Lista Vermelha

Lagartinho-do-abaeté está entre as 328 espécies da fauna baiana ameaçadas, segundo pesquisadores

27 de julho de 2015 -
© Luiz Carlos Ribenboim/Divulgação ICMBiomaria-leque-do-sudeste

Típica da mata atlântica, a maria-leque-do-sudeste (Ornychorhynchus coronatus swainsoni) está entre as espécies de aves sob ameaça de extinção

O caminho para saber se uma espécie de animal ou de planta existe em solo local inclui verificar as publicações, bases de dados e acervos de coleções científicas especializadas. Já para determinar se os espécimes estão ou não em risco de extinção na natureza, o conjunto necessário de informações sobre eles é tão mais amplo que tende a se ramificar em grupos de pesquisa geograficamente afastados. A partir de um longo trabalho em equipe, pesquisadores baianos mapearam 328 seres da fauna sob algum tipo de ameaça, entre os quais estão o macaco guigó-da-caatinga, o peixe piabanha, o pássaro rabo-branco-de-margarette, o tubarão-raposa, a aranha-caranguejeira, a estrela-do-mar e o lagartinho-do-abaeté.

A lista inédita de espécies ameaçadas de extinção da Bahia, também chamada de Lista Vermelha, nasceu de um trabalho em rede que envolve, desde 2003, 150 pesquisadores de distintos estados brasileiros com participação direta no processo. Estudiosos de peixes e invertebrados continentais e marinhos, de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e plantas foram convidados a participar do levantamento pela coordenadora do projeto, Sofia Campiolo, professora da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Como resultado, avaliaram um total de 2.700 animais, sendo 40 deles exclusivos da Bahia e sob algum risco, e 1.800 tipos de plantas, das quais ainda não se sabe totalmente quantas são particulares do estado.

O time reuniu informações sobre a biologia, a ecologia e a distribuição geográfica da fauna e flora do estado para determinar quais espécies estão de fato ameaçadas de extinção em nível global, nacional, estadual ou regional. Essa lista prévia é uma das etapas de um trabalho que envolveu também oficinas de avaliação e validação, realizadas em 2013 na cidade de Ilhéus, entre os próprios estudiosos, até a divulgação oficial pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema), fase ainda em andamento.

“A ideia do projeto da lista é muito antiga. Demoramos a iniciá-lo em função da necessidade de articulação com o governo, e uma das questões importantes para nós sempre foi manter as coordenações entre os pesquisadores no estado para conseguirmos, além da lista, o fortalecimento e a articulação dos grupos de pesquisa aqui instalados”, explica Sofia Campiolo, agrônoma de formação e doutora em biologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). No modelo institucional afinal montado para viabilizá-la, a Lista Vermelha é um projeto coordenado pela Uesc e pelo Instituto Dríades, órgão baiano de pesquisa e conservação da biodiversidade, e apoiado pela Sema.

A identificação das espécies em risco foi feita com base em métodos da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), instituição internacional bancada por governos, empresas, indivíduos, entre outros, que auxilia iniciativas, incluindo pesquisas científicas, dedicadas a encontrar soluções baseadas na natureza. “O Brasil, como signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), também elabora a lista nacional, com base nos critérios da IUCN. Nós fizemos o trabalho articulado com o ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversiade]”, conta Sofia Campiolo. O ICMbio é o órgão ambiental do governo e finalizou a avaliação nacional do risco de extinção da fauna brasileira em dezembro de 2014. É também a entidade responsável pelo treinamento, organização de monitoramento das oficinas e de uma base de dados; divulgação e orientação de políticas públicas visando à conservação das espécies.

AVALIAÇÃO DAS ESPÉCIES
Cada animal ou planta mapeado possui uma ficha exclusiva com informações sobre ele. Entre os dados preenchidos pelos pesquisadores, estão nome científico e comum da espécie, se é ou não típica da região onde foi encontrada, a sua característica física, variabilidade genética e onde mais está distribuída. O levantamento geral de espécies envolveu ao menos um pesquisador responsável por grupo biológico, todos eles sob a coordenação geral de Sofia Campiolo, que orientou alguns envolvidos a não informar, por enquanto, os números finais das espécies catalogadas. Segundo ela, só a lista de peixes marinhos ainda não foi finalizada. “Este é o grupo mais complexo, em função do grande impacto sócioeconômico, quando a lista se torna um efetivo instrumento de gestão”, revela.

De acordo com o coordenador da lista dos peixes marinhos, Alexandre Clístenes, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), foram avaliadas 797 espécies. “As maiores dificuldades para finalização da lista foram o alto número de espécies, o baixo número de especialistas locais e a absoluta carência de dados sobre estatística pesqueira”, aponta Clístenes. Para o ictiólogo, as medidas de gestão e recuperação específicas para o estado devem enfatizar a pesca, mas sem esquecer as diferentes atividades que impactam os hábitats marinhos e costeiros.

A lista da flora também não está finalizada ainda. “Ela foi elaborada a partir de dados recebidos pelo Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora) com cerca de 1.800 espécies, sendo que parte destes registros esta sendo eliminada em função de estas espécies representarem registros recentes em outros estados, o que as retiravam da categoria de endêmicas da Bahia”, explica a coordenadora de Pesquisas Ambientais da Sema, Cristiana Vieira. Daí, uma lista de plantas exclusivas da Bahia está sendo elaborada com base no SpeciesLink, um sistema distribuído de informação que integra dados primários de coleções científicas, bem como a partir de outras fontes disponíveis na web. Após as atualizações, esse catálogo deve ser entregue em agosto, segundo o superintendente de Pesquisas Ambientais da Sema, Luiz Antonio Ferraro.

CATEGORIAS DE AMEAÇA
Cerca de 13% dos animais da fauna local, entre os 2.600 catalogados, estão sob algum tipo de ameaça. O parâmetro utilizado para separar as espécies a partir do nível de ameaça em que elas se encontram na natureza é estabelecido pelo IUCN. Embora a metodologia possibilite incluir espécies extintas e não avaliadas, aquelas que estão passíveis de desaparecer, e que portanto ainda podem ser preservadas, são classificadas como “vulnerável”, “em perigo” e “criticamente em perigo”. O nível de ameaça é definido por meio de critérios que incluem a taxa de declínio da população, seu tamanho e distribuição, área de distribuição geográfica e grau de fragmentação de habitat.

Entre os peixes continentais, cuja distribuição é maior pelas bacias dos rios São Francisco, Paraguaçu e Contas e em uma grande variedade de tributários costeiros, foram listadas inicialmente 204 espécies. A lista, porém, cresceu para 217 após as oficinas de avaliação. Segundo Ricardo Jucá Chagas, professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e coordenador desse inventário, 5% dos peixes continentais se encontram vulneráveis, 4,6% em perigo, 5% criticamente em perigo e 15% em risco de extinção; os outros 17,5% ainda não possuem informações suficientes para uma análise de risco. “Algumas regiões do estado só começaram a ser mais bem investigadas recentemente, como é o caso da região do alto rio de Contas, onde algumas espécies novas têm sido registradas. Entre estas, algumas já entraram na lista como ameaçadas. Mesmo em rios como o São Francisco, descobrimos neste trabalho que há muitas lacunas de informações sobre as espécies no estado da Bahia”, afirma Jucá Chagas. A rede de pessoal necessário para a listagem desse grupo envolveu técnicos do ICMBio, dois pesquisadores co-coordenadores e mais de 20 voluntários que colaboraram nas oficinas de avaliação e validação de espécies.

Na Lista Vermelha, há um expressivo número de peixes da família Rivulidae, geralmente coloridos, de comportamento dócil e alvo fácil de aquariofilia e biopirataria. Mas, no geral, os peixes baianos estão também ameaçados pelo desmatamento, degradação ambiental, irrigação, barragens, pesca, mineração, poluição e introdução de espécies alóctones, ou seja, que não são regionais.

© Linckia guildingiEstrela-do-mar

Estrela-do-mar está
entre as 84 espécies da lista dos invertebrados marinhos avaliados

Entre os demais grupos biológicos, segundo os respectivos coordenadores, foram avaliados 84 invertebrados marinhos, 160 invertebrados continentais, 188 anfíbios, 251 mamíferos, 253 répteis e 815 aves. Junto com as duas categorias de peixes, somam 2.765 espécies. O site do projeto (www.listavermelhabahia.org.br), que está desatualizado, informa apenas 320 animais catalogados no total. “Na Bahia, não há espécies de invertebrados continentais registradas como extintas, mas há algumas criticamente em perigo ou em perigo, duas dúzias foram consideradas vulneráveis, outro tanto menos preocupantes. Para uma maioria de invertebrados terrestres, os dados são, porém, considerados insuficientes para se ter uma decisão clara sobre seu estado de conservação”, observa Jacques Hubert Delabie, da Uesc, coordenador da lista vermelha dos invertebrados continentais.

No caso das aves, segundo o responsável, Caio Graco Machado, professor da Uefs, esta riqueza representa quase 43% das espécies reportadas no Brasil, que somam hoje 1.901 espécies, conforme o Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos (CBRO). Ainda de acordo com o órgão, 12% da avifauna se encontra em algum grau de ameaça de extinção. “Na Bahia, cinco espécies de aves foram categorizadas como regionalmente extintas; 18 espécies como criticamente ameaçadas – entre elas, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), provavelmente extinta na natureza; 42 espécies foram categorizadas como em perigo; 27 como vulneráveis; 15 como quase ameaçadas; e 43 espécies com dados insuficientes”, enumera. A avaliação não foi aplicável a 77 espécies. As demais 588 foram categorizadas como “menos preocupante”.

Já entre os invertebrados marinhos, cujo levantamento foi feito pela professora Erminda Couto, da Uesc, das 84 espécies avaliadas, uma está “criticamente em perigo”, duas estão “em perigo”, seis estão quase ameaçadas e 11 estão “vulneráveis”. No grupo dos répteis, 145 não estão em risco. Mas 23 foram consideradas como “vulneráveis, 38 como “em perigo” e quatro como “criticamente em perigo”. “Dentre as espécies mais ameaçadas, ou seja, criticamente em perigo, estão as tartarugas marinhas Eretmochelys imbricata, tarturaga-de-pente, e os lagartos Anotosaura collaris, Heterodactylus septentrionalis e Ameivula sp. n., este último uma espécie ainda não descrita”, enumera Antônio Argôlo, professor da Uesc e coordenador da lista de répteis.

PARA ALÉM DA LISTAGEM
Entre os estados que já têm a sua lista estão o Rio Grande do Sul e São Paulo. “Na região Norte, o Pará foi o pioneiro; no Nordeste, Pernambuco e Bahia são os dois estados trabalhando nessas listas. Há também esforços no Distrito Federal e em Goiás”, afirma Delabie. Na verdade, desde janeiro, Pernambuco já reconhece quais são os anfíbios da sua fauna que estão sob algum tipo de ameaça.

Na Bahia, a Lista Vermelha já está praticamente finalizada, mas só após ser divulgada pela Sema a lista viabilizará a elaboração de metas, ações e legislações com o objetivo de garantir a existência dessas espécies, além de servir como uma das ferramentas para definição de estratégias de conservação da biodiversidade. “Sendo finalizada a avaliação do estado de conservação de todas as espécies, ela deverá passar pelos trâmites burocráticos: apresentação a outros órgãos do estado, apresentação às câmaras técnicas, envio da minuta do decreto à Governadoria para avaliação etc.”, explica Cristiana Vieira. “Como cada órgão tem sua agenda, não podemos ainda prever uma data para publicação do decreto”, completa.

Em novembro do ano passado, o então diretor de pesquisas ambientais da Sema, Marcelo Araújo, informou que a conclusão da lista havia sofrido atraso. “Agora, com a transição de governo, imagino que a sua finalização deve mesmo ficar para março ou abril de 2015”, afirmou à época. Desvinculado da pasta, ele reiterou, no final de março, que a lista continuava atrasada. “Por diversas razões, especialmente porque é um trabalho em que os pesquisadores que avaliam as espécies atuam como voluntários e não estão presos aos nossos prazos. Outra questão é que os dados das espécies estão dispersos e organizá-los é um desafio. Ademais, os pesquisadores estão ressabiados com esse tipo de trabalho depois que houve divergências entre a lista que os pesquisadores fazem e a que o governo formaliza”, observou. Questionada sobre esse ponto, em maio, a coordenadora-geral Sofia Campiolo disse que não poderia falar a respeito do assunto, pois o documento oficial ainda não havia sido divulgado.

DE FORA
Não houve propriamente um limite estipulado de espécies desse catálogo, mas é possível que alguns animais e plantas, em algum nível de ameaça, tenham ficado de fora da Lista Vermelha. “Certamente existem espécies não descritas ou recém-descritas pela comunidade científica que ficaram de fora do processo. Mas esse número de espécies que não puderam ser não avaliadas é considerado pequeno para os mamíferos, sobretudo se considerado em termos proporcionais a outros grupos como invertebrados”, acredita Camila Cassano, professora da Uesc responsável pela lista dos mamíferos. Ainda segundo ela, trata-se de um grupo particularmente importante tanto em termos ecológicos, a exemplo de predadores e dispersores de sementes, polinizadores, quanto em relação ao grande número de espécies carismáticas, que podem ser utilizadas como espécies bandeira para a conservação.

Na outra ponta da conservação estão, no entanto, os interesses econômicos em determinadas espécies. Enquanto a Lista Vermelha da Bahia não é publicada, o país assiste a um exemplo de tentativa de anular a lista de peixes, nascida em dezembro. Um projeto de decreto legislativo que estava na pauta do dia 24 de junho da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara dos Deputados, sustava a portaria do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que proibia a pesca dos espécimes ameaçados.

Aqui, outro tipo de impasse começa a ser especulado entre alguns envolvidos com a lista. Isso porque é possível que haja divergência entre o que será divulgado em âmbito estadual e o que já foi reconhecido na lista nacional. “Precisamos conversar com o MMA para saber como é que fica a fiscalização e também juridicamente, por exemplo, se uma espécie for considerada ameaçada por nós, e não for pelo ICMBio”, conclui o superintendente Luiz Antonio Ferraro.

* Fotos: Mirco Solé, Fabio Nunes, Erminda Couto, Camila Cassano Oberdan e Coutinho Nunes

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