilizadas datações com traços de fissão em apatitas e zircões, entre outros [métodos], que permitem identificar fenômenos de soerguimento e afundamento crustais que podem ter sido determinantes na formação dos inselbergs”, salienta.

ECOLOGIA E POBREZA
Em um artigo publicado numa coletânea sobre paisagens e geografia do Brasil, assinado por Lima e pelo pesquisador Luiz César Corrêa-Gomes, seu colega no IGeo, eles afirmam que, além da beleza cênica, esses monumentos naturais “que rasgam o solo em direção ao céu” têm também relevância ecológica.

Em alguns casos, os penhascos íngremes têm uma fina camada de solo e um micro-hábitat onde sobrevivem organismos, entre os quais está a família das bromélias, com as espécies Encholirium spectabile, Tillandsia sp e a família de cactos, com o Melocactus sp, endêmicas do sítio geomorfológico de Itatim. No entanto, pelas condições inóspitas que limitam o crescimento da vegetação, os inselbergs são notáveis como bancos de sementes – varridas pelos ventos ou espalhadas por insetos, aves e répteis que procuram alimento e comida na superfície das rochas – lançadas na planície que rodeia as rochas.

Um estudo que está em andamento no âmbito do Instituto Nacional do Semiárido (Insa), sob a liderança da pesquisadora Fabiane Rabelo, visa mapear em fina escala os afloramentos mais vulneráveis no semiárido brasileiro, incluindo a Bahia, e levantar as espécies e populações de plantas que estariam vinculadas aos mesmos. O objetivo é, entre outros, compreender a composição, variabilidade cromossômica e genética dessa flora para criar ferramentas de conservação do ecossistema. Mas, ainda conforme informações do Insa, a pesquisa pretende utilizar esses recursos naturais de forma sustentável e controlada, “especialmente pelas populações do entorno, permitindo assim um aporte de renda extra a essas populações tradicionais”.

© Geraldo Marcelo LimaA Pedra de Itibiraba

A Pedra de Itibiraba, que fica no município de Itaberaba, possui pinturas antigas e é eventualmente escalada por religiosos e aventureiros

As pinturas antigas, a exemplo da Pedra de Itibiraba, no município de Itaberaba, evidenciam que houve ocupação no sítio de Itatim há tempos bem mais longínquos do que o século XVIII, após a colonização europeia, quando a região voltou a ser povoada. Hoje em dia, a população do local é formada por uma significativa parcela de pessoas pobres; centenas de homens, mulheres e até crianças que dependem da extração de algumas dessas pedras, que podem se tornar paralelepípedos ou cascalho. Para se ter uma ideia, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) mais elevado dessas três localidades é 0 de Itaberaba (0,620), segundo o Atlas de Desenvolvimento Humano de 2013. Já Itatim possui IDHM de 0,582 e Iaçu, de 0,574, o mais baixo.

Conforme observam os pesquisadores baianos, o “desafio ambiental” é posto porque algumas dessas pedras já foram, e podem continuar sendo, bastante transformadas por conta da contínua extração. “Em geral, são rochas ricas em feldspatos e quartzo, que aumentam a resistência da rocha ao intemperismo químico. Mas elas podem ser tanto isotrópicas, sem orientação, quanto anisotrópicas, bem orientadas. No caso da extração de pedras ornamentais, os maciços não podem ser muito fraturados, pois isso dificulta a lavra do material”, observa Corrêa-Gomes. A lavra é o conjunto de operações coordenadas para o aproveitamento industrial da jazida, desde a extração de substâncias minerais úteis que contiver até o seu beneficiamento.

O especialista em recursos minerais do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), Cláudio da Cruz Lima, diz que não há uma fiscalização específica em lavras que exploram os inselbergs, a não ser que ocorra uma denúncia formalizada. “Nas regiões citadas existem dois licenciamentos para gnaisse, uso de brita, e uma guia de utilização para lavra experimental de gnaisse, uso de pedra de talhe, esta última em Iaçu”, explica Lima, que atua na superintendência baiana do DNPM. “Não há como afirmar se essas lavras são extraídas a partir dos inselbergs, mas é importante salientar que para conceder o direito de lavra é necessário, entre outros documentos, a licença ambiental emitida pelo órgão ambiental ou pela prefeitura, caso tenha competência para emitir o documento. Compete ao órgão ambiental definir se os morros do tipo inselbergs podem ser minerados”, ressalta.

A assessoria de comunicação do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), vinculado à Secretaria Estadual do Meio Ambiente, informou que “não tem nenhum tipo de ação de conservação, a não ser o de fiscalização ambiental por meio de denúncia popular, feita através do 0800 071 1400”.

Há um mapeamento feito por Lima com a localização de algumas pedreiras, no geral responsáveis por mudanças consideráveis nos morros. “As pedreiras são o ganha-pão desse pessoal pobre. Quando eu falo em turismo, acho que deveria ser uma fonte a mais”, pondera o pesquisador.

Como alguns municípios são porta de entrada para a Chapada Diamantina, bastante conhecida e visitada, os inselbergs, ele sugere, poderiam ser incluídos no roteiro de viagem a essa região. “A ideia seria: visite Itatim, capital mundial dos inselbergs. Vale ressaltar que seria necessário investir em treinamento de pessoal, montar um parque temático (conhecido como Geoparque), como foi feito com os monólitos de Quixadá. A visitação turística em Quixadá saltou nos últimos anos e melhorou a qualidade de vida da população local”, detalha.

Em Quixadá, que fica a 158 quilômetros de Fortaleza, os inselbergs fazem parte de uma unidade de conservação na categoria monumento natural. Existente desde 2002 por meio de um decreto estadual, o Monumento Natural dos Monólitos de Quixadá é reconhecido pela Secretaria do Meio Ambiente local, não apenas como raro, mas naturalmente frágil, justamente por conta das intervenções humanas.

A Bahia também já esteve na iminência de contar com uma inciativa nesses moldes. No ano passado, Lima recebeu uma solicitação informal para ampliar as regiões onde existem inselbergs, reconhecendo-as como uma Unidade de Conservação (UC). Porém a ação não se concretizou. Atualmente, existem duas UCs na categoria monumento natural no estado: a Cachoeira do Ferro Doido, em Morro do Chapéu, e os Canions do Subaé, em Santo Amaro. Além dos decretos estaduais específicos para preservá-los, de 1998 e 2006, respectivamente, a sua proteção está prevista desde junho de 1977 pelo Decreto nº 80.978/1977 relativo ao patrimônio mundial, natural e cultural.

Jovem itaberabense, o estudante Luís Neto, 17 anos, reconhece a importância dessas pedras, que as pessoas visitam em datas religiosas ou frequentam para fazer escaladas. “Primeiro deveria haver a conscientização dos moradores, pois muitos deles acham que lá [a Pedra de Itibiraba] é uma pedra qualquer”, defende. “A Secretaria da Cultura poderia fazer a mesma coisa que fez no Bom Jesus: limpar toda a área e colocar placas indicando a entrada para a Pedra. Assim, a população teria ao menos curiosidade de conhecê-la de perto e as pinturas indígenas que lá tem”, completa.

PESQUISA AMPLIADA
Paralelo ao interesse científico no relevo, Lima também tem grande paixão pelos registros fotográficos das paisagens que estuda. As imagens feitas por ele, boa parte realizada em uma carona que pegou em um helicóptero do governo estadual, ilustram um livro elaborado ao longo de dez meses e publicado em 2007. Como as pesquisas continuaram desde então, veio a necessidade de revisão do material. De acordo com o pesquisador, em 2016 deve ser lançado outro exemplar com novos resultados da pesquisa sobre os inselbergs. Mas dessa vez com colaborações de seus colegas e a inclusão de um novo sítio geomorfológico, que ele ainda não apelidou, integrado pelos municípios de Guaratinga, Intanhém e Jucuruçu.

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