Um educador a toda prova

Orgulhoso Cidadão de feira de Santana e trabalhador incansável, o professor inclui uma universidade e dois parques entre suas contribuições à Bahia

27 de julho de 2015 -
© Fábio MarconiEdivaldo Boaventura

Edivaldo Boaventura

Em 4 de novembro passado, aconteceu na Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA) o lançamento de Um cidadão prestante: entrevista biográfica com Edivaldo M. Boaventura, livro de Sérgio Mattos publicado pela Quarteto Editora. A rigor, trata-se de um belo trabalho a quatro mãos: o jornalista, com trânsito pela educação, interroga de forma acurada o educador. E o educador, que, entre muitas outras funções relevantes, já dirigiu um jornal – o mais antigo e respeitado da Bahia –, oferece respostas claras e bem circunstanciadas sobre seus trajetos pessoais e profissionais.

O resultado desse diálogo produtivo é um retrato que revela os traços fortes e preserva os semitons e nuances de um exemplar cidadão baiano – e feirense, com muito orgulho –, acentuadamente marcado pelo espírito público na construção de sua bem-sucedida carreira de educador multidisciplinar e multifuncional. E incansável, ressalte-se, pois, aos 81 anos, Edivaldo Boaventura segue trabalhando com vigor e projetando futuros. Ocupa-o muito neste momento, por exemplo, a reflexão sobre o papel da educação a distância, sustentada pela rede e demais tecnologias informáticas, no desenvolvimento do Brasil e, em particular, da Bahia, especialmente de seu imenso interior, para o qual o habitante de Salvador, ele assegura, mal olha.

Entre os 50 livros que publicou, distribuídos pelos campos da educação, dos ensaios memorialísticos e biográficos e dos relatos de viagem, Educação Brasileira e o Direito lhe é a obra mais cara. “Foi um livro matutado por muito tempo”, diz. Já entre as instituições que criou ou partejou até aqui em sua longa vida de “cidadão prestante”, as que lhe parecem mais importantes são a Universidade do Estado da Bahia (Uneb), no front educacional, e os parques Castro Alves e de Canudos, no âmbito cultural.

Expansivo, bem-humorado, grande prosador, Edivaldo Boaventura é marido há 53 anos de Solange, que namora desde os anos em que ele era estudante de direito e ela, uma bela estudante de letras neolatinas, é pai de Lídia e Daniel – sim, ele mesmo, o conhecido ator e cantor Daniel Boaventura – e avô derramado de Isadora, Lorena, Jojô e Isabela. A entrevista a seguir foi concedida por ele à Bahiaciência em fins do ano passado, em sua agradável casa de Brotas, com direito a bolo e cafezinho, à simpatia irradiante de dona Solange e a um sorriso para lá de charmoso de Isadora.

O senhor é vice-presidente da Academia de Ciências, membro da Academia Baiana de Letras, que já presidiu, e da Academia de Educação, entre outras. Continua orientando teses, dando aulas, fazendo palestras, escrevendo… Dessas atividades, qual é hoje a mais importante?
A que toma mais a minha atenção é a orientação de alunos na Universidade Salvador (Unifacs), que pertence à Rede Laureate. Tenho oito orientandos com teses e em 2013 botei para fora cinco doutores.

Com que temas trabalharam esses novos doutores?
Dois trabalharam sobre universidade e educação superior, um de meus temas principais de estudo; dois outros sobre Canudos; com outro doutorando tive de substituir a primeira orientadora numa tese sobre adoção internacional de crianças, tema difícil em torno de uma experiência dramática. São crianças pobres e negras adotadas por países brancos e ricos e isso traz terríveis problemas de ajustamento.

Há algo que unifique seus tantos trabalhos?
Minha unidade está na educação, embora eu seja conscientemente multidisciplinar. Sou muito procurado pelos alunos. Minha vida é muito voltada para isso. E em educação meu interesse se concentra em educação superior, em história da educação, sobretudo a baiana, e em metodologia da pesquisa.

Quantos orientandos seus estão hoje no mercado?
Acho que a essa altura já orientei, entre mestrados, doutorados e monografias de conclusão de curso, mais de 100 pessoas. Participei de mais de 200 bancas e exames de qualificação, a maior parte na área de educação.

O senhor tem dito que o futuro da educação está na educação a distância. Como esse tema mobilizou seu interesse?
No seminário que coordeno na Unifacs, “Educação e Desenvolvimento”, comecei a receber muitos pedidos para orientar trabalhos sobre a educação como fator de desenvolvimento. E estou convencido de que educação a distância é um fator fundamental, ao atingir áreas e pessoas muito distantes dos grandes centros deste país continental e do estado da Bahia, que tem mais de 560 mil quilômetros quadrados. Participei há algum tempo de um congresso internacional no qual apareceram os novos moocs [sigla em inglês para massive open online course]. São, podemos dizer, grandes conglomerados de ensino livre, de educação aberta online, dos quais participam grandes universidades como Harvard e instituições como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), disponibilizando via web bibliotecas inteiras.
O foco, quando trabalho no tema com alunos, tem sido a formação de professores e de profissionais, mas gostaria de me aprofundar cada vez mais na área.

Em sua concepção, a educação a distância será mais favorável à educação continuada ou à expansão do ensino formal?
Temos que ser pelas aprendizagens híbridas, a presencial e aquela a distância; as duas modalidades devem se complementar. Já usamos o computador em sala de aula, trata-se agora de usar mais intensivamente as tecnologias.

E isso vem junto com a necessidade de expandir o sistema.
Sim, necessidade dramática. A grande maioria dos professores do interior da Bahia ensina numa situação muito precária. Alguns não têm licenciatura e não têm mais tempo de obtê-la – vamos dizer que isso atinja 10%, 15% ou 20% das escolas. Mas outros estão lutando tenazmente para ter uma licenciatura via educação a distância ou pelos métodos mais formais e tradicionais. Há um grande esforço dos professores nesse sentido, até porque a Lei de Diretrizes e Bases deu prazo para que todos tenham licenciatura, mestrado e doutorado.

No ano passado São Paulo criou sua Universidade Virtual (Univesp), voltada à graduação e pós-graduação a distância, além dos cursos abertos. Há alguma expectativa de formação de uma universidade desse tipo na Bahia?
Eu diria que não. A universidade pública que mais trabalha a educação a distância é a Uneb, outras iniciativas estão no setor privado. Não há ainda uma sensibilidade para se criar um grande núcleo. Numa outra concepção, o maior núcleo de educação a distância aqui é a Uneb, com 47 polos espalhados pelo estado e 24 unidades de ensino. As outras universidades públicas são tímidas. Já a UnoPar, uma universidade privada do Paraná, tem cursos na Chapada Diamantina e uma presença muito grande no país todo.

Como seu interesse central por educação influencia suas atividades nas academias das quais participa?
Eu participo de todas as academias na Bahia, menos a de medicina. Entrei na Academia de Letras muito cedo, aos 36 anos, uma ousadia de quase adolescente, na cadeira de Clementino Fraga, que tem como patrono Francisco de Castro, o divino mestre. Edith Mendes da Gama e Abreu me saudou assim: “Batestes cedo à porta da Academia, na Academia não se faz vestibular”. Mas eu já era livre-docente e professor titular da universidade, já tinha obras publicadas e estava indo para o Instituto Internacional de Planificação da Educação.

É sua “casa” mais antiga, então?
É. E à proporção que desenvolvi minha carreira na UFBA, minha alma mater a quem devo tudo, fui desenvolvendo na Academia de Letras um outro tipo de conhecimento. As academias são muito idiossincráticas, baseadas nas personalidades das pessoas, e aí fui me inteirando da cultura baiana, da contribuição médica, dos poetas da Bahia, principalmente os modernistas, como Carvalho Filho, Godofredo Filho etc.

O senhor foi presidente da Academia?
Fui de 2007 a 2010. Minha preocupação foi fazer o novo estatuto da Academia, em face do novo Código Civil. Fizemos o programa do Ponto de Cultura, vários seminários, cursos abertos à comunidade, instituímos prêmios, restauramos a estátua de Góes Calmon, obra de Pasquale de Chirico e a levamos para a Academia, que é no palacete Góes Calmon. E tive o cuidado de manter a musealização da casa, muito bonita (onde funcionou por um tempo o Museu do Estado).

Na jovem Academia de Ciências da Bahia, o senhor também participa do debate sobre educação?
Participo. Doutor Roberto Santos foi o único adviser que tive na Bahia. Quando decidiu montar a Academia, me chamou, e eu fui. Continuo aprendendo com ele e com esse projeto de ciência. Vejo uma função importante na Academia, que é reunir as pessoas que fazem ciência. Quais são os principais grupos? O da UFBA, o mais antigo e consolidado, o da Fiocruz, muito interessante, e outros das universidades estaduais que estão começando a pesquisa, como a Uneb e a UEFS. E núcleos novos estão surgindo. Vejo as quatro universidades estaduais como o canal de encaminhamento do conhecimento, da educação e, posteriormente, da ciência e tecnologia para o interior da Bahia. Evidentemente que agora estão chegando as federais, a do Recôncavo, a do Sul da Bahia, de cuja seleção de professores participei com meu amigo Naomar de Almeida, líder desse projeto, a do Oeste da Bahia e possivelmente virão outras. Levamos 60 anos com apenas uma universidade federal, e agora temos quatro.

Na Academia de Ciências o senhor é vice-presidente.
Sim, sou ajudante de doutor Roberto. Lá existe um grupo que trabalha com educação de ciência, tema que o empolga e também a Irundi Edelweiss, e estamos desenvolvendo agora estudos sobre o que é o professor fascinante, o fascinated professor. Estudos nos Estados Unidos têm demonstrado que esse professor, que exerce uma verdadeira sedução no ensino, tem um grande papel na divulgação do conhecimento. Desenvolvi aí um tema que me fascina, a normalização do conhecimento científico, que requer padrões, paradigmas e, sobretudo, modos de comunicação muito uniformizados. Nós da educação temos apenas uma fatia da normalização, que é a documentação. Mas a normalização atinge o setor empresarial, o setor da economia. Tem, por exemplo, os prêmios, as prescrições, os pedidos de patente, as certificações, a ISO, e atinge também o mundo acadêmico.

O senhor também participa da Academia de Ciências Jurídicas e no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia
O Instituto é outro grande amor. E na Academia de Letras Jurídicas foi onde tudo começou. Quando vim de Feira de Santana para estudar com os jesuítas, já me interessei pelo direito. Eu sou bacharel, doutor e docente, essa é minha base. Depois acrescentei ciências sociais, economia, fui funcionário da Sudene… No primeiro curso de desenvolvimento da Sudene me tornei TDE, técnico em desenvolvimento econômico. Com esse conhecimento, fiz concurso para docente livre aos 30 anos. Isso me abriu a porta da universidade até professor titular. Eu já fazia a multidisciplinaridade antes de saber que ela existia.

A que se propõem hoje as academias?
Tenho meditado muito sobre isso. Seu papel é a convivência para a disseminação do conhecimento, o que todas fazem por meio de conferências, cursos e seminários. A nossa academia de letras tem dois seminários anuais: o curso Castro Alves, sobre literatura baiana, e o mais recente, criado por Aramis Ribeiro Costa, atual presidente, e Myriam Fraga, o curso Jorge Amado, que está na terceira edição.

O senhor nasceu em Feira de Santana, em 1933, em família tradicional daquela região. Que menino o senhor era
Um menino de chácara. Era das leituras, mas gostava muito da chácara, plantava, fazia leiras, criava pombos, pegava passarinho, subia em árvore. Era e sou muito tímido, curioso, fui aluno da professora Amelinha Assis e me lembro bem de ter plantado uma árvore num 21 de setembro. Depois fui estudar na Escola do Asilo Nossa Senhora de Lurdes, quando a Irmã Maria Nazaré Barbosa me alfabetizou. Depois fui para a escola da professora Helena Suzatti. Terminei o curso primário e me preparei para o exame de admissão.

Vocês eram quatro irmãos?
Éramos três e depois veio um temporão, 20 anos mais moço que eu: Carlos, que ficou em Feira de Santana, Osvaldith, a líder da família, uma mulher com invulgar capacidade de trabalho, e o caçula, João Eduardo, que mora em Itamaraju. Meu pai tinha vinculações com o antigo PSD, mas era mesmo um homem muito do trabalho, como bom feirense. Feira de Santana não é só a terra da inteligência e da sabedoria, é também a terra do trabalho.

Os feirenses são muito orgulhosos de sua origem, por quê?
Exatamente porque são trabalhadores. Dizia um amigo meu que a primeira universidade de Feira de Santana foi o balcão, ali se ensina a ganhar dinheiro, se ensina a trabalhar. Seu nome antigo é Comercial Cidade de Feira de Santana.

Ela se estruturou em torno de uma grande feira de gado.
Que não existe mais, e também da grande feira que ocupava toda a praça central. Meu pai dizia que se procurasse ali o diabo amarrado pelo rabo, tinha alguém vendendo. Vendia-se de tudo.

Feira é um lugar de entroncamento.
Exatamente, duas das principais estradas entre Norte e Sul passam por Feira de Santana. A BR-101 e a BR116, que vão para o sertão e para o norte. Eu vi o crescimento da cidade, que tinha 30 mil habitantes no tempo da guerra. Depois começaram a surgir as pensões dos nordestinos, por causa dessa grande movimentação provocada pelas estradas que cortam a cidade. Hoje são mais de 600 mil habitantes. A cidade, muito plana, está em cima de um tabuleiro. Cresceu em direção ao norte, com muitas ruas bem traçadas. Nasci na Praça da Matriz, número 9, hoje Praça da Catedral. Vivi lá até os 11 anos, quando fui para o Colégio Antônio Vieira.

Foi uma experiência difícil estudar no internato aos 11 anos?
Não, me adaptei bem. Fiquei deslumbrado quando vi uma biblioteca com livros estrangeiros, em inglês e francês. Os estudos das humanidades foram importantes para mim. Fiz o ginásio e o colegial entre 1946 e 1953, depois fui para o direito. Foi um tempo de frequentar o colégio, o grêmio do colégio, a JEC.

De católico tradicional o senhor passou a militante?
Militante realmente, e funcional, com os beneditinos. Me converti do cristianismo tradicional para o militante através da Ação Católica. Os beneditinos davam muito apoio aos estudantes e aos professores. Claudio Veiga frequentava o mosteiro, e lá estavam dom Clemente da Silva Nigra, um homem que entendia muito das artes e foi diretor do Museu de Arte Sacra; dom Jerônimo Cavalcante, um grande contato com a juventude; Irmão Paulo Leishmayer, que fazia a capa das teses dos professores; e depois o abade dom Timóteo Amoroso.

Antes da JUC, Juventude Universitária Católica, o senhor passou então pela JEC, a Juventude Estudantil Católica
Informalmente. A JUC realmente foi o movimento universitário do meu tempo, muito dinâmico, muito para a frente. Líamos os autores franceses Mounier, Lebret, Teilhard de Chardin… Os franceses fizeram a minha cabeça. Frequentávamos a Casa da França com o professor Van der Haegen, e lá eu estudava francês, assistia a filmes em francês e me formei nessa mentalidade francesa.

Sua formação cultural e ideológica acontece ao longo desses anos numa UFBA então efervescente.
Sim, até terminar a faculdade de direito, onde tive bons professores. Não eram pesquisadores, eram autodidatas que estudavam e que ensinavam. É o caso de Orlando Gomes, Aderbal da Cunha Gonçalves, Josaphat Marinho e Nelson Sampaio. Quando terminei, já frequentava o seminário de música, assistia aos concertos, às peças de teatro. Tchecov, por exemplo, fui ver quando era aluno da faculdade de direito, era aquele mundo efervescente da cultura que existia na Bahia, no final dos anos 1950.

O senhor passou pelas ciências sociais, foi para o direito, adiante fez doutorado nesta área, e há outras transições: como se deu a passagem da Faculdade de Direito para a Sudene, depois para a Faculdade de Administração e, finalmente, para a Faculdade de Educação?
Me formei em direito e sempre gostei de direito do trabalho. Fui estagiário na Procuradoria Regional do Trabalho e na Comissão de Planejamento Econômico, liderada por Rômulo Almeida. Na faculdade estava ligado a um grupo que discutia muito a ideologia do desenvolvimento. Eram os anos dourados de JK [Juscelino Kubischek], com grande influência do Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros),[Antônio Luís] Machado Neto à frente. [Alberto] Guerreiro Ramos deu curso para nós, Roland Corbusier também. Ao me formar, fiz concurso para juiz e passei, mas não tinha vaga, eram só três juntas naquela época. Logo abriu um concurso para a Sudene e eu prestei. Apresentei uma pequena monografia sobre reforma agrária e fui fazer o primeiro curso de desenvolvimento econômico da Sudene com os técnicos da Cepal [Comissão Econômica para a América Latina]. Quebrei a cabeça com as estatísticas, ralei um bocado, mas consegui passar e ter meu primeiro emprego com carteira assinada. O escritório da Bahia estava sem chefe, fui nomeado chefe substituto. Mas em 1962 uma grande seca levou à instituição das frentes de trabalho e lá fui eu compor a Comissão da Seca em Recife.

Esse período de Sudene é, então, um desvio de rota?
Não, porque atendia muito aos meus desejos de aprender sobre desenvolvimento e teoria do desenvolvimento. Enquanto eu chefiava o escritório na Bahia, o professor Carlos Brandão deixou a Escola de Administração e me indicou para substituí-lo e lecionar economia. Minha entrada como docente na universidade foi por essa porta, em 1962.Transferido para Recife, fui trabalhar no Departamento de Industrialização da Sudene. E estava lá quando fui nomeado juiz. Eu estava empolgado com a programação em Recife, mas tinha me formado em direito, queria escrever a tese de doutor em direito – era um sistema de doutorado antigo –, então deixei a Sudene, voltei à Bahia e assumi o cargo de juiz da cidade de Maragogipe. Como me sobrava tempo, escrevi a tese e reassumi a Faculdade de Administração. Ficava entre Maragogipe e Salvador, viajando de navio. Tinha casa lá e aqui. Permaneci como juiz por sete anos, até 1970. Em 1968 doutor Roberto Santos precisou de uma pessoa que tivesse conhecimento em planejamento e desenvolvimento, então fui montar a Assessoria de Planejamento da UFBA com ele. Eu já era docente livre de economia, tinha feito o concurso na Faculdade de Direito – um grande concurso que permitia chegar à cátedra. Porque quando eu estava com a tese pronta, Silvio Farias me disse que a docência livre de economia política estava aberta, já que o professor Augusto Alexandre Machado ia se aposentar, e me aconselhou a apresentá-la para docente livre e não para doutor. Assim eu levaria os títulos de doutor e docente livre.

E o senhor deixou a Faculdade de Administração?
Não, porque a docência livre era um título, não um cargo. E, uma vez que era juiz e professor, alcancei um dos grandes objetivos que tinha: estudar na França. Carlos Coqueijo Costa, presidente do Tribunal Regional do Trabalho, me concedeu licença de um ano para eu estudar para o doutorado em desenvolvimento econômico. Em 1964 e 1965 cursei a Universidade de Paris e o Instituto de América Latina, onde desenvolvi o início da minha tese sobre o papel do setor público no desenvolvimento do Nordeste com o professor Alain Barrett.

Sergio Mattos lhe perguntou por que, ao se formar em direito, o senhor não foi para o exterior como tantos faziam.
Não podia. Meu emprego era na Sudene, ela não concederia tal licença. Quando mais tarde pude viajar, sabia que fazer doutorado em um ano é impossível e o que fiz foi preparar o concurso de cátedra. Mesmo assim, fui promovido ao segundo ano do doutorado do terceiro ciclo, cuja certidão me deu Fernand Braudel, nada mais nada menos. Mas minha licença terminara, eu tinha que voltar para o Brasil. Havia ainda o rodízio da docência livre, que eu precisava atender. Por esse sistema, três docentes livres se revezavam anualmente na cátedra de economia política. Era a minha vez e se eu não voltasse perderia a cátedra. Voltei em 1965.

E que cursos o senhor conseguiu fazer lá?
Além do curso de desenvolvimento da América Latina, fiz um seminário com Alain Barrett durante um ano e apresentei minha proposta de tese. Assisti às aulas de Bartoli Raymond Barre, que compunham um bom curso na faculdade de direito. E, como todos os estudantes estrangeiros, fui mandado a um seminário de metodologia para aprender a fazer o plano da prova e o plano da tese. A maneira bem cartesiana de arrumar as ideias. Foi minha descoberta para o método, com Descartes. Li Descartes, Henri Guitton e todos aqueles que ajudavam a entender a lógica e a clareza do pensamento francês. Eu digo que é a descoberta do método, me tornei cartesiano para o resto da vida. Voltei de lá com um projeto de tese, com minha filha bebê e com a ideia de escrever um ensaio sobre o ordenamento das ideias do ponto de vista cartesiano. Eu o publiquei depois pela editora Ática, e o livro está na nona edição. Isso é minha experiência cartesiana na França. Minha outra experiência – comportamental – foi anos depois, nos Estados Unidos.

Fiquei com a impressão de que seu trabalho na reitoria teve uma grande importância na sua carreira. Está correta?
Sim, porque assisti doutor Roberto conduzir a reforma da universidade, desestruturar a universidade por cátedra e construir uma universidade montada sistemicamente e em departamentos. Fomos nós que ajudamos a fazer a departamentalização e a distribuição do pessoal docente. É aí que se organiza o campo do conhecimento básico e se criam os Institutos de Matemática, Química, Física, Biologia, a Faculdade de Letras e também a Faculdade de Educação. Então, todos os professores que ensinavam essas disciplinas básicas foram deslocados para os institutos.

Mudança que eles não apreciaram muito.
No começo, não. Mas a ênfase no conhecimento básico científico permitiu depois o desenvolvimento da ciência e das tecnologias na Bahia. Eu estava plenamente nesse projeto com doutor Roberto, que orientava e supervisionava tudo muito de perto – com o raciocínio funcional e a inteligência que tem para os números, sempre dizia que não seria difícil, que era para ir fazendo –, quando ocorreu uma crise na Secretaria de Educação. Meu amigo Luiz Navarro de Brito não pôde continuar como secretário por pressão dos militares. Ao voltar de uma viagem aos Estados Unidos, Navarro viu que as coisas estavam muito difíceis e decidiu ir para a Europa. Antes indicou alguns nomes ao governador, que se fixou no meu. Era o final do governo. Fiquei um ano e um mês, com enormes obras para terminar.

Quais os destaques entre elas?
O convênio para criar as escolas polivalentes. Fizemos 40, bem construídas e equipadas, todos os professores com licenciatura. Mas talvez a razão mais forte para Luiz Viana ter me chamado tenha sido o programa que começara com Navarro de interiorização da educação, com quatro faculdades de formação de professores – em Feira, Conquista, Alagoinhas e Jequié. Eu estava em dia com isso, trazia a experiência da reforma da UFBA. O governador queria também criar uma universidade do sul da Bahia, mas não houve lideranças educacionais para isso na região. Ao mesmo tempo, o pessoal de Feira de Santana começou a se mexer.

E nesse momento começa seu trabalho pela criação da Universidade de Feira de Santana.
Exatamente. As personalidades mais eminentes da cidade começaram a pensar numa faculdade de medicina e foram pedir apoio a Luiz Viana. E ele lhes disse que Feira merecia uma universidade. É sua, portanto, a ideia. Ele mandou uma lei à Assembleia Legislativa para que criassem as condições para a fundação da universidade e a promulgou em janeiro de 1970. Eu cheguei à secretaria em 15 de fevereiro de 1970. Além das escolas polivalentes e faculdades de educação, havia que acompanhar as obras de ampliação do estádio Otávio Mangabeira, da Biblioteca Central dos Barris, do Museu das Alfaias, em Cachoeira, que já tinha sido inaugurado, e mais o programa dos Centros Integrados. Mais ainda: fui aos Estados Unidos para visitar secretarias de educação e universidades e, ao voltar, deparei com a proposta de Pedro Calmon para a criação do Parque Castro Alves, em Muritiba, na Fazenda Cabaceiras, onde o poeta nasceu, a cerca de 150 quilômetros de Salvador. Como faria? Falei com Hildérico Pinheiro de Oliveira, fizemos uma visita a Cabaceiras, encontramos uma escola rural e decidimos que ali seria o parque. Deram-me um arquiteto, mas ninguém sabia o que era parque na Bahia, este era o primeiro. Hildérico trabalhara com Anísio Teixeira, e foi fundamental nesse projeto. Pedro Calmon também desenhou o que imaginava. O parque acabou saindo no segundo semestre de 1970. Deixamos a localidade com quatro salas de aula, então o curso primário completo.

Como está o parque hoje? E quanto ao parque de Canudos?
Ah, cresceu! Está florido e bem cuidado. Quando o terminei, Renato Ferraz disse que podíamos pensar num parque em Canudos, mas o governo estava no fim. Fiquei com a ideia e, quando voltei à Secretaria em 1983, o próprio Renato, que foi o guia de Mario Vargas Llosa para escrever A Guerra do fim do mundo, reuniu a documentação, e eu mandei fazer o levantamento das terras. São três Canudos. A mais antiga foi destruída pela guerra, que tinha o propósito de não deixar pedra sobre pedra. Mas as pessoas voltaram pouco a pouco, de 1897 a 1968, e reconstruíram a vilazinha. Quando Getúlio Vargas, como presidente da República, vai a Canudos, os moradores pedem um açude. Resolvem fazê-lo em cima do Vaza-Barris, onde estava essa Canudos retomada. Talvez, no subconsciente, houvesse a esperança de que a inundando se acabasse de vez com sua memória. Mas não acabou nunca. Essa foi a segunda Canudos. Por último, enquanto constroem o açude, na parte alta começa a surgir uma outra vila, a terceira Canudos. Essas terras que estão em volta, de um lado da Canudos inundada, onde se deram realmente os embates, é que foram reservadas para parques. São 1.300 hectares. Agora está sendo feita sua regulamentação fundiária.

O que tem dentro da área?
Os lugares das sepulturas, os lugares dos principais confrontos entre as tropas, tem as trincheiras dos conselheiristas e dos militares, e tudo isso está sendo preservado. Quando criei o parque mantive o pessoal que estava lá dentro, não tivemos dinheiro para relocação. Com a regulamentação fundiária, vamos ter que cercar e reservar a parte onde tem as incidências históricas, não pode ter gente nem animais. Isso está sendo feito pela Uneb, que tem um compromisso com o semiárido e a negritude. Já tem lá um Memorial do Conselheiro, tudo feito por influência de José Calazans, o grande historiador de Canudos, cujo centenário se comemora neste ano. Até 1950, dizia-se que não era necessário estudar Canudos porque tudo estava em Euclides da Cunha. Eu dizia que tudo começava em Euclides. Calazans começa a pesquisar a sério Canudos e constrói uma vasta bibliografia a respeito.

Em relação à Universidade de Feira de Santana, como foi seu trabalho até poder dizer: “está pronta”?
Depois da lei que permitiu ao governo criar condições para fazer a universidade, uma fase importante foi a implantação do Conselho de Administração, do qual fiz parte até a universidade ser autorizada, já no governo Roberto Santos. Demorou seis anos.

© Fábio MarconiEdivaldo Boaventura

Edivaldo Boaventura

Quando o senhor foi para a Faculdade de Educação?
Ante mesmo de deixar a primeira gestão na secretaria estava ajudando Leda Jesuíno a concretizar a faculdade com as ideias de Anísio Teixeira. Ele foi pioneiro também na concepção dessas faculdades, ao criar a Universidade do Distrito Federal, em 1934. Depois de escrever a tese de professor titular, me submeti ao concurso na Faculdade de Educação em 1971 e no mesmo dia da defesa fui eleito para a Academia de Letras da Bahia. Em agosto eu voltaria para a França.

Para fazer o segundo ciclo?
Não, vou ao Instituto Internacional de Planificação da Educação da Unesco, com bolsa da Unesco, para estudar planejamento, financiamento da educação e educação continuada. Aí fui conhecer a educação a distância por correspondência na França, que mandava seus pacotes para o mundo inteiro. Conheci o país por dentro para ver como o departamento da educação funcionava. Fomos à Suíça e à Itália também, voltei, fui coordenar o mestrado, depois fui para os Estados Unidos fazer mestrado e doutorado em educação.

Sua formação não tinha ultrapassado essa etapa?
Eu comecei a trabalhar em educação empiricamente, e queria me aprofundar, ter um conhecimento sistemático. Daí me arrumei com a família para ir. Fomos todos por três anos e os filhos aproveitaram bem.

De lá trouxe sua concepção da Uneb?
Para mim foi um desafio viver nos Estados Unidos. Meu inglês era de restaurante, na base do “give me” etc. Tive que estudar bastante para escrever papers e participar das aulas. Foi um desafio muito grande para os meus filhos também, porque não sabiam inglês. Lídia foi para a grade 1 por dois anos e nos disse que, se ficasse ali, entraria em qualquer universidade americana, mas não passaria nos vestibulares do Brasil. Então voltou um ano antes. Eu tirei o mestrado profissional na rota do doutorado, fiz o Ph.D, com o exame escrito para sete áreas. Foi o maior desafio da minha vida, felizmente passei neles todos. Depois comecei a preparar a tese, levei um ano fazendo e em três anos vim embora. O doutorado era em administração da educação, então escolhi para estudar do ponto de vista administrativo, histórico e legal o Conselho de Educação, de 1963 a 1975. A experiência de estudar numa universidade americana, com uma biblioteca fantástica, foi impactante. Eu trabalhava o dia inteiro na universidade, na parte da library, e por isso intitulei a tese “Viagem à segunda casa. Pen State, Pennsylvania State University, é a cabeça de um sistema de 19 escolas na Common Royalty da Pensilvânia. Nova York também é assim, Albany e outros campi, e o mais poderoso de todos é a Universidade da Califórnia, com um sistema de universidades, street colleges, etc. A ideia de multicampi ficou então muito clara em minha cabeça. Em 1983, fui nomeado secretário por quatro anos.

O governador era…
João Durval Carneiro. Fiz então seis leis para a Secretaria de Educação: transformando o Irdeb [Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia] em fundação, criando o sistema de arquivos da Bahia, instituindo o Conselho de Educação, criando a Secretaria de Cultura, reformando a Secretaria de Educação e criando a Uneb. Ao mesmo tempo trabalhei com as lideranças regionais para a Universidade do Sudoeste da Bahia, em Conquista. Deixei tudo pronto, saí no dia 15 de março, no dia 2 de abril saiu a autorização. Já a Uneb hoje tem 24 campi, 35 mil alunos. Quase o tamanho da UFBA.

A Uneb tem o mesmo modelo da Unesp. Vocês dialogavam?
Sim, isso foi sumamente importante. A Unesp já estava criada e o reitor Armando Otávio Ramos veio me dar uma assessoria gratuita. Também o vice-reitor de planejamento da Universidade de Quebec, no Canadá, veio me ajudar na elaboração da lei de criação da Uneb, tanto que ela é perfeita. A Universidade de Feira de Sanana nesse momento estava se consolidando para ter o credenciamento, e eu consegui deixá-la credenciada, prontinha.

Em que o senhor concentrou sua atividade com educação após deixar a secretaria?
Na UFBA. Nunca abri mão de ser professor. Quando não deu para dar aulas, criei o doutorado em educação, o primeiro do Nordeste, e passei a coordená-lo a partir de 1992. Aí fui chamado para o jornal A Tarde, em 1995.

Como foi a experiência de dirigi-lo?
Quando assumi o cargo de diretor-geral, minha primeira preocupação foi a internet. Só quem tinha internet aqui, em 1996, era a UFBA. Contei com Alberto Oliveira, emprestado pela UFBA, para instalar internet no jornal.

Sua passagem se deu num período complicado do jornal, com troca de comando, administração de dívidas…
Sim. É um tempo de queda das vendas, queda das assinaturas, e lutei para enfrentar tudo isso. Dei ênfase ao programa A Tarde na Escola. Fiquei até 2012, 17 anos nos quais o jornal mudou muito.

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